segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Galinha-do-mato e batuque foram ao palco

O Cine Imperium, situado na zona da Restinga, na cidade do Lobito, foi palco de duas peças teatrais, “Galinha-do-mato” e “O batuque”, exibidas nos dias 28 e 29/07 respectivamente pela Companhia Oásis. As peças da autoria do professor Africano Cangombe proporcionaram aos citadinos um fim-de-semana culturalmente rico. Casa cheia e calorosos aplausos serviram para manifestar a aproximação entre o público e a arte cénica.

A peça galinha-do-mato retrata a encarnação de um feiticeiro na pessoa do jovem Firmino, como maldição por cometer incesto com a galinha do primeiro. Já no batuque, a cena é em torno da turbulência social depois de um jovem da aldeia ter oferecido a um forasteiro o seu batuque, de si uma herança de grande valor tradicional.

Ouvido pelo Boletim “A Voz do Olho”, o actor e assistente de encenação, Adão de oliveira Rolf, revelou que a mensagem da peça galinha do mato “é de que não nos podemos apegar nas superstições”, enquanto que “ao falar do batuque estaríamos a falar da nossa identidade cultural angolana, que há bastante tempo está perdida”.

Rolf vê nos jovens a franja mais vulnerável. “A nossa juventude, hoje, se lhe falar por exemplo da cultura angolana, se lhe deres um conselho ‘você não se deve vestir assim, porque estas vestes não têm nada a ver connosco’ é capaz de dizer ‘épa, você está atrasado’. E não é por aí! – aconselha – Nós devemos preservar acima de tudo as nossas culturas, as nossas tradições”, rematou.

A satisfação era natural para o promotor do espectáculo e também responsável do Colectivo Tony Artes, António Pedro “Ratinho”. O objectivo do grupo “é fazer do Lobito palco nacional do teatro. E já estamos num bom caminho!”, desafiou.

(Fonte: Boletim "A Voz do lho, Edição Nº 6, Julho/2007)

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Língua suja mancha crescimento do teatro

Tem-se observado com inusitada frequência o uso de palavrões em doses exageradas por parte de diversos grupos teatrais que desfilam pelos principais palcos da província de Benguela. A situação não deve fugir muito daquilo que acontece nas restantes partes desta imensa Angola, na medida em que não é apenas prática de grupos emergentes. O flagrante mais recente deu-se com a exibição da peça “Galinha do mato” pela Companhia de teatro Oásis, ligada à Força Aérea Nacional e radicada na capital do país.

Não é preciso ser perito para perceber que no afã de arrancar gargalhadas da plateia, os actores parecem aproveitar-se da tendência do público vibrar mais quando propositadamente se erra na pronúncia das palavras, se usa palavrões ou se abusa no uso de gestos obscenos.

Cai-se então no imediatismo oportunista, comprometendo-se desta forma toda uma necessidade de inculcar em próximas gerações a cultura do teatro. E é aí onde seguramente se está a pecar. Que impressão é que queremos semear? De que o teatro feito em Angola é “palhaçada”, tal como o considerou em Portugal o actor Orlando Sérgio, o “Moisés”, do “Conversas no Quintal?”

Será que não se leva em conta que os apelos dos artistas por via da imprensa fazem alguns encarregados levar filhos a cultivarem o gosto por teatro? Colocou-se a questão no final da peça ao actor do Oásis e assistente de encenação, Adão de oliveira “Rolf”. “O teatro é o contraste da vida e tal como ele é, – defendeu – nós nos preocupamos muito seriamente com as técnicas que ele exige; não estamos muito preocupados com os palavrões, porque, até certo ponto, esses palavrões fazem parte do dia a dia. E eles só surgem para enriquecer, até certo ponto, uma determinada cena”.

Não seria arte obviamente se ocultasse os disparates ditos no dia a dia. Mas usá-los para “enriquecer”!? E o nosso entrevistado contradiz-se, quando de seguida afirma que “os palavrões não fazem parte da cena”, mas que estes dependem da “liberdade artística” do actor, embalado na emoção do personagem. “Mas nós também estamos preocupados com isso. Por exemplo na peça de amanhã não poderá haver palavrões”, dizia.

