sexta-feira, 6 de junho de 2025

Crónica | AS CRIANÇAS E A INSÓNIA

Escandalizava-nos absurdamente ouvir dizer que alguém estava com catorze anos. Isso tudo?! Vinte

então... era coisa de dinossauro. Percorríamos picadas atrás da cana-de-açúcar, aguçados também por uma outra doçura, as lendas de heróis que desafiavam o exército de mosquitos e a ferocidade dos guardas e ODP para abastecerem o bairro com aquele petisco todos os dias e noites. Havia mesmo no bairro uma beldade com a proeza de completar a mesma idade, dezoito, já lá iam uns seis anos desde que estagnara em tão generosa faixa, auxiliada pela estatura esguia. E ninguém se feria com isso. Talvez, até, houvesse quem se roesse de inveja e sonhasse com o dom de ter apenas dezoitos, fosse em 1987, fosse em 1992. 

Só que um dia fomos dormir e demos, já na mesa do matabicho ou pequeno-almoço, como soe dizer-se, dizia demos com o temido século vinte e um bem sentadinho, desmentindo todo aquele espectro apocalíptico. Afinal os computadores não se descomandaram. Afinal o fim do mundo não era para já, a emigração para os céus imaginada falhara a data. E pior mesmo para os maus presságios foi 2002 e o calar definitivo da guerra civil. 

Salvos do susto, continuamos a ir e vir do sono até que um dia, sem darmos por isso, estávamos já com a idade dos nossos pais. Vinte e tais, uns; trinta e poucos, outros. Servia de consolo o tecto de trinta e cinco anos para transpor a categoria de jovem. Ufa! Ainda falta contar mais uns para dinossauro! O tempo dos prolongamentos é sempre gasoso, por isso há que batalhar e batalhar quanto mais, por nós, pela família que nos legou o sobrenome e pela sociedade. Ser feliz também, claro, mas antes de tudo dar o litro para conquistar uma vaga na escola, desafiar a rocha que estorva a viela do emprego, num país que ensaiava viver após a guerra civil. 

Vinte e três anos volvidos, as crianças daquele tempo hoje já só moram nos dizeres do documento na carteira, na roda dentada que cilindra e recicla o melhor da música dos anos oitenta. À criança daquele tempo hoje resta dar a mão à palmatória por tanto que ralhou os pais pela frequência com que acampavam em óbitos. Chegamos àquela fase em que os kotas, estado de alma impotente e discordante, diziam aconselhar a trouxa do acampamento de óbitos em prontidão. Ontem por exemplo foi-se, traído pelo coração, o Kamutamba, Sapalo Serviço, o fã inveterado dos Irmãos Almeida, tractorista da Empresa de Águas e Saneamento, irmão mais novo do antigo cobrador de autocarros da ETP, Amândio Serviço! Fica congelada a sua criança. 

“A vida é criança perfeita, que renasce a cada amanhecer”, lia-se por aí neste universo digital das frases feitas com cheiro metálico das máquinas ou de fusíveis dos computadores que se iludem e nos iludem substitutos do pensar humano. 

Angola segue sendo a criança dos nossos afectos. O futuro a nós pertence? Crianças, futuro e pertencer podem ser simples substantivos ou a insónia da coesão adiada. Por vezes me engasgo de ouvir nomes atribuídos à criança com pretexto africano, como quem rouba ramos e flores do jardim do vizinho sem lhe conhecer o propósito. E montam-se palavras divorciadas da essência proverbial e da virtude da conotação filosófica. Soa bem. Será que dialoga com a raiz? 

Há dias soube da conclusão de um curso que levou três anos de memorização do Alcorão, conduzido pela comunidade muçulmana. Grupo-alvo? Crianças, quinhentas delas. Era ouvir na rádio algumas reverenciando a oportunidade da merenda servida em três anos de potencial investimento nacional em auroras embaciadas. É que o sono das crianças é cofre do sonho dos adultos. 

Gociante Patissa | www.angodebates.blogspot.com | Luanda 06 Junho 2025


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quarta-feira, 4 de junho de 2025

Crónica | RETRATOS DE CACIMBO SEM FRIO


Todas as manhãs cuido de despertar as várias pessoas que me habitam. O trabalhador inteira-se do relógio, das correspondências no telemóvel e pensa no que comer. Já o escritor, que não aprende nunca a deitar-se mais cedo, quer mais algum tempo de paparicar a cama, sonhar com respostas de meia-idade. Enquanto isso o doméstico anda às voltas a ver o que vestir, algo a condizer com a agenda do dia. É sempre um debate tácito até o moderador chamado ditadura racional pender a balança da rotina. Não há mais tempo a perder! Cuide-se da higiene, do matabicho e bom dia rua! Faço o trajecto a pé por opção, diria melhor por oposição ao atolado trânsito e inerente stress. De resto, localidades amigas da caminhada notam-se pelo uso popular de sapatilhas. Por cá sapatilhas só quando se abre a porta de um carro à porta de ginásio. 

Há uns poucos meses já que deixei a marginal e passei a morar nos Estados Unidos, espiritualmente falando. Estados desavindos seria o mais justo. Não necessariamente por algum confronto, mas pela desobrigação de corresponder à saudação, por exemplo. Rostos carrancudos. A simpatia não mora ali. Tal como nos elevadores dos Estados Unidos, saudar ou não o vizinho dá igual. É de facto um microcosmo sociologicamente rico e representativo da heterogeneidade e das assimetrias. As escadas que levam aos mais de seis andares testemunham o corrupio desde a classe aparentemente média à classe mais de entrada. Desde o perfume intenso dos trajes a rigor ao odor forte (do banho esquecido) pelos tarefeiros que fazem a vida no sobe e desce dos degraus distribuindo pelos apartamentos água em bidões de 20 litros. Do cirandar das Testemunhas de Jeová, tão amigas de portas e campainhas, à fedorenta combustão da liamba em estado permanente. Do reluzir dos azulejos do prédio em recondicionamento ao estrondo dos casebres de chapa que lhe circundam a cada golo na Europa. 

Entre Maianga e Mutamba também a cidade acontece antes do raiar do sol, pelo que nunca se pode dizer que saímos cedo de casa, só porque dentro do horário. Que me desmintam os Hiaces candongueiros azuis-brancos. O contraste é a marca da cidade, onde a esperança e o desespero se entrecortam no branco das batas ou uniforme de crianças a caminho da escola, contrastando com outras andrajosas em sono profundo no horizonte acessível que é o seu lar de lancil e berma. Engarrafamento não é só na estrada, no passeio também. O angolano tem o belo hábito de parar no exacto espaço estreito de passagem, ora porque está pensativo, ora porque conversa, está na fila no multicaixa. Ou então... porque o passeio vira mercado do informal para a venda de tudo e mais alguma coisa. É também a banca da quitandeira de legumes e frutas, ela que conta com roturas de condutas para molhar o produto e mantê-lo apelativo. A poesia visual corta o coração do olhar impotente, quando o verde do contentor de lixo ainda se arroga a prometer esperança ao estômago pelas artérias da moderna capital. Esse frenesim é a voz da cidade que se desdobra em ricas narrativas, ainda que fragmentadas. Do Umbundu, Lingala, Kikongo e algum Kimbundu, os nossos diálogos predominantes em português são um tesouro! 

Esta manhã de cacimbo sem frio retive parte da prosa entre um munícipe e a sua amiga agente de trânsito. É daqueles registos bem arrancados das marcas da oralidade Bantu, quando o desdém aparente é afinal uma metáfora para o luto, um estado de negação. “Aquele mesmo bem calmo morreu mais?”, admirava-se o senhor, ao que ela responde, toda sentida: “Os outros se matam com grandes máquinas; ele foi morrer logo com aquele carrito bem simples?!” É claro que não é sobre carros, mas sobre o sentido curto da vida. Enfim, o contexto é tudo! 

