PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

domingo, 17 de novembro de 2013

Crónica: À PESCA COM GRILO

JGrilo. Foto de
autor desconhecido
A vontade de sair um pouco da zona de conforto que tem sido a escrita criativa levou-me, no outro dia, à mais carismática tabacaria do Mercado Municipal de Benguela.

A pensar num possível ensaio para manter regular a intermitência, passe o paradoxo, na colaboração que presto ao quinzenal Jornal Cultura, procurava livros. Livros que tratassem do infinito espaço etnolinguístico que conforma a actual República de Angola, o que certamente é indissociável da dialéctica presença colonial portuguesa.

Um à parte. Conheci o proprietário da tabacaria inicialmente como conhecemos as figuras públicas. Rosto, nome e intervenções na imprensa. Num segundo momento abordei-o, quer em reportagens em directo via telefone, quer com a sua presença em estúdio, no contexto do programa “Viver para Vencer”, que coordenei e conduzi durante alguns anos através da Rádio Morena Comercial ao serviço da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade, organização não governamental). Passei a ter com ele um contacto mais individual quando saiu o meu livro de estreia, em Maio de 2008.

O dono da tabacaria viria a juntar-se ao grupo de almas que me vêm amparando nessa busca por projecção, em Angola e fora dela, cada a seu jeito e circunstância. Têm sido cinco anos de intensa produção, safra que pouco significado teria sem a simpatia dos leitores, editores, escritores, profissionais de imprensa, pessoas amigas (aqui com grande realce à proximidade considerada virtual). Se me permitem a inconfidência, foi preciso muito insistir para que ele aceitasse receber a percentagem que lhe cabia por cada livro vendido, pois entendia ser sua missão ajudar-me a divulgar o material.

Retomando o prumo. Procurava livros de ArJaGo (Armindo Jaime Gomes) sobre o poder tradicional. O livreiro, que trato por tio e me dá atenção especial (de conselhos a refeições que faz questão de custear quando cruzamos em algum restaurante), recebeu com reticências o meu pedido. Lá trouxe do arquivo morto o que pedi e um bónus, o livro de poesia do desportista Nando Jordão. E o preço? Nada! Oferta da casa.

Apanhado sem jeito em mais um gesto de boa vontade, recorri ao meu sentido de retórica para mostrar que, sendo inegável a gratidão, sentia-me mal pelas implicações às suas economias. Aí, o livreiro auto-didacta, que tem no prelo um volumoso livro de memórias de Benguela, largou as contas e partilhou mais alguns conselhos.

Ele disse ter a certeza de que eu não caçava nota escolar, moda que vê como ameaça para a consistência dos futuros quadros. Sabes o que o pescador faz? Indagou-me. Respondi que não, prevendo já uma parábola. O pescador avia-se em terra, não sai confiando só no que vai apanhar. E se o mar não for generoso? Já pensaste nisso? As pessoas não se empenham, vão à escola e não cultivam a sua cultura geral!

Aceitemos, pois, a lição do pescador, em mais um nutritivo contacto com o livreiro Joaquim Grilo, que dá nome à tabacaria.

Gociante Patissa, Benguela 17 Novembro de 2013

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