sábado, 14 de março de 2009

Humor: Falando duas línguas

Diz um brasileiro ao receber amigo americano:- Between, between! Drink a chair!!!

(Entre, entre! Toma a cadeira!!! - Isso mesmo custa interpretar????)

"Roubada" do livro de Ignacio Vigil
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quinta-feira, 12 de março de 2009

Crónica: “Donos dos Nossos Medos”

Um dia tudo voltará ao normal. Um dia será esquecido o espectro da insegurança. Um dia poderão as pessoas visitar os seus familiares nos bairros do Kioxe e/ou Massangarala, à hora que quiserem após o pôr-do-sol. Mas esse dia está ainda distante.

Em Angola e no mundo multiplicam-se as notícias de noites mal dormidas por causa dos donos dos nossos medos. Eles usam a linguagem da ponta da faca, da garrafa quebrada, do fuzil. São frutos da geração do espectáculo, que têm nessa era da (excessiva) mediatização a fonte de inspiração. Muita fantasia. Ingénuos e letais, umas vezes sob efeito da droga, outras até nem por isso! A isso acresce-se a especulação, que tem o efeito de os tornar ainda mais temíveis. Quem foi a pátria que os pariu? Não sei se a minha, se a tua. Mas a verdade é que a coisa chega a tal ponto, que cada benguelense tem um "bandidinho" na família.

Na segunda quinzena de Fevereiro, dois grupos rivais decidiram ajustar contas em plena cerimónia cristã de enterro de outro jovem escuteiro que faleceu por acidente de viação. O Cemitério Velho da Kamunda foi palco de luta livre, inicialmente, só entre os grupos rivais. Logo a seguir, atingiram qualquer um que se encontrasse no local. Nem mesmo o padre, que celebrava a missa, foi poupado: agrediram-no com a cruz de cimento, arrancada de uma das campas. Valia tudo, até arremessar vasos. Um dos integrantes dos "Notórios" foi esfaqueado mortalmente no local. «Me sinto mesmo normal», foi o que disse o já detido assassino à imprensa, poucos dias depois. «Não estou arrependido», disse.

Kioxe e/ou Massangarala, bairros vizinhos na margem sul do rio Cavaco, costa da cidade de Benguela, têm duas coisas em comum: (1) foram “fundados” por cabo-verdianos contratados pela açucareira (na era colonial), (2) albergam grupos de jovens delinquentes rivais, ou seja, “Notórios” (no Kioxe) e “Boladona” (na Massangarala). Nenhuma pessoa “normal” aceitaria um passeio com tal rota, a não ser que fosse por força maior
– nem mesmo os kupapatas (mototaxistas) aceitam levar para lá passageiros, e olha que esses são os líderes da flexibilidade (no horário e no preçário).
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Eu, que tenho o defeito das precauções, também não iria ao Kioxe, juro mesmo!, se lá não vivesse a minha kota e, por tabela, os meus sobrinhos. Eis que decidi enfrentar a fatalidade. Aliás, já diz a máxima Umbundu «onambi l’onambi ikuete u yalonã», ou seja, cada fatalidade tem a quem afectar.

A ideia original era ir ao Lobito visitar a minha mãe. Mas, como nessa fase a polícia está rigorosa a exigir dos taxistas a famosa licença, a luta é grande para se conseguir um lugar. Pelo que tive de cancelar a viagem, uma vez que me tinha de apresentar ao serviço no dia seguinte. E é aí que as palavras da amiga americana Nancy da Escola de Inglês fazem sentido (life bocomes easier when you have a car). Ora, não podendo ir ao Lobito, que é uma boa forma de escapar do quotidiano levado à desportista sem compromisso, só restava ir à casa da minha kota.

Mas a questão, falando de Kioxe, não é a ida, é o regresso. O cunhado tem uma carrinha, mas detesto ser chato e é sempre bom nessa vida ter um plano B. E o meu plano B foi andar com a pasta de documentos, umas notas de dois mil kwanzas no bolso e pôr o telefone em prontidão para o caso de os donos dos nossos medos o exigirem.