Também questionado pelo AV-O enquanto promotor do espectáculo e falando como professor, António Pedro “Ratinho” advogou que o uso de palavrões não é bem próprio das artes cénicas, não sendo também algo de ruim. E argumenta: “Nós somos artistas e a nossa é uma arte viva. O teatro é uma ilusão de naturalidade, de acordo com a época e a personagem a representar. E uma vez que é o teatro como se fosse um flash do dia a dia, nem sempre estamos em condições de ocultar os factos.

Até se poderia levantar como argumento o facto de acontecer de noite, conquanto em condições normais já as crianças estariam a dormir. Mas seria ainda assim um falso argumento.

Afinal, o crescimento do teatro angolano é um processo que hoje lança as bases, com o crescente surgimento de grupos e palcos. Enquanto coisa “nova” é ainda maior a responsabilidade educativa do artista, na medida em que não há limites de idade para massa assistente. (Fonte: Boletim "A Voz do lho, Julho/2007)

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Pensar como zungueira

Manhã de sol envergonhado, na periferia. Poucos meses faltam para o fim d’ano, numa altura em que o inverno dá lugar ao verão. De todos os cantos cresce o frenesim por um dia longo pela frente, em matérias de ganha-pão. Três mulheres distanciam-se cada vez mais da sanzala numa direcção ainda difícil de adivinhar para o observador por quem passam. “Bom dia, mano!”, saúdam as três mulheres, como mandam os bons costumes.

Uma delas leva às costas um bebé, que, tal como o observador, ignora positivamente se o passo semi-apressado é para findar apenas na paragem de Hiaces e autocarros, a dezena de metros, ou se a meta provisória é a estação de Comboio, a um quilómetro. Seja como for, o que é certo mesmo é que o mediático "Afrobsaquete" passa bem a leste das suas preocupações.

Vão na casa dos 24 anos em média, isso dependendo do ângulo de observação. O timbre de voz denuncia uma juventude corrompida por uma velhice existencial, enquanto suas vestes denunciam a coabitação entre a idade cronológica e a responsabilidade social no contexto peri-urbano. Ou seja, muitas vezes, não se é adulto só pelo número de vezes que se “viveu” o natal, mas, isso sim, a partir de quando se deu à luz. Não importa se em casa dos pais ou em “beco” próprio.

“Zungueira ou lavador de carros, não é de se ter vergonha”, o pensamento da música conjunta dos grupos de RAP angolano SSP e Afroman, na música “O vencedor”, é posto à prova:

– Zungueira te sustenta, diz uma.

– Mulher Kunanga é prejudicial, denuncia a segunda.

– Ele é burro, não sabe que enquanto sai, a mulher dele entra com outro homem em casa! – condena a terceira, trazendo à luz o motivo da conversa.

Já agora com o fio da conversa em posse, o observador, que não passa de simples figurante nesta cena flagrante da vida real, segue discreto os passos das jovens senhoras, para perceber ainda melhor como pensam as zungueiras. A curiosidade reside não tanto em “quem é ele?”, mas principalmente no “que se vende?”. Não levavam à cabeça baldes brancos, logo não podiam ser vendedoras de yogurte caseiro. Zungueiras de quê, então?

– Eu saio de manhã p’ra fazer o meu dinheiro. No fim do mês ainda posso apresentar uma quantia boa na minha pasta – insiste ainda a primeira.

– Ele não sabe. Pensa que Zungueira é mulher qualquer – dizia s segunda.

– Uma mulher é aquela que não se deixa!

Lá vão os tempos em que o ganha-pão era responsabilidade só dos homens, quando ninguém engravidava antes de formar seu próprio lar. Mas como é que a coisa mudou, então? Uns acusam as mulheres de facilitar, entretanto outros vêm na extrema natalidade uma questão de “patriotismo”. Convém explicar: se o país tem mais mulheres do que homens, é, matematicamente, “ético” os “poucos” que sobram fazerem a vez dos outros tombados pela liberdade histórica.

