23 horas de uma quinta-feira. Na rádio, locutor (voz adulta, amadurecida, grave, dicção impecável em português) anuncia lista de ouvintes que ganharam ingressos para um evento e que os devem levantar no dia seguinte. Um deles atende pelo sobrenome Tchikoko - em Umbundu, capacete. O locutor prossegue. Chikoko ou chikókolo? Até lembra a palavra cocó, conclui ele. Ri-se. Depois acrescenta: brincadeira, porque somos uma criança. A cidade é Luanda, espaço sociolinguístico e sociopolítico que se acredita e se define a si próprio como não tendo sotaque no seu português, ao contrário "das províncias" (subjacente a isso a influência/interferência das línguas de origem africana). Brincadeiras há muitas, mas o facto de associar logo a cocó o nome de alguém arraigado numa língua que o locutor não domina, sem que em nenhum momento indagasse qual seria o significado na onomástica Bantu, já parece dizer muito sobre o mundo cultural do fino locutor. Neste caso, a julgar pela sua infeliz actuação, locutor de cocó.
sexta-feira, 30 de maio de 2025
quarta-feira, 21 de maio de 2025
No ano em que Angola completa o seu 50.° aniversário de independência nacional, é um privilégio reencontrar Luandino Vieira, à esquerda, que foi o primeiro Secretário-geral da primeira Associação da história do país, a União dos Escritores Angolanos (UEA). É o editor do meu segundo livro de poesia, "Guardanapo de Papel" (2014), Pela NósSomos, porta 13, na Vila Nova de Cerveira, Portugal, em sociedade com o também fundador da UEA, escritor Arnaldo Santos, à direita
domingo, 18 de maio de 2025
Crónica | VAMOS À LUTA, MANO LAURIANO TCHOIA. MAS COMO?
Se perguntarem, direi que sim. E com todas as forças. Não mereces estas linhas que te dirijo,
meu mano Lauriano Tchoia. Não já, tão cedo, tão doridamente, tão ofegante do jeito que partes, do jeito que ficamos. Se perguntarem direi que sim, que me recuso a consentir a cadência do cortejo que no horizonte se desenha, tão dissonante, tão mal-vindo, tão duro. Não era para ser já. Não assim, tão cedo.
Que não restem dúvidas. “Isto não é poema / é o meu grito de angústia / Isto não é poema/ é a dor do desconsolo”, com a devida licença ao cântico sofrido dos manos Antero Ekwikwi e o Mito sobre a letra de Chó do Guri, também ela adiantada. “Akulu vetu twakaile lavo vainda pi? Vaya kuSuku KuNzambi”, completaria o nosso mano Ndaka Yowiñi, depositando no mito e no transcendental a impotência de vermos os nossos irem de vez, sem despedida, sem consenso, sem substituto. Ou como diria o nosso povo, “wapesela ka nõlã”, quando sem reparo se faz a dimensão da perda.
Mais uma vez, distante da nossa amada Terra me vejo na vocação apunhaladora que nos cerca enquanto humanos, a de juntar uns farrapos de força panegírica que nos restam ante à grandeza de homens e mulheres do teu calibre. Foi assim com a eterna Filomena Maria, carismática locutora da Rádio Benguela, foi assim com Justino Handanga, das maiores referências da sociocultura do teu amado Wambu, acidentalmente Huambo, mano Tchoia. Junto ao manifesto de perdas o cineasta português José Barahona, do filme Naufrágio.
Para lá de amigo, o mano mais velho que a sabedoria popular colocou no meu caminho não mais é. A primeira madrugada da semana que hoje começa foi a última da peleja que há dois meses vinha travando no leito do Hospital Militar de Luanda. Fim ingrato para a mana Magda, viúva, e os membros da sua família que mais de perto vivenciaram os ciclos de esperança na sua recuperação. Punge-nos dizê-lo. Não há palavras que consolem a família de sangue. A família da cultura. A família das forças armadas. A família do universo digital. Chorai por nós. Chorai connosco!
Fundador do agrupamento musical “Ao Serviço do Povo”, de que fizeram parte Gabriel Tchiema e Raquel Dalomba, nas décadas de 1980, enquanto oficial das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, cronista do já inexistente jornal A Capital e mais esporadicamente do Jornal de Angola, Lauriano Tchoia afirmou-se no sector de microfinanças, tendo passado pela Encib como seu Director-Geral.
Resta dizer muito obrigado por toda a tua generosidade, pelo coração maior que tu. “Vamos à luta”, era esta a tua atitude perante a vida. Só que aqui chegados, a lágrima do teu povo pergunta: vamos à luta, sim; mas como, sem ti, ó mano Tchoia?!
Gociante Patissa | Lisboa, 18 Maio 2025 | www.angodebates.blogspot.com
sexta-feira, 25 de abril de 2025
segunda-feira, 21 de abril de 2025
PODE FAZER ENQUADRAMENTO LEGAL DO MEU CASO? - crónica de Yossef Mwetunda
Oito horas e pobres minutos. LIMATAPALO, empresa de construção civil. No
escritório, o telemóvel do patrão toca.
— Bom dia, Boss!
— Bom dia, Ataíde! Está tudo bem?
— Estar até está, Boss! Mas...
— Deixe-me tomar notas para depois fazer o enquadramento legal do seu caso.
— Está bem, Boss.
O papel mais próximo estava empoeirado. A senhora da limpeza ainda não tinha chegado. O patrão sofre de sinusite. Chamou o segurança para dar um jeito. Que jeito? Deitar fora o papel empoeirado, sem levantar poeira, e tirar outro da caixa. Pelo menos toma apontamentos no papel, não na tela.
— Está aí, Ataíde?
— Estou sim, Boss! Aqui a rede não cai.
— Diga lá o que se passa?
— Boss, a páscoa não me poupou!
— Mas, ó Ataíde...
— Boss, é que...
— Ataíde, deixe-me acabar o raciocínio.
— Pode falar, Boss!
— Cristo é que foi espancado, você é que falta ao trabalho, ainda mais hoje que encontramos vestígios de delapidação?
— Boss, na nossa empresa tem máquina de lapidação?
— Esqueça isso, explique o que se passa.
— O Boss sabe que Jesus foi crucificado no meio de dois ladrões, não sabe?
— Sei. Inclusive, um deles foi você.
— Sim, Boss! Aquele que foi salvo na cruz! Assim mesmo, estou a ligar a partir do paraíso para dizer que não preciso mais do emprego.
Silêncio. Silêncio total. Total silêncio. Total.
— Está aí, Boss? Pode fazer enquadramento legal do meu caso?
21.04.25.XXI.08.39
sábado, 12 de abril de 2025
Diário | Influencer digital na TV
"Eu de 3 em 3 meses tiro 1 mês sem acesso à net e às redes sociais para desintoxicar."
"A saúde mental exige, né?"
"É isso. Só mesmo chamadas e SMS. No início foi dificil, mas agora já está natural."
"Ficas sem net, nenhuma, nenhuma? Nem o whatsapp?"
"O whatsapp mantenho-o ligado."
"Só o instagram, facebook, tik tok, então?"
"Sim, desligo tudo. Menos só as redes sociais dos meus clientes. Porque a minha actividade profissional é gestora de marketing digital. Cuido das marcas corporativas e individuais. Então tenho de alimentar e gerir as redes. Alimentar com conteúdos, responder os seguidores."
"Ah, só não entras nas tuas redes então?"
"É. É necessário fazer pausas pela nossa saúde mental".
www.angodebates.blogspot.com | 12 Abril 2025
sexta-feira, 11 de abril de 2025
Um pequeno passo, mas já é alguma coisa no sentido dos direitos culturais. O reconhecimento do espaço oficial e institucional merecido às manifestações artísticas e culturais dos diversos grupos étnicos ou sociolinguísticos que habitam Angola. O desafio agora é operacionalizar o espírito do decreto.
segunda-feira, 10 de março de 2025
Depois de 1 mês no estrangeiro, frio inferior a 10ºC e chuvoso estrangeiro, o cidadão regressa à base e ao terceiro dia de chuva, curto-circuito no prédio gera apagão que vai na sua terceira noite, à luz de lanterna, 29.7ºC de temperatura dentro de casa, água por todo o corpo. E ainda conseguimos sorrir. Moral da estória, devia haver um ministério dos regressados 😆😄
domingo, 16 de fevereiro de 2025
Satisfação e gratidão por concluir no dia 12.02.2025 o Mestrado em Ciências da Comunicação - Especialidade de Comunicação, Marketing e Publicidade, na Universidade Católica Portuguesa, Lisboa

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025
[inédito] POEMA EM CONSTRUÇÃO
POEMA EM CONSTRUÇÃO
Prometem chuva amanhã Chuva abundante destes céus É certa amanhã a chuva No altar das previsões, dizem Os homens que nos rodeiam E encerram de toda a parte Mas eu cá prefiro fazer a cama, mãe Antes embalar nas mãos do sono De chover entendem as mulheres O resto só fogos e canivetes Chuva estéril do decreto Nem na poesia mais se fia, mãe Quanto mais no LEAD Ultimamente! E segue o mundo avançado mudo Dos homens Gaza Grandes tão grandes Que sangram nas mãos O grito perdido da criança ferida Desperdiçando o dom Que era deixar quem de direito sangrar Sem violência para bem gerar Naquele lugar, bendito e frutífero local Dez meses menos um mais tarde Todo o saber sem idade é vaidade, mãe Amanhã talvez perceba o alcance Do chão cama que nos moldou Chão terra chão casa de barro Sempre faltou almofada E eu revolto sem te perceber Cada pedra que no lugar punhas Era um cágado afinal, e... “Kambeu ukulu”, minha mãe! Gociante Patissa | L. 06 Fevereiro 2025 | www.angodebates.blogspot.com
domingo, 26 de janeiro de 2025
Utilidade Pública | CANDIDATURA ABERTA NA AZULE ENERGY, VAGA NA COMUNICAÇÃO INTERNA
Eis o acesso ao site https://careers.azule-energy.com/job/Luanda-Internal-Communication-Senior-Advisor/1144605455/
quarta-feira, 22 de janeiro de 2025
Resgatar a identidade: Porque o nome 'África' merece ser escrutinado e uma possível alteração - Mail&Guardian
O nome "África" está profundamente enraizado na história europeia e na interação colonial. Os estudiosos remontam as suas origens à antiga nomenclatura grega e romana. Os gregos referiam-se à região norte do continente como Líbia, enquanto os romanos popularizaram "África", derivado do latim aprica (ensolarado) e do grego aphrike (sem frio). No entanto, inicialmente, este termo descrevia apenas as regiões setentrionais do continente, nomeadamente as terras sob influência romana, como Cartago, na atual Tunísia.
Longe de englobar os diversos povos e culturas do continente, o nome "África" surgiu como um descritor geográfico e climático baseado nas experiências e expressões europeias. A sua adoção em todo o continente foi em grande parte um subproduto da expansão e domínio coloniais.
O termo "África" é emblemático de uma experiência ocidental imposta ao continente. Não reflecte nem a autocompreensão nem as ricas identidades dos seus habitantes autóctones.
Nomes históricos como Bantu, Akan e Benin representam melhor o mosaico cultural do continente. No entanto, continua a ter um nome enraizado na conquista colonial e na interação europeia, perpetuando uma narrativa de dominação externa
https://mg.co.za/thought-leader/opinion/2025-01-22-reclaiming-identity-why-the-name-africa-deserves-scrutiny-and-possible-change/
sábado, 18 de janeiro de 2025
Crónica | HÁ CÓLERA NO PARAÍSO
Não podia esta crónica abrir sem expressar condolências sentidas às vítimas do surto de Cólera na periferia de Luanda, bairro Paraíso, município do Cacuaco.
Quando chove cada morador sabe onde lhe dói. No cacimbo também. Luanda é mesmo assim. Há séculos. Uma espécie de picante na língua, o seu doer é ao memo tempo o seu prazer. E a cidade cresce dentro e fora, nas paredes foguetão, na prece ubíqua, natalidade galopante, nas falas que mesclam o mosaico sociolinguístico bantu com o eixo português, mas não um qualquer português. Aqueele noosso, livre e solto da norma, da maiúscula, vogal fechada. A capital é nota dissonante, o bolso do agente que volta meio-cheio ao fim do dia a casa sem causa justa, a passadeira que só reconhece prioridade ao carro.
Luanda é também, como de resto faz crer em qualquer esquina, lugar temente, viveiro de fé e de esperança, fábrica de igrejas, profetas e religiões em série ante a sonolência da régua. Não é insólito que em pleno consultório médico o profissional salte da anamnese para a conversão do aflito paciente. Só que depois há o anoitecer que tudo desmente, o boletim policial na TV não podia ser mais carregado, criminalidade que não lembra o próprio diabo. Enfim. Dialoga-se bem com o Brasil e o Congo neste aspecto do marketing da fé, tanto cristo vendido, para tão pouca multiplicação da bondade, do bom senso.
Há uns anos um amigo de cá relatava jocosamente algo assim. Você a caminho do local de adoração com o seu Jeep, o outro motorista também com o Starlet dele bem podre raspa no teu carro. Aí vocês descem dos carros nos vossos fatos e gravatas. Vai para aquilo da tua mãe! Vai tu também! Normalmente. Depois cada um segue o seu caminho da igreja.
Por estes dias, tendo a consultar ainda mais o aplicativo de meteorologia no telemóvel (a pensar no melhor lugar para o carro e evitar a tampa defeituosa do ramal de esgotos, que cede à pressão e inunda o parque). Para hoje, dava 75% de probabilidade de chuva, por isso apressei-me a ir comprar frutas ao supermercado.
No caixa, à frente ia um grupo de chineses. Chegada a minha vez, saúdo. A senhora corresponde e logo atira: Eu gosto muito quando Deus opera maravilha! (Fiquei contente ao ouvir isso, imaginando alguma notícia do tipo Angola saldou de vez a dívida pública para com a China e já podemos contrapor os excessos decorrentes dessa relação com efeitos colaterais esclavagistas e mafiosos). Como?, insisto. Já viste que de manhã havia tanto calor e tanto sol que ninguém ia pensar na chuva, mas de repente escureceu, Deus operou maravilha? Contive-me para não retorquir que já ontem a tecnologia grátis previa essa chuva. Ora, na era digital a fé alheia à tecnologia se calhar contraria o “orai e vigiai”.
Gociante Patissa | Luanda, 18 Janeiro 2025 | www.angodebates.blogspot.com























