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sexta-feira, 17 de março de 2017

Grande entrevista | PASSEI POR UMA VIDA CARICATA | Conheça a história de Job Sipitali, uma promessa distinta entre a jovem poesia angolana

Job Sipitali tem uma história de vida digna de narrativa. Aos sete anos viu o pai, a mãe e um irmão assassinados, durante a guerra civil, no município do Cubal, sua terra natal. Aos 22 anos, troca o interior pelo litoral da província de Benguela, atrás da vocação para o sacerdócio. Concluído o ensino médio, descobre que afinal ser padre não era bem o que queria para si no futuro. Abandona o Seminário para frequentar o curso universitário de linguística/português, mas os caminhos retornariam à Casa dos Rapazes: agora contribui dando aulas de literatura africana de expressão portuguesa e a cadeira de latim. Sereno, tímido, franzino e com uma articulação influenciada pelo umbundu, sua língua materna, Job Sipitali traz uma poesia concisa, proverbial e penetrante, enfim um material esteticamente pronto para saltar da gaveta para as páginas de um livro. O Blog Angodebates conversou com aquele que já foi membro do Movimento Lev’Arte e que há dois anos co-fundou a Associação Literária e Cultural de Angola (ALCA).


Texto e fotos: Gociante Patissa, Benguela, 17.03.2017

Blog Angola, Debates e Ideias (Angodebates): Onde foi que viveu a sua infância?
Job Sipitali (JS): No Cubal. Nasci em 1985. Passei por uma vida, digo assim, caricata no Cubal que me viu nascer. Fiz o ensino primário, o secundário, no mesmo município. Em 2007 saio de lá e tive essa oportunidade de entrar para o seminário, vi que tinha vocação. Fiz o seminário menor. Terminei o ensino médio, infelizmente, não quis avançar para a filosofia. Saí e fui para o ensino superior. Graças a Deus terminei e estamos para defender ainda mesmo no próximo mês.

Angodebates: Que curso seguiu? Sabemos que foi no ISCED, da Universidade Katyavala Bwila, certo?
JS: Certo. Fiz o curso de Linguística/Português, ISCED, que é ciências da educação.

Angodebates: Vamos voltar ao Cubal. Falou em infância caricata vivida lá. Que recordações tem da infância: momentos felizes e momentos difíceis?
JS: Eu tenho uma recordação difícil, por ter perdido os pais ainda aos meus sete anos. Digo que é uma vida caricata, por ter perdido mesmo os pais, isto é na guerra, e também o irmão mais velho, digo o primogénito. E [quanto] aos tempos mais felizes na infância, normalmente nós brincamos, assim como na igreja, igreja católica. Momentos mais felizes, também os estudos, que ajudaram bastante a entrar no mundo da literatura.

Angodebates: O que é ou como concebe a literatura?
JS: Eu concebo a literatura como o ponto subjectivo de cada um. Sim, cada um tem a sua visão de como funciona a literatura. A literatura é a visão ampla de cada um.

Angodebates: De que forma é que a literatura sempre esteve (ou não) presente na vivência da sua comunidade ou então está presente no dia-a-dia das pessoas?
JS: A minha visão é que a literatura não está tão presente. Eu vejo que não há muita entrega, por mais que eu tenha dito que a literatura está na subjectividade cada um, não há muita entrega à literatura. Há muitos jovens que se deixam levar, não se importam tanto com esse mundo da literatura que é tão benéfico, o que é perigoso.

Angodebates: Quando foi que se despertou em si o bicho do fazer poético?
JS: Depois de ter entrado no seminário. Acho que ali tive a oportunidade de ter essa ousadia, assim como pessoas amigas e alguns colegas que declamavam, que faziam teatro, apresentavam muita coisa. Mas também não foi assim de pé para a mão. Observava colegas a declamar e a escrever. Mais tarde tive mesmo a curiosidade de entrar neste mundo por um poema. Já não me lembro. É de um escritor angolano, acho que João Tala. Despertou-me bastante. Tive uma pequena imitação de um dos poemas dele. Começa com o verso “Há tempo para viver”, mais ou menos assim.


