PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Ainda não adquiriu o seu exemplar do livro de contos "O Homem que Plantava Aves"? Visite o site da editora brasileira Penalux e ajude a divulgar a literatura angolana além fronteiras

Título: O Homem que Plantava Aves
autor: Gociante Patissa (escritor angolano)
CARACTERÍSTICAS DO PRODUTO:
GÊNERO: Contos
ISBN: 978-85-5833-282-8 | ANO: 2017
FORMATO: 14X21
PÁGINAS: 184 | Pólen Bold 90gr
preço: R$35.00

Em linhas tortas (17)

A nova gestão da TPA, concretamente o segmento canal 2, liderado por Manuel da Silva, que prometeu introduzir 12 conteúdos (programas novos), aos poucos vai mostrando que é possível fazer-se televisão com recursos ao limite e que, acima de tudo, afinal também é possível oferecer qualidade contando só com técnicos angolanos (xenofobia pura! Ou não?). Alguns programas despontam pela positiva, como são os casos do "Nossa Geração" (debate conduzido por Miguel Manuel sobre temas actuantes da juventude), "Matabicho" (dirigido por Niurca, entrevista biográfica ou de perfil a diversas personalidades, só de Luanda) e aquele espaço de entrevista biográfica com mulheres de mérito. Já não diria o mesmo do "Conversa de Bar" (21h), apresentado por José Dange, que denota por enquanto, como é óbvio em principiante em coisas de apresentação em TV, uma falta de habituação. O positivo do programa, para além do cenário, está na música ao vivo. Fica-se com a impressão de o mesmo fazer apologia excessiva ao "Goz'aqui", produto comercial de humor ao qual pertence (conflito de interesses ou haverá algum compromisso de troca de serviços entre o projecto e a TPA?) O grande receio mesmo é que descambe no seu humor e voltemos a ter os mesmos excessos de Pedro Nzage e de Benvindo Magalhães. Uma das brincadeiras de muito péssimo gosto é, já não se esforçando em pronunciar bem os nomes africanos, ir troçando destes ou sugerindo que os interlocutores se apresentem apenas com os nomes "fáceis", quando podia muito bem procurar saber o significado e daí explorar curiosidades antropológicas. Não se devia nunca sugerir exotismo no nome desconhecido. A liberdade de humor, numa televisão que procura fazer um corte com produtos "plásticos" do passado, não devia tratar com leviandade aspectos não tão bem encaminhados na história do país e dos seus povos, como os da identidade/cultura. Somos por um entretenimento pedagógico. Ainda era só isso. Obrigado. Assina: sua excelência eu (que ainda não tem parabólica em casa, só vê mesmo TPA). hahaha
Gociante Patissa | Benguela, 19 Janeiro 2018 | www.angodebates.blogspot.com

Fábula infantil | A rã que quis se inchar como um boi (*)

Uma rã que se encontrava em uma lagoa viu um dia se aproximar um boi que tinha ido beber um pouco de água, e lhe chamou a atenção o grande tamanho do animal. A rãzinha era muito pequena, não maior que um limão, e ao ver o corpulento boi se encheu de inveja e decidiu se inchar até igualá-lo em tamanho.

A rãzinha enquanto ia se inchando, perguntava às suas companheiras:
- Eu já me inchei bastante para igualá-lo? Já sou tão grande como ele?
- Não
- E agora? 
- Tão pouco
- Eu conseguirei!
- Você ainda está muito longe!
 E a pobre da rã se inchou tanto que explodiu. 
Moral da história: O mundo está cheio de medíocres que, por inveja, mostram-se diante dos outros como grandes senhores.

(*) Versão atribuída a La Fontaine por Vilma Medina, no site www.br.guiainfantil.com, de uma fábula conhecida por A Rã e o Boi e que fez parte há algumas décadas do currículo de ensino angolano em nome do autor brasileiro Monteiro Lobato.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Just a question

O que perderia o país e a nossa democracia se o número de deputados (220) fosse reduzido para a metade (110)? Obgd

Em linhas tortas (16)

Se o bom do cantor torrou por sua iniciativa em média 60 mil kwanzas por dia em dois anos a se nutrir de cocaína (o que equivaleria a construir uma casa em condições, se formar nas melhores universidades ocidentais e poupar), isso quer dizer que o orçamento do vício era patrocinado, saía das vendas de CD ou era cachet dos shows? Agora há essa azáfama mediática de todo o mundo querer apoiar, o que seria bom, não fosse a exploração mediática e algum protagonismo de figuras que já apareceram num passado recente a encabeçar campanhas de apoio a músicos em estado de saúde carente (campanhas de arrecadação de bens e receitas cujo fim as famílias do interessado dizem publicamente desconhecer). O próprio Kueno Aionda, no áudio a que sua excelência eu teve acesso, promete, caso apareça apoio para a desintoxicação, ir fazendo publicações nas redes sociais, com direito a directos, do evoluir do tratamento contra a dependência. Nada mais desaconselhável, até porque isso elevaria o grau de expectativas sociais e o colocaria sob a pressão de não errar. Com a carreira a rastejar e sem o amparo dos familiares há mais de seis meses, não restaria estaleca emocional para muitas vagas de depressão e censura. Tanto quanto se sabe, uma recaída não seria propriamente a primeira dele. Se nesta fase a sociedade reagiu à revelação maioritariamente com empatia e fé, é certo que também pode vir a ser cruel numa outra oportunidade. Sou dos que aconselham o apoio mas dispensando a espetacularização do momento menos bom do rapaz, que neste momento vive "de favor" em casa de Titica. Caridade para audiência é pior que a droga, por comprometer exactamente a dignidade de quem anda vulnerável. Melhoras, Kueno, de preferência caladinho (entenda-se em baixa visibilidade). Ainda era só isso. Obrigado
Gociante Patissa | Catumbela, 18 Janeiro 2018 | www.angodebates.blogspot.com

Quando ninguém te ajuda a lamentar os assaltos que a obra sofre nem a falta de luz nem o preço dos inertes... Tudo o que você representa é fonte de kumbu. É a parte do meu país que mais entristece

Quetta

Do inglês algo curto
Crónico fraquinho meu
Não prefiro britânica nem americana
Tampouco africana
Mas a língua
Na língua de mulher
Quão belo surto!

