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PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 15 de março de 2015

Diário | Lobito ao 4.º dia e o debate metodológico que tarda

Fotos a circular as redes sociais, de Edyano Dias
Os acontecimentos no Lobito têm mobilizado o país inteiro "e arredores". O contrário não seria de esperar. A solidariedade de todos os cantos é reconfortante.

Eu morei dos 9 aos 30 anos de idade no bairro Santa Cruz, o mais assolado, onde se encontram a residir irmãos meus. E apesar de não terem sido directamente afectados, ainda não tive suficiente força anímica de visitar a zona do Akongo, do histórico estádio do Buraco, do clube Académica do Lobito, vizinho do Bairro da Luz. Não costumo ser bom em conter lágrimas, eu bem sei, pelo que outras vias terei para dar o meu calor.


40 anos depois, as cheias voltam para ceifar centenas de residências e perto de 70 almas. Todas as forças vivas que se empenharam e ainda se empenham em acudir a situação dos nossos compatriotas são de louvar.

A imprensa vem fazendo a sua parte. Bem ou mal, mas vem fazendo, conforme os seus interesses e a sempre subjectiva linha editorial. E quem como eu (por opção, não usa das parabólicas excepto fora de casa, e como tal) só consuma "produtos" da TPA, não pode deixar de sugerir uma abordagem "sustentável" do assunto, ao mesmo tempo que se realça (e estou de acordo) a recolha de donativos.

Vale, se calhar, considerar o paradigma do sector da aviação (para onde a luta pela sobrevivência me lançou há oito anos). Neste ramo, catástrofes, tragédias, calamidades, desastres servem também para fomentar debates, reflexões técnicas sobre o ocorrido, mas focando na identificação de medidas para prevenir próximos infortúnios. E neste campo, a TPA, televisão pública com sinal aberto e 24 horas diárias de emissão, prestaria um serviço ainda mais consistente com a promoção de um espaço de reflexão metodológica (debate ou outro formato que convém), juntando os mais idóneos fazedores de opinião que o país tiver.

As várias horas de emissão em campanha assistencialista são úteis, dada a circunstância de emergência, mas têm de ser reforçadas com a noção de sustentabilidade, já a pensar no dia seguinte, pois as fontes de apoio têm prazos. E menos construtivo ainda é ouvir a leviandade que atribui culpas às populações sinistradas, quando bem sabemos que as construções, em zonas de risco ou não, não acontecem sem a licença emitida pelas administrações.

Compreendo a necessidade oficial de conter qualquer tendência de alarmar e semear o pânico, mas a omissão também não ajuda. Onde foi que falhamos? Seria a tragédia evitável? Que factores impediram as águas de seguir para os antigos talhões da antiga Açucareira 1.º de Maio? Para quando a requalificação das cidades do litoral de Benguela, do ponto de vista dos sistemas de drenagem? Como deverão agir os cidadãos de zonas com características similares em tempo chuvoso? Estas e outras questões ajudariam muito provavelmente na cultura geral dos cidadãos.

Gociante Patissa, Benguela 15.03.15

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