E a sobrevivência passa a ser uma questão de equilíbrio de género, onde a mulher carrega tudo: carrega a criança às costas, carrega o sol na testa quando sai e regressa com ele “nos cornos” à noitinha, trazendo os mantimentos para o dia – porque para amanhã, vê-se amanhã! Carrega, quando muito, a ingratidão do marido, que já está com os copos. Depois carrega mais ainda…

Pois, carrega as lamentações das crianças, as quais deverá aturar até à hora da novela, depois da qual virá a ordem do companheiro que “já quer fazer”, sem se lembrar que a esposa não teve tempo sequer de tomar um banho e preparar a mente para mais um exercício sagrado, muito menos se está no período fértil ou não. “Em minha mulher mando eu”, pensará com machismo o ignorante.

Conhecem a cidade não pelos monumentos, mas em função dos clientes que se familiarizaram com os seus pregões. Levam os supermercados ao portão do habitante preguiçoso, conhecendo pela necessidade a cidade de lés-a-lés. São o rosto visível do fenómeno que lançou a mulher para as ruas nos centros urbanos, no seu dever de produzir para sustentar a sociedade - sociedade essa, que a condenará amanhã por não ter ido à escola e não participar na vida política.

Gociante Patissa, Agosto 2007

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sábado, 11 de agosto de 2007

Morreu o músico Viñi, Viñi

Aos 48 anos de idade, António Venâncio, ou "Viñi, Viñi" como era conhecido no pela sua arte de bem cantar, faleceu domingo, num dos hospitais da capital de Cuba, Havana, vítima de diabetes de que, segundo informaou a TPA, padecia desde 2005. Citando os familiares do malogrado, a rádio Lobito dá conta que o empresário Valentim Amões foi dos que mais estenderam a mão toda vez a saude de Viñi, Viñi o exigiu, sendo por conta daquele empresário do Huambo que se materializou a viagem em busca de saúde em Cuba, de onde não mais pôde voltar com vida.

Viñi, Viñi nasceu na província do Huambo, tendo-se notabilizado na arena musical ainda na década de oitenta com a sua participação em diversos concursos, entre os quais o da melhor canção política no tempo do monoipartidarismo. "A morte de um Herói", que dedicou ao guerrilheiro Apolinário, foi uma pérola do acervo musical do finado artista. Sua trajectória conta com três CD's publicados.

Viñi, Viñi foi um cantor "do povo", habituado a "acasalar" a harmonia melódica com uma letra sempre retratando o quotidiano da maioria dos angolanos. Na música "Trititi, não chores mais", por exemplo, retrata um pai que esgotado de recursos e palavras de consolo ante o seu filho que clamava por um pão a dada altura se ouve "Ukalile vali, ota, nadaka. Não chores mais, porque o papá não tem pão para te dar".

Qualquer isenção é falsa quando se está perante a morte de músicos e artistas tão comprometidos com a causa do povo, e, embora não siginifique muito, esse vosso escriba rende aqui parte da sua profunda dor. O país, a cultura e o Huambo perderam um
verdadeiro músico e Heroi.
Gociante Patissa

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terça-feira, 26 de junho de 2007

Uma mulher fala aos chefes da África



A carta de Elisa
(In: Boletim "A Voz do Olho", Projecto informativo, educativo e Cultural da AJS www.ajslobito.blogspot.com)

