terça-feira, 13 de novembro de 2018

[Oficina literária 7] O ARREPENDIMENTO DE KALUNDU – conto de Júlio Teixeira


Kalundu, mais conhecido por KT, tinha vinte e três anos de idade. Proveniente de Luanda – onde perdeu os pais –, morava com a avó em Benguela, no Bairro da Kamunda. Era negro como o breu, alto e forte como uma torre; valente como um tigre, com garras de leão. O mais famoso e temido daquela zona, pois tinha o costume de ofender e bater os demais colegas de idade, e roubar as namoradas alheias.

Certo dia, numa manhã de sábado – do mês em que o segundo dia nos lembra que todos somos iguais e brevemente morreremos –, um grupo de rapazes alegremente encontrava-se no Buraco da Câmara – um dos estádios de referência provincial – a saborear o desporto-rei. Tudo ia calmamente até a chegada de Kalundu. Este provocou um rapaz chamado Tony. Tirou-lhe seiscentos kwanzas e as chuteiras que enfeitavam os pés.

O total de imagens e semelhanças vivas que visualizava o triste episódio agitava para que os jovens lutassem, gritando: bilo, bilo! Todavia, Tony simplesmente pedia de volta os seus pertences, e o tigre não aceitava. A cena parecia um filme: Kalundu socou a cara do rapaz e pontapeou-o brutalmente na barriga. Mesmo assim, o batido não quis lutar. Parecia que ouvia anjos dizendo: não lutes!, e demónios dizendo: luta, pá! vais ganhar. Mas como a dor era tanta (e doía mesmo), aceitou aceitar a luta: os dois jovens lutaram. Kalundu saiu a ganhar, afinal de contas treinava artes marciais (judô e capoeira).

Depois de uma semana e meia, Tony – baixo, magro, educado, filho de policial – passava o tempo num salão de jogos, jogando o seu jogo predilecto: San Andreas. De repente, seu inimigo apareceu e, como de costume, obrigou-lhe a pagar jogo para si. Porém, Tony não pagou. Não tinha mais dinheiro. Kalundu, com palavras-podres, rapidamente, começou a agredir o culpado jovem. Este ficou ferido. Foi em casa e regressou ao local com uma sabre de seu pai e – com uma raiva do tamanho do céu – deu uma sabrada nas costas tatuadas de Kalundu. E, depois de alguns minutos, o ferido foi gravemente levado ao Hospital Central de Benguela.

Com aquele episódio, o valente ficou humilhado. Por um pouco moraria no ser xará: o cemitério. Apenas ficou com um braço debilitado. Mudou de rotina: reconheceu que vale a pena ser humilde e pacífico. Sempre diz que a valentia não leva a lugar algum. É como a gente diz na gíria: lhe tiraram as gabas!

Júlio Teixeira
SOBRE O AUTOR

Júlio Novady Dimas Teixeira é um jovem benguelense que adora e sempre adorou escrever, pois desde cedo já brincava com as palavras. É filho de um médico contador de histórias e de uma professora de Língua Portuguesa. Seu maior sonho é ser escritor, razão pela qual fez Língua Portuguesa/EMC na EFP-Benguela, e actualmente frequenta o ISCED, especialidade de Linguística/Português.
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segunda-feira, 12 de novembro de 2018

[Oficina literária 6] A TURMA DO ZÉ – crónica literária de Anjo N’silu


Há não muito tempo, num lugar não muito distante daqui, houve uma turma cheia de crianças insurrectas, obesas, de costas largas e gordas talvez; um professor muito sorridente, alto,manso magro, escuro, vagaroso, carismático, cara de pau, cabeça d'água, coração de pedra (que tanto bate até que educa), qual tripulante cego conduzindo seu barco ao iceberg: Zé Do Caraio!

– É malandro esse Zé Do Caraio. Tem mania de Hiena!

Segunda-feira, sala cheia e muita desordem nessa turma. Soava sempre muito barulho no norte, confusão no leste e muita desorganização no sul. No primeiro dia da semana, não sendo domingo, dois meninos vão ao quadro: um Paulo que soma, o mais gordo da turma, outro Paulo que explica, na aula de matemática financeira.

Como quem já entrou no reino dos céus e não mais precisa da comunhão com as outras ovelhas a caminho de lá, Augusto não se prende ao imperativo de estudar para ser alguém. Todo o mundo conhece o Augusto Sekele, o mimado. Gosta de fugar à escola e quando aparece mata as aulas, à sombra da mangueira, mas também é muito bom em matemática financeira.

Vai-se ouvir a voz do professor em voz não muito clara, suave, lenta e afinada, como o noivo que canta para a sua esposa na noite de núpcias. Um casamento desajustado entre um professor desregrado e seus alunos desmotivados. Sem abrir o livro de ponto vão-se ouvindo os nomes. É a hora da chamada.

– Fernando Elias Kimbiji?

– Presente!

– Fecha a boca e abre o coração! Vai para conta da tua mãe, levanta a massa e traz para mim uma cuca bem gelada! – Além de bêbado, é corrupto esse Zé Do Caraio. Mas que tipo de professor é esse que chama um aluno por dia?!

– Ana Kimbiambia, sempre atrasada! Não é por seres filha do director que não levas kandambala.

– Acalme-se, stor! Beba a sua cuca gelada e relaxe. E a turma sorria dando gargalhadas, e começava a barulhada, como sempre.

Isa Kimbokota tem mania de furtar os lápis alheios. Mas também, com um sobrenome desse não se espera algo não diferente disso. Na verdade, são todos salteadores, inclusive o próprio professor que deveria dar exemplo. Pudera! Kimbokota vendia petróleo na praça da Palanka, mas o seu negócio foi todo por água abaixo. Deveras!

Na terça-feira, duas horas antes da chegada do professor à sala, a aula fica por conta do delegado. João Do Lenço, um pouco mais sério que o próprio professor, mas não menos barulhento que seus colegas, consegue disciplinar um pouco essa gente tirando da turma fora quem muito fala e pouco acerta. Poucos na turma gostam do João. Nem mesmo seu colega irmão. Mas Do Lenço se assentava sobre o espírito da disciplina e da plena tranquilidade.

Se o véu se rasgar e Jerusalém abrir os portões, nenhum desses camelos passará pelo buraco da agulha; nem ajoelhados.

– Hoje é Sexta-feira, vamos todos cantar! – Fala só assim o Zé.

Escola, Escola!
Escola linda.
Até manhã, camarada professor!
Se o Zé quiser, amanhã viremos mais!

Anjo N’silu | Retratos

SOBRE O AUTOR

Filho de pai mukongo e mãe kamundongo, Anjo N’silu nasceu no município de Rangel, província de Luanda, se bem que o registo oficial mencione, como local de nascimento, o distrito de Ingombota. É um novo talento da literatura angolana, versado em poesia, prosa, crónica, conto, dramaturgia, abordando temas que traduzem a realidade sociocultural angolana e africana.
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domingo, 11 de novembro de 2018

[Oficina literária 5] QUEM SOMOS? – crónica de Madureira Kanambi


De onde viemos e para onde vamos? São questões antigas e ao longo da eternidade cada geração, cada grupo de homens, cada tribo ou nação, cada grémio religioso, cada corrente científica, filosófica e/ou sociológica tentou dar aos seus semelhantes uma explicação a estes questionamentos.  Mas será que viemos do macaco ou da água? Voltaremos a reencarnar um dia? Vamos para o paraíso? Viemos de insectos? Evoluímos ao longo dos tempos?  A morte é o fim de tudo? Deus realmente nos criou?  Não existe paraíso?

E quanto mais o tempo passa, mais teorias vão surgindo e outras se solidificando, enquanto umas desaparecem e/ou perdem forças. Este mistério, que ao universo pertence, continuará sendo uma incógnita dentro dos Seres pensantes.

Somos apenas metade de uma célula, deambulando pelo universo como se fôssemos deuses. A natureza prova a nossa pequenez e invalidez, quando se enfurece e torna todas as nossas forças e capacidades inúteis e destrói tudo e todos sem o menor esforço e sem oposição alguma.

Somos homens e endereços de IP, humanos robotizados, insensíveis e ambiciosos, Androids  e Ios. Somos contas bancárias e status, somos o que as pessoas pensam de nós. Somos meros reprodutores e seres impensantes, nossas vitórias e nossos medos, nossas falhas e empreendimentos.

Somos HUMANÓIDES E CIÊNCIA, nossas frustrações e títulos, somos mortais, SADC e nada. Inseminação e guerras, barrigas de aluguer e Bahamas, Férias no Hawaii e Guerras no Mumbai, Catástrofes naturais e armas nucleares.