Cerca de vinte minutos a pé, numa caminhada sem problema algum. E a primeira coisa que fiz ao chegar à minha posição foi mandar uma SMS: “Oi, mana, cheguei bem. Feliz noite!”.
Gociante Patissa, Benguela 11/03/09
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terça-feira, 10 de março de 2009

TPA exibiu ontem documentário sobre Zungueira (não podia ser mais oportuno)

A Televisão Pública de Angola exibiu ontem, 09/03, um documentário, cuja qualidade técnica caberá aos críticos classificarem. Enquanto isso não surge, o Blog Angodebates rende os parabéns à TPA pela pertinência e, mais do que isso, pelo cruzamento de opiniões.

Zungueira, ocupação “feminizada” cujo conceito remete a uma imagem vívida. O termo é de "fabricação" angolana, vem do kimbundu "kuzunga" (andar depressa), assim rezam os mais consentâneos relatos.

Foi interessante acompanhar entre os enquadramentos os do sociólogo Laurindo Vieira, do historiador Cornélio Calei, bem como do oficial da polícia nacional, Divaldo Martins. Ângulos como questões de sobrevivência, embaraço ao trânsito, concorrência desleal, ocupação praticada por mulheres vindas da periferia, foram os mais visados.

Das Zungueiras falaram algumas, representando províncias como Uige, Huila, Malange e Benguela – não haveria, obviamente, espaço suficiente num programa televisivo para ouvir todas, que são, no final de contas, a mais comum das “paisagens” do país inteiro. Foram ouvidas também outras sensibilidades, podendo-se deste modo ouvir os prós e os contras da actividade.

«Se antes eram apenas um fenómeno das capitais de cidade, hoje tende a espalhar-se. Digo, sem medo, de errar que encontrei zungueiras no Bailundo, por exemplo», assegurou mais ou menos nestes termos o historiador Cornélio Calei.

O fenómeno zungueira é um daqueles temas impossíveis de esgotar com a superficialidade que caracteriza os fóruns da media, pelo que, tal como os intelectuais sugeriram, o Angodebates é também somos pela reflexão social permanente.

Perdoem-nos a insistência, mas julgamos pertinente o poema…

África mãe Zungueira

Esta que se aproxima

carrega uma criança às costas e outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade

Conhece bem demais a cidade

não tanto pelos monumentos
mas pela necessidadeviandante como a borboleta
fez-se fiel e histérica amante
da lei da compra e venda de porta à porta
uma lei entretanto não prevista por lei
“depender só do marido? Nunca”
mulher é aquela que não de deixa
mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes
no estômago só o funji do jantar de ontem
sem tempo sequer para escovar os dentes

Lá vai mais uma dobrando a esquina

de pregão firme como a voz do tambor
humilhada aos poucos pelo sol

nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor

Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo

veja esta nos olhos encarnados grita despercebida
uma mulher mal amada
nunca descobertarainha de etapas queimadas
ele que devia ser companheiro
é de se esconder no copo
quando os ventos são ásperos
autentico chá em taças de champanhe
não estar disposta para mais um suor sagrado
é para ele frontal apelo à violência
habituada a levar da cara odeia a sinceridade do espelho

Por aqui passou mais uma profissional da zunga

protagonista anónima com mil mestrados da vida
contudo não contada na segurança social
para o turista uma espécie de paisagem
rosto de uma noite que lançou a mulher
às avenidas dialécticas dos centros urbanos
no seu dever de sustentar a sociedade
a mesma que a condenará antes de amanhecer
por não participar da vida política
ou por não saber ler
nem escrever

In consulado do Vazio (Gociante Patissa-KAT consultoria e empreendimentos, Julho 2008)
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Nino Vieira, conflitos em África, morte de inocentes na Ásia, corrupção em todo mundo, tudo uma estupidez

A quem quer que me pedisse opinião
eu sei o que diria - um "NÃO!"
e é há muito que o sei
que a guerra é a maior porcaria

Gociante Patissa, 2008
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sábado, 7 de março de 2009

Heróis anónimos. Um marceneiro, professor e pai... «Tem havido entendimento na família», diz Júlio André

Descobrimos no bairro do Setenta, em Benguela, um homem de 41 anos, cuja história de vida merece homenagem. Chama-se Júlio André. Quanto à profissão, isto, depende do local em que se encontrar. Se em Benguela é marceneiro, no Bocoio é professor.

