PONTOS DE VENDA

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PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Excerto do conto «Sapalo e a Avenida do Quase»

«— Tá ver bem, chefe? — Sapalo assegurava o contacto visual, de sorriso a destacar a brancura dos dentes. A testa tinha a cor da barba, tal era a graxa. — Acho que preciso de uma consulta, um dia. — já éramos dois a achar que sim, mas calei ao que seria o motivo, aguardando que completasse a ideia. — Oiço muito a chuva.

"Muito" queria dizer demasiado. Dava que pensar. A estiagem deixara de ser notícia, esgotadas as esperanças de honrar o crédito de campanha. Pássaros e roedores tinham-se ocupado do milho da primeira sementeira, pelo sol esterilizada. A outra metade, oh impotência, mal dava para cobrir as mesas de funji até à estação de chuvas seguinte, no curto defeso entre Maio e Setembro. Entretanto, Sapalo, só mesmo ele, segredava-me que ouvia o som da chuva, bastando-lhe fechar os olhos.

No compasso de espera do Sapalo, que fumava o seu cigarro, debatia minhas noções, sentado, em silêncio, no carro. No outro dia, um, aquele sim quase louco — digo quase porque, com inusitado sentido de liberdade —, quebrou uma qualquer garrafa e com o mesmo automatismo atingiu uma testa, a dele próprio, para em jacto de sangue deixar sua marca sobre o passeio de cimento. Não foi visto durante horas. Surgiu depois com penso sobre a sutura, pediu cinquenta kwanzas para comprar pão, mas logo a seguir chateou-se quando lhe foi dado o pão no lugar dos cinquenta kwanzas. Certamente sabia que por aquele valor compraria mais de um. Passam relativamente muitos por este passeio. E até faz sentido, é a rua dos bancos, da clínica e dos contentores de lixo. É de loucos a avenida do quase, do sonho por rápidas melhoras, da dor.»

In «Fátussengóla, O Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas» (pág. 83), meu livro de contos com previsão de lançamento em Novembro. Falta pouco.

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