Somos tudo o que dá dinheiro, Passamos por cima dos outros pelos nossos sonhos, consumismo desenfreado e exploração dos iguais. Somos nossos SONHOS E homens bombas, nossas lutas diárias e HONESTIDADE, SOMOS Hindus,  terrorismo e Islamismo, somos o que pensamos e o que comemos, SOMOS O QUE CREMOS. Somos KUDURU, ONU e mentiras, somos assassinatos, peculatos e Índios, somos Humanos racionais dependentes de Celulares...

Bagdad, Oslo e Viena, refugiados, milionários e mortais... Somos o que a natureza nos impõe e o que escolhemos ser... Somos nada e nada. Somos Homens e Mulheres e mistura, porém, tenho Certeza de uma só coisa: VIEMOS DO PÓ E PARA O PÓ VOLTAREMOS.

Madureira Kanambi

SOBRE O AUTOR
Madureira Kanambi, natural do Ukuma-Huambo, nascido em Janeiro de 1989, residente em Benguela; descobre o fantástico mundo da literatura em 2008 e por influência de amigos desenvolve o hábito e amor pela leitura. É Membro dos grémios juvenis "Leitores Compulsivos" e "Mais em Comum", onde tem desenvolvido actividades voluntárias no âmbito de educação Literária, Literacia com jovens e infantes e ainda em trabalhos sociais. 
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NOSSA LUTA, VOSSA LUTA [fragmentos do conto do livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, de Gociante Patissa]


Ia eu dar umas palmadinhas de empatia nas costas do estratega, major cubano de vinte e oito anos, barba aparada a Che. «CORAGEM, UNA MIERDA, HOMBRE!», reagiu assim abruptamente, coisa de cair mal a qualquer camarada. O camuflado da farda coreana estava irreconhecível. Muito ensopado. Mais de lágrimas, ranho e baba do que de chuva de granizo no interior de Benguela. Estamos em meados de 1984. O nosso inimigo tem muitos nomes. Fantoche, lacaio, tribalista, traidor, enfim, kwatcha[1]. Somos a integridade territorial contra a guerrilha. «Liberdade ou morte, ao inimigo nem um palmo da nossa terra».
(…)
O único diferente aqui somos nós, continuava histérico o major, bala na câmara, feito perigo a nu para a manutenção do moral das FAPLA[2]. Distinguiam-se, pelo tom moreno, do resto do pelotão de infantaria. Cubanos e angolanos unidos pela mesma farda na linha da frente, dando corpo à barreira na fronteira com a província do Huambo. Vai-se lá saber porquê, as baixas neste dia só falavam espanhol. O inimigo é como vocês, fala como vocês; como sei que não são vocês?
Ele espumava mas cá para mim era coisa do porco a rir no farelo. Sabia ele o que era andar meio-ano com o mesmo par de botas, trinta dias por mês?! Até ao cigarro com filtro tinha privilégio. Quisera eu! Mas, pronto, como não lhe vi jurar a bandeira, não censuro o cubila. Enrolei uma pedra da liamba[3] e lhe dei: isso é que é o tira-medo dos homens, camarada. É só saber fumar com arte. «Há que endurecer-se, mas sem jamais perder a ternura», esqueceste o grande revolucionário Guevara, primo? Nossa luta, vossa luta. (…)
As estações da guerra, melhor dizer da guerrilha fratricida, podem muito bem ser contadas em quatro actos: quando sofremos com a chuva, quando nos gela as veias o cacimbo, quando matamos e/ou quando morremos. Toca a empurrar o capim. Cantemos: «Eu vou, eu vou morrer em Angola, com arma, com arma de guerra na mão. Granada, granada será o meu caixão. Enterro, enterro será a minha patrulha.»
(…)
«Na tentativa de ocupar tal localidade, o inimigo foi rechaçado e saiu em debandada», anunciava um lado, o que traduzido queria dizer que se reocupara determinada localidade, até então em mãos rebeldes.
«Os caudilhos, auxiliados pelos mercenários cubanos, deixaram sangue», anunciava o outro lado, que chegava a recorrer às mais inverosímeis das imaginações, sendo disso exemplo apresentar trilhos de pneus pela manhã sob alegação de ter chegado no véu da noite avião com medicamentos. (…) militares e civis acreditavam no poder silencioso dos motores do avião contratado pelo movimento. Esforçavam-se ao máximo de suas pálpebras a trocar o sono pela vigilância, quem sabe lhes calhava da próxima vez a honra de testemunhar a aterragem e partida do alucinante bicho dos ares.
(…)
Eu saí da vida militar com a desmobilização de 1991. Passei a civil numa sociedade que não contava comigo. Depois já é cada um por si, Deus para todos. Isso é que é lixado. O serviço militar é obrigatório, voltar a viver já é facultativo. De vez em quando ainda me punha a rir só de lembrar aquele major cubano. (…)
Uma parte de mim ficou congelada no tempo, mas não me queixo. Ninguém me aponta o dedo. Não matei e não morri completamente. Mas há por aí pólvora na via pública a apanhar restos nos contentores, na birra do trânsito, na estatística da investigação criminal. Basta saber ouvir. Falei em ouvir? Não sei porquê, mas às vezes sou tentado a crer que o cerume do meu canal auditivo atrai relatos demais. Psiquiatras? Onde? Ainda ontem dormia no meio de velhos e professores nas filas do BPC[4].
(…)
As voltas que a vida dá! Palavra de honra, pá! Eu lá imaginava um dia essa life[5] que me caiu como gerente da nossa empresa de segurança, logo às custas do cubano? E não é me gabar, não, mas posso mesmo afirmar de boca cheia que hoje eu já escolho as pessoas a quem cumprimentar…
(…)
Se gamou ou não, só sei que me organizou a vida. É o meu Deus. Hoje o negócio que dá é substituir luta por paz, onde e se exequível rentabilizar as cicatrizes do passado. Depois você só tem que saber molhar bem as mãos que te lançam. Daí o nome da empresa: «Nossa Paz, Vossa Paz».
A luta continua. O meu nome? Não tem importância. A história que conta é dos grandes. Ainda não começamos a escrever sobre os pequenos. Talvez um dia…

