sexta-feira, 6 de maio de 2016

Entrai pela porta

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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Opinião | Rádio Ecclesia e União Europeia em tensão de "saldo zero"

Faz-me confusão esta confusão envolvendo a União Europeia (UE) e a Rádio Ecclesia (RE), projecto ao qual já estive ligado na iminência do início de emissão em Benguela, há doze anos, apurado entre os quatro redactores-repórteres-noticiaristas ao fim de três meses de estágio intensivo. Não sou católico nem cheguei a efectivar o vínculo com a RE, que entretanto acabou por não arrancar, mas estou afectivamente ligado à marca.

Embora o polémico financiamento da UE tivesse sido directamente alocado para formação, com base numa proposta da RE em resposta ao anúncio público de financiamentos, julgo que o pacote não foge muito do que é comum com as demais rádios privadas espalhadas por Angola. A comercialização de espaços de antena agrega(va) valor às grelhas de programas, considerando o factor diversidade (hoje parece que as igrejas monopolizam). Quanto aos “excessos ao microfone”, são da natureza humana e contornáveis mediante supervisão e avaliação contínuas.

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Partilhando leituras | TRECHO DO CONTO «AS FAÇANHAS DO SOBA MIGUEL»

Cheguei a ver o soba Miguel no papel de juiz, no último quinquénio do século vinte, num diferendo que evoluíra para agressão corporal com pontapés (qual guarda-redes e a bola) em recém-nascido. Tudo começou quando o jovem Welema resolveu assumir os dois meses de gravidez que o Ukuma depositara na barriga da jovem Senje, sem no entanto se apresentar. Welema convenceu a mãe da Senje, contra a vontade de um tio desta, porém não levado a sério, e plantaram morada em Luanda. O nascimento do bebé implicou vários gastos com assistência médica, quase levando à morte a parturiente, ela que caminhava no prumo entre a adolescência e a juventude propriamente dita. Dizia-se que era por causa de olondalu[1]. Quando o casal Welema e Senje regressou à terra de origem, ouviram-se pelas esquinas bocas mil, segundo as quais Ukuma reclamava a paternidade do filho e o direito de arranjar um chará (geralmente nome de um familiar) para ele. Isso nunca!, contestaria Welema, julgando possuir todos os direitos sobre o bebé, já que assumiu desde cedo a gravidez e as despesas do parto. Reunidas as famílias, o soba impôs-se:
— Havia três jovens que foram pedir emprego. O primeiro entrou, relatou convincentemente as suas capacidades, mas não apanhou o papel que encontrou no chão. O segundo apanhou o papel da porta, mas ignorou outro que encontrou na sala. O terceiro, que tinha um pouco menos em termos de capacidade, recolheu os papéis que estavam no chão, e ficou com o emprego. O que você fez, ó pai, é falta de respeito. Não se engravida menina de família, sem assumir, e ainda sair por aí a anunciar que alguém está a sustentar nosso filho.

Nesta lógica, além de perder o direito sobre a criança, o jovem Ukuma, órfão de pai, foi obrigado a pagar em dinheiro uma multa que só por milagre conseguiria.

Gociante Patissa, in FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, 2014. GRECIMA, Luanda. Programa LER ANGOLA.
 
PS: Livro disponível a quinhentos kwanzas na livraria Texto Editores em Benguela e rede KERO nas províncias em que estiver implatada.

[1] Acredita-se que seja doença resultante de promiscuidade dos cônjuges durante a gravidez.
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Nota solta | Sociolinguística do passeio

Investi metade da tarde de ontem no centro da cidade do Lobito, deambulando como exercício de "queimar tempo", um pouco por incompetência de certa agência bancária, onde suportei longa fila até ouvir que "o colega que atendia Western Union saiu para almoçar, passa mais logo ou então amanhã". Procurei saber daquela simpática senhora que me atendeu se o banco fecharia caso o colega estivesse doente, ao que respondeu, a contra-gosto, que não. Bem, como discutir não me resolveria o problema, saí ao encontro da celebração da vida que é no fundo o quotidiano, os diálogos fortuitos e a observação de imprevisíveis fenómenos sociais. Numa rua da Zona Comercial, passo por duas senhoras, nessa mania muito angolana de estorvar o passeio. Uma era funcionária (em pé e de passagem), a outra mendiga (sentada, encostada entre a árvore e a parede). Era grande a empatia. A funcionária elogiava a bebé da mendiga, num registo de diálogo coloquial e terno, na língua Umbundu, que a seguir reproduzo, ciente embora da poesia que se perde com a tradução:

“Avoyo, mba wakula!” – Vejam como está grandinha!
“Oco, wakula!” – É, está mesmo grande!
“Omõlã mba ka vala!” – A criança não custa!
“Ocili, omõlã ka vala, civala ño imo” – É verdade, o que custa mesmo é a gravidez.
E lá continuei a caminhada com a certeza de que algum troco a funcionária deixaria para a mãe da bebé, sem deixar de especular que o pai da criança, algures na cidade, aguardava pela esposa que faz da mendicidade o posto de ganha-pão.
Gociante Patissa, Benguela, 3 de Maio de 2014 
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quarta-feira, 4 de maio de 2016

terça-feira, 3 de maio de 2016

Nota solta | Pequenos "Deuses de Fumo"

Os escritores - na lógica de estar a pagar o justo pelo pecador - são uma "raça" não poucas vezes chata. Imaginam tanto, inventam tanto que volta e meia se acreditam possuidores de uma dimensão messiânica. Espero que não a tenha, mas, sendo uma vaidade negar defeitos, tentem ao menos perdoar-me, caso não me consiga livrar de tal tentação. A mim, na qualidade de espectador, chega quase a enojar o narcisismo que se desfila nas entrevistas avulsas ou na imposição do auto-valor em função de um acumular de prestígio desses "deuses de fumo". Há quem entre em quase ataque de nervos, não se poupando de apelar à saúde da sua próstata, pelo simples facto de, em casual circunstância, encontrar-se na mesma linha do equador em termos de receber e-mail de agremiação com algum nome de autor recém-revelado, por exemplo. Não faltam ainda aqueles que se arrogam o direito de qualificar poemas de outrem, desde que não se encaixem nos seus gostos ou escola, como simples diários ou letras de kizomba. Há vaidades para todas as despesas, incluindo transformar menores de idade em críticos de arte, se tal contribuir para publicitar o núcleo familiar como celeiro de intelectualidade. No outro dia, certo escritor, que vive as suas ideias e voz no mais veemente e recorrente êxtase, tentava convencer-nos de que a sua escrita era auxiliada por búzios. Dizia aquele "deus de fumo" que, em situação de tragédia na trama, ele jogava o búzio ao chão, cabendo a este artefacto decidir se o personagem morre ou sobrevive. Quer dizer, como se uma narrativa fosse um amontoado de pequenos desfasamentos. Tanto show off! A gente escreve, sim; dedica-se mais do que o cidadão comum, sim; tem imaginação provavelmente mais fértil, sim. Mas, por favor, isso é um trabalho como qualquer outro. Não é por mal, mas bem que podíamos poupar a sociedade de carregar para nós tão pesado palco imaginário.
Gociante Patissa, Benguela, 3 de Maio de 2014 
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Do arquivo (entrevista 15 minutos áudio sobre o dia mundial da liberdade de imprensa com incidência na realidade angolana/benguelense)

entrevista conduzida pelo jornalista Crisóstomo Horácio, na reportagem que ouviu Gociante Patissa sobre o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, cujos extractos serviram para a peça sobre o tema no Magazine Diocesano de Benguela, produzido nesta província e emitido pela Rádio Ecclesia Luanda, no dia 04.05.2014
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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Just a question

Nesta onda de dizer que este ou aquele vem de "família humilde" para nos referirmos à origem social de pobreza económica, queremos dizer que os abastados são "não humildes" a não ser que caiam em falência/desgraça?
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Citação

O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor. (William Faulkner, 1897 — 1962, escritor americano)
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[Oficina] Crónica | Será que voltarás a viuvar?

Texto de Lauriano Tchoia
Luanda, 02/05/2016
Toda a atenção dispensada, “é viúva deixem passar”, ninguém conhece nem sente a dor por ela.

Já fez parte do quadro mais belo da minha cidade só não sei que desgraça a levou. Inseria-se bem no padrão estrutural de um espaço que se apresentava entre a lua e o sol do trópico num bom dia. Cedia ao contraste do mosaico móvel da urbe e David Zé ousou embelezá-la no seu canto.

Caminhar sereno, olhar cabisbaixo e o lenço na disputa a reaver-se com o véu para o cuidar de tão exigido cumprimento do ritual, que ao ser destituído, o ditar da morte, pragas ou mal maior era quase coisa certa.

