A passagem de
ano constitui norma geral, oportunidade para a realização de reflexões e/ou
balanços, quer sejam pessoais ou colectivos sobre o desempenho de uma pessoa,
família, ou instituição (pública ou privada), bem como serve para a definição
de perspectivas, geralmente carregadas de elevado optimismo, seguindo o princípio
de que “para o ano será melhor”. Esta prática é alargada à dimensão do País em função
da dinâmica de desenvolvimento que se imprime.
Vivemos
nestes dias com muita expectativa, pois uma série de eventos marcantes deverá
ocorrer nos próximos dois ou três anos. Em 2012 estamos a viver a atmosfera do
ambiente pré-eleitoral, que nos levará, dentro de dias, para o eleitoral e no
dia 31 de Agosto todos os cidadãos angolanos serão chamados para exercer o
direito de eleger e ser eleito para os cargos públicos, conforme consagrado na
Constituição e legislação específica. Em 2013, de acordo com as previsões,
realizar-se-à o Censo Geral da População, o primeiro desde a independência
nacional, uma vez que o último foi feito em 1970. Em 2014 está prevista a
realização das primeiras eleições autárquicas, que marcarão efectivamente a
consolidação do funcionamento dos orgãos locais do poder local. Portanto são
eventos que marcam profundamente a vida de qualquer cidadão e que podem
determinar (para o bem ou para o mal) o rumo de desenvolvimento a ser seguido
pelo País.
A relevância
destes eventos reside no grau de influência sobre a vida de cada um de nós e
sobre a do País de forma global. A realização das eleições gerais marca de
facto o início da normalização do processo democrático com a segunda ida (consecutiva)
às urnas. O Censo Geral da População permitirá saber quantos somos de facto, o
que poderá contribuir para a elaboração e execução de políticas públicas
assentes em dados demográficos reais, deixando para trás as estimativas. A
realização de eleições municipais constituirá o passo importante para o
alargamento da participação e engajamento do cidadão na vida pública e a
dinamização de processos auto-sustentados de desenvolvimento. É verdade que
cada um de nós, cidadãos angolanos anseia viver numa Angola melhor. Assim, o
que vou expressar adiante é não só a minha expectativa e anseio em relação ao
País de todos nós, mas acredito o de muitos cidadãos que pretendem ver “Angola
um País bom para se viver”, o que nos faz sonhar. Por isso, ainda é o meu sonho
ver Angola a crescer pelo que vou expor algumas ideias, que acredito, muitos
alinharão e outros não.
Espero que na próxima
legislatura um maior número de titulares de cargos públicos seja verdadeiros
servidores e não se sirvam dos cargos públicos para benefício individual e que
o processo de prestação de contas da Governação não seja feito apenas ao nível Central,
mas também pelo Governo local, sem exclusão desde o Provincial, Municipal e
Comunal.
Espero também
que os diferentes espaços de participação instituídos tanto ao nível nacional
como ao nível local, como o CONSAN (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional), os CACS (Conselho de Auscultação e Concertação Social), Conselhos
da Juventude (nacional, provincial, municipal e comunal) e outros
espaços/fóruns sejam dinamizados e/ou reforçados contribuam para o
desenvolvimento sustentável do nosso País.
Espero que um
maior número de Organizações da Sociedade Civil cumpra com os processos de
gestão democrática por meio da realização das suas assembleias gerais, renovação
de mandatos dos seus órgãos sociais de acordo com os seus estatutos e exercitem
a transparência com a publicação dos seus relatórios de actividades e de
contas, de modo que se alarguem as referências e exemplos de boas práticas.
Ainda é o meu
sonho ver os nossos legítimos representantes – os Deputados que iremos eleger –
interagirem com o seu eleitorado auscultando e dialogando com aqueles que os
elegeram e a apresentarem preocupações ou pontos de vista sustentados com
evidências concretas, resultantes da maior interacção com o seu eleitorado.