Angodebates: Olhando para o seu trabalho, nota-se que há um distanciamento em relação à tendência dos da sua geração. Normalmente, o que se vê são poemas longos, discursivos, com um ultra-realismo, que alguns mais velhos chamam “canta-lutismo”, aquela nota acentuadamente pessimista e declarativa, aparentemente sem grande labor estético. A poesia de Sipitali marca-se pela diferença. Nota-se um lado proverbial, um lado conciso, um lado profundo. Tem noção disso?

JS: Sim. Tenho noção. É a minha tendência – já definimos o que é a literatura, que eu disse que era a subjectividade de cada um. Então eu procuro mesmo distanciar-me daquilo que alguns escritores têem feito. Há muitos poemas longos. Percebemos muito bem que após o romantismo, cada um queria a própria liberdade de escrita. Eu procuro sintetizar as minhas ideias. Então posso mesmo ser chamado de poeta proverbial. Muito conciso. Assim procuro trazer mais ideias. Não gosto muito de me alongar.

Angodebates: Como ocorre o seu processo criativo? É daqueles que acham que só funciona tendo uma hora ou um lugar específico para criar?
JS: O meu processo criativo é mais de forma particular. A minha literatura não é essa de ficar a declamar. Eu escrevo para a vida. Aliás não tenho poemas para serem declamados, mas sim para serem publicados. Escrevo para todas as gerações. Não sou um imitador. Alguns poetas enganam-se tanto neste mundo da literatura e os seus poemas acabam por perder valor, porque a escrita é mais declamativa…

Angodebates: Mais espectáculo?
JS: Exacto! Mais espectáculo e ficar aí em muitos gritos. Não acho que a literatura poderia passar por ali. Então vamos escrever mais seriamente.

Angodebates: Quais são as suas referências criativas de modo geral?
JS: Tenho muitas referências. A primeira é Consulado do Vazio. É uma obra que me despertou bastante. Leio também, de modo geral, Luís Vaz de Camões. Leio algumas obras de João Tala, mas não é tanto. Gosto mais de [Adriano] Botelho de Vasconcelos…

Angodebates: É muito hermético. Muito complicado de descodificar. Concordas?
JS: Sim (risos). É um escritor muito subjectivo, mas gosto desses poetas que trazem assim uma literatura muito complicada para nós. Em Portugal gosto de ler Fernando Pessoa.

Angodebates: Para além da formação universitária, dedica-se à docência?
JS: Sim. Dou aulas de literatura africana de expressão portuguesa aqui no Seminário Médio do Bom Pastor. Também lecciono uma cadeira que é a língua latina. Aqui sou tradutor também. Mesmo neste momento, os alunos estão aí a traduzir.

Angodebates: O latim é tido por muitos como sendo uma língua complicada. Imagino que não seja essa a sua opinião?
JS: Não, não. Não é uma língua assim complicada. Talvez podia ser complicada para alguém que não tenha domínio de mais de uma língua. Aliás, os que fazem o Direito têem sempre alguns textos em que a base tem de ser o latim.

Angodebates: Quantas línguas domina?
JS: Domino duas. Como a língua materna, o umbundu; segunda língua, o português.

Angodebates: Dá aulas cá de literatura africana de expressão portuguesa. Gostaria de ouvir a sua visão do panorama da literatura feita no espaço de língua portuguesa.
JS: Falar sobre a literatura de expressão portuguesa no espaço africano, aborda-se mais a literatura antes das independências. Então a temática está sempre em torno da liberdade, assim como os textos de José Craveirinha, “Eu sou Carvão”; outros poemas de Agostinho Neto. Essa poesia antes da independência tem simplesmente uma [temática] que é a luta, que é de combate. Por isso é que os textos têem uma temática mais modernista, que é a objectividade, não tanto a subjectividade. São textos que nos levam mais a perceber o que é que ocorreu no passado. Após a independência, já temos textos mais um pouco subjectivos, por mais que alguns escritores ainda estejam com o passado.