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domingo, 1 de maio de 2016

Nota solta | Geração do entulho

Recebo muitos pedidos de amizade virtual, mais do que gostaria, sobretudo por uma espécie de desencanto com experiências relativamente recentes no campo das amizades e a confiança depositada. Uns sem rosto são imediatamente chumbados, também aqueles com nomes intencionalmente impessoais. Decidir é dificil sempre, porque há o cidadão em mim, carregado de marcas da vida, de personalidade, carácter e visões, ao passo que há um outro lado que tem a obrigação de ser mais sociável. Quando, sem se importarem que sejam altas horas da noite, desconhecidos cutucam na inconveniência do chat, eu sei que o mereço, eu é que sou culpado por me meter nessas coisas de ser publicado como escritor. Assim, cada vez que recebo um pedido de amizade, não sendo eu de andar em copos e com isso alargar a rede de amigos, nem sendo um locutor ou gestor público, entendo que é consequência do nome que se vai construindo no campo da arte. Parto da hipótese de a pessoa que pede amizade ter começado antes por um olhar às informações que disponibilizei no perfil. É o mínimo que se espera do sentido de pesquisa, julgava eu erradamente, até perceber que muitos jovens da geração do entulho entram no "feici" sem acesso a fotografias nem nada e mais não fazem do que espalhar à sorte cantadas. Anteontem, instantes depois de aceitar um pedido de amizade,  tive de recorrer ao meu lado pedagógico, chegando à arvore genealógica do rapaz e tudo: "Oi td bm anjinha linda?", escreveu o jovem, provavelmente enganado pelas sílabas todas femininas do meu sobrenome. "Irmão, da próxima vez, preocupa-te em ver o perfil de quem pedes amizade, para não fazer patetices como esta. Anjinha linda deve ser a tua avó". E a resposta dele? "Ok".
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Crónica | É saber não chorar

Toda hora mesmo é hora de morrer, menos só doze horas. Falam que é sagrada, ninguém nasce nem ninguém morre doze em ponto. Deve ser por causa de comer. Mas, meu irmão, minha irmã, eu é que te falo. Há muitas ruas de passar se você quer sair da cidade para os bairros do Cavaco, tipo assim Cihõsi ou Masangalala, mas evita só a rua do IMS. Se você assim encontra carro parado, já sabe, deu entrada família na morgue. A morgue é uma casa da esquina, você até nem dá conta se ninguém te fala, é terra batida e com poeira. Dizem que está cheia. Que corpo já não é corpo, que há fila para caber na gaveta. Eu só vou entrar lá quando chegar a minha vez, também já não falta muito. Essas transfusões de sangue, cada semana só, me matam. É preciso coragem para não ir lá, porque os outros ainda falam morgue é castigo. Que as famílias têem que saber que chorar muito, dar cabo do silêncio da cidade, não resolve, não enterra os mortos. Que assim mesmo a tua criança abriu a boca pela última vez, enfermeiro já chama, tipo não viu nada grave. Quem é a mãe ou família da fulana. Vocês já não respondem estamos aqui? Enfermeiro fala eu preciso alguém com coragem. As famílias até, como mesmo já sabem, indicam já alguém que tem espírito de ovelha. Acho que se não tem, alugam, há sempre alguém a passar caminho. Entra caladinho, amarra vosso defunto nas costas e sai tranquilo, cara sem dor. Se já arranjam kuapapata, se é kaleluya, depende só. O importante é chegar em casa e despachar o resto. Porque mínimo grito, empurram o corpo para a morgue e é aquele monte de voltas, você que já sabe que morgue não é para todos... É saber não chorar! Quer dizer, há chorar e chorar. Umas famílias que choram na garganta, outras já só depende. Ainda anteontem, você tinha que colocar abafador nos ouvidos, porque aquilo já não era gritar. Mas também, é com razão. Como é que uma mãe ainda não enterrou uma criança de dois anos, dia seguinte lhe entregam a outra de quatro que estava grave? A criança alheia que já pensava na escola estão a lhe levar no i10. A mãe só está a perguntar assim mesmo é verdade? Morreu mesmo? Mas quem é que vai responder? Haka! Assim vão fazer dois cortejos, se falam que cadáver fica 24 horas? Cada vez já não respeito mais medicamentos, só respeito a poeira, mesmo de noite ela voa, só Deus sabe o que leva de casa em casa. Falam só é febre. Mas febre afinal que sai aonde? Ainda mba é febre, ya? Hoko!...
Gociante Patissa, Benguela, 1 Maio 2016
www.angodebates.blogspot.com
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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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