PONTOS DE VENDA

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sábado, 6 de dezembro de 2014

Trecho do conto MINHA MÃE É HORTELÃ

Se algo tirava as vontades ao primo Ndulu, era quando velha Mbali, a mãe dele, abrisse a boca. Não tirava os olhos do chão. Porquinho feito. Só para não ver os dentes da mãe, da cor do pôr-do-sol e de um verde na gengiva que contava anos.

Na escola, era o pioneiro querido dos professores. Uma coisa o primo Ndulu não tirava da cabeça, seguir o exemplo de Augusto Ngangula. Obedecer como ele, proteger os interesses do partido como ele, morrer - a qualquer momento - também.

O professor-brigadista até falava umas palavras que o primo não entendia, mas adorava ouvir. «Pió com alto espírito patriótico». Tais palavras compridas, não havia na escola inteira pió que as entendesse; da mesma maneira que não se entendia como foi logo querer morrer, quando as crianças não tinham permissão sequer para espreitar aos funerais.

Para bem da revolução, Ndulu usava de muita vigilância. Levava ao conhecimento do professor tudo o que visse, ou acreditasse ouvir, de reaccionário, coisas como desenhar cigarro na boca do presidente Neto plantada no livro. Conservar mal o dinheiro também entrava nas contas. A conduta valeu-lhe a nomeação a Chefe-estrela, o aluno mais importante na escola. Os demais piós, que eram nabos a matemática e não entendiam nada de língua portuguesa, memorizavam a matéria na véspera das provas com orientação do Chefe-estrela.

Foi-lhe subindo à cabeça o pódio até concluir que a velha Mbali era inadequada ao seu perfil. Mas ela deixava de ser extremosa e lhe tirava as pimpas:
- Linga ndukusapwile, ina yukwene, ndaño onina ndopalata, ka lisoki la wove(1).

Gociante Patissa, in FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, 2014. GRECIMA, Luanda. Programa LER ANGOLA.
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(1) Se queres que te diga, mesmo que a mãe do outro brilhe como a prata, jamais substituirá a tua.

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