PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Festival de Poesia no Huambo 2016 | A VEZ, A VOZ, A LUZ, O DRAMA

Festival de Poesia no Huambo 2016 | SOCIALIZANDO

Morreu Shimon Peres, presidente de Israel, até ao momento o único que alguma vez fotografei e que passou por mim a uma distância de pouco menos de dois metros. Shimon Peres era tido (até mesmo pelos palestinianos) como comedido e conciliador. Guardarei dele a emblemática simplicidade com que interagiu com escritores e livreiros numa sala com mais de duzentos participantes em 2013, apertando ao mão a muitos na cerimónia da entrega do galardão da 26.ª Feira do Livro de Jerusalém

Feira do Livro em Jerusalém homenageia escritor espanhol Antonio Muñoz Colina. Cerimónia de abertura presenciada pelo presidente israelita, Shimon Peres

S. Peres e escolta.

Abriu as portas ao público a 26ª edição da Feira Internacional do Livro em Jerusalém, capital de Israel, aproximando editores, escritores e livreiros de 14 países da África, Europa, Ásia e América. Angola, Brasil e Portugal partilham o pavilhão da comunidade de falantes da língua portuguesa.

No discurso de abertura, o chefe de estado israelita e Prémio Nobel da Paz, Shimon Peres, destacou a aspiração de fazer de Jerusalém “a capital do livro”, ao que associou a relevância da “paz no coração de cada um”. Em boa forma física, o octogenário usou do bom humor para a advertência que se impõe quanto ao cultivo do hábito de leitura. “Na era do facebook, ainda se podem ler livros em Jerusalém”, referiu.
  
Instituída em 1963, a Feira Internacional do Livro em Jerusalém tem periodicidade bienal, sendo que cada ocasião premeia um escritor cuja obra “expresse a ideia de liberdade do indivíduo na sociedade”. Na presente edição, coube o galardão ao espanhol Antonio Muñoz Colina, 57 anos. Colina sublinhou que “a literatura não é produzir conteúdos”, pois “contar histórias não é senão um meio de nos mantermos vivos”.

A. Colina
Avaliado em dez mil dólares americanos, o prémio consagrou também Bertrand Russel (1963), V.S. Naipaul (1983), Mario Vargas Llosa (1995) e António Lobo Antunes (2005), para não nos alongarmos na lista.

A Feira Internacional do Livro em Jerusalém decorre até à próxima sexta-feira, 15/02. No pavilhão da língua portuguesa, o espaço será ainda animado com a presença dos escritores José Luis Peixoto e Lídia Jorge (Portugal), Frederico Ningi e E. Bonavena (Angola), entre outros.

Gociante Patissa, Jerusalém 10 Fevereiro 2013.

Festival de Poesia no Huambo 2016 | IRREVERÊNCIA

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Repassando | Roderick Nehone lança livro de contos esta quinta-feira em Luanda

No quadro da parceria entre o Camões/Centro Cultural Português e a Leya/Texto Editores, será lançado no dia 06 de Outubro próximo (5ª feira), pelas 18H30, no CAMÕES/CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS (Av. de Portugal, 50) a obra mais recente do escritor RODERICK NEHONE "A CARTEIRA LUÍSA DYLON e Outros Contos".

Festival de Poesia no Huambo 2016 | EXPRESSÃO

Huila
Huambo
Benguela
Kunene

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Just a question

Cada vez que levo o carro à revisão, volto de lá com o meu lado resmungão afiado. Mas é sempre a mesma coisa. Depois de algumas horas, a "revolta" abranda, para ressurgir no outro ciclo dos cinco mil quilómetros. Se calhar porque serve de consolo pensar que as dezenas de milhares de kwanzas que do salário retiro servem para sustentar os compatriotas funcionários e técnicos de lá da concessionária. Mas a ser verdade que a Toyota vai despedir dois terços do seu pessoal, conforme se ouve na imprensa, assim ainda, me façam só o favor de esclarecer: o preço da revisão vai baixar, já que passa a estar menos mão-de obra a pegar no meu carrito? Haka! Ou, pesando bem, não teremos só uma esquina qualquer a vender veículos made in Angola, que é para "chapadar sem mão" os nipónicos? Assim já a tal coisa é o quê que eles têem que nós não temos afinal? hahahaha? hahahaha

domingo, 25 de setembro de 2016

Por hoje é tudo

Caiu o pano sobre a quarta edição do denominado Festival Nacional de Poesia, realizado esta noite na cidade do Huambo. Tiramos notas e fizemos o registo fotográfico do evento, que combinou o recital de poesia com breves números de música e humor. Amanhã publicaremos texto e as imagens. Até lá, façam o obséquio no âmbito da nossa boa cooperação e vossos bons oficios e magnanimidade nos bons augúrios com vista a um desiderato inequivocamente atendível de vossos servos... ou seja, façam-nos o favor de desejar bom regresso à reportagem do nosso blog www.angodebates.blogspot.com
Obrigado hahaha

Jovens que fazem a diferença no deserto informativo | A quatro mãos se constrói o «Portal do Uíge e da Cultura Kongo»

É quase impossível pesquisar no espaço cibernético sobre a província do Uige e suas gentes sem dar de caras com o contributo do «Portal do Uíge e da Cultura Kongo», acessível no endereço www.muanadamba.net. À parte a agência de notícias Angop e o Jornal de Angola, ambos estatais e a funcionar em correspondência para as suas sedes em Luanda, aquela província do norte de Angola não foge à regra. Não há no sector privado veículos de produção e difusão de conteúdos locais.

