Edição angolana do livro de contos

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PONTOS DE VENDA

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PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

terça-feira, 17 de abril de 2018

Exclusivo | Entrevista ao poeta David Capelenguela, representante de Angola no Encontro de Escritores de Língua Portuguesa em Cabo-Verde pela UCCLA

Está confirmada a presença de Angola na 8.ª edição do Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, a ter lugar na cidade da Praia, Cabo-Verde, de 19 a 21 de Abril. O poeta David Capelenguela é quem representa a União dos Escritores Angolanos (UEA) no certame da iniciativa da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa). O tema é «A Cidade e a Literatura: conexões entre Cidadania, Criatividade e Juventude». O incontornável Jacques Arlindo dos Santos é outra pena angolana de peso, o membro da UEA que foi presidente e fundou a Associação Recreativa e Cultural «Chá de Caxinde».

 
David Capelenguela (foto do autor)

Na entrevista concedida ao Blog Angodebates por questionário, Capelenguela foi confrontado com o facto de, nos últimos anos, diversos intelectuais terem posicionamento céptico quanto ao real impacto de instituições arreigadas ao discutível rótulo da lusofonia, tais como a UCCLA e a CPLP. Questionado se haverá algum ganho directo para a literatura angolana, o autor de «Ego do Fogo» optou pelo copo meio-cheio.

O escritor tem uma agenda recheada. De Cabo-Verde, voa para Portugal onde deverá participar de 23 a 26 no Festival de poesia de Foz Côa, no que será a sua segunda presença.

Actual secretário para as Finanças da UEA, David Capelenguela nasceu na província da Huíla em 1969. Licenciado em Direito e mestrando em Ciências Jurídico-Económicas e Desenvolvimento pela Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto, é jornalista e perito de desenvolvimento comunitário ao serviço do Fundo de Apoio Social (FAS).

Um passeio pelo acervo de Capenguela, nomeadamente «Vozes Ambíguas», antologia «Amor no Meio do Teu Mar» (organizada por António Panguila), «Verso Vegetal» (prefaciado pelo renomado professor Francisco Soares), enche os olhos pela plasticidade estética. Mas é ainda mais no campo da temática que predomina a marca do artista que trabalha com o substrato rural e etnográfico do sul de Angola. E sendo a literatura um veículo cosmopolita, estão lá com a devida pertinência poemas de temas mais universais.

Em «Vozes Ambíguas», nota-se um pendor hermético que por vezes vai além do proverbial, provocando no leitor uma espécie de sede de dominar o contexto. Mas, claro está, é algo que também não deixa de responder ao tema e fio condutor da obra, que são vozes ambíguas. Por outro lado, ao contrário da tendência moderna em Portugal e Brasil, fica-se com a sensação que o hermetismo (às vezes levado ao extremo) é já uma característica da nossa poesia, muito presente em JL Mendonça, no próprio Maimona, até mesmo em João Tala, talvez como forma de rotura relativamente à poesia engajada e dialogante de Neto, Viriato, e outros. Já em «Verso Vegetal», há poemas que têem assim aquele desfecho instigador, como quem partilha, à saída, a sabedoria de um provérbio.

Blog Angola, Debates & Ideias (Angodebates): Vai sob indicação da União dos Ecritoes Angolanos (UEA) ou foi um convite à parte?

David Capelenguela (DC): Sim vou representar Angola. Vou em nome da UEA.

Angodebates: Que expectativas tem em relação ao evento e o que representa para si este intercâmbio?


DC: A minha expectativa é de poder perceber como tem sido a produção literária de outros países, e neste caso, particularmente a de Cabo Verde.

David Capelenguela exibindo o livro de poesia
«Verso Vegetal» (esq) e Gociante Patissa (dir.),
por ocasião do lançamento colectivo das obras dos
designados novos autores e vencedoras da Bolsa
Ler Angola (Grecima). Cerimónia decorrida na
Mediateca de Luanda no dia 07.11.2014
Angodebates: É dos poetas que mais trabalha na vertente antropológica do sul de Angola, nomeadamente a representação da idiossincrasia dos Nyaneka e Kwanyama, a par dos ovimbundu ao qual pertence. Haverá alguma meta, um objectivo subjacente neste quase solitário apego à temática telúrica?

DC: Objectivos há sempre, me parece, para  nós que estamos ao exercício da escrita. Quem escreve espera sempre ser lido. O que tenho estado a tentar representar nesta vertente/estilo de produção literária tem sido uma espécie de rotura com o modo comum de apresentação estético-literário.

Julgo [que] tenho sido, já há algum tempo, um daqueles autores cuja matriz textual procura evidenciar rotura com os formalismos, onde o recurso a interpretação de uma dada canção, provérbio, adágio, adivinha ou outra manifestação da tradição oral, é motivo de inovação, tanto ao nível formal da elaboração semântica como da urdidura estético-formal, da reinvenção verbal e da elaboração figurativa da linguagem, resgatando e descodificando símbolos, signos, com fito único de enformar a angolanidade literária.

