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quarta-feira, 14 de maio de 2014

AQUELAS BOTAS NOVAS (conto de Roderick Nehone)

Há três noitadas que não se ouvia um único tiro. O lado de lá do estreito curso de água alojava os inimigos, agora tão extenuados como ele. Chovera muito neste intervalo de tréguas. O rio saltara do seu leito e tomara de assalto os capinzais. A pradaria sentia saudades do gado que se esfumara sem dizer adeus. O ar empestava. A pastagem dos bovinos fora invadida por centenas de corpos inchados, de amigos e inimigos. Havia de tudo um pouco naquele matadouro humanal. Cabeças sem corpo, corpos sem pernas, pernas com botas, botas sem atacadores e atacadores sem donos, expondo-se gratuitamente no que fora teatro das operações militares.

O declive do relevo fazia a água escorrer ladeira abaixo. O líquido envolvia os corpos saponificados, oleava-se e arrastava os vermes pràs trincheiras, feitas cloacas, onde os combatentes se escudavam dos franco-atiradores. O vento encarregava-se de repartir um cheirinho nauseabundo, próprio da carne em decomposição, que mareava até aos mais cacimbados guerreiros. Aquela migalha de mundo chamara a si o inferno.

Bem no chão da trincheira, de cócoras com a arma repousando ao lado, olhava taciturno pròs furos das suas empapadas botas de lona. Estava cismado, obstinado, impaciente também.

De vez em quando assomava a crista para ver se o prostrado ainda lá estava. Este gajo não acaba de desinchar — dizia para si mesmo. Exatamente. Queria. Intimamente, desejava que o seu camarada que jazia cinco metros à frente do fosso, na direção do inimigo, desinchasse o mais rápido possível. É que o falecido calçava um par de botas de cabedal, novas, daquelas de duas fivelinhas ao lado. E ele se dispusera, estava irreversivelmente decidido a rastejar até ao corpo para lhe retirar as botas. Pegar nas novas e jogar fora as suas rotas botas de lona. Mas tinha de esperar. Era preciso que o corpo esvaziasse para facilitar a operação. Tinha de aguardar mais uns dias. Tinha, sobretudo, de dilatar a chegada da sua própria morte. Não podia, não devia morrer no próximo combate. Tinha mesmo de rezar para não haver combate até que ele pudesse estrear o couro daquelas botas novas.

Continuava a chover. O céu borrifava rudemente os homens vivos e mortos e a terra, que testemunhava a sua fúria. Os abutres refugiaram-se nas ramalhoças esperando o sol, para à réu descerem em picada recolherem o repasto que os homens lhes entregavam de bandeja. Tamanha serventia. Os homens tornaram-se copeiros dos vulturídeos a quem presenteavam em lúgubre bacanal os corpos dos seus próprios irmãos.

O crepúsculo irrompia subitamente como de costume. Aproximava-se o momento solene em que a sua paciência seria premiada com umas botas novas. Qual cometa saído da terra, uma bengala profana com a sua luz o firmamento. O olhar ansioso do soldado poisou sobre o inusitado clarão e se fechou de vez com a explosão do obus que mergulhara na sua própria trincheira.

As botas de cabedal lá estavam, num corpo agora menos tumefacto à mercê de quem as pudesse salvar, qual troféu de guerra.

In «Balada dos Homens que Sonham», pág. 149-150. Clube do Autor & União dos Escritores Angolanos, 2012. - Imagem com assinatura de autor não legível

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