Elisa Kidané é uma mulher etiópica. O amor pelo seu continente levou-a a escrever esta carta aos chefes de África.
Caríssimos governantes dos 54 Estados de África e Chefes de Vários grupos de Oposição,
Queria nomear-vos um por um, mas devido à vossa instabilidade, poderia acontecer que, ao chegar esta minha carta, alguns de vocês se encontrassem já presos, destituídos, ou até mortos e… enterrados.
Limito-me, portanto, a generalizar, visto que a linguagem militar é o vosso forte.
Sou uma mulher africana. Não tenho habilitações literárias nem segurança económica. Sou uma mulher do povo. Chega. Escrevo-vos só porque amo a África.
Amo a África de hoje, aquela que vós sois chamados a guiar.
Amo esta África oprimida e martirizada.
Amo esta África nobre e orgulhosa.
Amo esta África à qual fecharam a boca para se não ouvir o seu grito de dor e assim, sem escrúpulo, explorar as suas riquezas naturais… ordenhá-la até à última gota como se fosse vaca, enquanto que desde sempre foi e será uma leoa, apesar de estar ferida de morte. Amo esta África, à qual se dão ordens de Moscovo, Washington, Roma… como se fosse incapaz de pensar por si própria, ao passo que a sua sabedoria é antiga e proverbial.
Amo esta África, à qual se arrancam as suas matérias-primas para depois descarregar-lhe em cima contentores de alimentos… como sinal de solidariedade.
Amo e choro por esta minha África. Por isso, vos escrevo.
Governantes, irmãos mais velhos, hoje cabe a vós a tarefa de romper com o jugo da miséria, da violência institucionalizada que esmaga milhões de africanos. Cabe a vós os promotores de uma economia e indústrias africanas. Sois vós que quereis apoiar e favorecer a expansão de uma cultura e identidade sempre mais sofisticada e descarada dum novo colonialismo.
Que tristeza quando vejo alguns de vós macaquear modelos de governo em contradição com a nossa personalidade e dignidade africanas!
Que tristeza quando vejo que esqueceis a regra da nossa convivência africana: o diálogo com o Ser Supremo, o diálogo com as pessoas, o diálogo com a natureza!
Ficará para sempre um sonho a figura do ancião do clã que reunia o povo debaixo da grande árvore e dava a palavra a todos e respeitava o pensamento de cada um? Agora a lei está do lado do mais forte. O pobre, o fraco, cai debaixo do peso da injustiça.
Governantes desta minha África, à qual estou orgulhosa de pertencer;
Não deixeis que o poder vos torne cegos até esmagar o elementar do direito do homem viver.
Não deixeis que se perca a voz dos melhores poetas e artistas que lutam pela valorização de uma cultura africana.
Divorciai-vos de toda a forma de sistema político que rasga o equilíbrio do nosso ser africano.
Devolvei àqueles que fazem planos de morte as suas armas pagas, aliás trocadas, pelos nossos géneros de primeira necessidade.
Devolvei tudo e dizei-lhes que tendes optado por um projecto tipicamente africano: Vida-paz.Em seguida, falai com o povo. Escutai-o e, juntos reconstruí uma sociedade com sistema económico e político que olhe para a formação e o respeito do homem, da mulher, do Jovem, da criança, na autonomia de cada nação.

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(*) Texto publicado em Abril de 1989, pela “Nova Vida” – Revista Mensal de Informação e Formação Cristã; Ano 29 – Nº 4 –, caixa postal 564, Nampula (Moçambique)
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sexta-feira, 23 de março de 2007

Sociedade debate sobre saúde sexual e reprodutiva para jovens e adolescentes

Na semana do dia de São Valentim
Sociedade debate sobre saúde sexual e reprodutiva para jovens e adolescentes