Muito jovem ainda, Júlio teve de abandonar os estudos.
«Eu estive a fazer a sexta classe em 1996 mas, para fazer os exames, fui obrigado a trazer o recenseamento militar. Isso impediu-me, porque não tive recenseamento, não tive adiamento. Então, depois de parar de estudar, já que não fui admitido a fazer as provas, isto obrigou-me a procurar um mano que fazia o trabalho de malas e estofava também cadeirões», contou.

As malas artesanais, vulgo "de chapa", eram a única fonte de sobrevivência. «As malas, que fazíamos, levávamos ao [armazém] “Fonseca & Irmão”. Fazíamos o câmbio com fuba [farinha de milho] e vendíamos a fuba. Por cada mala, nós recebíamos dois sacos [100 kg]».

E chegou o tempo em que as malas já não tinham saída. Mais uma crise a vencer. «Quase em 1991, paramos. Então, o dono da carpintaria tinha um camião. Metemo-nos na via, fazíamos viagens, Benguela-Sumbe, Benguela-Huambo, Benguela-Lubango. Depois disso, quando consegui a minha esposa, a responsabilidade tornou-se maior. Logo, começamos a pesquisar outros meios. E vimos que havia a necessidade de fazermos esse trabalho de marcenaria», revelou.

E como se dá o salto de marceneiro para professor? «Graças a alguns amigos ­
– disse – que me incentivaram bastante [para] que pudesse continuar os meus estudos. Porque eu parei em 1986. Em 1992, depois da pequena paz, eu fiz ainda algum esforço, me matriculei. Mas, em 1993, depois dos confrontos, todos os documentos na escola foram roubados, e logo, perdi vontade de estudar. Até que um amigo apareceu tantas vezes aqui em minha casa para que eu continuasse a estudar», Júlio recorda, transparecendo gratidão no semblante.
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Júlio dá aulas na localidade de Ngóa, comuna do Passe, no município do Bocoio. Tem a oitava classe feita e tem recebido superação pedagógica. Mas carrega ainda uma dor, a de não estudar. «A essa altura, a minha preocupação número um é encontrar alguém, que me ajude a sair na área em que estou a trabalhar, para que eu venha numa área onde pelo menos haja ensino médio – sustentou o compatriota – para ver se consigo concluir o ensino médio e, quem sabe, futuramente, para ver se conseguimos ir mais longe».

Ele tem quase pronta a sua própria casa de construção definitiva. Mas, confessa, é difícil trabalhar a centenas de quilómetros longe da família. Ou não ficassem aproximadamente 200 Km entre a cidade de Benguela e a povoação de Ngóa. «Tem havido entendimento na família. Porque às vezes eu passo o fim-de-semana lá, quando não tiver passagem de regresso, mas, quando tiver, vou na segunda-feira e na sexta sou obrigado a vir para me avistar um bocadinho com a família», esclareceu.

Quem cresceu sem os pais, sabe o que transmitir aos filhos. É o caso do marceneiro e professor, Júlio André. «Tenho estado a transmitir o espírito de que eles deviam estudar para terem uma formação, de maneira que amanhã, ainda que o pai ou a mãe não estiverem presentes, eles podiam conseguir se virar», sustentou.
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Refira-se que a rubrica “Nossa Homenagem” é oferta do programa de mesa redonda radiofónica, “Viver para Vencer”, uma produção da ONG angolana Associação Juvenil para a Solidariedade (AJS), às terças-feiras, das 17-18h30, através da Rádio Morena Comercial (97.5FM), cobrindo as cidades de Lobito, Benguela e Baia Farta.

