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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Crónica | Nós e a sobrevalorização do telefone

Falo poucas vezes ao telefone. Por mim, até falaria ainda menos, mas, enfim, escapar é difícil numa sociedade "dependente" (qual droga) do telefone.

Não é que tenha algo contra a comunicação, não, pois até tenho um activo bicho da comunicabilidade. O que me incomoda é dar-se ao telefone um estatuto passível de fazer tábua rasa a outras práticas e valores.

Por exemplo, o senso comum indica que as 24 horas do dia estão mais ou menos repartidas em três blocos, sendo oito para dormir, oito laborais e oito para desfrutar. Isso faz sentido, de tal modo que ninguém vai bater à porta do outro às altas da noite para saber de questões laborais, salvas as justificadas excepções. Era assim até surgir algo chamado telemóvel.

Já não há espaço temporal privado. E nisso, as operadoras de telefonia móvel "ajudam" com as suas campanhas de chamadas pretensamente grátis da meia-noite às cinco da manhã ou os planos mensais. E quem é que ganha de verdade com isso? O especialista em otorrinolaringologia.

Há ainda aqueles casos de estarmos sempre alegadamente às pressas (o que nem sempre é bem verdade). Aí, a pessoa saúda-te, diz que precisa de falar contigo e que... vai ligar mais tarde. Podia muito bem falar naquele instante mas, para não variar, deixa tudo para tratar ao telefone, mais tarde, altura em que tu poderás estar a conduzir, a ler, a conversar ou reunido. E se não puderes atender é uma zanga a caminho.

Para quem como eu trabalha em aviação, até de madrugada ligará sempre alguém, como se levássemos o balcão de atendimento para casa. Outra coisa que me incomoda é a tendência de anular o sentido da palavra, que de tão nobre vinha sendo ao longo dos séculos um indicador de bom carácter e educação de familiar.

No outro dia, no final de um pequeno curativo, pedi ao enfermeiro que marcasse a hora para a sessão seguinte. E ele de facto marcou, mas "olha, antes me liga para confirmar, o meu número está mesmo no cartaz à porta". Mas, caramba, pensei cá comigo, se isto é uma instituição com a natureza que tem, por que raio teria eu de telefonar para o enfermeiro, quando já chegamos a acordo quanto ao horário? E a palavra, o sentido de compromisso não servem? Ocorreu-me logo uma imagem institucional de desorganização.

O telefone, fixo ou móvel, é um importante meio de comunicação, do mesmo modo que o são a carta em papel, o correio electrónico e qualquer outra forma de interacção. Nem um pouco mais nem um pouco menos. Em pequeno, passei muito tempo a desempenhar o papel de carteiro do meu pai, muito dado a comunicar-se com familiares e inclusivamente com individualidades ligadas ao seu trabalho. Não tivemos telefone em casa e nem por isso faltava ele à comunicação.
 Gociante Patissa, Benguela 28.05.15

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