Falou-me dela o João
E em poucos dias
O sumo de limão
Poesia e Rap em fatias de maçã
Apartamento acolhedor
Meio cá meio lá
Nos olhos dela uma névoa ainda assim
Fora não abrimos a porta ao desconhecido

Uma diáspora tão à mão
Empatia cultura geral e confidências
Varanda panorâmica
Lobito cidade em inglês
Uma grande mulher e grande
Curvas mestiças
Um cinzeiro sensual
Vestido de beatas vestidas de batom
Tanta paixão para dar
Um amante infantil em copos no rés-do-chão

Nove da noite bato-lhe à porta
Uma duas três
Tarda a resposta
Insisto e sai uma alma de rastos
Abraça-me forte como nunca dantes
Não percebo o motivo
Qual compressor de suspiros é toda gratidão
Acabava de lhe interromper o suicídio
Egoísta! Digo chateado
Desamor nenhum vale tamanho tributo

Pergunto o que posso fazer
Corre-lhe o rio olhos abaixo
“I miss a cigarret”
Tenho medo de a deixar só
Digo que é linda
Que ponha a melhor roupa
E saímos sem rumo naquela noite.

Gociante Patissa | Benguela, 18 Janeiro 2018 | www.angodebates.blogspot.com

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Excia. JLo, corrija o que está mal. Mande só o Angosat-1 regressar, yá? Então 3 semanas em órbita, e já tem makas de impotência?

Conto | A praga do sonho

Era uma vez uma terriola perdida nos intestinos do mapa de Angola e que vivia e prosperava à sua medida. Digamos, antes, à medida das suas regras de base rural, numa harmonia entre os habitantes, o meio e os recursos.

Buscavam sustento na natureza e a ela devolviam esperanças em forma de fertilizantes. Ah, e não era tudo! Alguns rituais tradicionais africanos consistiam em partilhar com o chão determinadas regalias. Era disso exemplo o meio copo de aguardente entornado ao solo para encerrar sessões de resolução de conflitos, o que simboliza dar de beber aos antepassados que testemunham o evento por meio do seu espírito e da sabedoria legada.

Práticas a coabitar (com ou sem conflito ideológico) com a capelinha ali plantada pelo então braço do regime colonial, a igreja católica romana. Coisa de ver uma autoridade tradicional em simultâneo no papel de catequista, bíblia a tiracolo e na cintura as mixórdias de manutenção do trono. A divisão social de papéis problema seria não. Depois de desmatar e desbravar propriedades para cultivo, a parte mais pesada, a lavoura, de sequeiro, ficava para a esfera feminina. Os machos da aldeia, estes talhados a bravos, conforme a lei sazonal, organizavam queimadas com fins de caça silvestre.

Quando o caudal assim permitisse, a aldeia toda unia-se em animada campanha de triturar uma espécie botânica, improvisar diques e embebedar o peixe. Uma festa! Mas tanto a caça como a pesca não passavam de iguarias esporádicas e destinadas ao prato. Não davam excedentes. Os caminhos para a “Venda”, como se designava a cantina de produtos industriais, passavam mesmo por meses de curvar a coluna ao ritmo da enxada ao sol.

E parece fazer sentido dizer-se “venda”, a julgar pela exploração reinante na bitola da permuta. Um quilograma de sal podia custar cinco de milho ou três de ginguba (amendoins). De lá voltavam a resmungar por tanto produto deixado para tão pouco, uma procissão da qual entretanto eram dependentes crónicos. O branco não arrancava ninguém de casa para o submeter aos seus preços de diabo, logo não lhes podia vestir os remorsos (quem não quisesse era só caminhar várias centenas de quilómetros ao encontro de balcões eventualmente mais generosos, se é que os houvesse).

E quando a colheita farta fosse, os homens, muitos deles a triplicar porque maridos de lares vários, davam-se ao luxo de menosprezar os garrafões de kaporroto (aguardente de produção artesanal) que sempre consumiram a preço de tomate. Mandavam vir da loja garrafões de vinho tinto, importado de cidades que nunca viram nem em fotografias. E no final aterravam, babavam e libertavam as suas necessidades nas calças do mesmo jeito. Às mulheres, o sacrossanto emblema, é que não se via com muitos bons olhos o direito de se deixar beber ao ponto do coma. Restavam como reserva moral, embora secundário. Eram estas que faziam o trajecto à loja quando os maridos de rastos andassem.

Uma delas chega certa vez ao marido e pede para não mais ser enviada à loja. O marido estranha um tal pedido. A ela cabia obedecer, a menos que entendesse afrontar quem por acaso tinha assegurado os dotes que o habilitam a ser titular da mulher. Ela, austera em argumentos, disse apenas que não gostara do ambiente da loja, que tinha sonhado com as montras. O marido ficou apreensivo por uns instantes. Naquele meio, sonhar era mau presságio. Surgir-nos alguém num sonho não positivamente decifrável era razão bastante para madrugar à porta do visado e rogar todas as pragas a plenos pulmões. Mas andaria o tuga da cantina envolvido em feitiçarias? Não podia acreditar!