..... AJS – “A cidadania é resultado de um exercício permanente de Educação e Comunicação”.
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Crónica: O contrato de arrendamento

“O Manuel hoje vai à escola?”, questionou-me a proprietária do anexo em que vivo.

“Não, não vou à escola…”, respondi-lhe, curto e desconfiado.

“Então não vai sair…?”, insistiu com aquele sorriso mecânico, próprio de quem sabe o que quer apesar de tantas voltas.

“Não, não vou sair”, garanti, mas logo vi que eram apenas 18 horas, e emendei: “Não agora”.

“A tia queria falar com o Manuel…”, insiste ela como sempre, tratando-me por Manuel, como se não tivéssemos assinando um contrato de arrendamento (onde obviamente se pode ler o meu verdadeiro nome) antes de embolsar os meus lindos Dólares.

“Por mim, podíamos falar agora, se lhe dá jeito.”, saí com essa, usando a técnica “ocidental” de dizer à pessoa justamente o que quer ouvir.

Lá puxou duas cadeiras da sala dela, que fica a um passo da minha janela, ou seja, no quintal que partilhamos. Sentados frente-a-frente, tomou a iniciativa: “Bom, Manuel, eu já queria conversar contigo ontem, só que não deu tempo”, justifica ela.

Coloco-me, então, a fazer escuta activa. Sigo, paciente, o relato, inferindo que iríamos desembocar (apenas) na relação de vizinhos. Mas a kota surpreende: “É para falar do nosso contrato”.

Esforcei-me o máximo para disfarçar o que me passava pela cabeça. É que, curiosamente, a nossa relação perdeu o sentido afectivo (como é cultural de nós africanos, que temos um parentesco por afinidade muito amplo) por causa do desrespeito ao contrato. Tanto recalcamento, que do “bom dia”, “boa tarde”, não passamos. De um lado, o inquilino, cansado de esperar que a senhoria concluísse obras como se comprometeu, já lá vão 15 dos 18 meses; Do outro lado, a senhoria, vizinha por sinal, levando a vida na defensiva (“tipo nada”).

Bom, voltando ao ponto, diz-me a mais velha que o contrato termina dentro de três meses, e com isso, exerce a obrigação de sondar a intenção inquilino. Entretanto, curioso é o facto de se lembrar tão atempadamente desta cláusula quando, e o que seria mais fácil, desconhece o nome do cliente.
“Costumo ser sincero”, iniciei, “estou à procura de um espaço maior, mas está difícil…”

“Ahã!, para casar já, né?”, interrompeu-me, muito inconveniente para o meu gosto.

“… Não é por aí!”, repudiei como quem diz espaço maior é para casar, Caramba?! “É por causa dos meus papéis, já quase não há espaço na mesa. Se não aparecer até lá, penso estender o nosso contrato só para seis meses. Já não aguento um ano e meio”, abri o jogo.

“É isso mesmo! Também penso fazer contrato diferente, de seis-seis meses. Por isso, e como tenho uma conta com um mestre da obra naqueles lados do “Kamatondo”, então queria ver se adiantavas já seis meses, filho. Também já falei com o outro do anexo ao lado”.

Mais palavras, menos palavras, eu disse à senhoria que não tinha fundos para o adiantamento de seis meses, o que só conseguiria, provavelmente, no fim de Maio. Foi no fundo um truque, na esperança de que até lá consiga, de facto, um espaço maior para arrendar.

“Então, Manuel, já não vai dar para continuar, mas pode ficar à vontade nestes três meses que faltam. Só não queria surpreender”, sentenciou, como boa cumpridora de contratos que (não) é.
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quinta-feira, 5 de março de 2009

Março mulher

Livre comércio nas estradas da minha linda Angola. (Fotografado por António Salomão Gando)
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quarta-feira, 4 de março de 2009

Já lá vão dois anos a ver aviões de perto (para alguns custa gostar de aeroportos)


Ambivalências


Tenho vocação
tenho barriga
às vezes custa é me guiar
quando não escolhem ambas o mesmo caminho.
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Gociante Patissa, Benguela Outubro, 2008
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segunda-feira, 2 de março de 2009

Crónica: O QUE UM SONHO TEM DE VERDADE

No momento em que inicio estas linhas, às escondidas porque o horário pertence ao patrão, estou ainda sob efeito do sonho, ou «choque» para ser mais preciso.