À margem dos bastidores do Festival de Poesia do Huambo, a reportagem do Blog Angodebates aproveitou a oportunidade para abordar um dos rostos do portal «Uíge e da Cultura Kongo», o também escritor Vrackichakiri Abelardo, 26 anos, autor do livro «Cicatrizes do Silêncio», editado em há dois anos pela chancela brasileira Omnirá.

Aberlardo, detentor de um pequeno empreendimento comercial, conta que o portal foi lançado há cerca de sete anos e é suportado por custos do seu próprio bolso e do de seu parceiro de nome Sebastião Kupessa, actualmente a residir na Suíça.

«O objectivo é divulgar a cultura do Uíge e de uma forma geral a Bakongo», revela Abelardo. Com uma vertente generalista, o portal oferece notícias, ensaios científicos e curiosidades. O portal é também consumido por cidadãos residentes, sobretudo pela parceria com o governo local no sentido de ter acesso a fontes e divulgar eventos oficiais sempre que se justifique. «Mas a maior visualização vem a partir de estudantes do Brasil, Portugal e um pouco Também em França. São países que dedicam mais interesse em estudar a cultura Bakongo».

O êxito do projecto já levou os seus mentores a pensar sobre mudar o nome, considerando alargar o escopo de quem se propõe tratar da cultura do grande reino do Kongo, que inclui, só no território de Angola as províncias fronteiriças do Zaire e Cabinda.

Gociante Patissa (texto e foto). Huambo, 25 Setembro 2016
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Pelos 104 anos da cidade do Huambo | Festival de poesia reúne declamadores e trovadores de várias províncias

Duas dezenas de artistas, entre declamadores e trovadores, animam a quarta edição do designado «Festival Nacional de Poesia», a partir das 18h30 de hoje (25/09) na Escola Comandante Bula, cidade do Huambo. Idealizado por Chico Pobre e co-produzido pelas representações do Movimento Lev’arte de Luanda, Benguela, Malanje, Huila, Kuando Kubango, Namibe e Kunene, o evento enquadra-se nas festas do 104.º aniversário da cidade. 

Há dois anos que Agostinho Sanjambela deixou temporariamente Benguela, onde tem residência fixa, para frequentar na capital do país o curso de música no Complexo Escolar de Artes (CEART). Questionado sobre a razão de se juntar ao festival, o trovador é objectivo: «Por causa da poesia. Desde então amo a poesia. Faço música por causa da poesia. As letras são poesia.» O festival vai na sua quarta edição, Sanjambela participou em três. Para si, a importância está em «divulgar a arte poética, já que esteve a desaparecer. Então o que estamos a fazer é dar esforço para essa arte vir ao de cima, porque é uma área intelectual e útil», conclui.

Quem também se junta à festa é Ras Nguimba Ngola, vindo de Luanda. A sua expectativa é que «seja um evento melhor que a edição do ano passado, no sentido de se enfatizar mais a poesia em si. Não é desprimor às outras artes que se juntam ao evento, que são conexas em termos de modalidade artísticas, tais como o humor e a música, mas a poesia deve merecer maior destaque. Até para darmos visibilidade a outros novos talentos que se vêm revelando» , sublinhou.  

Da província da Huila, cidade do Lubango, veio um grupo de seis, composto por Justina Kibeka, Manuela dos Santos, Eugénio Manuel «Velho» , Etsan Fortunato, Aderson Cirilo e Justino Kumena. Percorreram mais de trezentos quilómetros de estrada para apresentar um só poema. A reportagem do Blog Angodebates, em jeito de provocação, indagou se vale todo o esforço para não mais de cinco minutos de palco. «A alegria não está simplesmente no nosso momento, mas em trocar experiências com outros artistas e contribuir na organização», desdramatiza Justina Kibeka.

Da parte dos anfitriões, ouvimos o coordenador Provincial da ALCA (Associação Literária e Cultural de Angola) Huambo, Mendonça Jonatão, para quem «o festival, partindo da intenção de transformar o Huambo na Capital angolana da poesia, vem dar um impulso para a concretização disso mesmo».
Reportagem: Gociante Patissa (texto e fotos)

(arquivo) Citação

 "Quem faz o jornalismo acontecer são as sociedades."
(Ernesto Bartolomeu, quando questionado sobre a relação entre o jornalismo e a democracia, programa Vivências, da Rádio Mais, 25.09.14)
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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Diário | Há razão maior?

"Vais aonde a estas horas tu?"
"Ter com ela."
"Mas ela quem?"
"Caso não tenhas reparado ainda, hoje ela está cheia..."
"Cheia? Podes traduzir?"
"Vou ter com a lua. Dizem que mora no fim da madrugada em dias de lua cheia.."
"Mas para quê?"
"Cobrar a manivela..."
"Manivela? De quê?"
"Do tempo. Recuar até à adolescência, ou então saltar para a idade da reforma..."
"Mas porquê virar as costas ao presente?"
"Ora essa, porque... 'atingi do zero', como outro. 'Não sou, nunca fui'. Há razão maior?"
Gociante Patissa (com dois versos de A. Neto)

Lugares para recordar (Places to remember) | Boxmoor, Inglaterra/England

Puto do Cais

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Diário | Foi apanhada a bruxar?

(I)
"Excelência Camarada Comissária! Quero expressar elevada gratidão pela vossa calorosa saudação, independente de já saber que não venho por bons motivos…”
“Nada a gradecer, camarada. Saudações patrióticas e revolucionárias sempre!”
“Muito bem. Vamos cortar mato. Eu me chamo Romão Pedradura Óscar. Camarada Pedradura, para mim, é suficiente! Estamos em guerra, e a camarada já sabe…”
“Sim, sim. Tácticas de baixa visibilidade…”
“Exacto, camuflagem em tudo. Como já disse, sou o camarada Pedradura, enviado do Adjunto Instrutor do Contencioso Administrativo. Venho da província. Continuando, chegou-nos o incidente que envolve a Camarada Comissária Comunal. Muito grave! Já falamos com os nossos camaradas da informação para não sair público o assunto. Assim venho compulsar a gravidade da infracção cometida e os efeitos colaterais da mesma.”
“Mas…”
“Se não se importa, chefe, gostaria que não me interrompesse…”
“As minhas desculpas, camarada.”
“A camarada sabe, do ponto de vista da palavra de ordem e programa director nacional,  portanto domina que 1987 é o ano do Saneamento Económico e Financeiro (SEF), certo?”
“Sim, sim, camarada Pedradura.”
“A camarada sabe que isto significa valorizar os quadros a quem a Nação confiou a máquina da produção e distribuição junto do nosso povo, certo?”
“Sim, camarada Pedradura…”
“Mas então, onde é que esteve a disciplina quando praticou a gravosa infracção? Posso colocar na sindicância que a camarada está arrependida?”
“Não! Arrependida, não.”
“Não?! Será que ouvi bem? A camarada quer mesmo que eu transmita à instância superior que não se arrepende de agredir o homem da Empa, a loja do povo?”
“Camarada, ponha no relatório que o homem do comércio levou duas bofetadas minhas mais um soco do nariz, por bater uma viúva. E em mulher, reafirmo, não se bate.Violência, na minha comuna, não!”
“Mas ele nunca foi desta conduta. Fez mesmo isso? Posso-lhe chamar?”

(II)
“Camarada Delfim, como vai?”
“Mais ou menos, chefe. A vista ainda está vermelha e o nariz dói com soco da chefe.”
“Olha, por acaso a agressora diz…”
“Desculpa, camarada Pedradura, com todo o respeito, ‘agressora’, não!"
“Pronto. Disse a camarada Comissária que teve essa atitude de te dar surra, ainda por cima aos olhos de todo o povo, porque o amigo Delfim agrediu uma mulher.”
“Bem, chefe, vai-me desculpar, mas é verdade.”
“A mulher que o camarada Delfim agrediu tentou roubar víveres?”
“Não, chefe… Não, chefe…”
“Desrespeitou a bicha? Disse alguma palavra reacionária contra o governo, os heróis ou as causas da nossa luta? Era infiltrada e/ou colaboradora do nosso inimigo?”
“Não, chefe… Não, chefe…”
“Foi apanhada a bruxar?”
“Não, chefe… Não, chefe…”
“Mas, ó caramba!, afinal que mal fez a mulher para lhe partires a bacia com surra?”
“Me falou ‘quero ser tua mulher; me namora’. Ó chefe, uma mulher é que vai me conquistar?!”
Gociante Patissa (adaptação) Benguela, 21 Setembro 2016
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(arquivo) Conto | Uma prenda demasiado profissional


Ó profissional, espera ainda! Gritava a mulher com alguma autoridade (ou ao menos determinação) na voz. Parei de imediato. E lá vinha ela de salientes ancas em natural coreografia. Na primeira vez que me chamaram por esta alcunha, Profissional, reagi com um certo congelamento, não sabendo se aceitava ou se rejeitava. E tive mesmo de ir a correr para o Dicionário, alcunha de um bar lá do bairro, onde professores e jornalistas gostavam de desfilar o peso de seus diplomas, regados com aguardente, vaidades e cerveja nacional, como se conseguissem pagar o que consumiam sem ser a crédito e no fim do mês. Profissional é quem vive do que faz, disse-me o primeiro. Fiquei na dúvida, dado o avançado estado de embriaguez do homem. Ora, meu caro, e disso sabe todo o gajo que um dia sentou diante de um bom professor, profissional é quem tem sofisticação no saber e nos meios para a tarefa que se propõe. E mal disse a última palavra, o segundo orador caiu em coma, pelo que fiquei sem saber se o levava a sério ou não. Aí, abordei o terceiro, dono de uma grande boca, todavia muito mal aproveitada, tão taciturno que era. Se calhar pouco perderia a mãe dele se parisse um mudo. Profissional é aquele que faz das técnicas a sua segunda natureza. Confuso, dei um soco na parede e acendi um cigarro. Porra, pá! Como é possível haver tantos tentáculos teoréticos sobre uma só palavra? Por fim, no triângulo optei pela terceira acepção, isento embora de quaisquer imputações autorais. De maneira que rapidamente me acostumei à alcunha. O meu nome de registo, já agora não sei se o povo sabia mas também tenho, passou a ser nada mais do que roupa de casa. O cliente tem sempre razão, não é isto? Nunca mais te vi, ó Profissional!, exclamou a mulher, pronta a me dar os dois beijos socialmente previstos. Peço desculpas, desencorajei-a eu, estou a transpirar. Deixa-te de formalidades!, por acaso queres vestir as culpas pelo sol? Ah, pois, fico descansado pela compreensão. Mas também, prosseguiu ela, fazes bem: quem muito aparece… aborrece. Estás ocupado? Até, não. Venho de uma reportagem. Ainda bem, quero uma sessão agora em minha casa. Um momento, deixa ver se tenho comigo o flash. O resto não era nada que uma lente 50 milímetros e o ISO alto não resolvessem, na ausência do tripé. E pronto, confirmados os acessórios, fui com a cliente, mau grado a fome. Eram 13h00. O quarto dela era um espaço pequeno (pouco favorável para o efeito de profundidade de campo) mas muito bem arrumado, como se andasse o tempo todo à espera de ser fotografado. Com a câmara em punho, anunciei-me pronto. Despiu as calças suavemente. Ficou só de blusinha de alças e a roupa interior. Não ligues, sou peluda. Como bom profissional, mantive-me inerte. Tossi um pouco só, corrijo. Tinha uma vaga ideia do que se escondia atrás do pequeno pedaço de tecido entre virilhas. Ela deitou-se de barriga para o ar e dobrou o joelho direito. Não mais de trinta aniversários, contra cinquenta meus. Disparei a primeira. A seguir, abraçou forte a almofada mas, estranhamente, sem desviar o olhar dos meus olhos. Ocorreu-me ter sentido algo em mim a ganhar volume, porém, sempre profissional, não liguei. Despiu a blusa em gesto brusco, expondo um par de cones dignos de se lhes assentar os lábios, só que os olhos de fotógrafo são bem treinados: um no visor, outro tapado para não perder o foco. No ar, o cheiro a velas, eram quatro ardendo, e a um perfume com aroma de tentação. Virou-se de costas e baixou para metade das nádegas a cintura do fio dental. Aí, trémulo, talvez de fome (porque, como profissional, outra sensibilidade que não fosse de natureza estritamente técnica não podia ser), escapou-me a máquina das mãos. Ela abraçou-me apertadinho, selou uma nuvem de batom no meu colete de trabalho e ordenou: carrega no botão. Qual deles? Perguntei. O profissional… olha que o meu pai daqui a pouco chega, e ele é amigo de catanas, cuidou de esclarecer. Apenas uma cortina transparente isolava o quarto dela do resto, cujo compartimento de entrada era a sala comum. Resgatei a máquina, quando já ia indisfarçável a saliência na braguilha, mas não perdi a pose, afinal sou profissional. Acho que está tudo. 10 mil kwanzas a impressão e o digital. E ela: Ah, a sessão foi uma prenda minha do teu aniversário...
Gociante Patissa. Benguela, 19 Maio 2016
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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Quando você se olha de cima a baixo e por fim... se xota sozinho

Estive a pensar em elevar as minhas ilusões, mas quando espreitei os requisitos de admissão a membro do Rasgado’s Jazz Club, de carácter associativo cultural e comercial, caí para o lado. E antes que me coloquem perguntas, ponham-se no lugar de quem sacode a poeira da roupa. Leiam só, se faz favor:

"1. A joia é paga uma única vez no valor inalterável de AKZ 250.000,00 (Duzentos e Cinquenta Mil Kwanzas).
2. A quota é paga mensalmente no valor de USD 100.00 (Cem Dólares Norte Americanos) ou em Kwanzas ao câmbio do dia (paralelo)."

A proclamação do Rasgado’s Jazz Club realizou-se no dia 17 de Setembro de 2016, na Baía Azul, estando a presidência em exercício da Mesa da Assembleia Geral a cargo do empresário Adérito Areias. A informação foi posta a circular nas redes sociais pela página Chela Press, do jornalista Francisco Rasgado, o mentor.
A sua excelência eu coube xotar-se só já sozinho. Pronto... hahaha

Canto terno

Citação

"Felizes aqueles cujos dias correm com a insipidez de uma crônica vulgar. Geralmente os dramas da vida humana são mais toleráveis no papel que na realidade." - Machado de Assis, escritor brasileiro, (Junho de 1839 — 29 de Setembro de 1908)

Lugares para recordar (Places to remember) | Tel Aviv, Israel

(arquivo) Oratura | "KOPITULE, OCO WOLALEKELE" (adágio Umbundu)

"KOPITULE, OCO WOLALEKELE" (adágio Umbundu) - passar por casa de alguém para com este caminhar, é porque houve convite prévio.
TENTATIVA DE ENQUADRAMENTO: A consideração e a confiança, que nos permitem incondicionalmente contar com alguém, cultivam-se.
Salipo ciwa (passem bem)
www.ombembwa.blogspot.com

Lugares para recordar | Praia do Tchamumi, Baía Farta, Benguela, Angola

domingo, 18 de setembro de 2016

Lugares para recordar | Quedas de Kalandula, Malanje, Angola

Lugares para recordar | Serra da Tundavala, Lubango, Angola

Citação

"Eu não sei por que é assim que, quando a polícia expulsa, tem que convidar a difusão massiva. Mas os outros organismos não é assim."
(Conversa entre dois agentes na rua agorinha)
www.angodebates.blogspot.com

Repassando a informação | CONVITE PARA ANTOLOGIA POÉTICA (Não se paga a inscrição, mas também não se ganha pelos direitos)

OS MELHORES “NOVOS” POETAS AFRICANOS 2016
ANTOLOGIA. Chamada de poemas.
Estamos a recolher 1 a 3 poemas de Poetas Africanos, vivendo em África ou na diáspora (ou com pelo menos um parente Africano ) para ser incluído na Antologia OS MELHORES “NOVOS” POETAS AFRICANOS 2016. Os poemas serão de qualquer tópico ou forma, sendo de preferência com menos de 40 linhas. Porém, vamos ler e considerar poemas mais extensos. Os poemas devem ser em francês, inglês e português. Aqueles em línguas nativas ou indígenas deverão fazer-se acompanhar das traduções em francês, inglês e português.
O prazo limite para as entregas deve ser 15 de outubro de 2016.
O concurso é abrangente a todos gêneros . Embora dá-se preferência a jovens para os ajudar a crescer como poetas , estamos abertos também a mais velhos.
As entregas devem ser feitas em um só documento , incluindo também sua informação de contacto, seus países de origem e uma ''Bionota'' de não mais de 50 palavras.
Infelizmente por limitacões financeiras , não vamos oferecer aos contribuintes cópias livres, porém os poetas se beneficiarão de uma imensa exposição . Os participantes devem enviar os seus poemas para Tendai Mwanaka, Daniel da Purificação e Beto Saica nos respectivos endereços de email: mwanaka@yahoo.com, danieljose26@yahoo.com.br, betosaica@yahoo.fr

Divagações | Milagre!!!

Durante um ano andei "enlutado" pela perda do meu acervo digital fotográfico, afinal contavam-se 41 GB de clics em alta resolução que faleceram num disco duro externo no ano passado. Não é que hoje, ao procurar sei lá o quê num segundo empoeirado e desvalorizado disco duro externo, dei de caras com o "backup" das malditas fotos!... Afinal existia salvaguardada uma segunda via no velhinho dispositivo adquirido em 2010 e eu não fazia a mínima ideia. Milagre é pouco! E por falar em milagres, entre o acervo recuperado, constam as duas sessões fotográficas com a amiga Milagre Cruz (de feliz memória), uma na Baía Farta e outra na Baía do Santo António. Como dizia alguém, "we're rich!!!".

sábado, 17 de setembro de 2016

Com as devidas ressalvas à lógica do terceiro excluído...

(Arquivo) Oratura | "OHOMBO YACITA UTEKE, OCIVALO TUTALA LOMENLE" - (adágio Umbundu)

"OHOMBO YACITA UTEKE, OCIVALO TUTALA LOMENLE" - (adágio Umbundu) - pariu a cabra de noite, é pela manhã que descortinamos a aparência do filhote).
Enquadramento: geralmente, é um apelo à paciência em caso de dúvida, no sentido de que a verdade vai, mais tarde ou mais cedo, emergir.

(Arquivo) Oratura | "CAVONGA KEPYA, KAPULE KIMBO" (adágio Umbundu)

"CAVONGA KEPYA, KAPULE KIMBO" (adágio Umbundu)
PROPOSTA DE TRADUÇÃO: Ao fraco desempenho na lavoura, vá questionar a aldeia.
ENQUADRAMENTO: A energia no ambiente do lar (condição psicossocial do indivíduo) costuma ser determinante para o êxito/fracasso no desempenho de tarefas profissionais.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Pergunta do repórter TPA (Revista Musical)

"Nsoki, sei que ganhaste um prémio no Angola Music Awards, o que deixou alguns invejosos com a pulga atrás da orelha, mas na verdade foi um reconhecimento merecido, certo?"

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Sua excelência eu (quando olha para o que seria futuro)

Divagações de arquivo | Conjuntura

Na comunicação institucional e perante terceiros, calha às vezes a mensagem chegar deturpada. Aí, um líder diria: "Onde foi que falhou a comunicação"? Já um chefe, apenas chefe, diz, de pé e inebriado pelo charme sensual da secretária, ao visitante aparentemente inferior que solicita esclarecimento: "Mas quem é o director aqui?!" Oh, minha Angola e alguns critérios de elegibilidade para os cargos, tão distantes da confiança no mérito...!