Angodebates: Ao referir-se mais aos autores das décadas de 50, 60, 70 (séc. 20), isso tem apenas a ver com o tempo que a academia leva para escrutinar que obras ensinar, ou porque acha que a produção de lá para cá não foi promissora?
JS: A produção não tem sido tão promissora porque houve uma fase em que escritores angolanos [negros] não podiam chegar ao público; era uma literatura assim fechada. Graças a alguns intelectuais que foram estudar a Portugal e criaram a Casa dos Estudantes do Império, que trazem a nova literatura angolana. Sabemos que a própria nossa literatura dita escrita começa em 1950, senão 1948. Antes disso, a literatura mostrava mais os feitos dos portugueses. Então é esse preconceito que nós temos.

Angodebates: Olhando ainda para a literatura de expressão portuguesa no nosso continente africano, e em Angola, o que é que você gostaria de ver melhorado? Que aspectos é que em seu entender não estão tão bem?
JS: Eu teria começado por uma citação da obra de Mia Couto: “E Se Obama Fosse Africano?” Lá aborda alguns preconceitos hoje. Fala dos sete sapatos sujos. A ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas. O que não está bem actualmente, há um processo que eu chamaria de permissivismo; hoje a sociedade angolana permite tudo. O que não está a ser abordado é a questão da cultura, a língua. Há muitos jovens que se perdem, não gostam de assumir que são angolanos. Eu não queria citar aqui alguns que já perderam até a sua cor. É mesmo a perda de valores culturais e a própria língua, que é uma identidade humana.

Angodebates: Vamos voltar uma vez mais ao seu trabalho. O seu devaneio criativo ou a alma de poeta flutua mais no espaço urbano ou rural, uma vez que você tem estas duas experiências de vida?
JS: A minha literatura flutua também no campo urbano, mas é mais no rural. Tenho alguns traços por ter vivido entre o rural e o urbano. Então revelo recolhas de lá, mas como estou a viver mais na cidade, olho mais para os comportamentos sociais. Há também alguns livros que me trazem ideais que possa descrever nos meus poemas.

Angodebates: Como falante de umbundu, eu arriscaria em dizer que há um diálogo intenso e permanente na sua literatura com a tradição oral. Concorda com isso?
JS: Concordo. Por ser proverbial, há sim! Há alguns traços intensos nos meus poemas.
 
Angodebates: Considera o seu trabalho de poeta como sendo influenciado pela sua faceta de tradutor?
JS: Sim. Em todo o meu trabalho há sempre traços de tradutor mesmo (risos). Há uma interferência linguística. Nos meus poemas há sempre esses traços.

Angodebates: Livro ou disco? Qual seria o formato ideal para divulgar a sua obra?
JS: A minha literatura, nos meus pensamentos, não gostaria que passasse pelos discos.

Angodebates: Tem algum trabalho publicado ou participação em alguma antologia?
JS: Não. Também ainda não estou em nenhuma antologia. Houve uma em que iria participar quando fazíamos parte do Movimento Lev’Arte. Tenho sempre esse sonho.

Angodebates: A minha experiência de quem andou no sector da sociedade civil e viu muitas associações e redes nascerem e morrerem, leva a reflectir que em muitos casos, tais iniciativas não vingam porque não há uma convergência de interesses. Isso se coloca no caso dos movimentos e associações literárias? Ou seja, acha que os membros quando se filiam a estas associações e movimentos literários têem uma noção clara do que esperam receber e do que podem dar?
JS: Sim. Há. Todo o jovem que se junta a uma associação, espera receber alguma coisa. Muitos gostam mais de receber do que de dar, e as associações morrem por causa disso. A juventude gosta de formar essas associações, mas depois não cumprem.

Angodebates: Alguns jovens procuram ser escritores por via da associação. No seu caso particular, ao filiar-se a uma associação, o que é que espera dela?
JS: O que eu espero da associação não é simplesmente que os nossos textos sejam publicados. Um dos objectivos da nossa associação (ALCA) é publicar. Mas quem entra só por isso, quando vê que as suas obras não estão a ser publicadas, a tendência é de sair e buscar tocar mais em outras pessoas para esse fim, o que tem levado também tempo.