Levantei-me, assustado, a meio da noite. Um pesadelo? Ainda não sei se o era, sei é que andava confuso demais no momento em que me sacudi dele. Você talvez fosse direito à geleira, que até fica a metro e meio da cama, afastando “os maus espíritos” com um copo de água gelada. Porém não tenho hábitos de consumir após a hora de dormir. Nem tempo restava para me decidir se voltaria para a cama ou se passaria o resto da noite acordado. «Duas e quarenta de uma promissora quinta-feira», dizia-me, indiferente, o relógio. Tudo a dormir lá fora, incluindo os guardas (que bem o sei), excepto um ou outro carro vadio.

Era bom que os sonhos reflectissem apenas o espírito do dia, não? Assim, do tipo, para um dia de emoções agradáveis, sonhos maravilhosos. Que tal? Acende a indagação, movida pelo rápido recurso à memória do dia. Ou seja, o filme da viagem ao Caimbambo, recheada pela descoberta de suas picadas e paisagens, que têm um lençol vegetal de inevitável êxtase nesta época chuvosa. Mas nem isso sequer conseguiu suplantar o «estado de choque» que me havia entranhado.

Ora pois, voltando à indagação de há pouco, não seria mais justo que os dias bons trouxessem apenas sonhos equivalentes? Mas, vendo o outro lado da moeda nessa lógica, conseguiríamos sobreviver aos sonhos daqueles dias que desejaríamos que simplesmente não existissem no nosso calendário?

O tempo passava, com lentidão irritante. No quarto, apenas eu e a solidão. Logo percebo, dando-me por vencido, que a crítica ao critério dos sonhos era projecto furado.

No cenário criado pelo meu «injusto» sonho, eu acabava de ouvir que era seropositivo, que tinha o famoso VIH, vírus da SIDA. Logo eu, que há cerca de nove anos abracei a causa da prevenção, participando inclusive na concepção/gestão de diversos projectos comunitários de cidadania e saúde preventiva!… Justamente eu, que me “esqueci” do que é sexo sem camisinha, ao ponto de certo dia me chamarem de “espécie rara em vias de extinção”?! Seropositivo, eu? Não! Eu, dono de duas máquinas (para barba e cabelo) de uso exclusivo, que nunca apanhei transfusão de sangue, enquanto que soro só apanhei uma vez?

Já liberto da “anestesia”, dou conta do quanto determinados sonhos têm o inconveniente efeito de “teste surpresa”, sem dar tempo às vezes para elaborar uma saída, com base na retórica ou na lei do plano B. «Olha, você tem o vírus da SIDA!». Estaria eu preparado para ouvir tal notícia?

Sempre pensei que sim. Os anos de activismo na luta contra Infecções de Transmissão Sexual dão-me o direito de pensar que tenho um background consistente. Se nunca me abalei quando alguém revelasse a condição de pessoa vivendo com o VIH, só podia ser devido à transposição da barreira da estigmatização e preconceito. Na minha condição de jornalista (24 horas por dia), acompanho o que os outros (rádio, jornal, TV) fazem – com a devida empatia perante o drama de pessoas geralmente rejeitadas no seu meio. Não sendo os meus próximos imunes, há bem poucos anos perdi uma prima, que faleceu em consequência da SIDA. Será que ter sensibilidade perante um problema habilita o indivíduo a vivê-lo?

Ou será que me identifico mais com o slogan “Viver com o vírus da SIDA é possível, mas sem ele é melhor”? No momento, já em nenhuma certeza mais me arrisco encostar. De repente, vejo as minhas convicções, preconceitos, optimismos e receios, apoiados em cima de um tapete escorregadio. Alguém estaria preparado para ouvir a notícia de que somos seropositivos?