À mulher não restou outra saída para demover o marido. Foi então lamentar-se aos pais e aos sogros do desgosto que via nas idas à cantina. Em vão. E os meses foram desfilando, ela sempre intransigente. Agora, até, havia um motivo forte. Estava grávida e precisava de proteger o bebé, cujo sexo era uma incógnita (não havia ecografias na época). O marido, só e apenas por conta do bebé a caminho, acabaria por ceder. Mas a paz só durou até ao nascimento do bebé e o escandalizar das famílias, catanas e mocas à mão. Porquê?

Os receios confirmavam-se. De tanto ver bonecas caucasianas na montra, ela acabava de dar à luz um bebé mulato. Culpa do marido! Tivesse ele ouvido os sonhos da mulher…

(adaptação)

Gociante Patissa | Benguela, 17 Janeiro 2018 | www.angodebates.blogspot.com

Obituário | Tomei conhecimento do falecimento de Jacinto Faustino "Lito", da APDC, ONG que serviu de referência para criar a AJS

Jacinto Faustino (foto FB)
Recebi um telefonema a informar que Jacinto Ngundila Faustino "Lito" faleceu anteontem e que vai a enterrar esta tarde. Lá estaremos para o último adeus. Sobre o Lito e a importância na história AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade), retomo trechos de um artigo recente meu:

«Em finais de 1998, espalha-se pelo bairro do São João e arredores a fama da APDC (Associação de Promoção do Desenvolvimento Comunitário), liderada por Jacinto Faustino “Lito”. A par das noites dançantes, levavam a cabo campanha de construção de latrinas “melhoradas”, por via da distribuição de lajes, com o apoio da Save The Children UK, representada pelo (belga) Jean. Na segunda quinzena de Dezembro do ano de 1999, aproximamo-nos ao Lito (colega na Sonamet) para obter pistas de como constituir uma ONG e este deu-nos também a Lei das Associações.

Determinado, Daniel Gociante Patissa convence o seu amigo Edmundo da Costa Francisco, que conhecera na escola do 3.º nível dos Bambús da Catumbela por volta de 1995, onde este último se destacava pelo nível de inteligência e índole calma. Incluem a Flora Domingas da Costa Francisco “Mirita”, uma dinâmica escuteira e poço de simpatias. O último a entrar é Simão Marques, um motivador carismático ligado à igreja Católica no Bairro da Santa Cruz.

Na tentativa de legalizar a AJS, fazendo-se acompanhar de um manifesto/estatutos de quatro páginas, digitalizado pela senhora Helena da Costa, mãe de Edmundo e Mirita, somos “rechaçados” pelo oficial do Cartório Notarial do Lobito (Sr. Abraão), que por sua vez recomenda uma leitura melhor da Lei das Associações. Sugeriu "imitar", ali mesmo, os estatutos da ANABOC (Associação dos Naturais e Amigos do Bocoio) que, curiosamente, nunca saiu do papel.

Mobilizam-se três novos membros, a Arminda Kanjala Gociante Patissa, o Amós Chitungo Gociante Patissa e o Amândio Serviço, optando pelo valor mínimo na exigência de sete a 14 assinaturas. Postos no Notário, mais um chumbo. Tivemos de acrescer mais sete assinantes. Assim entram os irmãos Malaquias Catanha Fernando e João Jorge Fernando, o César Menha (colegas de escola de Edmundo no Puniv), bem como o Jaime Caliongo, o Avelino Kambomba, o Henrique Chissapa Januário, o “Chimangá” e a Delfina Kandolo.»

in Curiosidades e memórias da AJS (16) | NO PERÍODO “ROMÂNTICO” DO ASSOCIATIVISMO, AS CONTAS DA AJS NUNCA BATIAM CERTO

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Crónica | Há que massagear a reputação

Nas relações humanas há muito com que aprender. Se quisermos, a própria passagem das pessoas pela humanidade não é senão uma constante exposição a circunstâncias de aprendizado. Aprendemos na própria pele ou de ouvir e/ou ler as experiências de outras pessoas (aquilo que as ciências consideram experiência vicária).

A humanidade prontamente estabeleceu preceitos, estereótipos, enfim, critérios, justo ou injustos, para compreender (ou excluir) pessoas em função das características com que reagem a estímulos idênticos. E naturalmente haverá aqueles cuja paz de espírito reside em encaixar-se no “pacote dos bons”, não importa o quanto custe isto em termos de autenticidade. Há que massagear a reputação. É certo que alguns meios e agentes de socialização estimulam essa quase dupla personalidade, na medida em que aparentar ser assertivo funciona como sinal de identidade e pertença. O seio familiar (na sua dimensão alargada) é outro incentivador de aparências, principalmente porque, naquele saudável manto de afectos, os nossos continuarão sendo aquelas crianças ternas e virtuosas. Daí que se fale em pais e mães galinhas e toda uma série de favoritismos (míopes).

Ganhei noção disso de maneira relativamente cruel, ainda adolescente, num episódio vivido em casa. Num belo dia, o meu pai levou-me de motorizada a ir comprar gasolina nas bombas da praça da Catumbela. Ele ia ao volante (nunca gostei de motorizadas. Da última vez que conduzi uma, o meu próprio irmão mais velho é que quase me obrigou a dar uma volta). Trouxemos os dois bidons de dez litros cada, cheios até à boca.

Deviam ser onze da manhã. Havia iluminação na despensa. O pai poisou um dos bidons para ganhar gravidade, inseriu uma ponta da mangueira e fazia a sucção com a boca para excitar o curso do transbordo. Eu estou a um metro e meio dele. Observar para aprender. A meio da operação ele engasga-se, retira bruscamente a mangueira da boca. Infelizmente, por mau jeito, entorna boa quantidade de gasolina no ouvido direito, a qual rapidamente penetrou o máximo que pôde. Armado em militar e bom em primeiros socorros, o velho não procurou um especialista em otorrinolaringologia. Deu só um jeitinho. Mais tarde aquilo veio a resultar numa infecção de meter medo, ficou de cama.

Para a surpresa minha, a narrativa montada já me envolvia. Era eu quem tinha entornado a gasolina no ouvido do pai, já sabes, esses miúdos são irresponsáveis. Lia-se mesmo a ira nos olhos de cada familiar que tomasse contacto com o relato da “vítima”. E com razão. Eu tinha lesado o herói (político e militar) da família, o provedor (vivia espalhando regalias, mesmo que em casa dormíssemos à fome) e a figura mais eloquente (em suas mãos e provérbios passava a resolução de todos os conflitos, mas só fora de portas, os de dentro continuavam latentes). A minha condenação não podia ser maior. Não tive espaço para me defender. Acho que a única pessoa que acreditou na minha versão foi a minha mãe. O mais triste é o pai ter morrido sem nunca revelar a VERDADE sobre o episódio.

A vida ensinou-me cedo que o angolano tem na dificuldade de reconhecer os seus erros uma tendência congénita. Relativiza ou transfere-os à incompreensão de outrem. Porquê? Porque na relação de alteridade, temos uma sociedade com uma mentalidade punitiva, o que pode dever-se à herança religiosa tradicional ou à ideologia marxista. Sabe melhor termos a razão, cai bem sermos a vítima. Ainda era só isso. Obrigado. 
Gociante Patissa | Benguela, 16 Janeiro 2018 | www.angodebates.blogspot.com

Citação

“A pátria não são as bandeiras, nem hinos, mas um punhado de lugares e pessoas que povoam nossas lembranças e as tingem de melancolia” – Mário Vargas LLosa, no discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura 2010.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Citação

“Hoje em dia vemos um espectáculo de um artista e estão sessenta músicos [convidados]. Têem medo do seu próprio nome. Isso é negativo porque não é espectáculo de um artista, é espectáculo variado” (Sebem. In Janela Aberta, TPA. 2010)

Partilhando leituras | Breve olhar à obra de Gociante Patissa por Banny Di Castro

Banny (à esq.) e Patissa
Boa noite, Patissa

Eis um comentário que fiz aos teus livros.

Não me arrogo alguma autoridade, gosto de partilhar comentários com autores que conheço (mas comentários autoritários são coisa que um homem de ciência deve temer, muitas vezes autoridades disseram coisas sem razão, embasadas na força da sua autoridade e popularidade). Ler “Fátussengóla” e “Não tem pernas o tempo”, melhor que “O consulado do vazio” e “O apito que não se ouviu” (destes últimos, o primeiro tinhas-mo oferecido quando moravas no 11 e o segundo adquiri-o aquando da sua apresentação na Mediateca de Benguela; tinha lido “A última ouvinte” também na mediateca de Benguela” quando tinha encontrado um nas suas prateleiras), ler esses dois livros, quis dizer, foi para mim como conhecer um outro Patissa, um homem que faz uma boa viagem pelo mundo dos livros, uma viagem, a priori, sem risco de acidentes, cuja finalidade é isolar-se do ambiente socializacional para desse isolamento, feito uma abelha, levar seu prestimoso contributo a uma grande colmeia da qual todos os angolanos e não só poderão saciar a fome. O Patissa manifesto nas entrelinhas desses livros está mais aberto para mudanças e novas ideias, e estar aberto para a mudança é o primeiro e imprescindível requisito para aceder à evolução e à felicidade.

Conclusão do meu comentário: “Cara Rita Baptista (A personagem, extraída de "Não tem pernas o tempo", representa nomes de minha mãe e meu pai respectivamente), se o tempo tivesse pernas nós seríamos
eternos”. Parece-me que os dois amigos que ofereceram-me livros na véspera do Natal de 2017 pretendem revolucionar a noção de tempo que a tradição nos legou. É curiosa essa semelhança de ideias porque, pelo que consta, os dois nasceram e cresceram em ambientes distantes e diferentes, apesar de partilharem um pouco de história (no caso, a colonização e a miscigenação cultural e racial advinda desse factor) e de geografia (no caso, o oceano Atlântico). É caso para aventar que, mais do que o resto, é a cultura, pelo que tem de verdadeiramente intelectual, que garante uma efetiva transposição de diferenças. A cultura rompe barreiras e tem o poder de realizar o que mais nada consegue fazer com a mesma eficácia: torna o nosso planeta realmente mais poético e harmonioso (os selvagens não se casam por faltar-lhes cultura, nós fazemos amizades com base em interesses mais ou menos estéticos e racionais).
Saudações,
Banny di Castro. Ganda, 24.12.2017

domingo, 14 de janeiro de 2018

Em linhas tortas (15)

Quando você luta para achar o trovador Gerson Castro no youtube e aí pahm! Ele aparece no canal 2 de violão ao colo, Conversa de Bar. Esse tipo vai longe. Viva!!!!!! Ainda era só isso. Obrigado

Hoje (14/01), na hora simbólica de pintar o ponto final de um vínculo. Fica a ligação afectiva/sentimental e o que ainda sobrou da irmandade.

Daniel Patissa e Arminda Patissa
"Vanãlãnãlã owu wiya, owu ka wiya eteke wukwambata" - adágio Umbundu 
(Se estiveres a pescar, insiste na linha/rede que se deixa puxar, de contrário corres o risco de ser arrastado pelo que se esconde no anzol/rede preso na água)

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Em linhas tortas (14)

Sua excelência eu acaba de reunir as facturas dos fármacos da semana que esteve de cama para, na qualidade de consumidor, a empresa de Águas e Saneamento ressarcir cada Kwanza gasto. Não se admite que tanta água que ingeri não tenha resolvido as maleitas da reacção alérgica mais malária, não dispensando nem consultas nem corpo médico nem testes nem injeções. Então a tal água "bebeu-curou" só foi encaminhada para o ramal universal?! Assim eles já é que são mais angolanos que eu, é isso!? Hum! Ainda era só isso. Obrigado hahaha | www.angodebates.blogspot.com

Citação

“Acredito profundamente que nos anos 60 perdemos as nossas almas e perdemos os nossos corações, no Vietnam. E nada se faz a respeito do assunto, continuamos em quedas cada vez maiores. Quando eu era jovem, tínhamos um verão sem fim, agora temos uma guerra sem fim. E muita gente acha que isto assim está bem (…) Não creio ser esta a América que um dia sonhamos construir.”
(Jill Freedman, fotógrafa documentarista americana, alma anarquista, tradução nossa de trecho de um documentário disponível no Youtube)

Sugestão de filme | Jill Freedman - Documentary Photographer

Para quem sente a fotografia como arte e paixão e tenha domínio da língua inglesa, aconselho a ver o documentário intitulado "Jill Freedman - Documentary Photographer", 46 minutos, que é uma rica narrativa poética bem humorada e com fotografias a preto-e-branco muito cativantes (nostalgia, acção, intensidade). Sentada na sua cadeira de palestrante, a autora, na casa dos 60 anos, põe o espectador a viajar pelo acervo dos seus cliques cosmopolitas. Muito inspirador! É uma daquelas coisas que a globalização nos oferece de melhor a partir dos Estados Unidos, de onde geralmente em termos de produtos culturais só vem entulho exportado a preço de ouro.
Ainda era só isso. Obrigado

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

AOS MEUS AMIGOS FILHOS DE ANTIGOS DIRIGENTES DO MPLA, GOVERNANTES, PRESOS POLÍTICOS E ENTIDADES | QUE TAL O DESAFIO DE CRIAR UM CLUBE DE PESQUISA?

Um pouco motivado pelo trabalho da família Lúcio Lara que através da Associação Tchiweka de Documentação produziram documentário sobre a luta de libertação, estive a pensar também na ideia de fazermos um trabalho de recolha de memórias e testemunhos para se contribuir para a narrativa de outras figuras anônimas que ao seu nível deram quase tudo o que podiam consentir de sacrifício pela pátria. Alguns perderam a vida em emboscadas rodoviárias, outros de revolta pela forma como "a máquina" os passou para o esquecimento, mas há ainda muitos contemporâneos seus em vida. No meu caso em particular, sou filho de Victor Manuel Patissa (1946-2001) o qual em nenhum momento pretendo endeusar nem santificar, mas que me faz alguma confusão o silêncio que se faz à sua passagem pela vida, quando chegou a representar a administração do estado em três comunas de difícil acesso (Chila/Bocoio 1982-84, Equimina/Baia Farta 1987-89 e Kalahanga/Baía Farta 1989-1993, salvo erro), filho de Manuel Patissa, dirigente cristão associado à luta de libertação preso político do regime colonial português na cadeia de São Nicolau, hoje Bentiaba, de 1961 a 1966. Só para que não se entenda torto, não estou à procura de vantagens (trabalho desde os meus 14 anos e por acaso tenho emprego e um patrão generoso), mas gostaria por exemplo de compreender os critérios de homenagear uns com nome de escolas e outros não. Já tentei consultar correligionários de raiz costeira e fico em diversas vezes com a impressão de haver um ressentimento entre militantes de origem camponesa e os da cidade, com estes últimos a se dizerem vítimas dos seus colegas "pouco civilizados". Não citarei nomes para que os meus amigos filhos de antigos dirigentes do Mpla, governantes (a partir das décadas de 1970), mas que tal iniciarmos com academia e algum distanciamento militante a pesquisa sobre o contributo dos nossos pais para a Angola sonhada? Nunca falei tão sério em toda a minha vida. Ainda era só isso. Obrigado
Daniel Gociante Patissa

Opinião | Que tal digitalizar e disponibilizar relatórios das ONGs à consulta pública?

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“Em uma certa comunidade do interior da província de Benguela, vários meses passados após a instalação de um fontenário à manivela (para minimizar o sofrimento de acarretar do rio que distava pelo menos um quilómetro), o dispositivo continuava sem uso. Intrigados pelo gesto de ingratidão da comunidade, os líderes da ONG responsável pela oferta teriam solicitado uma explicação. E as autoridades tradicionais lá convocaram a assembleia à sombra da mulemba. Em resposta, as senhoras argumentaram que, naquele meio, ir ao rio acarretar água e lavar a roupa representavam, na divisão social de papéis, uma escola para a futura dona de casa. Nenhum homem iria casar com uma preguiçosa que bebe atrás da casa.” (Adaptação de um dos vários relatos que introduziam em workshops e seminários o debate sobre o erro de introduzir desenvolvimento sem a participação da comunidade.)

Estive ao longo de dois ou mais meses a pesquisar estudos de caso pela Internet sobre o sector da sociedade civil em Angola, especificamente no segmento das ONGs, associações, cooperativas, redes e coligações. Pretendia eu com a pesquisa bibliográfica online colher subsídios para uma compreensão do papel do sector voluntário, este "poder" que ganhou espaço a partir de 1992, com a transição do regime de partido único para o democrático multipartidário. Queria aprender lições para uma melhor compreensão do seu impacto na vida das comunidades e os desafios à democracia interna nas organizações, tanto aquelas que intervieram na ajuda humanitária/caridade como as da promoção do desenvolvimento.

Isto foi antes de iniciar a partilha de uma série de 18 artigos (análise e factos históricos) sob o genérico “Curiosidades e memórias da AJS”, para coincidir com o 18.º aniversário da Associação Juvenil para a Solidariedade, ONG de âmbito local baseada na cidade do Lobito, província de Benguela. Os artigos foram bem recebidos por muitos mas também suscitaram um esquisito recado por interposta pessoa a roçar a chantagem passiva, porque, entendia apegando-se num só, o Facebook não deve ser usado para assuntos sérios.

