segunda-feira, 9 de abril de 2018

Opinião | Um serviço de tradução das autópsias em Benguela?

Imagens 1: OPaís; 2: fonte sob anonimato
Foi pouco depois das 23 horas de sábado (07/04) que caíram na minha caixa de correio quatro imagens de um mesmo conteúdo reportando algo à primeira vista aterrorizante, o boletim de verificação de óbito do sindicalista Armindo Cambelele.

Datada de 07 de Abril e lavrada a punho da médica legista Maria de Fátima João de Almeida, a lacónica narrativa das causas da morte do sindicalista eleva, ainda mais para um leigo, a nebulosidade, ao contrário do que se esperava, que é fazer luz sobre o dramático fim de uma vida, ocorrido na tarde de sexta-feira (06/04).

Foi mesmo suicídio? Eis a dúvida mais registada consoante a notícia se foi espalhando. Afinal, faltavam três dias para a realização da fracturante greve geral de professores, convocada pelo “combativo” Sinprof (sindicato de professores), do qual Cambelele foi representante na província de Benguela, apesar de reformado há já três anos. O corpo de Cambelele, 57 anos, natural da província do Uíge, conhecido pela intensidade no papel de interlocutor da classe por condições mais dignas, foi encontrado estatelado no seu apartamento na cidade de Benguela, segundo relatos, com uma corda à volta do pescoço.

Juntadas as peças do puzzle, o cenário sugere enforcamento. Chegou a tipificar isto mesmo no calor do acontecimento o Director do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa do Comando Provincial da Polícia Nacional, superintendente-chefe Pinto Caimbambo. A tese veio cedo a ser refutada pela família que, conhecendo o seu parente como ninguém, julga-o acima de uma tal egoísta saída, fosse qual fosse a envergadura do problema.

Perante o quadro, e sem prejuízo da investigação prometida pelos órgãos afins, a opinião pública depositou no resultado da autópsia a mesma expectativa que se tem perante um sinistro aéreo, quando já só a caixa negra do avião pode dar resposta às perguntas e como tal ligar as pontas soltas. Foi suicídio ou assassinato dissimulado? Vamos ao que diz o laudo da médica legista quanto à moléstia que foi a causa da morte: “Intoxicação de substância tóxica não identificável, consecutivo a asfixia mecânica por estrangulamento.”

Há qualquer coisa que soa pouco original. Ora, se tivermos alguma paciência de recuar até 09 de Janeiro deste 2018, quando se deu a morte do futebolista do Sagrada Esperança, Ntaku Zibakaka, durante treinos de estágio em Benguela, veremos que o texto da autópsia era o mesmo, pelo menos na primeira premissa: “Intoxicação de substância tóxica não identificável”. E a médica legista foi a mesma, Maria de Almeida. A menos que existam pormenores reservados à Polícia de Investigação, a autópsia suscita algumas questões.

Sendo o segundo caso em três meses de morte por “Intoxicação de substância tóxica não identificável”, haverá alguma correlação entre ambos? Esta substância passa a designar-se “Não identificável” porque não há meios de análise ou por transcender eventualmente o nível de conhecimento da médica legista? Se no primeiro caso, o atleta ingeriu um cocktail tradicional, a intoxicação de Cambelele por que via foi? Em linguagem própria na medicina legal, um suicídio por enforcamento encaixa-se quadro de “asfixia mecânica por estrangulamento” ou isto pressupõe acção de homicidas à solta?

A única certeza por enquanto é que há uma família e uma classe enlutadas. Será caso para se ir pensando já num serviço de tradução das autópsias? Ainda era só isso. Obrigado.

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela, 8 Abril 2018
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