domingo, 8 de novembro de 2020
sexta-feira, 6 de novembro de 2020
Crónica | E A CHUVA NÃO QUIS ESPERAR MAIS
quinta-feira, 5 de novembro de 2020
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
Uma sociedade civil partidarizada confunde mais do que ajuda o exercício da cidadania, seja pró governo, seja pró oposição. Separar as agendas é sempre o mais honesto. Militância (individual) VS advocacia social (mediação entre cidadãos e decisores)🇦🇴
Dos membros da sociedade civil organizada/estruturada (igrejas, ONG’s, sindicatos) espera-se que saibam encontrar a “linha da vergonha” entre as paixões partidárias e o engajamento das instituições que representam. Podem exercer a militância de forma aberta mas sempre a título pessoal e não meter o emblema. Isso favorece o princípio da harmonia, salvaguardando que as agremiações congreguem diversas sensibilidades. 🇦🇴
domingo, 1 de novembro de 2020
Mesa redonda: “Que língua nos une, que língua nos separa”, FELICA (Festa Literária da Editora Caramurê), Salvador da Bahia. Gociante Patissa (escritor e jornalista angolano) estará à conversa com a escritora inglesa-russa residente no Brasil, Sarah Rebbecah Kersley, moderação de Symon Nascimento. Ao longo da semana iremos partilhar o link. Twapandula/ Obrigado/ Thank you
domingo, 25 de outubro de 2020
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
Crónica | HASTA SIEMPRE, QUERIDO SÉCULO 21!
No limbo entre ontem e hoje fui-me deitar ardendo, de crónica. E lamentavelmente consegui adormecer o mundo
sobre os ombros, congelando o fio. Digo lamentável, porque vi nisso de dormir ante o desassossego o soar do alarme, mais uma vez a idade. Caminhamos para velhos e como disse o outro algures, aos poucos já não conseguimos ser metade do homem que até há bem pouco tempo fomos.
A escrita e o sono praticamente nunca em mim dormiram na mesma cama. O fluxo imaginativo, traiçoeiro, tinha essa mania de jorrar justo no momento em que o sono se fazia à pista dos lençóis. E assim ficava eu a debater-me. Ou dormia e perdia a ideia criativa, ou escrevia noite a dentro e bocejava o dia inteiro atrás do pão, arrebatado que fui pelo mundo do emprego ainda aos catorze anos.
Deixei a casa de uma irmã onde jantei pouco antes da meia noite e na minha cabeça continuou a trilha linda e triste dedicada a Che Guevara. A imagem do homem convicto tombando com o resto já há muito rendido à sua volta ilustrava bem os nossos tempos, tempos do tombar dos bravos da linha da frente por uma causa sem prazo, a densa e fria noite escura que teima em adiar o airoso amputando sonhos, o agoirento traço das notícias, a impotência dos cientistas, o arrojo dos líderes. O nosso mundo, nos dias que correm, é a fotografia de uma revolução perdida um pouco a cada dia. Hasta siempre, querido século 21. Ah, já agora enquanto posso, reivindico o meu lugar nas gerações autorizadas a dar o testemunho de sobreviventes do pior de uma guerrilha ali pela década de 80, sem esquecer, pois claro, que a década de 90 nos enfiou goela abaixo goles com raiz de mamoeiro e gotas de creolina, era cólera.
Só que na outra guerrilha, a das kalash, as crianças tinham o dorso das mães para escudo, e essa que nos assola leva primeiro as mães. Na outra safavam-se ao menos os refugiados para o ocidente, a actual é a primeira a chegar não importa aonde. Na outra guerrilha era plantar esperanças na voz do governante, e essa elimina primeiro o governante. Combalidos, nós o capim, hidratámos alento via poros do médico, só que a guerrilha de hoje mata antes os tais médicos. Na outra, aliás em todas as guerras, os aliados são o zénite, nessa actual só há um lado, o da derrota global. Na outra, como em todas as guerras, há tréguas e, ainda mais inviolável, uma ordem mundial. Na guerra da Covid a ordem mundial é o paiol de certezas fugidias, o disse que não disse chamado OMS. Hasta siempre, querido século 21!