Só assim se pode compreender que o apego à temática telúrica é um exercício de realce ao encontro da identidade assente na combinação de pátria e terra. Esse exercício, quando realizado com subtileza e maestria para o texto, realiza a solenidade da poesia e os cultores  que a alcançam podem orgulhar-se de lhe terem rendido à excelência.

Angodebates: Tem havido da parte de diversos intelectuais um posicionamento crítico e céptico quanto ao real impacto de instituições como a UCCLA e a CPLP. Da sua perspectiva, que impacto ou vantagens objectivas trazem esses encontros da UCCLA ou as bienais de jovens criadores da CPLP? Colocado de outra forma,  há algum ganho directo para a literatura angolana?

DC: Penso que num  intercâmbio como o que vai acontecer, há sempre alguma coisa de boa que se possa colher e partilhar.

Angodebates: Lançou no passado dia 13 de Março em Luanda o livro de poesia Ego do Fogo, o qual ainda não tivemos a oportunidade de ler. Por isso gostaríamos de pedir que nos fale dele

Jornalista Fernando Noé, da Rádio Kunene (ao centro),
anfitrião de magazine informativo matinal na estação em
que o locutor Capelenguela (à dir) colaborou durante os
anos que serviu o FAS naquela província. GP à esquerda.
DC: «Ego do Fogo» é uma obra de homenagem a todas as mulheres. Mulher mãe, esposa, irmã, filha, enfim mulher companheira. Assiste-se nos nossos dias [a] uma inversão de olhares, onde para muitos casos a mulher não passa de um produto. Produto descartável ou, se quisermos, sem valor. O escritor deve-se situar no nível médio-alto, pois instado ao exercício do seu ofício, é formador de opinião. Para tal, devemos pautar uma conduta de intelectualidade, saber ser e estar, pois os olhos da sociedade estão sempre sobre nós.

Por esta razão em «Ego do Fogo» procuro enaltecer e elevar a imagem e o preponderante da mulher na sociedade, procurando demonstrar e elevar as coisas positivas e repudiando as negativas que são praticadas pelas mulheres, de forma poética, claro.

Angodebates: De resto como vai a sua lavra literária?

DC: Tenho trabalhado, como sempre. Estou num campo de actuação, onde o meu exercício de assistente de desenvolvimento local (trabalho com as comunidades rurais) no âmbito do meu exercício profissional no FAS-Fundo de Apoio Social e o exercício do jornalismo investigativo (queira antes no Jornal de Angola, Angop, na rádio Namibe, Huila, Cunene, bem como actualmente na Rádio Lunda Sul) têm-me permitido ter um olhar diferenciado sobre a nossa identidade cultural.

É isso que me anima, revigora e retempera o meu compromisso o trabalho literário sobre o assentamento oral numa tentativa não apenas de resgatar a riqueza do patrimônio etnográfico e os valores tradicionais do depósito oral, mas também de servir de fiel repórter e uma espécie de «fio condutor» para aproximar o campo à cidade, ou vice-versa, sem que nenhuma absorva a genuinidade da outra.

Angodebates: De economia e estabilidade cambial, estamos numa fase transversalmente complexa, quanto mais para sonhadores. É sabido por exemplo que a UEA deixou de receber o patrocínio do seu principal mecenas, a Sonangol, que suportava a edição de livros e o Prémio Revelação. Enquanto isso, parece surgir a cada dia uma editora emergente,  muitas arrojadas e tuteladas por jovens ontem potenciais poetas, que apelam ao auto-financiamento por parte dos próprios autores das obras a editar. Que leitura faz deste quadro?

DC: Assistimos hoje [a] uma ambivalência. Ou seja, como posso ser autor agora também daqui há mais algumas semanas, com um empurrão do padrinho X ou Y, transformo-me num editor. Banalizamos tudo, pois para alcançar objetivos, ainda que obscuros, tudo vale. De facto a União dos Escritores Angolanos não tem conhecido bons momentos, sobretudo quanto à sua principal missão que é de editar obras de seus membros. O país assiste a uma recessão econômica que arrasta todo o resto. 

Mas é preciso que a actual geração procure compreender os fenómenos e lidar com eles. Temos uma responsabilidade no processo e se quisermos que o barco não afunde de todo, precisamos [de] olhar mais com olhos ver. Precisamos [de] desmistificar os pseudo-escritores do top, e com agravante de que muitos deles dão ousadia para gerações mais novas pensarem que já são e podem tudo. Como diz um ditado da etnia Herero (do Sul de Angola) «ondyala itia, kavake-kavake, okomunyandi katyeta ovinkhodo», ou seja, «a fome ouve-se a dizer, rouba-rouba, as aderências do pau de mexer o pirão». Pois é, precisamos [de] corrigir o tal de que «onde há fome, safa-se quem poder».

www.angodebates.blogspot.com | Benguela, 17 Abril 2018 | Gociante Patissa

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