PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Diário | Sempre pouco

Nem corpo nem cor nem rosto. Apenas tinha um nome e uma força superior aos nossos receios, aos nossos medos, ao nosso direito ao sossego. Movia-nos, ainda adolescentes, para a desesperança, para sonhar ao menos com metade do prato. Sim, chamava-se fome. Era o nome dessa coisa que nos levava ao porto do Lobito, corria o ano de 1995. O porto costuma ter um pouco para cada um. Adolescentes fugidos da escola, uma vez no recinto portuário, onde não éramos para já bem-vindos, usávamos do arrojado inglês em busca de milagres, um dos quais um agente da autoridade migratória. Iniciava um diálogo em inglês, mas dominava uma linguagem ainda melhor, a que lê o estado de alma. Numa inesquecível eficácia, usava da sua influência para, junto de navios, conseguir qualquer coisa e com isso aliviar a fome com alguns quilogramas de peixe fresco. Sempre que precisar, meu puto, estou cá para isso. E era de graça. Cada encontro promovia o adolescente a provedor da refeição na família, com um agregado nunca inferior a dez. Voltei a ver hoje o agente, já fora da corporação. Ainda a mesma postura atlética, português caprichado, mas com indisfarçável suor do peso da vida. Voltei a dar-lhe qualquer coisa, um nota de dois mil kwanzas. O que no momento tinha. Será sempre pouco.
Gociante Patissa, Benguela 14.05.15

Sem comentários: