sábado, 12 de outubro de 2013

“A beleza nunca é triste[1]”


“A beleza nunca é triste[1]”

Nem os postiços
nem as lembranças
belas

Que é só o mar
no bater das ondas
a tomar o seu banho
nada para desmerecer
as almas
engolidas pela espuma

E se ente soldado é defunto
até voltar da guerra
Tchipa ressuscitou o mundo
na saudade que canta
na frente da chama
“cá na mata, a vida é bela, mamã[2]”
mesmo aos olhos do fado
“a beleza nunca é triste”.

Gociante Patissa, Benguela, in «Guardanapo de Papel», a sair brevemente sob chancela da editora "NósSomos", Lisboa, Portugal (escrito a 27.11.11)
__________
[1] Celeste Rodrigues, fadista portuguesa, in entrevista ao programa "Cartaz" (SIC, 26/11/11)
[2] Trecho da canção "Cartinha da Saudade", do músico angolano Jacinto Tchipa, década de 1980
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Sábado de sol aberto, no lazer fotografando barragem do Biópio

O topónimo BIÓPIO, comuna do agora município da Catumbela, é corruptela de “VIHÔPYÔ”, nome Umbundu para uma espécie de parasita veluda que resulta da coabitação entre humanos e animais domésticos, muito comum nos lares rurais. Outra curiosidade, a localidade é também chamada de “KAMBUNDU” pelos naturais (ou nativos, para usar aqui designação da época colonial referente a populações não assimiladas), sendo “kambundu” neste contexto uma espécie de infecção que se assemelha à sarna e que afecta o couro cabeludo. Portanto, deve haver peste na origem do Biópio (Vihôpyô).
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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Tese

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Uma toponímia sem memória própria

O regime colonial, que tanto mal às nossas línguas e à estrutura familiar dos nossos avós fez, manteve o "K" de Katombela, talvez por reconhecer que se trata de palavra com origem em outro idioma de matriz Bantu (não forçosamente latina). Quando somos já soberanos, em pleno século 21, ouvimos falar de um projecto de lei do Ministério da Administração do Território em "dizimar" o "K", "Y" (e porque não o "W") na toponímia. Assim, o KK de Kwandu-Kuvangu passa para o museu, que o que manda mesmo é o "C", tal como em Kanjala. Como digo, de tão iguais que nos esforçamos enquanto herdeiros da assimilada civilização, perdemo-nos. Para que serve o esforço no ensino das línguas nacionais no sistema formal, se aos poucos se legitima oficialmente a aniquilação da memória destas? Segue-se uma matéria sobre o assunto

Nova toponímia do MAT é ilegal
23-09-2013 | Fonte: Jornal OPAÍS
A nova toponímia da divisão político-administrativa de Angola, lançada recentemente pelo Ministério da Administração do Território (MAT), ainda não tem qualquer suporte legal para a sua implementação, segundo declarações prestadas a O PAÍS pelo director do Centro de Documentação e Informação (CDI), deste órgão, Antunes Guanje.

O documento, elaborado pela Direcção Nacional de Organização do Território (DNOT), que pretende devolver a toponímia antiga a várias localidades (municípios e comunas), só será aplicado depois de ser aprovado pelas autoridades competentes, mormente o Conselho de Ministros, segundo Antunes Guanje. “Ainda nada está oficializado, se calhar o documento carecerá de mais contribuições”, resumiu. 

Segundou apurou O PAÍS, os estudos feitos sobre a toponímia, basearam-se na uniformização da grafia sobre a divisão política e administrativa do país, segundo um documento enviado a este jornal em Julho do ano em curso pelo Centro de Documentação e Informação. De um total de 161 municípios que constituem a carta geográfica do país, à excepção da província de Luanda, a maior parte alterará a sua grafia actual.

Como publicou O PAÍS, na sua edição de 23 de Agosto, a nova grafia do MAT extinguirá letras como o “K”, que é usado na escrita do nome de vários municípios e comunas. Haverá também a aglutinação de vários nomes, que na actual grafia não se faz sentir. A maior parte destes nomes deriva de línguas nacionais.

Aliás, após à conquista da Independência Nacional, em 1975, muitas localidades que tinham nomes aportuguesados voltaram a ter os seus nomes originais um pouco por quase todo o país. A devolução de uns e a aplicação de novos nomes basearam-se em factores histórico-culturais e políticos de cada região do país. Como é o caso da legendária cidade de Mbanza Congo, que com a chegada dos portugueses passou a designar-se de São Salvador, o Soyo, como sendo Santo António do Zaire. Menongue (Venongue), Serpa Pinto, Nankova, ex-Vila Nova de Armada. 
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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Amostra