Gociante Patissa | Benguela, 22 Outubro 2020 | www.angodebates.blogspot.com
domingo, 18 de outubro de 2020
Mais uma vez fica por Luanda: LOURENÇO MUSSANGO É PRÉMIO LITERÁRIO ANTÓNIO JACINTO 2020
A QUE PONTO CHEGAMOS, OH MINHA VIDA! (excerto do conto)
Apresentou-se uma mulher levantada do chão, metro e setenta, olhos grandes e incisivos, ar categórico. Traje
tradicional africano com influência congolesa. Saltava à vista o tique nervoso que a fazia levar constantemente a mão ao queixo. Se um dia houve ali algum parente de barba coçável, isso, não sei dizer.
NÃO TEM PERNAS O TEMPO (excerto da novela)
Na segunda semana, o Chefe da Casa chamou António Veremos para a segunda etapa da
recepção. Esclareceu que a dotação era insuficiente. Cada cabeça recebia cinco quilos de fuba, um de sal, dois de açúcar, três de feijão, litro de óleo, dez tábuas de peixe seco e uma barra de sabão. Por isso, era indispensável ir à rua pedir esmola.
— Aqui, família, somos caçadores de caridade. — disse-lhe o Chefe da Casa.
— Como os calos das muletas já saíram, vais começar comigo.
— Ok, conterra. — concordou Veremos, tomado subitamente pela memória dos tempos de próspero empresário da FBI. Certa vez, e já na defensiva ante o jogral de mendigos à porta da pastelaria, só depois de dizer “não tenho nada!”, notou que ainda nada lhe haviam pedido. Às vezes, a gente foge a miséria, não sabe porquê, mas evita cruzar com ela pelas avenidas. E ela caminha e se perpetua, como a própria indiferença.
— Então, mas os que têm ofício já tentaram procurar emprego?
— Ó família, a bicha do emprego é longa, quase não anda, e o mutilado se cansa de tanto tempo de pé numa só perna. — Por isso, parente, a qualquer gajo que me pedisse opinião, sei bem o que diria. E é há muito que o sei: um “NÃO!”, que a guerra é a maior porcaria.
António Veremos revelava-se desajeitado com a caça de esmola. Dir-se-ia que era muito distraído, levando, por consequência, o dobro do tempo habitual para aprender a bumbar sem supervisão. Uma vez superada esta etapa, surgia outra tensão entre o aprendiz e o instrutor. Veremos abandonava frequentemente a labuta antes do pôr-do-sol, que era a fértil altura, quando os funcionários voltavam aos seus lares para guardar a noite. O Chefe acreditava que a crise seria passageira, mas estava enganado.
— Ó família, o quê que se passa contigo afinal?
— Fiquei cansado, essa merda de muletas dão cabo dum gajo…
— Desculpa, mas isso é mentira! Tu achas que não sou mutilado, também não passei pelo que estás a passar?! Tu não és criança, o trabalho dignifica o homem, pá!
Entretanto, António Veremos não mudava. Já não era apenas a questão de abandonar cedo o posto de esmola, passou mesmo a não pôr lá os pés. Tornou-se algo misterioso. Saía de manhã e regressava à noitinha.
Cansado dos raspanetes do Chefe da Casa, Veremos contou-lhe a história de Rita, sua fulminante paixão, que deixou de ver na viagem do acidente que lhe roubou a perna. Estaria morta? Teria recebido alta e regressado a Luanda? Era a procurá-la que passava o dia espreitando em salas hospitalares e postos médicos. O relato veio a terminar num ambiente gélido face à reacção do companheiro:
— Porra, pá! Deixas de bumbar para ir atrás duma puta, que não se importou contigo?! Se é sexo, há mulher na casa, mas com kumbú na mão.
— Eh pá!, calma ali! Primeiro, puta é a tua avó! Segundo, você não sabe se ela está morta ou não! Quem és tu, ó cara do caralho?!
— Eu te recebi pensando que és homem! Não posso é sustentar um preguiçoso, que se comporta como adolescente e não produz…
— Chefe, vais p’ra’puta que te pariu! Eu também já fui alguém, ouviste?! Nem tu nem ninguém decide, se procuro a minha mulher ou não!
O Chefe da Casa ainda foi a tempo de dizer que o passado só valeu a pena se não nos impede de continuar a viver. Mas, será que foi ouvido?