Gociante Patissa | www.angodebates.blogspot.com | Luanda 04 Junho 2025

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terça-feira, 3 de junho de 2025

Proposta de Lei das Línguas de Angola: Qual teria sido o critério para o redactor/legislador arrumar a hierarquia da secção que se refere às línguas consideradas regionais, onde o Umbundu aparece na última alínea, no fim?


Qual teria sido o critério para o redactor/legislador arrumar a hierarquia da secção que se refere às línguas consideradas regionais, onde o Umbundu aparece na última alínea, no fim? Salta à vista na medida em que teoricamente o Umbundu era falado já nas décadas de 1990 por 1/3 da população. Ao enumerar a ordem terá sido adoptado algum Critério de natureza demográfica? Não procede. Ordem alfabética? Muito menos. Critério da pirâmide invertida? Também não nos parece. Ora, pode parecer um pequeno detalhe, claro, mas como em metalinguagem tudo comunica, a dúvida circunstancial ainda mora na página 7 da PROPOSTA DE LEI DAS LÍNGUAS DE ANGOLA, posta à consulta pública MINISTÉRIO DA CULTURA, MARÇO - 2025.

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sexta-feira, 30 de maio de 2025

Ponto d'ordem: LOCUTOR DE COCÓ

23 horas de uma quinta-feira. Na rádio, locutor (voz adulta, amadurecida, grave, dicção impecável em português) anuncia lista de ouvintes que ganharam ingressos para um evento e que os devem levantar no dia seguinte. Um deles atende pelo sobrenome Tchikoko - em Umbundu, capacete. O locutor prossegue. Chikoko ou chikókolo? Até lembra a palavra cocó, conclui ele. Ri-se. Depois acrescenta: brincadeira, porque somos uma criança. A cidade é Luanda, espaço sociolinguístico e sociopolítico que se acredita e se define a si próprio como não tendo sotaque no seu português, ao contrário "das províncias" (subjacente a isso a influência/interferência das línguas de origem africana). Brincadeiras há muitas, mas o facto de associar logo a cocó o nome de alguém arraigado numa língua que o locutor não domina, sem que em nenhum momento indagasse qual seria o significado na onomástica Bantu, já parece dizer muito sobre o mundo cultural do fino locutor. Neste caso, a julgar pela sua infeliz actuação, locutor de cocó.

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domingo, 18 de maio de 2025

Crónica | VAMOS À LUTA, MANO LAURIANO TCHOIA. MAS COMO?

 Se perguntarem, direi que sim. E com todas as forças. Não mereces  estas linhas que te dirijo,


meu mano Lauriano Tchoia. Não já, tão cedo, tão doridamente, tão ofegante do jeito que partes, do jeito que ficamos. Se perguntarem direi que sim, que me recuso a consentir a cadência do cortejo que no horizonte se desenha, tão dissonante, tão mal-vindo, tão duro. Não era para ser já. Não assim, tão cedo.

 

Que não restem dúvidas. “Isto não é poema / é o meu grito de angústia / Isto não é poema/ é a dor do desconsolo”, com a devida licença ao cântico sofrido dos manos Antero Ekwikwi e o Mito sobre a letra de Chó do Guri, também ela adiantada. “Akulu vetu twakaile lavo vainda pi? Vaya kuSuku KuNzambi”, completaria o nosso mano Ndaka Yowiñi, depositando no mito e no transcendental a impotência de vermos os nossos irem de vez, sem despedida, sem consenso, sem substituto. Ou como diria o nosso povo, “wapesela ka nõlã”, quando sem reparo se faz a dimensão da perda.

 

Mais uma vez, distante da nossa amada Terra me vejo na vocação apunhaladora que nos cerca enquanto humanos, a de juntar uns farrapos de força panegírica que nos restam ante à grandeza de homens e mulheres do teu calibre. Foi assim com a eterna Filomena Maria, carismática locutora da Rádio Benguela, foi assim com Justino Handanga, das maiores referências da sociocultura do teu amado Wambu, acidentalmente Huambo, mano Tchoia. Junto ao manifesto de perdas o cineasta português José Barahona, do filme Naufrágio.