"Saluquinha voltava ao convívio público, uma questão de geografia e casualidade, não de socialização. Andava só. Pedia urgência em tudo: no copo de leite, no engarrafamento, na fila de combustível. Ninguém a levava a sério, nem a mal. Seus maus humores eram vistos como sinal de amor pelo falecido, ou para os mais materialistas, pura crise de viuvez, muito popular causalidade. A única vez que se tentou abrir não lhe saiu proveitosa.
— B'o noite, sinhô agente.
— Ainda é b’u tarde, mi’a sinhora, o sol não cedeu.
— Posso falar contigo?
— Bom, tem que ser rápido. Estou na porta d’arma, sabes que a UPIP é ao lado do Palácio do Governador. Aqui é praia, movimento, portanto…
— Então, para te facilitar o trabalho, me algema já…
— Não posso algemar assim uma pessoa sem motivo, como na guerra.
— Então, com algemas não é mais fácil dirigir?
— Nós trabalhamos com moral e cívica. Algema, se há risco de fuga ou perigo.
— Mas, mano, quem te garante que não vou fugir e não sou perigosa?
— Ha!, ha!, ha!, isso até é azar! Assim vais fazer o quê, me violar, eu, com AK47?
— Eu é que estou a falar então, ó chefe… Você não me conhece…"

Gociante Patissa, trecho do conto O CALENDÁRIO DA VIÚVA, um dos 13 que compõem o livro de contos FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, já no prelo, com publicação provável em 2014
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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

9 meses depois, a greve não pariu resultados na SHOPRITE do Lobito

As vozes dos trabalhadores, entregues à míngua, até que o tribunal dê o desfecho, são aqui resumidas em 18 dísticos fotografados esta tarde, mais uma foto de arquivo. Enquanto isso, o mercado continua aberto ao lucro.
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Trechos


«É a mulher que não presta, vaca sem leite nem costas», acusava a parte do marido. «Esse homem é um atraso. Ainda vai-nos causar dores de bexiga à coitada», especulava o outro lado. Um pouco mais tarde ou mais cedo, o boato chegava tanto aos ouvidos do marido, como aos da esposa, não lhes aquecendo nem lhes arrefecendo, contudo. Muito dados a forçar situações, parentes do marido sugeriam secretamente que ele tentasse a todo custo fora, bastando apanhar uma prima com provas dadas em matérias de conceber. O que não imaginavam era que o outro lado não sossegava, e aconselhava a mulher a fazer precisamente o mesmo, afinal há sempre um primo no período fértil. Mas o casal não se deixava demover e permanecia cada vez mais unido.

Gociante Patissa, trecho do conto A ÁRVORE QUE DAVA LEITE, um dos 13 que compõem o livro de contos FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, já no prelo, com publicação provável em 2014
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terça-feira, 8 de outubro de 2013

Mais pugilistas que jornalistas nas nossas redacções?

Estando claro que estranhar já passa a ser pouco, resta-me partilhar o meu medo em relação à forma - são já duas este ano, e não é pouco! - como profissionais de imprensa, e coincidentemente com cargos de chefia, procuram revolucionar o que chamam de "correctivo" nas relações laborais. Depois de recentemente a opinião pública chocar-se com o corpo a corpo na Rádio Mais em Luanda (mais tarde justificado como um simples agarrar de colarinhos por duas vezes, pois que, se fosse agressão, o Director adjunto não resistiria, uma vez franzino se comparado com os mais 100 kg do seu superior, O Director de informação que até se gabava de praticar artes marciais), vem agora outro caso envolvendo o dono do Jornal o Continente, que terá agredido fisicamente um colega seu do Jornal Manchete, ambos na capital, gesto mais tarde defendido como sendo um "correctivo, não uma agressão, uma vez que, como jornalista, devia saber que difamar é mau". É como, ó fazedores de opinião?
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Enquanto aguardamos que a cozedura na gráfica se conclua, aqui vão mais algumas dicas sobre GUARDANAPO DE PAPEL


É título do segundo livro de poesia de Gociante Patissa, com edição em Portugal pela Nóssomos. Como metáfora, o conceito é um ângulo de representação de uma sociedade degenerando-se, onde quase tudo é descartável, incluindo valores e ideais. Já como realidade objectiva, boa parte dos textos foi escrita em guardanapos de papel, passatempo de quem aguarda pelo mata-bicho no bar, ou pelo almoço no restaurante, minutos antes do horário do patrão.
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Este é o poema que dá título ao livro GUARDANAPO DE PAPEL

GUARDANAPO DE PAPEL

Já cansado 
o velho bar 
fecha-se ao pó 
fértil
da esquina
qual navio atracado
para nova largada.

Do mar de verão
vem pujante a brisa
traçando cordão
na esquina
monumental
do cine.

Estátua e gente
parece tudo de madeira
pela porta entreaberta
vê-se que algo voa
bem rente
mas ninguém vai dizer
se é saia
ou guardanapo de papel.

Gociante Patissa


Neste link encontra-se a lista de títulos agendados pela editora para publicação em 2013
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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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