Usando da honestidade, de si muito ligada à minha personalidade, assumo que não estou (afinal) preparado para ouvir que sou HIV positivo. Trouxe-ma o sonho esta verdade. Entretanto, penso que não é este o ponto. A questão é: o que fazer perante tal fraqueza? A resposta que me ocorre não é nova: há que levar a vida de modo a afastar, o mais longe possível, os riscos de contrair a infecção. O uso racional da sexualidade faz a diferença.

Gociante Patissa, aeroporto da Catumbela, 28/02/09
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domingo, 1 de março de 2009

Crónica: Esse rapaz vai longe... Apoiem, senhores com sensibilidade para a arte, essa promessa da guitarra e voz

Nessa vida temos o prazer de cruzar com aquelas pessoas em cujo talento nos "apaixonamos" à primeira vista. E a intuição não falha: tal como Matias Damásio e vários outros batalhadores, ainda havemos de nos orgulhar de Wladmiro Gonga também, um artista de mão cheia.
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Sem desprimor para qualquer estilo musical, quem ouve o "miúdo Ngonga" tocar tem a forte percepção de estar a saborear uma fatia musical com todos os molhos. Não só a dedilhar, mas também a vocar. (Esse "miúdo" quer fazer tudo sozinho ou quê?)
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Deu-se a conhecer em Benguela como integrante do staff do "poeta do século", o declamador Fridolim Kamolakamwe. Cantando temas da sua lavra e interpretando clássicos angolanos e não só, bem ao estilo de cantor de bar, o guitarrista foi o suporte do espectáculo de poesia e trova do Cine Monumental, organizado pelo jornalista Gilceu de Almeida com Adérito Chiuca. Perguntem às senhoras que apaludiram q.b. entre o romance e o drama cantados numa voz só dele.
..
Gonga, que muitas velas ainda tem a apagar até atingir os 30 anos de idade, para além de estudar exaustivamente a guitarra, na base do autodidactismo, conta com bases do Instituto Médio de Música. Diz ter intercâmbio com músicos brasileiros e italianos, para só citar alguns, recorrendo, quando não pode ser de forma presencial, à via Internet. . Ele sabe que vai longe, tanto quanto sabe que terá que levantar por cada golpe que levar na consolidação do nome. Aliás, e o que é mais doloroso, esses golpes às vezes atendem pelo nome de falta de carácter de gente que inevitavelmente cruzará o seu caminho.
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Mas como dizia o outro, não importa quão longa seja a noite, pois a manhã acabará sempre por chegar.
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Agluém viu a Joana Cangombe por esse mundo fora?

Gostaria de ter notícias da Joana Cangombe, a jovem radialista (desportiva) do Lobito que há cerca de três anos, mais ou menos, deixou sua cidade para prosseguir os estudos no Brasil.
Então é assim?!, não se lembra dos amigos nem nada... Isso se faz?????!!
Sucessos, "doutora"!
Gociante Patissa
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Início da radiodifusão em Angola. A data ainda é polémica, mas urge a reflexão e intercâmbio entre gerações

28 de Fevereiro de 1928 ou 1933?
Ficou uma vez mais visto que o dia de início é assumidamente o apontado na linha anterior, não sendo este entretanto o mesmo caso do ano.
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Cabral Sande, que falava ao telefone ao programa "Pista Livre", da jornalista da Rádio Nacional de Angola, Lena Sebastião, deu um contributo à história da rádio na provincia de Benguela (que é útero da história do país inteiro).
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Uma das questões apontadas, referindo-se à diferença, se o jornalismo das gerações anteriores era melhor ou não que o actual, aquela vedeta do radialismo angolano asseverou que «actualmente faz-se mais rádio, porque o jornalismo não existe!».
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A ênfase da sua "desilusão" recaiu ao facto de, hoje, as rádios não investirem na interação com o ouvinte, do ponto de vista da participação ao telefone, parecendo que a responsabilidade pela participação é deste quando devia ser da rádio. «Eu, por exemplo, se te pedir para tocar música da Míriam Makeba, você é capaz de ir no computador e tocar. Mas o estúdio não tem saldo no telefone, que é para ligar para o ouvinte», sustentou.
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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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