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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

(arquivo) Reportagem | «Na rua eu já escrevia»: Entre o sonho e a crueldade da vida, a história do jovem Mauro Solitário

Gociante Patissa (texto e fotos, 25.08.2015)

Mauro Solitário é como prefere ser chamado «o poeta» da Okutiuka, ONG que alberga crianças e pré-jovens vulneráveis na cidade do Huambo. José Litalato Graciano é o seu nome de registo. Tem 21 anos e destaca-se pela inclinação à arte. Sonha ser psicólogo e um grande escritor mas, antes, tem de estar acordado para a crueldade da vida real.

Por limite de idade, Mauro deverá abandonar o centro que o acolhe há uma década. Sem meios nem a quem se encostar, resta-lhe um futuro sombrio. A ligação com os pais parece ter-se ficado pelo biológico. «A minha tia me disse que estão vivos, mas nunca tive contacto com eles». Voltar a morar ao relento seria a última escolha, se escolher lhe fosse possível. Mas não é tudo. Deixou de estudar ainda na 9.ª classe, segundo disse, por ter perdido os documentos numa deslocação que fez a Luanda para tratar da saúde.

A reportagem do Blog Angodebates conversou com Mauro no domingo (23/08) à pala do poeta Chico Pobre, que organiza e faz tenção de incluir Mauro solitário no naipe de declamadores do festival de poesia aprazado para Setembro. Não foi possível contactar a responsável da Okutiuka, Sónia Ferreira, que não se encontrava nas instalações.

«A princípio, quando eu vivia na rua, já escrevia. Escrevia algumas coisas, tipo romance, mas os meus amigos não iam de acordo com aquilo. Gostaram mais quando um dia lhes mostrei poesia. Daí comecei a escrever coisas que fazem com que a pessoa sinta. Mas propriamente, comecei a me dedicar mais por aí há três anos», conta Mauro.

Os impulsionadores «são os meus amigos que deixei na rua mesmo», esclarece Mauro Solitário. Se ainda mantém contacto com eles? A resposta é negativa. O primeiro poema por si escrito, «era sobre uma namorada», revela, e logo acrescenta: «Já não me lembro, já passa muito tempo; é sobre a namorada dos meus amigos. Quando se deixaram, então eu escrevi uma prosa para ele, para que não pensasse mais assim muito nela.»

Guarda o projecto de livro no seu computador portátil mas, para não fugir à regra de reduzir a poesia à declamação, comum entre jovens aspirantes a poeta, Mauro Solitário guarda alguns temas em áudio no estúdio artesanal que um «irmão» seu montou ali mesmo no espaço da Okutiuka. «Tenho muitas dificuldades. A principal é de encontrar um apoio para que peguem ou patrocinem a minha obra. Outros apoios… é encontrar um sítio para ficar, porque daqui a mais um ano já poderemos sair», frisa o jovem.

Mauro, que faz da solidão a sua identidade e o fio condutor dos textos que escreve, conhece bem o valor do centro que o acolhe: «A Okutiuka representa para mim uma casa que nunca tive, uma família. Quando cheguei aqui na Okutiuka, vim por intermédio do maltrato da minha família. Passei muito tempo na rua, seis anos e tal. Então, tem uma pessoa que me acolheu, me trouxe cá em 2004», completa.

Diz gostar pouco de ler poesia, preferindo obras técnicas e científicas, o que soa um tanto dissonante para quem sonha consagrar-se como poeta. O livro mais recente que leu foi um «sobre a geografia do presente e do passado de Portugal». O acesso aos livros é outro luxo de que não dispõe, já que «a biblioteca encontra-se sem condições». Ainda assim, sonha ser psicólogo para poder «estudar a mentalidade de qualquer um». Da lavra de Mauro Solitário, escolhemos o poema que se segue:

A NOITE É COMO UMA CHUVA QUE CAI


A noite é como uma chuva que cai
Em um bairro isolado com caminhos apertados e parados ao mesmo tempo
Entre as marcas da solidão da beleza das pequenas coisas que fazem a vida valer a pena

A noite é como uma chuva que cai
Em um caminho perdido no cheiro do mar onde a história de um pobre órfão
Transforma-se em guerra num território virgem de segredos mais profundos
E mais sombrio entre os caminhos tão simples de oportunidades de vida mergulhados
Entre crimes do século de mágoas.

A noite é como uma chuva que cai
Em uma cidade perdida no meio do nada com caminhos tão simples resmungados
De esperança a um metro de distância.

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