As ONGs em funcionamento na província de Benguela, que percentagem representam do total das que foram legalizadas? Que factores ditaram as desintegrações dos associados? Pode-se falar em algum "culpado comum" da morte das ONGs para além do fim de missão das agências internacionais doadoras e que financiavam projectos em Angola? Em termos de lideranças, quais é que podem ser alistadas numa selecção de pelo menos 10 sob que critérios? Que lições ficam para a sociedade e para a academia (sociologia principalmente)?

Observe-se que o único artigo que achei intitula-se "Práticas Sociais E Políticas Das ONGs Em Angola. Metodologias e Relações de Poder. O Caso Da ADRA E Da Visão Mundial”, assinado por Joaquim Assis (ligado à Faculdade de Ciências Sociais, Universidade Agostinho Neto, Luanda), e publicado na Revista Brasileira de Estudos Africanos.

Do desenvolvimento sustentável, construção de latrinas, impregnação de mosquiteiros com insecticidas, alfabetização, corte e costura, integração social de pessoas com deficiência, ao melhoramento das sementes, houve projectos incontáveis.

É minha proposta à UTCAH, às administrações municipais e às demais entidades estatais que por força da sua missão tenham sido depositárias de relatórios da intervenção de ONGs, que os digitalizem e se crie uma biblioteca online. Tem custos que o OGE pode não prever, é verdade. Mas ganhamos mais encaixotando em arquivo morto tanta informação ou dando vida ao acervo que pode oferecer soluções para problemas ainda actuais?

Fica a tristeza por, ao que consta, haver pouco incentivo à escrita de ensaios académicos (ou de relatórios consistentes), que certamente agregariam valor à história de Angola. Fica também o receio de essa ausência de registo, afinal, poder não ser tão inocente, mas apenas reflexo de como o sector “especializado” na crítica pela boa governação, pela transparência e pela justiça social, ande a esconder, em contra-mão, o próprio lixo debaixo do tapete. E ainda era só isso. Obrigado.

Gociante Patissa (orgulhosamente formado pela escola da vida das ONG nacionais e internacionais) | Benguela, 10 Janeiro 2017 | www.angodebates.blogspot.com

Em linhas tortas (13)

Há mesmo dias de azar. Quer dizer, sua excelência eu tem um acidente logo ao acordar de uma noite de insónias. Não é que ao garguejar meio copo de água misturada com água oxigenada, engoli por acidente um gole avantajado!... Se me virem loiro por aí então já sabem, ya? Será que há vantagens colaterais? hahahah Obrigado | www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa

Em linhas tortas (12)

Ao passar pela viatura dele estacionada à porta de casa, o meu amigo reparou que as calças brancas ficaram manchadas de poeira. Achando aquilo uma indirecta para agendar a ida à estação de serviço (outro gasto fora da agenda numa fase de crise), lá ele olhou para o ligeiro e falou: Sinceramente, ó meu querido carro! Tantos anos juntos, mas tenho de dizer a verdade. No combustível, sou eu. Na manutenção sou eu. Nos pneus idem. No saldo do polícia é comigo. Ter você é uma parceria "leonina e abusiva". Só que depois de desabafar, fica já aliviado, oh coiso, o outro não consegue. O coitado foi para a cama ainda mais preocupado. Como o carro não lhe respondeu nem um nem dois, será que vai pegar na manhã seguinte? Mba Ainda era só isso. Obrigado | www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa

Citação

"Uma pessoa que não tem ética não tem amigos, tem cúmplices. Uma vida sem amizade é uma vida vazia. Uma vida sem amigos verdadeiros é uma vida desperdiçada. Só pessoas boas têm amigos. Pessoas desonestas têm cúmplices."
| Étienne de La Boétie |
(Sarlat-la-Canéda, 1 de novembro de 1530 — Germignan, 18 de agosto de 1563) foi um humanista e filósofo francês

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Kazukuta Comunicações, LDA

Em linhas tortas (11)

As mais diversas reacções à entrevista colectiva que o presidente da República concedeu ontem no jardim do palácio, em Luanda, remetem-me a uma triste noção de um problema que temos como sociedade: o preciosismo. De repente, queriam todos os observadores que tudo corresse dentro de um perfeccionismo (por acaso, sem indicadores). E fica realmente difícil imaginar como tal fenómeno sairia com êxito se tivermos mais de 15 perspectivas. Porque não olhar para o evento como uma nova aprendizagem para todas as partes e como tal semente lançada para fazer das colectivas com o presidente uma experiência a se consolidar? Aos jornalistas, por exemplo, não foi dada a oportunidade de rebater eventuais zonas cinzentas nas respostas do PR. Este, por sua vez, nunca em sua vida foi alvo de uma só vez de mais de cem "inquiridores". Daqui a pouco ainda surge alguém a nos convencer de que o PR cometeu um crime de lesa-pátria ao abrir-se a tantos jornalistas, pelo que deverá cancelar tais iniciativas. Desta vez sua excelência eu prefere inventariar no seu cantinho os factores que influenciaram a realização da conferência de imprensa, pelo que reparte os elogios em proporções equitativas a todas as partes envolvidas: aos jornalistas, aos serviços de apoio ao PR, a JLo, até mesmo aos pavões que reforçaram o cenário com o toque de ecologia. Juízo de valores fica para depois da segunda experiência, altura em que já teremos referência de comparação. Ainda era só isso. Obrigado

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela, 09 Janeiro 2018

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Obituário | Acabo de tomar conhecimento de passamento físico do historiador Simão Souindoula