Não podia ser diferente para uma sociedade que tem os problemas que a nossa tem. É necessário que os comerciantes ponham à disposição dos apaixonados produtos que completem o lado material da necessidade de dar uma prenda a quem se ama, com todo o romancismo (nalguns casos até, fingimento e cinismo) que isso implica. O 14 de Fevereiro é um dia especial. Mas é também em dias especiais que, às vezes, se criam ambientes que fomentem erros, nalguns casos fatais, quando a emoção acaba por suplantar a razão.
Como prenda aos “aniversariantes”, o programa “Viver para Vencer” agendou para debate o tema “saúde sexual e reprodutiva de jovens e adolescentes”. Pretendia-se, em uma hora e meia, aproveitar a ânsia do dia dos namorados para acentuar o alerta da juventude para uma sexualidade responsável.
Presentes à sessão conjunta de reflexão social estiveram representados o Departamento de Saúde Reprodutiva, a Maternidade do Lobito, a Cruz Vermelha de Angola e ainda a AJS. Começando por analisar a forma como se valoriza excessivamente o lado material das prendas, a ponto de muitas vezes custar o corpo e a dignidade de muitos jovens, os presentes não deixaram de reconhecer que este é somente um dos vários problemas da nossa sociedade.
A participação de cidadãos ao telefone, numa média de oito, emprestou maior dinâmica e debate de ideias.
O desempenho da família, enquanto primeira instituição no processo de socialização, foi apontado como deficitário. “Não se fala da sexualidade no círculo familiar”, lembrou o representante da AJS, socorrendo-se dos resultados de um inquérito realizado em finais de 2005.
Mas o principal factor dos erros com a sexualidade, na visão da representante da Direcção provincial da saúde é ainda a falta de informação. “Muitos adolescentes sentem que já estão preparados para a vida, quando na realidade não é bem assim”.
A influência da globalização e a (ainda) fraca cultura de filtrar as influências do mundo ocidental, foram também denunciados.
Enquanto para uns as telenovelas são de negativa influência, pela forte capacidade de inculcar valores que muito pouco têm a ver com a vivência africana, outros contestavam. Defendiam ser obrigação da sociedade ajudar os seus filhos a saberem separar o bom e o mau, não sendo justo desta forma ignorar os aspectos positivos, entre os quais o desenvolvimento da cultura geral.
E com que idade é que os angolanos iniciam a actividade sexual? A essa questão os participantes ao debate denotaram alguma apreensão em responder, dada a sua sensibilidade. Entretanto, lamentou-se haver quem inicie aos dez anos. E as consequências são aquelas que só não vê quem não o pretenda.
Julieta Condumula, representante da Maternidade, mostrou-se preocupada pela considerável frequência daquela instituição de jovens e adolescentes gestantes ou mães prematuras.
Paulino Handa, jovem do Lobito, ouvinte assíduo do Programa “Viver para Vencer”, interveio ao telefone. Em seu entender uma das formas de ajudar a juventude passaria pela promoção de acções formativas informais, tais como debates e programas radiofónicos abordando temas tão importantes como este.
E várias outras sugestões foram registadas, no sentido de reagendar o tema. Assim será!
Refira-se que o aludido programa radiofónico é uma oferta conjunta do Projecto “Palmas da Paz-pacificação cidadania e prevenção de conflitos”, e do Projecto “Viver Contra a SIDA-3”.
Gociante Patissa (Boletim "A Voz do Olho-AV-O", propriedade da AJS - Associação Juvenil para a Solidariedade)
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Seminário sobre portadores de deficiências

Benguela, 2ª quinzena de Fevereiro - Organizações da sociedade civil angolana, que trabalham na Problemática da Pessoa Portadora de Deficiência (PPD) beneficiaram da segunda etapa do seminário sobre elaboração e gestão de Projectos, com a duração de quatro dias.
A acção formativa, que contou com a realização da Handicap International (HI), numa facilitação da Associação Juvenil para a Solidariedade (AJS), faz parte do pacote de reforço de capacidades das Associações que constituem o núcleo dinamizador da Rede de apoio à PPD.
Segundo fontes do Boletim AV-O, é também intenção daquela HI continuar a financiar pequenos projectos de parceiros, ainda este ano. para além de ajudar na identificação de outros doadores para iniciativas maiores ainda este ano.

Gociante Patissa (Boletim "A Voz do Olho-AV-O", propriedade da AJS - Associação Juvenil para a Solidariedade)
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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Administração municipal quer nos matar!!!


Ao Jornal KESONGO
Prezado Director, Ramiro Aleixo (
ramiroaleixo1@hotmail.com)
Benguela, primeira quinzena de Janeiro 2007

Queiram aceitar mais uns cumprimentos de mais um cidadão que, há algum tempo, acompanha o Projecto Editorial que o senhor dirige, e, consequentemente, admirador dos seus valores individuais – o que aliás, para quem vive há alguns anos por Benguela, não é senão uma referência obrigatória.