Espero que os Deputados sejam a voz do Povo. Espero que os Deputados dos
Círculos Provinciais estejam disponíveis para receberem os cidadãos e que seja
do conhecimento público o local de funcionamento dos seus Núcleos Provinciais e
os respectivos horários de atendimento ao cidadão eleitor.
Ainda é o meu
sonho ver aumentadas as liberdades dos cidadãos, de modo que o direito à
manifestação seja respeitado tal como está constitucionalmente consagrado; a
greve seja vista como um dos mecanismos disponíveis para o Trabalhador poder
reivindicar a observância dos seus direitos, quando as opções de diáloga não
produzam resultados positivos e não seja entendida como acção “reaccionária”
dos inimigos da pátria. Espero que o maior número de cidadãos angolanos alargue
as oportunidades de escolha de acesso à informação quer seja escrita,
televisiva ou radiofónica. Espero também que o debate e troca de ideias se
intensifique, ainda que contraditório, pois como aprendemos em filosofia “o
novo é antagónico do velho” e o “contraditório gera desenvolvimento”.
Espero que na próxima
legislatura o crescimento económico seja visível na mudança para melhor – das
condições de vida dos cidadãos – através do aumento da renda, da redução do desemprego,
da extensão do ensino secundário (sobretudo o 2º Ciclo) nos territórios em que
a sua densidade demográfica o exija e que implementação de políticas públicas
contribua para o estancamento do êxodo rural juvenil.
A agricultura
merece uma atenção especial, de modo que se deixe de importar produtos que
podem ser cultivados localmente. Não podemos continuar a consumir tomate,
cebola, batata rena importados, para citar apenas estes. Para o efeito, além da
agricultura empresarial, é de suma importância o apoio ao desenvolvimento da
agricultura familiar, que na prática é responsável pelo abastecimento de grande
parte dos alimentos e não só, como ficou provada com a experiência de outras
latitudes. Espero que a nossa agricultura não dependa apenas das chuvas, mas
aproveite o grande potencial hídrico que possuímos, mas prescindindo dos
“elefantes brancos” consumidores de elevadas somas monetárias e valorizando as
pequenas unidades familiares.
Ainda é o meu
sonho ver Angola com um sistema de educação de qualidade, capaz de formar
quadros de reconhecida competência técnica e de elevado nível ético. Angola
deve ter um sistema de saúde melhor que o actual, que não permita que as
pessoas morram às portas dos hospitais e a exportação desnecessária e
involuntária de capital em busca de ofertas de melhor qualidade como tem
acontecido.
Espero que o
património histórico-cultural do nosso País não seja destruído em nome da
modernização, como aconteceu com os edifícios das Estações do Caminho de Ferro
de Benguela, mas convivam o antigo e o novo para que as novas gerações as
tenham como referências do nosso passado recente.
Espero que na
próxima legislatura as sessões de trabalho da Assembleia Nacional sejam
transmitidas na íntegra e em directo pelos Órgãos Públicos de Comunicação Social
de maior abrangência, como o são a TPA e a RNA. Um bom exemplo a seguir é a
experiencia brasileira, que uniformiza a transmissão da propaganda partidária
ou a transmissão dos discursos de Estado em todas as Emissoras de Televisão.
Espero também que a imprensa comunitária escrita, mas, sobretudo radiofónica
comece a ser implantada para se transformar num dos vectores de promoção do
desenvolvimento do País, por meio da democratização do acesso à informação e ao
conhecimento.
Espero que seja
apresentado aos cidadãos e cidadãs Angolanos e Angolanas o balanço final da
execução do Programa de Governo saído das eleições de 5 de Setembro de 2008.
Por fim, mas não
por último, espero que aqueles que não ganharem as eleições não se atenham
apenas ao fantasma da fraude, mas saibam reconhecer as suas fraquezas,
respeitem a decisão de quem tem o poder soberano – o Povo Angolano – e saibam
identificar os ganhos globais para o País.
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Eu também espero que os futuros políticos, não se sirvam dos cargos públicos para benefício individual e que os governos locais sejam mais responsáveis. Durantes estes longos anos devem ter aprendido a governar. Acredito que temos grandes homens para governar esse imenso País.
Abraço
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