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Obra da Rádio Ecclesia sofre duro golpe | Morreu o Alberto Haimbili... sem direito para tal

O Alberto Haimbili Kambali faleceu. Não devia. Não tinha esse direito. Nem mesmo com a fatal certeza de que basta vivermos para morrer. Ficou mais empobrecida a obra da Rádio Diocesana de Benguela com a perda do jovem missionário católico que era o mais apaixonado repórter para assuntos religiosos. Deu o último suspiro, vítima de doença, ontem (13/09), no Hospital Geral de Benguela. Ficaram mais empobrecidos os amigos e as esperanças de com ele contar quando um dia este projecto da Rádio Ecclesia começasse a emitir. Soube há pouco que o corpo deve seguir ainda hoje para a província da Huíla, de onde era natural. Meu mano, como dizemos no verbo livre, foste um "granda gajo". Grato pelas lições de simpatia e alto nível de educação e simplicidade (foto do mural dele)

Antecipando más interpretações | OFICINA LITERÁRIA DO BLOG ANGODEBATES TERMINOU EM AGOSTO

Enquanto responsável e operário da rubrica Oficina Literária, lançada para festejar o décimo aniversário do blog www.angodebates.blogspot.com, através da qual nos propusemos voluntariamente a receber textos de leitores e colaboradores para mais tarde serem publicados, na sequência de um trabalho de bastidores no campo da revisão, correcção e sugestões de ajustes de natureza estrutural e estética literária, gostaria de esclarecer o seguinte:

1) A rubrica iniciou em finais de 2015 e terminou precisamente no mês de Agosto de 2016, o da fundação do Blog há uma década;

2) Eu gostaria imenso, mas não podemos continuar com o exercício e desta forma dedicar o tempo necessário para cada solicitação que chega via mail ou redes sociais para rever e opinar sobre textos. A questão é que a ocupação profissional do editor do Blog não é liberal, pelo que o tempo para conciliar as várias "frentes de combate" (ganha-pão, fotografia, linguística, pesquisa, família, turismo, ler e escrever) não é fácil de achar;

3) Como sei que facilmente seria acusado de fazer parte da lista dos que "não apoiam" os novos talentos e futuros escritores, vou a tempo de deixar a garantia de sugerir revisores profissionais a quem estiver interessado. Da última vez que me informei, os revisores (de inquestionável qualidade) cobravam dez dólares por cada página lida.

Antecipadamente, agradeço a compreensão e/ou "absolvição", até porque o contexto é o de amnistia geral.
Gociante Patissa. Benguela, 14 Setembro 2016

(arquivo) Citação

«Angola não pode, não deve ser construída, na perspectiva de que quando está bem, quando há paz e sossego e tranquilidade, por aqui andamos todos, e, à primeira presunção de susto, “ala, que se faz tarde, vou dar um giro e quando tudo acalmar eu volto…”. (…) Chamemos-lhes “patrioteiros”. Têm o direito. Legal. Jurídico. Formal. Não têm é moral…», Carlos Ferreira, In «Novo Jornal», 14/09/12

terça-feira, 13 de setembro de 2016

(arquivo) Citação

"Escrever é como fazer amor. Não te preocupes com orgasmo, preocupa-te com o processo" - Isabel Allende, citada in Novo Jornal, suplemento Mutamba, 13/09/2013

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Diário | Estás armado em homem?

(Último): “Então, parentes! Está tudo bem? Até é pergunta estúpida, essa saudação, né? Então como é que na sala de espera do consultório do doutor, vou pergunta se está tudo bem?!”
(Antepenúltimo): “Não liga isso… Português custa…”
(Último): “Éh, pá. Me falem ainda uma coisa, você é que o último da fila?”
(Penúltimo): “Sim.”
(Último): “Você o primeiro, né”?
(Antepenúltimo): “Correcto.”
(Último): “Então estou quase. Mas aqui não demoram muito atender, né? O doutor já chegou?”
(Antepenúltimo): “Meu mano, vai com calma, não gastes as perguntas de uma vez. Vamos ter tempo. Nós aqui, duas horas sentado… Até as nádegas estão já anestesiadas.”
(Último): “Parece que morrer cansa menos, ya? Os médicos afinal são porquê assim?”
(Penúltimo): “Os médicos e os advogados. Parece que a licenciatura deles vale cinco vezes. Eles só são licenciados tipo eu. Como se já não bastasse lhes chamar de doutor, é secar à espera.”
(Antepenúltimo): “Aí falaste! Viver é lixado, ya?”
(Último): “Mas o que é que vos trás aqui, meus manos?”
(antepenúltimo): “Assim estás a perguntar como?!”
(Penúltimo): “A minha situação – não é ser mal-educado – só eu e o médico é que sabemos …”
(Antepenúltimo): “Eu também…”
(Último): “Não fiquem mais com vergonha. Todos aqui somos homens.”
(Penúltimo): “Se é que ainda somos, né?… Meu! Lá em casa, ultimamente estou a tirar muitas negativas com a tua cunhada. O clima mesmo é aquele, mas o veio vai abaixo…”
(Antepenúltimo): “Meu problema é igual. A tua cunhada até gastou o vencimento só em lingeries, batom da cor do fogo, almofada de pétalas, mas eu entro em campo e… nada.”
(Último): “Será que é resto da febre-amarela? Não é possível, meu…”
(Antepenúltimo): “Mas em 2011 também já me aconteceu.”
(Penúltimo): “É verdade, até eu.”
(Último): “Também com vocês foi um ano antes das eleições? Pronto, eu sabia!”
(Penúltimo): “Como assim, ‘eu sabia’, compadre?”
(Último): “Quando estou na cama, hã!, aí me passa na cabeça um comício de 1992, o maior discurso do grande candidato, vês? Cheirava a victória, no fim perdemos. Aí baixa a potência...”
(Penúltimo): “Comigo é igual afinal. Candidato que falas é o velho Holden Roberto, né?”
(Último): “Qual Holden, pá?! Alguma vez fui de comer macacos como vocês do norte?! Falo do velho Savimbi. Aquilo foi campanha, sócio! Só cada discurso!... Olha, eu no um para um com a tua cunhada, era pilotar até à lua. Estes dias, o avião só cai mesmo ao lembrar a campanha…”
(Penúltimo): “Também não precisas ofender, ó seu bailundo traidor! Estás armado em homem? Nem uma simples esposa consegues satisfazer em condições.”
(Penúltimo): “Possas! Um gajo fica aqui a se abrir até das vergonhas de macho, a pensar que fala com camaradas, afinal são adversários que podem tirar proveito do ponto fraco? Por isso é que nas urnas vos demos surra! Se preparem, a campanha já começou. Vão levar, hã! Faz favor, vamos sentar com uma cadeira de intervalo. Adversários políticos não se misturam, OK?”
(Último): “Adversários ou meio-homem? Aliás, se o teu partido é governo, estás connosco atrás de reabilitação do pai das crianças porquê? Serias já a tal turbina da felicidade. Ou não?”
(Penúltimo): “Não vos conto, meu! Fui sempre director. Pensava assim: daqui a pouco administrador e um dia, quem sabe, presidente. O grande discurso do engenheiro Zédú dizer que quem ganha as eleições é que governa… Mas assim que veio o 2002 da paz é como? Ah, as habilitações do camarada são poucas, vai de bolsa aumentar os estudos?! E o cargo? Ficou lá alguém do governo de reconciliação nacional. Logo um proveniente! Haka! As eleições estão aí, eu no estudo é só reprovar… Enfim, nem com osso rinoceronte aquilo levanta…”
(Antepenúltimo): “Mas não se vendem protectores abaixo da cintura para campanhas?”
 Gociante Patissa. Benguela, 12 Setembro 2016

