sábado, 28 de junho de 2014

O PORTUGUÊS TEM DE DIALOGAR! - A convite do Semanário Angolense, na pessoa do seu director, contribuí com um artigo na edição que assinala os 800 anos da língua portuguesa

O PORTUGUÊS TEM DE DIALOGAR

Falar do futuro do português, o considerado quinto idioma mais popular no mundo, é evidentemente um assunto vasto. Enquanto recolector de tradição oral, interessa-me olhar para a realidade angolana e abraçar a vertente sociolinguística, visto o valor da língua como património cultural imaterial. A propósito, há quem defenda a existência de um tal português angolano. Temos? Sobre isso continuaremos mais adiante.

Não havendo grandes estudos oficiais no que se refere a políticas linguísticas na Angola independente, a partir dos quais teríamos indicadores para avaliar eventuais êxitos ou desvios na sua aplicação, resta assumir que qualquer exercício de previsibilidade do uso do português é ainda mais complexo. E já sabemos que nem valem a pena incursões ao passado, conhecendo como conhecemos a história da chegada da língua, que era até há bem pouco menos de 40 anos instrumento de aniquilação identitária dos povos das então colónias portuguesas, a coberto de uma tal expansão da civilização europeia.

Adoptado o português como idioma oficial, que é inquestionavelmente a língua materna de milhares de angolanos, a questão passa a ser a forma como esta dialoga com os demais idiomas de matriz africana, entre Bantu e não Bantu, nomeadamente o cokwe, fiote, helelo, khoisan, kikongo, kimbundu, ngangela, nhaneka-nkumbi, umbundu, oxindonga, oxiwambo, e o vátwa. E se o leitor nos permite problematizar um pouco sob o axioma de que cada língua veicula uma cultura, a questão seria: que cultura veicula a língua portuguesa numa sociedade multi-étnica e linguística? Bem, é em nome da cultura, que é por vocação um fruto da partilha, que teremos de evitar radicalismos e complexos, sejam eles de inferioridade ou de superioridade, pois as sociedades são dinâmicas e o fenómeno linguístico é inerente à interação dos povos.

Quando falamos do diálogo que deve existir entre as línguas, é tendo precisamente em conta o cuidado necessário para que o status dado a uma língua, que geralmente corresponde a determinado grupo social, não represente a subjugação de outros. Em tempos, um notável intelectual desabafava pelo que interpretava como sendo um sinal da subalternização institucional das nossas línguas nacionais. Não lhe pareceria, pois, razoável a prática de haver sempre um tradutor para estrangeiros que falem à imprensa ou ao parlamento e, entretanto, quando chega a vez de anciãos e autoridades tradicionais, terem de o fazer num português em que por vezes mal se expressam e compreendem, com todo o desconforto que isso implica.

Como defendeu em 2003 a brasileira Eveli Sengafredo, na tese de pós-graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, “a língua constitui-se das mesmas forças políticas, sociais e culturais que produziram as diversas civilizações e culturas do mundo. Ela ocupa uma crucial posição na interacção social, sendo um agente importantíssimo de transmissão de valores sociais e culturais”.

Já existe o português angolano? Há quem defenda que sim, mesmo até com base na linguagem literária que incorpora cada vez mais termos e expressões tipicamente do nosso linguajar, como por exemplo, “é maka grossa me apanhar a pata”. Mas isto basta para legitimar a existência de uma variante angolana? Como caracterizar a pronúncia padrão dos locutores noticiosos, o sotaque europeu? O certo é que o português angolano não existe, tão-só porque não se estabeleceu uma norma própria, oficial.

O futuro do português, quanto a mim, passa por assumir de maneira integradora o seu papel de língua oficial relativamente às outras de matriz africana. Impõe-se um rigoroso trabalho de estudos linguísticos e antropológicos, de modo a valorizar a correcta grafia da toponímia e a essência proverbial dos nomes africanos. Insistir-se na substituição forçosa do “K” pelo “C”, mesmo quando se trata de algo tão representativo como o rio Kwanza ou a província do Kwando-Kubango, pelo magro argumento das confusões por a língua oficial ser avessa às consoantes “K, W, Y”, tão comuns nas línguas Bantu, só vai atrair ainda mais recalcamentos. O português tem de dialogar!

Gociante Patissa, Luanda 25 Junho 2014 (licenciado em linguística, especialidade de inglês)
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