Sou dos que acham que o homem é aquele que defende seus ideais. Embora admirem a sua coragem e a frontalidade “numa província amordaçada em matéria de informação”, como o caracteriza a sua nota de editor da 1ª quinzena de Janeiro, ainda acho que dá muito destaque à “matéria Rangel”. E como nunca aparecem fontes identificadas, nem há reacções, pode-se aventar um “ajuste de contas pessoal” (sem querer indiciar juízo de valor, também não sou daqueles que iludem com elogios. Acho que lhe devia isso).

Mas o que me leva a escrever-lhes é uma situação triste a que os moradores do bairro da Santa-Cruz, no Lobito, são obrigado a suportar. É que desde que a nova administração tomou posse, a “boca” da ponte que dá ao estádio do Buraco passou a ser o ponto de depósito do lixo de toda da cidade, onde os camiões da Administração municipal são os que com frequência mais imundice trazem. Infelizmente é um lugar “escondido”, num bairro sem figuras nem eventos. O triste mesmo é que o local se tornou num foco frequentado por adultos que garimpam o lixo na esperança de achar algo de valor, enquanto que as crianças seguem os passos.

A lixeira não é nova, mas o crescimento se intensificou, e o nosso bairro de repente se tornou no “avesso” da higiene e respeito que o centro da cidade apresenta. Para muitos moradores, o melhor é fingir que nada estão a ver, mesmo que seja impossível, já que o lixo é arrastado pelo vento e a fumaça, quando se lembram de o fazer, é irregular.

Como poderá ver na carta em anexo, uma tentativa (individual) de contactar o Senhor Administrador, no sentido de recorrer à sua boa fé, ou não foi tida em conta ou a decisão é por demais burocrática. A carta foi entregue no dia 23 de Agosto de 2006, na qual solicitava a extinção da lixeira como prenda de aniversário da cidade. Depois de ouvir o “está entregue” na recepção da Administração Municipal, se acendia uma esperança de que o convívio com o lixo findaria… mas foi ilusão.

Venho assim, num gesto de risco, recorrer ao Vosso jornal, tanto para reiterar a minha preocupação face a eventuais doenças, sobretudo nesta fase de chuvas, como também solicitar que contribuam para a extinção de lixeira da ponte do Estádio do Buraco. Não vi o código de postura, mas acho que o lugar do lixo é bem longe, enterrado ou queimado.

Atentamente,

D. Gociante Patissa. (Carta publicada na edição referente a 2ª quinzena 2007 sob o título "Lobito, Bairro da Santa-Cruz Transformado em aterro do lixo urbano)
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segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Vêm aí dicas da minha viagem à Namíbia



É sempre bom voltar à casa, depois de alguns dias fora, em passeio, onde o saldo é ter conhecido mais um lugar novo e, claro mais amigos conquistados.

mas também tem aquele chato passo, o de desarrumar as malas e voltar à carga.

De qualquer forma, vou preparando dicas recentes da expedição "Natal fora de casa" às províncias da Huila, Namibe e Kunene, bem como alguns dias na Namíbia.

Em breve publicá-los-ei.

Força!
sempre GP
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quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