domingo, 11 de setembro de 2016

Crónica | Elevadores Americanos, um monumento ao desconhecido (*)

Janeiro de 2010. A chegada a Washington DC começou com pequenos percalços no aeroporto de Dulles. Na verdade, os percalços tinham começado bem antes, no voo de ligação em Newark, onde o pessoal de segurança se alarmou pelo tamanho da pasta de dentes que trazia de Lisboa estar acima do permitido, em bagagem de mão. A presença do protocolo do Departamento de Estado (um senhor simpático de casaco azul) ajudou a desdramatizar a coisa, pois um mês antes tinha sido abortada uma tentativa bombista de Mutallab, um jovem nigeriano, de pele escura e desacompanhado, como eu.

Tive a oportunidade (como poucos a quem calha anualmente) de ser indicado pela embaixada dos EUA a representar Angola no programa de Líderes Juvenis Visitantes Internacionais, durante 28 dias. Para além da troca de experiências com várias organizações, houve visitas a uma série de monumentos e sítios, em quatro estados: Washington DC, Portland-Oregon, Salt Lake-Utah e Miami-Florida.

Em Washignton DC, ressalta-se o arquipélago de melancolias que são os memoriais dos soldados mortos nas guerras. Vindos de todos os cantos e rectas do mundo, América é uma placa giratória de turistas, que não resistem, quando lá chegam, à maresia do lugar. O nosso grupo era formado por vinte elementos, de países diferentes. A visita é guiada por jovens voluntários, que emprestam a sua emoção às narrações. Certo dia, após visita ao museu da aviação, um vietnamita desabafou: «Os americanos lamentam e choram a morte de seus soldados, mas lá onde foram, que não é seu território, mataram muito mais do que o dobro do que se queixam». Tocou-me, confesso, embora seja uma verdade à vista.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

UMB: Hélvio wovoMbaka, kwenda onjimbi yimwe vo yaposoka

POR: Hélvio é de Benguela, é outro bom cantor/músico

ENG: Hélvio lives in Benguela and is another great musician

Divagações | Jornalistas proibidos de brigar com respectivos directores

Lida a primeira das propostas de Decreto Lei sobre o Estatuto do Jornalista, com aprovação agendada para Outubro, chego à conclusão que deixa de existir em Angola a figura do jornalista independente (free lance). O exercício da profissão será condicionado à obtenção da carteira profissional, que por sua vez só pode ser adquirida, entre outros requisitos, mediante declaração da entidade patronal. Ou seja, para um sector com mais interessados do que vagas, quem (ainda) não estiver vinculado a um órgão de comunicação social pode já ir repensando os critérios de escolha de padrinhos de registo/casamento/baptismo para filhos e netos, ou de genros... se for um director, ainda melhor. Brincadeiras à parte, conhecendo o potencial de conflitos diários nas redacções entre directores e subordinados, é caso para dizer que estão criadas as condições para doravante agigantar-se a porção do cinismo e humilhação, do tipo "sem a minha assinatura no teu passe, não te safas". 
www.angodebates.blogspot.com

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Para assinalar o Dia Mundial do Jornalista | DEBATE RESSALTA ENTRAVES AO EXERCÍCIO DO JORNALISMO | Polémica Lei de Imprensa será aprovada em Outubro

Jornalistas, comunidade académica, juristas e sociedade civil debateram, quinta-feira (08/09) em Benguela, sobre fundamentos filosóficos e éticos do jornalismo. Na base estiveram as limitações que se adivinham com a entrada em vigor da nova Lei de Imprensa, cuja aprovação pelo parlamento angolano deve ocorrer em Outubro próximo.