Foto: misosoafricapt
Conheci-o durante um "banquete" oferecido pelo Embaixador Americano em Angola, McMullen, no dia 13 de Setembro de 2012 às 18h30, que teve lugar no terraço da sua residência oficial em Luanda, para a qual fui convidado devido ao estatuto de alumini (pessoa que alguma vez beneficiou de bolsa de estudo ou programa de intercâmbio suportado pelo governo dos EUA). Face ao meu "pouco à vontade" congénito em ambientes festivos e de multidão, procurei aproximar-me à mesa do jornalista Lilas Orlov, onde estavam o jornalista Nelson Rosa e o historiador Souindoula. Empenhei-me para arrancar desta figura alguns subsídios, nomeadamente o papel do CICIBA (Centre International des Civilisations Bantu) no quesito harmonização das grafias de línguas africanas de matriz Bantu, assim como a representatividade etnográfica nos museus de Angola, onde visivelmente desponta o emblemático Samanyonga, conhecido como O Pensador, que vem da região Lunda Cokwe. Quanto ao CICIBA foi em certa medida um balde de água fria que não se façam entusiastas capazes de codificar e normatizar. Disse-me mais palavra, menos palavra, que eles (os peritos) também não conseguem chegar ao entendimento. Já sobre as peças museológicas, fiquei a saber que a antiga companhia diamantífera de Angola, isto no período colonial, investiu muito na representação da cultura Lunda Cokwe, estando na base de tal interesse, obviamente, o facto de ser ali que desenvolviam a sua actividade comercial. Entendido de outra forma, não houve um trabalho posterior de levantamento/investigação das demais sensibilidades etno-linguisticas que pudesse ampliar e diversificar o acervo museológico para, só mesmo por exemplo, termos um símbolo kwanyama, Ngangela, Ibinda, em escultura. Depois deste encontro, passei a beneficiar de artigos seus que me chegavam por e-mail, para além de termos colaborado no mesmo jornal, o Cultura. 

De acordo com o portal Rádio Angola, Simão Souindoula foi representante de Angola no projecto “A rota da escravatura”, lançado em 1994 com o objectivo de abrir o estudo do tráfico de escravos à pluralidade de memórias, de culturas e de representações. Foi ainda defensor da criação de um museu dedicado ao início da luta armada pela libertação de Angola do jugo colonial português, cuja data é celebrada a 4 de Fevereiro

Enfim, ainda era só isso. Obrigado | Gociante Patissa | www.angodebates.blogspot.com

Em linhas tortas (10)

Na ressaca da "press con" da excelência dele o compatriota JLo, que desde a primeira hora auguramos corresse pelo melhor, estamos com uma ideia inovadora. Mas assim, tipo, ora, bem, quer dizer, numa segunda-via da coisa, será que os bloggers podiam ser contemplados também, tendo em conta a dinâmica da era digital? É só não exigirem fato e gravata, que tal? Bem, ainda era só isso. Obrigado hahhah
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Em linhas tortas (9)

Atrasada e atormentada seriam as palavras precisas para descrever a expressão facial com que a agente se apresentou ao local de serviço. O peso da aflição dava-se mesmo a ver pelo rosto suado, como se o amoníaco do seu próprio organismo lhe quisesse renovar os quarenta e tal anos que o seu bilhete de identidade indicava. Tinha cara de sono, direi, que bem condizia com a patente de sargento. Ela entra, saúda, e a maioria aguarda tacitamente por uma justificação: «Estou avir da Técnica [de Investigação Criminal]», diz ela, para a empatia das cerca de dez pessoas na sala de reuniões. «Estás com problema em casa?», indaga um dos presentes. «Yeah, tenho lá um sobrinho. Esses dias, não temos sono por causa do processo. Está preso com uns amigos», continua a sargento, sempre seguida pelo silêncio de solidariedade dos demais. «Pegaram à força uma moça do bairro». Dito isso, os rostos parecem desfazer a empatia inicial, como quem diz «bem feito!», o que veio a piorar quando a agente trouxe cá fora a voz da sua alma: «Mas a moça também já não era virgem, é mãe de dois filhos até…» O repúdio à verbalização da lógica da agente não podia ser mais colectivo. Violação é violação. Não é pelo tipo, é pelo acto.
www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa, Lobito 23.01.2013

sábado, 6 de janeiro de 2018

Citação

"O jurista está comprometido com a legalidade e o advogado com a causa e o bolso." (José C. Sande, in Facebook comentário)

Diário | Nós temos um acordo, não é isso?

"Avô, avô!"
"Diz, meu netinho querido."
"Mas o que é leonino, avô?"
"Ah, não, por amor de Deus! Não sejas chato..."
"Mas avô!..."
"Fala!"
"Nós temos um acordo, não é isso?"
"Sim. Uma pergunta por dia. O resto tens de ir ver no dicionário..."
"Então?... Essa é a primeira hoje. Responda, faz favor. Leonino é o quê?"
"Ok. Algo prejudicial..."
"Entendi. Tipo assim as esperanças dos adeptos do sporting em ganhar o campeonato, né?
www.angodebates.blogspot.com | Benguela, 06.01.2018

Em linhas tortas (7)

Recebi quase à meia-noite o anúncio de que a partir das 10h, hoje a Rádio MFM teria um painel escaldante de debate. Achei um tanto estranho, já que o programa em causa está há muito tempo no ar e nunca, até onde sua excelência eu sabe, se recorreu a um tal expediente e a tão altas horas. O certo é que a emissão on-line está a dar erro. Nem pelo aplicativo no telemóvel nem pelo iPad nem pelo brouser do Windows se consegue sintonizar a maldita estação luandense. O que dói ao benguelense já não é a veracidade do debate e se os respectivos convidados potencialmente incendiários cumpriram as expectativas mas sim os 6.250,00 Akz gastos para carregar saldo de dados no router. Excelências, haverá alguém do Instituto Nacional de Defesa do Consumidor para anotar o nome de quem nos espalhou a publicidade mais ou menos enganosa? Bem, ainda era só isso. Obrigado. www.angodebates.blogspot.com