(Arquivo 2005) NUMA ALDEIA PERTO D'AQUI

HÁ DOIS ANOS QUE O POVO LUTA

Para lá do asfalto, a menos de 95 quilómetros dos Hummer’s, dos Jeeps Vx, dos Toyotas Rav4, um pouco distante dos concursos de “Miss”, existe uma “Ombala” chamada Tchiaia. Quase perdida em arbustos, fica a quarenta minutos a pé no sentido leste da via do Samboto. É a sede de cinco aldeias, nomeadamente, Pedreira, Kandongo, Samangula, Kawio e Tchiaia, todas elas pertencentes à comuna do Sambo, município do Tchikala Tcholohanga, província do Huambo. Lá onde os telemóveis são só brinquedos dos adultos visitantes, onde a energia eléctrica só está na memória de alguns que conhecem, quando muito, a sede da comuna, as crianças têm um sonho: o de receberem enxadas e sementes para sustentarem suas famílias.
A aldeia ressurgiu há dois anos e carece de quase tudo: desde à alimentação, serviços básicos de saúde, acesso à educação e ensino, até ao apoio na actividade agrícola – a principal fonte para o auto-sustento. Entre os populares, há os retornados da Zâmbia, alguns são viúvos, outros velhos incapacitados e boa parte das crianças é órfã. O apoio do PAM terminou em Maio último enquanto que as últimas chuvas com granizo destruíram as plantações. Hoje, o sustento das famílias, cuja dieta forçada é a batata-doce, é uma responsabilidade partilhada com a própria criança logo que completa 11 anos. Vive-se do cultivo e do fabrico de carvão. O ganho diário pelo biscate no campo é 200 Kz por adulto e 150 Kz quando se é mais jovem; já no carvão, uma criança pode fabricar até cinco sacos de cada vez. “Mete-nos até vergonha ter de pedir ajuda, nós que sempre fomos um povo trabalhador”, desabafou um adulto.
Desde cedo, as crianças dominam a auto-medicação usando raízes silvestres. É a alternativa face à inexistência de um posto de saúde e à escassez de dinheiro para pagar um enfermeiro particular pelo tratamento. “Quase todos os recém-nascidos faleceram este ano, só na sede da Ombala. Até agora, o número total é de 17 óbitos, dos zero aos 2 anos e meio”, revelaram alguns líderes da comunidade. A fonte de água para o consumo é um dilema: todo o mundo sabe que é antiga e tem bichos, incluindo cobras, mas não existe outra alternativa.
A única escola foi construída por uma ONG, em 1996, e a sua cobertura foi saqueada durante o conflito armado. Nela, três professores atendem 300 crianças, da iniciação à segunda classe, sendo parte considerável dos alunos maiores de 14 anos. Os que passam para a 3ª classe enfrentam sete quilómetros a pé para chegarem à escola na sede da comuna de Sambo.
O consumo excessivo do kaporroto, aguardente produzido localmente, é companhia dos adultos às tardes, distraindo uns e fazendo brigar outros. Bebe-se mais do que se come. Pelas manhãs, o movimento das crianças divide-se em dois galhos: umas indo à lavra, outras para a escola. Destinos diferentes, mas algo em comum: todas cheias de feridas de bitacaias e suas roupas de tão sujas e rotas (na vida real) até parecem indumentárias de teatro comunitário.
Se o Mpla é o único partido na zona, a igreja católica ganha concorrente, a adventista, que já tem um fiel dedicado (a aldeia tem mais de 200 homens). Mas a última campanha de evangelização dos adventistas provenientes do Huambo, durante um fim-de-semana, deu mais pontos aos católicos, de si já líderes das simpatias em função de alguma caridade recente aos órfãos e vulneráveis: tudo porque, no culto, um visitante terá dito que “os irmãos que adoram no domingo, adoram no mesmo dia que os palhaços”, o que ofendeu até as autoridades locais. Nos finais de semana o futebol é rei, sem técnica, táctica e onde ninguém sabe perder; mas vale a intenção: “assim as crianças se distraem das makas da guerra… e nós também”.
“Kwachas” e “MPLosos” de ontem, angolanos unidos hoje pela paz, há dois anos que lutam pela sobrevivência, pelo direito de recomeçar a vida em Tchiaia, sua aldeia do coração. Qualquer apoio é para ontem e aqui fica o SOS. Para além do governo de Angola, quem será o rico, o político, o amigo ou filho do Huambo que pode ajudar esse povo?

Gociante Patissa, Huambo, 30 de Outubro de 2005
publicado nesta data através do Blog Ondaka Usongo http://upindi.blogspot.com/2005/11/numa-aldeia-perto-daqui.html
depois retomado pelo Blog Desabafos Angolanos http://desabafosangolanos.blogspot.com/2005/11/para-l-do-asfalto.html sob o título Para lá do Asfalto
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sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Por quantas vezes mais voltarei a este lugar??