O evento, que visou assinalar o Dia Mundial do Jornalista, foi promovido pela ONG Omunga, desta vez com a colaboração do Misa Angola. De Luanda, vieram os jornalistas Alexandre Solombe e Domingos da Cruz na condição de prelectores. Curiosamente, não fizeram uma única referência positiva à futura Lei de imprensa.

Dirigindo-se a uma centena de participantes, Da Cruz apontou o jornalismo como sendo das profissões a que mais se norteia por fundamentos filosóficos enquanto valores, designadamente, a liberdade, a objectividade, a autonomia, a verdade, a justiça, sendo que a ausência de um condiciona os demais valores. “De todos, destaco a liberdade, porque não se consegue ser autónomo, nem priorizar a verdade ou a objectividade nem conseguimos ser justos no tratamento se não tivermos liberdade”, defendeu.  

Misturar ciência com política

O momento mais acalorado do debate deu-se quando o jornalista João Carlos de Carvalho reagiu à primeira prelecção de Domingos da Cruz. Carvalho aconselhou o orador a ter mais respeito no uso do palanque, considerando insultuosos adjectivos como “banditismo informativo”, com os quais tipificou algumas práticas negativas da realidade angolana. “Uma coisa é fazer política lá fora, nas ruas, outra coisa é o rigor científico na fundamentação teórica das teses”, defendeu Carvalho, para logo acrescentar: “misturar ciência com política nunca deu certo”.

Carvalho desdramatizou ainda a apreciação globalmente negativa feita do panorama informativo angolano, pois, referiu, “os valores não são absolutos e as limitações existem na Inglaterra, nos Estados Unidos ou em qualquer outra parte do mundo”.

Convidado a fazer a tréplica, Da Cruz respondeu, a trejeito, que não iria perder o seu tempo, o que suscitou risadas da plateia. Quem não deixou de rebater foi Alexandre Solombe, para quem é uma desilusão notar que a geração da independência continue a cultivar a ideia de que política é mentir. “Falar da constituição, na sua perspectiva de justiça social, é política, que não é necessariamente partidária”, defendeu.

Ainda instado a exemplificar práticas lesivas à liberdade de imprensa, Da Cruz indicou a leitura integral de notas de imprensa, o que considera imposição de uma agenda política. Da cruz entende que tal procedimento retira do jornalista a prerrogativa de julgar os factos e seleccionar conteúdos a difundir com base na própria consciência do profissional e nos critérios puramente jornalísticos. Acrescentou a isto a obrigatoriedade projectada na nova Lei de Imprensa no sentido de interromper a emissão das rádios e televisões toda a vez que o presidente da república tiver de falar à nação.

Lei de imprensa ameaça exercício da cidadania

A criminalização do jornalista foi o maior dos receios levantados. Alexandre Solombe, que lamentou a não regulamentação da lei de imprensa de 2006, mostrou-se pouco optimista quanto a um possível recuo visando a flexibilização, mesmo com alguma pressão que está sendo feita junto do governo. Cuidou de esclarecer que na mesa estão cinco propostas, mas que seleccionou duas que estão mais perto de serem aprovadas.

Solombe criticou a constituição da futura entidade reguladora da actividade, conhecida pelo acrónimo ERCA, à qual caberá o poder de atribuir ou retirar a carteira de jornalista, sem no entanto ser por profissionais do ramo. Dos 11 integrantes, só dois serão indicados pelo sindicato e dois pela oposição, os restantes sete lugares serão indicados pelo partido no poder e pelo titular do poder executivo.

Solombe advogou que as limitações que se avizinham não são apenas para o exercício do jornalismo, mas para a cidadania de modo geral, já que, a título de ilustração, “se um cidadão quiser publicar imagem de um gestor público nas redes sociais, terá de pedir antes a autorização daquele”. No dizer de Solombe, para um país que já teve leis mais flexíveis, está-se perante “um retrocesso civilizacional”.

Jornalismo comunitário esquecido por lei

José Patrocínio, o Coordenador da Omunga, que moderou o debate, fez referência à necessidade de se retomar o debate sobre as rádios comunitárias pelo papel que têem no fortalecimento do exercício da cidadania. Solombe acrescentou a esse respeito que a futura lei de imprensa não faz referência ao jornalismo comunitário.

Já Domingos da Cruz, fazendo referência a um estudo da região da SADC sobre o jornalismo comunitário, lamentou não apenas a omissão legal sobre o assunto, mas também a morte de sinais encorajadores que o país chegou a registar até há coisa de cinco anos. Foi o caso do desaparecimento de projectos comunitários de informação, sobretudo no campo da imprensa, citando os exemplos do Ecos do Henda e A Voz do Cazenga, em Luanda, bem como o Boletim A Voz do Olho, editado pela AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade) no Lobito.
Reportagem: Gociante Patissa (texto e foto)