PONTOS DE VENDA

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PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 10 de novembro de 2013

Evocando

"Não acontecia de outra forma. Se tocasse no mato, vinham os pássaros ter com ele, aglutinando melodias. Se tocasse numa zona habitada, poisavam os pombos à sua volta, um atrás do outro. Uns achavam que era da voz, outros achavam que o poder estava na viola. Mas como se vai saber distinguir, se ele nunca deixava o instrumento, se não cantava sem dedilhar?
(...)
Sempre renovou, no seu cantarolar de praguejar a guerra, a promessa de visitar a terra que o viu nascer, a comuna da Chila, logo que calassem as armas. Mas o tão sonhado regresso acabou por não ser do jeito que imaginava. A onda de raiva com que o seu povo o expulsou, antes mesmo que se instalasse devidamente e se refizesse do cansaço da viagem, fê-lo abortar a visita. A sua canção não seduzia apenas pombos, atraía também corujas e corvos. E era disso que as pessoas tinham medo.
— Que dom é esse? — reprovou o líder da comuna, temendo desgraça. — Filho da terra traz esposa, cobertor, sal, não me traz azar. Assim é que não!
— Não faço mal a uma mosca, e isso não depende de mim, pai.
— C’os meu uotenta anuji, meu menino, nunca ouvi história bonita de corujas e corvos. É porque esses bicho é veneno. Senão, caté criava, como galinha-do-mato. Se quer visitar tua terra, não toca viola, também não canta".

Do conto "O Homem da Viola", in «A Última Ouvinte», Copyright © by Gociante Patissa & União dos Escritores Angolanos. 1ª Edição: Luanda, 2010

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