Uma voz, a habitual para ser sincero, lançava ao vento palavras de consolo, equilibrando-se entre o repouso agora e um espaço melhor num futuro distantíssimo, enigmático.
“Não sei quantas vezes mais terei ainda de voltar aqui, mas a chatice de cá estar é sempre a mesma”, desabafei com um amigo. Já fora, no fim de tudo, uma senhora em trajo preto desabafava impotente com uma suposta amiga (ambas para mim eram desconhecidas, sendo a viatura e a viagem a única coisa em comum entre nós): “uma gaja nunca vem aqui para relaxar… é sempre com problemas. Possas!”
Voltará a sorrir tão cedo a pobre mulher? Talvez (espero que sim!), mas o rosto transparecia abalo, com um suspiro sentido, enquanto tentava sentar-se no pára-choques traseiro empoeirado da viatura, que não sabia a quem pertencia nem o sujeito que a conduziria. Nestes momentos, qualquer carro dá, não há lugar para formalidades. No fundo todo o mundo vai ao mesmo sítio e volta já, já, à base – excepto, claro, a pessoa do dia.
E os primeiros instantes no destino então são os mais ingratos, sobretudo quando no quintal – cujo branco não é sinónimo de uma paz sincera, racional, mas apenas de conformismo, face a uma derrota sem recurso impeditivo – a leitura daquele texto de costume caminha para as últimas linhas.
Como sempre, já sei o que vem a seguir. Mas me retiro, e é agora, para não olhar de frente, pelo menos desta vez, o passo mais concreto de toda a cerimónia (aquele momento que põe de parte toda a natureza de aparências que normalmente norteiam o socialmente recomendável em termos de apresentação individual e de discursos em relação ao personagem único; o momento pragmático do “terra p’ra terra”). Dou dois passos à retaguarda devagarinho para não dar nas vistas (péssimo momento para um eventual show-off!). Uma obra de arte castanha, que atende pelo nome de caixa, capitaliza as atenções, disputando nalguns casos com os rostos húmidos daqueles directamente mais atingidos (oh, e há sempre!).
O filme é repetido e o impacto também. Enquanto deixo o círculo em busca de forças, sinto as pernas trémulas, a cabeça doendo… Estão muito frescas as imagens de uma conversa de “amizade em trabalho” que travamos na única pensão do Cubal, há um mês. Tudo agora passa para a classe de um passado sem interacção, juntamente com os seis anos da relação de colegas de “profissão”. É mais uma repetição da triste constante: a vida um dia nos junta e, logo, logo, nos separa…!
O homem da bata branca, de livro de capa azul na mão, com os olhos por detrás dos óculos, continuava a apregoar o Senhor e o descanso eterno, enquanto amigos e familiares se rendiam em segurar as poucas pás disponíveis. E cada pausa do seu discurso corajoso era preenchida por um barulho agudo, num compasso que se tornou perfeito face à peculiar frequência ao longo dos anos. O buraco tinha de ser tapado, o homem ficaria mesmo!
A poucos passos, um atraente vaso na cabeceira de uma campa de humilde aparência salta à vista. É natural ou artificial? Agacho-me, arranco uma folhinha e o verde húmido entre o meu polegar e indicador, ao esmagá-la, diz tudo. De um verde nutrido e uma flor amarela sorridente, foi trazida para cá no meio de lágrimas e choros de uma família que depositava para sempre mais um ente querido, como essa, hoje, agora. Não há dúvidas. Ela, a flor, sem me dizer há quanto tempo não recebia irrigação, só mostrou que tem conseguido sobreviver, ao lado de um vasto universo de flores artificiais em vasos com água.
Por mais voltas que dermos vamos lá sempre ter… no cemitério. Como é chato, principalmente quando cada visita representa sempre a partida de alguém conhecido e/ou chegado, para nunca mais se voltar a ter novidades?! Como doem as habituais irrespondíveis perguntas lançadas aos choros por órfãos, viúvos/as e familiares em geral? Como é ingrato sabermos que o fim da vida dessa pessoa é o início de um problema para muitos, o de dar seguimento ao seu projecto de vida? O hoje lá se vai, mas quem sabe o amanhã? Ou melhor, é coisa de a pessoa se perguntar: por quantas vezes mais terei de voltar ao cemitério?
Por: Gociante Patissa, em memória de Gabriel Agostinho, o “Gaby” da Okutiuka, Lobito, 12/08/2006
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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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