PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Crónica: Quando o marketing abraça entre o comércio e a arte...

Há uma marca portuguesa que explora muito bem a técnica de transformar pequenos (e até rotineiros) momentos do dia-a-dia em singelas celebrações. Indo além da convencional função do rótulo, que se consubstancia na enunciação da marca, respectivos ingredientes, data de caducidade e aquele apelo (bastas vezes grotesco) às mil e uma vantagens para a compra do produto, aquela marca portuguesa faz questão de mostrar que se lembra do consumidor enquanto ser social.

Não se sabe se a ideia lhes é original, mas que é feliz ideia, lá isso é, abraçando o cliente entre o comércio e a arte da poesia. Os pacotes de açúcar, da quantidade de uma colher de sopa, apresentam criteriosa selecção de frases carregadas de imagens e sentimentos.

Imaginemos alguém que, a trabalhar há muitas horas e quilómetros distante de casa, se faça à mesa de bar no outro lado da rua, atrás de uma chávena de café, chá, ou qualquer outra bebida e, inesperadamente, leia no verso do pacotinho de açúcar o seguinte: “um dia fujo do trabalho para brincar com a minha filha”. É muito provável que aquele simples gesto de “beijar” a chávena proporcione um momento de a alma ser capturada pela sensibilidade e força desta doce rebeldia, sendo, ou não, pai, ou mãe, de uma menina. É reconfortante sentir que alguém se identifica com o nosso conflito latente.

“Um dia fujo do trabalho para brincar com a minha filha”. De quem seria este desabafo? Por um lado, um bem chamado emprego, fonte do pão; por outro lado, um bem chamado família. Qual seria o estado de espírito do trabalhador, ou trabalhadora, para conceber tal oposição de valores? Também especulei quando li a frase, como você estará especulando agora. Estava eu no Lubango há quatro anos em gozo de férias laborais, aproveitando para divulgar o “Consulado do Vazio”, meu poemário de estreia. Daí que me visse por instantes remetido às saudades de casa, ainda no terceiro dia.

Lembrei-me deste assunto quando pedi um chá a seguir a uma boa feijoada, depois de um daqueles saudáveis debates com a atendedora, para quem o ideal era o chá cidreira ao invés do de camomila, que alegadamente causa sono. Disse-lhe pois, conhecendo meu sono melhor do que a bem-intencionada sugestão, que raramente adormecia de dia. Enquanto ela desaparecia de sorriso rasgado pelo corredor, animavam-me duas daquelas frases do pacotinho: “Uma noite exploro o teu interior. Hoje é a noite”, lia-se na primeira. “Os apaixonados vibram um com o outro”, completava a segunda. As frases são recolhidas como produto da cumplicidade entre a empresa e seus consumidores.

Pondo de parte os cânones quanto ao marketing enquanto actividade, qualquer leigo, digo como eu, percebe que as mais marcantes campanhas vingam pela simplicidade, feliz quando profunda, das imagens que escolherem (sejam textos, ilustrações ou sons). É certo que a polémica é, às vezes, adoptada para "vender" o produto, mas, no final das contas, vale mesmo aquela ideia que humaniza. Mais do que a razão, são ainda o sentimento, a emoção e o afecto quem move a humanidade e suas escolhas.

Gociante Patissa, Benguela, 6 Setembro 2013

Sem comentários: