Edição angolana do livro de contos

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PONTOS DE VENDA

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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Crónica | Um renascentista à mwangolê (*)

Foto: Visão (sapo)
Ultimamente, na vigência do milagreiro dos cargos à queima-roupa, como é apodado justa ou injustamente, isto anda tudo assim. Paparicar o telefone até no chuveiro, ouvidos no noticiário, olhos nas redes sociais. O problema é que quando o telefone dos outros toca, é nomeação. O meu? Já só conseguiu sair de silêncio para beep. Vinha o bendito beep de um número desconhecido com o prefixo +248, a partir de Seicheles, o menor país africano. Ai! Quase! O sangue está sujo, só pode!

Sua Excelência Eu olhou para a chamada perdida e pensou: tendo em conta que a lista de nomeações e exonerações beira o fim, será que vamos a tempo de apanhar uma deportação para Seicheles em comissão de serviço? Seria melhor que nada, não é? Mas aí depois assentou o cu à realidade e se convenceu do quanto, em termos de protagonismo mediático, nem para uma deportação fez o suficiente por merecer. Seja como for, se há algo de que o angolano nasceu já talhado a gostar e seguir empolgado é de coisas novas. De sorte que Sua Excelência Eu se juntou também a esta fila de expectativas transversais, em certos casos irreflectidas. João Lourenço (JLo) é o renascentista desta Angola que, garantidamente, nunca mais será a mesma.

Seja bem-vindo, caro leitor, à crónica inaugural neste desafio que nasce do convite formulado pela Direcção deste jornal no sentido de animar uma coluna que Sua Excelência Eu espera duradoira. O registo aqui será coloquial q.b.

Ouviu-se há dias o impopular analista Gildo Matias chamar atenção para a racionalidade na leitura sócio-política das medidas e roturas que o novo presidente leva a cabo, porquanto, frisou, “antes de João Lourenço, havia país”. Realmente é preciso alcançar a profundidade nesta asserção que à primeira vista parece tautológica. Todo este entusiasmo mais não é, afinal, do que um hiato entre o manifesto de intenções e um passado agridoce. O passado é tudo o que de concreto temos. E o futuro? Ora JLo “orientou” aos recém-empossados gestores da comunicação social pública a dar mais voz à sociedade civil, no que se infere um levantamento da cortina tácita e maniqueísta que equipara voz discordante à oposição política efectiva.

Os festejos da independência nacional ganharam mais animação com a notícia dos cortes nas mordomias dos deputados que, sabe-se já, ficam sem os tão contestados Lexus. O mês de Novembro, há que dizê-lo, não tem sido aconselhável para automobilistas. É tanta emoção colectiva que distrai a atenção necessária na rodovia, quanto mais não seja pelas repentinas viagens às memórias, como de resto ocorre com Sua Excelência Eu ao rememorar o emblemático João Baptista Cafumbeiro, percursor das greves de fome no início da década de 2000, pese embora sem a mesma mediatização da geração posterior.

Líder de ONG de apoio aos carentes e com cariz messiânico, também dono de um carisma de antigo praticante de futebol, Cafumbeiro começava a celebrizar-se pelos jejuns de mais de três dias, no Mercado Municipal do Lobito, onde acampava. Usava túnicas e era acorrentado por discípulos. No seu ar cómico, dizia incomodar-lhe que houvesse em Angola demasiados carros mas que nenhum era dele. Chegou a projectar um jejum de dimensão internacional que teria lugar diante da Assembleia nacional, onde acamparia agrilhoado durante sete dias, ao fim dos quais seria desacorrentado pelo então presidente de parlamento, Roberto de Almeida. O certo é que nunca mais se ouviu falar dele nem da ONG. Perdeu-se por Luanda?

Quanto ao que está para vir de JLo, o renascentista à mwangolé, ao contrário de muitos, Sua Excelência Eu até não é nada contra as promessas, sejam elas eleitorais ou do exercício administrativo. Elas dão indicadores de cobrança de resultados e de coerência, sob o ponto de vista do exercício da cidadania e da ética social, desde que garantidos os pressupostos para esta monitoria: uma imprensa que escrutina arquivos (para lá do facto do dia), uma sociedade civil consistente e uma mentalidade cidadã participativa. Ainda era só isso. Obrigado.
Gociante Patissa | Benguela, 17 Novembro 2017 
(*) Texto inicialmente escrito para a edição inaugural de um jornal semanário luandense 

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