Angodebates: A publicação de livros tem uma vertente logística. Que apoios você considera que deveriam existir e vindos da parte de quem?
JS: Para alguns, o apoio é só moral. Mas acho que o estado devia apoiar, porque alguns empresários dão algum apoio, só que a literatura não é o campo deles.

Angodebates: No seu poema “…A Gramática E A Zungueira…”, dois versos despertam atenção. Um diz “Corrige-me o sofrimento não a gramática”, o outro diz “Corrige-me tudo, menos o pensamento”. Será a reafirmação da sua solidez cultural e identitária, ou será por eventual medo de ser mal interpretada sua voz de poeta?
JS: É para dizer que eu sou firme na minha dimensão cultural. “Corrige-me tudo, menos o pensamento”. Cada ser tem aquilo que lhe apraz, do fundo da alma. E hoje existe muito [preconceito] da própria interferência linguística de que já falei; alguns dizem ‘estão a errar’, mas há um traço cultural. Portanto, a entrada de uma outra língua não nos pode trazer, digamos assim, escândalo.
https://angodebates.blogspot.com/


…A GRAMÁTICA E A ZUNGUEIRA… 

Corrige-me
o destino
não o pensamento.

Corrige-me o sofrimento não a gramática
que gosta de comer bem com os verbos e esquece-se dos
pronomes personificados, dos pratos típicos e quentes da sintaxe.

Corrige-me a palavra,
não a polissemia que gosta de ser híbrida.
Corrige-me tudo, menos o pensamento.

…O MITO DA COR…

Toma-se a cor pela palavra.
A garganta enriquece-se
de mitos nocturnos.

A fogueira evoca os espíritos,
enquanto a lenha se prolonga
esperando a verdade.

Mente quem conhece a
história do pescador de palavras.
E eu sou balaio que se estende ao silêncio.

…À PROCURA DE IDADE…

Como se prepara a imortalidade?
Pede existência aos pais.
Fica doente e não procures saúde,

mas viaja para ela se alegrar.
Toma o que quiser.
Pronuncia Humano no silêncio.

Agora vai ao hospital.
Morre no banco de urgência.

Atingiste a idade (a confissão diária).
Job Sipitali

4 comentários:

Agrupamento 192 Nucleo 01 Bga disse...

Excelente trabalho carissimo Gociante Patissa, tal como ja havia referido, conheço bem este jovem batalhador Job Sipitali, e dentre vários dons que possui é também uma pessoa meiga e dócil de se dar, excelente ser humano. Agradeçemos a Deus por o ter protegido e guiado apesar da vida pacata e as tristes marcas do passado. Temos ali um grande diamante que precisa ser aproveitado... Abraços e bem haja o blog AngoDebates e ideias...

Ass: Guilherme dos Santos

Angola Debates e Ideias- G. Patissa disse...

Muito agradecidos pela sua visita, caro Guilherme dos Santos, pela visita ao blog e pelas palavras de encorajamento. Desejamos êxitos a si e ao Agrupamento 192 Nucleo 01 Bga.
Volte sempre
Gociante Patissa

Antonio Jorge Beto disse...

Benguela é realmente uma terra de pessoas com veias a escorrer o sangue quente de grandes artes, aí está mais um caso de Job Sipitali que doravante Angola inteira o conhecerá pelos bons traços e características criadora que herdou desta bela cidade das Acácias Rúbras. Gostei da entrevista promovida pelo Angola Debates e Ideias, e pelo rico historial que o autor tem.
Bem haja!
AJJ

Unknown disse...

Há um tempo pra cá tenho vindo a estudar os vários fenómenos de redigir, criar textos poéticos em comparação à literatura (poesia) antes e após independência) e a actual (sêc. XX. 2000). Percebo que, ainda, muitos não se libertaram da anterior forma literária feita. Vendo o kamba Job Sipitali, reabre o dia e a nuvem que porcalhava o sol fica pra atrás e há sorrisos, há literariedade nesses poemas do kamba. Entretanto, precisamos rever, estudar o processo de criação literária angolana pra proclamarmos a neo-independência literária à luz da literariedade.
Parabéns kamba Job SIPITALI.
PAZ E AMOR...
TU TONDELE.