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Em linhas tortas (6)

Como bom cidadão, e aproveitando a maré das honestidades e dos apelos à PGR, torno público que sua excelência eu foi tentado pelo mal do nepotismo hoje, razão pela qual estende devidamente à palmatória não apenas uma mas as duas mãos mesmo. O que se passa é que em plenas horas úteis de serviço, que pertencem ao soberano povo angolano, uma vez que cada hora é paga pelo suor dos contribuintes, dediquei os sentidos a pensar na falta que a senhora nossa mãe nos faz e, acto contínuo, ainda na senda das mulheres, deixei-me prender nas memórias da última boca beijada, hipnotizado pelo respectivo brilho nos olhos. Agora vejam lá vocês se isso alguma vez contribuiu para endireitar o país! Pronto, ainda era só isso. Obrigado | www.angodebates.blogspot.com

Em linhas tortas (5)

A cada dia informativo que nasce, na media tradicional ou nas redes sociais, sua excelência eu começa a ver que terá de acelerar o seu regresso à igreja, cair de pára-quedas em uma das "lojas" de Cristo que brotam quais cogumelos. Porque a ligação directa "da casa para o céu" já vai perdendo rede. É tanta indignação olhando para alguns dossiers oficiais e oficiosos na gestão da coisa pública que até me pergunto: Excelências, assim mesmo ainda olhando só para os prejuízos à moralidade e ética social e nos serviços sociais básicos que derivam do V/ pecado da gula, aquela dose bíblica de perdoar setenta vezes sete... não será pouca? Que tal 70 milhões vezes sete? Será que assim quando a noite cai, Vossas excelências conseguem mesmo "dormir sono" de humanos mortais? Só de pensar que muitos de nós chegamos a depositar os sonhos no beiral, já convencidos de o país não ter fundo para assumir a formação de potenciais talentos nascidos em famílias sem "herança"... Teria sido para isso que os nossos avôs passaram cinco anos em cadeias do regime colonial (São Nicolau 1961-1966) sob a acusação de "terroristas"? Ou teria sido para isso que os nossos pais quase perderam a vida nas frentes de combate de guerrilha enquanto representantes da administração do Estado (Chila, Equimina e Kalahanga)? Localizem só o país da justiça sonhada, faz favor. Ainda era só isso. Obrigado  www.angodebates.blogspot.com

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Só por uma questão de equidade. Já que a TPA2 mantém a 'promo' de livros do projecto LER ANGOLA, que tal divulgar todas as obras?

A primeira leitura de 2018

é o livro Enviesada Rosa, de Helder Simbad, que ganhei de oferta e autografado pelo próprio no último dia do ano passado. É interessante ler obras premiadas, no caso em apreço o Prémio António Jacinto, edição 2017, tutelado pelo INIC (Instituto Nacional das Indústrias Culturais), dirigido a autores sem obra publicada. Em termos de "paladar", experimento a mesma sensação de quando lemos Prazer Além Nós, de Neto Muhindo, com o erotismo em feixe transversal em praticamente todos os poemas. Ainda era só isso. Obrigado | www.angodebates.blogspot.com

Diário | Aí já o velhote se xota sozinho, né?

“Mas amiga, isso é que são vidas, ya?”
“Oie, manucha! Feliz Ano Novo!”
“De igual modo… É como? Sempre de camisola sete? Assim já é ginásio, né?”
“Estás a ver, maninha. É já um vício que até a cabeça dói se falho…”
“Mas eu até não entendo. Você mesmo assim gasta quanto por mês?”
“Trinta mil…”
“Trinta mil tudo?!”
“Ya, minha camone, mas dá para levar.”
“Mas você não trabalha só mesmo na administração? O teu salário agora passa dos 60 e?”
“O quê que tem a ver? Não entendo…”
“E os teus filhos? Leite, creche, assim fica como?”
“Estou a ver que o teu telejornal tipo que é página especial, ya?Ó coisa, engoliste um microfone ou quê?”
“Engolir até não, mas que um micro básico de vez em quando faz parte, ya! Olha já ela armada em santinha. Wôô! Tipo já você não gosta, tcha!”
“Mentes poluídas, pá! Olha que sou comprometida, ouviu?”
“Mas sempre com aquele tiote?”
“Qual? Aquele que te apresentei há cinco anos?”
“Aquele tio de barriga tipo guarda-chuva, que andava com um maquinão tipo Audi…”
“Nada. Terminamos amigavelmente na base do sétimo.”
“Mas já me tinhas falado de terminar amigavelmente no sétimo. Isso funciona como?”
“É assim, camone. Quando estou solteira volto a viver no anexo da minha mãe. Aí depois aparecem esses pinguins que só querem de se namorar de bonito, tás a ver, né?…”
“E…?”
“E eu não quero mais uma criança com barba e músculos no peito me cansar a beleza.”
“De facto não é fácil aturar esses bolo-e-leite. Mas falaste em sétimo. Sétimo quê? Mandamento? Hum! Já sei. Lhes metes corno?”
“Xé! Nada disso…”
“Então sétimo dia? Viraste adventista e eles não aguentam deixar de comer porco?”
“Minha filha! Quando eu engato kota de 60 e tal anos, saio umas vezes, apresento caderno de encargos. A primeira coisa é privacidade. Cai mal chegar tarde em casa da mamã.”
“Mas como é que depois eles te deixam na casa que eles arrendam e não se chateiam?”
“Aí é que está. Sempre exijo apartamentos no sétimo andar, cinco anos de renda. Invento limitações de respirar. Ele é terceira idade, o prédio não tem elevador. Aliás, mesmo que tenha, a luz está sempre a falhar. No máximo dois meses depois, o quê que acontece?”
“Aí já o velhote se xota sozinho, né?”
 www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela, 4 Janeiro 2018