Veremos recolheu os haveres e instalou-se nos escombros do Mercado. Solitário, mas independente, como gostava, como sempre viveu. Continuou procurando pela mulher, mas esbarrava sempre na mesma pergunta: “Rita de quê?”. E, infelizmente, desconhecia o sobrenome. Passou a esconder-se no copo, bebendo muito, e quase sempre, comendo pouco, e de vez em quando. E não demorou muito para ser acometido por uma tuberculose.
Achando terreno fértil no sistema imunológico de Veremos, a doença deixou-o assustadoramente escanzelado. A dada altura, ele cheirava a morte. E convenceu-se de ter somente uma saída para continuar a viver. Então, regressou à Casa de Passagem, por menos que gostasse da ideia de ser rejeitado pela ex-família. Ao vê-lo chegar, o Chefe, que cuidava do jardim no canteiro do alçado principal, largou a enxada, abandonou o que fazia e estendeu o abraço:
— Meu, camarada! Quê que está a te matar?
— Parente, desculpa, errei…!
Gociante Patissa, União dos Escritores Angolanos. 2013, Luanda, Angola
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quarta-feira, 14 de outubro de 2020
OVILWA YANGE VOFELA (O MEU ASSOBIO AO VENTO) - 6
No curso de Coligação e Advocacia em Direitos Humanos que frequentei durante 12 dias enquanto líder da ONG AJS em Junho de 2001 em Luanda, organizado pela World Learning/USAID, convidando para o efeito perito americano de uma coligação de Chicago com actividade de advocacia social e promoção da democracia, ficou em todos nós uma lição que dizia muito da forma como em Angola se percebia e ainda se percebe o “estatuto de activista”. Num exercício simulado, desenvolvemos advocacia social a favor de uma comunidade que enfrentava um hipotético interesse empresarial em contenda de direito à terra. Ao cabo de duas horas o exercício continuava sem solução. Porquê do impasse? Porque nós jovens activistas, em tese mais lúcidos que a comunidade cujos interesses defendíamos, estávamos tão certos da nossa razão e da força dela que a única via que consideramos era a da ACÇÃO DIRECTA, quando a circunstância recomendava fazer concessões, cooperar. Foi tudo menos o que fizemos, porque nos identificamos de tal maneira com o lado desfavorecido que tomamos por nosso inimigo o outro lado. Cidadania é como no desporto lidar com adversários, não necessariamente inimigos. O activismo é também manifestações, claro, é também emoção e paixão, é afronta mas é acima de tudo questão de estratégia, pelo que nenhuma dessas técnicas deve ser a marca isolada só porque sim. Com aquele impasse no curso, não só perdemos tempo como também se agravaram os ânimos e desgastaríamos a cordialidade. Os activistas têm de saber ouvir, observar as leis (justas ou injustas, enquanto se combate para as alterar), ter consciência de não serem superiores a ninguém e que quem pensa diferente não é inimigo, recuar quando for o caso e acima de tudo estarem prontos para negociar (o risco maior é a tentação de flutuar sobre as núvens do status, o ser-se figura pública, o mártir contundente). Foi este o segredo do sucesso da coligação “Ensino Gratuito, Já”, liderada entre 2001 e 2006 pelo Eng.º José Patrocínio (Omunga, AJS, ADAMA, CICA, CRB), que pode ser um estudo de caso de activismo idóneo, sem deixar de ser incómodo, em Angola e particularmente em Benguela onde a maioria das ONGs integrantes residia. Exigíamos às escolas públicas o fim da cobrança das comparticipações (eufemismo de propinas), cobrança de folhas de provas, bem como a alocação de material escolar gratuito aos alunos e merenda escolar, como estabelecia a Lei de Bases do Sistema de Educação, enquanto parte da gratuitidade do ensino até à sexta-classe. O alvo era o Ministério da Educação que se via a braços com a incapacidade de dotar as escolas de orçamentos, sobrecarregando as comissões de pais e encarregados de educação, muitas delas desprovidas de literacia jurídica elementar para distinguir onde terminava o ónus do Estado e começava o das famílias no processo de ensino-aprendizagem. Organizamos capacitações das comunidades, influenciamos a pauta jornalística com fundamentos legais e consistência, mobilizamos parcerias entre as diversas forças vivas da sociedade para a causa, conduzimos protestos evitando sempre a pessoalização e a radicalização das posições como marca registada. É o meu assobio de hoje ao vento por uma Angola melhor. Pandupandu


