 

Para lá de amigo, o mano mais velho que a sabedoria popular colocou no meu caminho não mais é. A primeira madrugada da semana que hoje começa foi a última da peleja que há dois meses vinha travando no leito do Hospital Militar de Luanda. Fim ingrato para a mana Magda, viúva, e os membros da sua família que mais de perto vivenciaram os ciclos de esperança na sua recuperação. Punge-nos dizê-lo. Não há palavras que consolem a família de sangue. A família da cultura. A família das forças armadas. A família do universo digital. Chorai por nós. Chorai connosco!

 

Fundador do agrupamento musical “Ao Serviço do Povo”, de que fizeram parte Gabriel Tchiema e Raquel Dalomba, nas décadas de 1980, enquanto oficial das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, cronista do já inexistente jornal A Capital e mais esporadicamente do Jornal de Angola, Lauriano Tchoia afirmou-se no sector de microfinanças, tendo passado pela Encib como seu Director-Geral.

 

Resta dizer muito obrigado por toda a tua generosidade, pelo coração maior que tu. “Vamos à luta”, era esta a tua atitude perante a vida. Só que aqui chegados, a lágrima do teu povo pergunta: vamos à luta, sim; mas como, sem ti, ó mano Tchoia?!

 

Gociante Patissa | Lisboa, 18 Maio 2025 | www.angodebates.blogspot.com


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segunda-feira, 21 de abril de 2025

PODE FAZER ENQUADRAMENTO LEGAL DO MEU CASO? - crónica de Yossef Mwetunda

 Oito horas e pobres minutos. LIMATAPALO, empresa de construção civil. No


escritório, o telemóvel do patrão toca.

— Bom dia, Boss!

— Bom dia, Ataíde! Está tudo bem?

— Estar até está, Boss! Mas...

— Deixe-me tomar notas para depois fazer o enquadramento legal do seu caso.

— Está bem, Boss.


O papel mais próximo estava empoeirado. A senhora da limpeza ainda não tinha chegado. O patrão sofre de sinusite. Chamou o segurança para dar um jeito. Que jeito? Deitar fora o papel empoeirado, sem levantar poeira, e tirar outro da caixa. Pelo menos toma apontamentos no papel, não na tela.


— Está aí, Ataíde?

— Estou sim, Boss! Aqui a rede não cai.

— Diga lá o que se passa?

— Boss, a páscoa não me poupou!

— Mas, ó Ataíde...

— Boss, é que...

— Ataíde, deixe-me acabar o raciocínio.

— Pode falar, Boss!

— Cristo é que foi espancado, você é que falta ao trabalho, ainda mais hoje que encontramos vestígios de delapidação?

— Boss, na nossa empresa tem máquina de lapidação?

— Esqueça isso, explique o que se passa.

— O Boss sabe que Jesus foi crucificado no meio de dois ladrões, não sabe?

— Sei. Inclusive, um deles foi você.

— Sim, Boss! Aquele que foi salvo na cruz! Assim mesmo, estou a ligar a partir do paraíso para dizer que não preciso mais do emprego.


Silêncio. Silêncio total. Total silêncio. Total.

— Está aí, Boss? Pode fazer enquadramento legal do meu caso?


21.04.25.XXI.08.39

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sábado, 12 de abril de 2025

Diário | Influencer digital na TV

"Eu de 3 em 3 meses tiro 1 mês sem acesso à net e às redes sociais para desintoxicar."

"A saúde mental exige, né?"

"É isso. Só mesmo chamadas e SMS. No início foi dificil, mas agora já está natural."

"Ficas sem net, nenhuma, nenhuma? Nem o whatsapp?"

"O whatsapp mantenho-o ligado."

"Só o instagram, facebook, tik tok, então?"

"Sim, desligo tudo. Menos só as redes sociais dos meus clientes. Porque a minha actividade profissional é gestora de marketing digital. Cuido das marcas corporativas e individuais. Então tenho de alimentar e gerir as redes. Alimentar com conteúdos, responder os seguidores."

"Ah, só não entras nas tuas redes então?"

"É. É necessário fazer pausas pela nossa saúde mental".

 

www.angodebates.blogspot.com | 12 Abril 2025

 


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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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