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Gociante Patissa. do conto Nossa Paz, Vossa Paz. In «O Homem Que Plantava Aves”. Edição angolana na forja
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Na foto: Victor Manuel Patissa, de pistola na cintura ao centro, Comissário/Administrador Comunal da Equimina, município da Baía Farta, província de Benguela, década de 1980, e a elite da sua segurança e guarda-Costas




[1] Kwatcha (amanheceu!) é grito de anúncio de alvorada. O termo da língua Umbundu passou a ser a identidade do movimento de guerrilha, em cujas bandeiras se destacam dois símbolos: o galo negro e o raiar do sol.
[2] Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (exército governamental).
[3] Canábis; marijuana.
[4] Banco de Poupança e Crédito.
[5] Empréstimo do inglês «life» para indicar estilo de vida extravagante.
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sábado, 10 de novembro de 2018

Excerto


"A nova autora tem sido docente do ensino básico, médio e superior, em Coimbra e Luanda, e é doutoranda da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, no Programa de Literatura de Língua Portuguesa – Investigação e Ensino. O seu doutoramento foca-se em romances angolanos cujo enredo, meio social e aspectos culturais se situam no interior de Angola ou, passando-se em ambiente urbano, relevam de tradições antigas, castiças, antropologicamente campesinas, estudando desde Óscar Ribas, UanhengaXitu ou Boaventura Cardoso até Cikakata Mbalundu. Embora não fazendo parte do seu objecto de estudo, pode-se acrescentar Jacinto de Lemos ou Gociante Patissa como outros escritores que rastreiam as vivências populares do musseque ou de regiões interioranas. Antónia Domingos tem consciência de a escrita sobre ambientes urbanos (que mostra vivências aspirando a alguma mundanidade) ser marca da modernidade, mas não abdica do aprendizado da cultura de radicação rural, tradicional, oral."

PIRES LARANJEIRA (UNIV. DE COIMBRA – CLP/FCT), in Jornal Cultura - 1 a 14 de Agosto de 2017, pág. 05.
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[Oficina literária 4] AS PALAVRAS NOS LÁBIOS – poema de Manuel Mulula

AS PALAVRAS NOS LÁBIOS

As palavras nos lábios
São água do rio
Ou água do mar
Meu sol, minha noite, 
às vezes, minha sorte

Quando ditas com coração
Sabem morrer
O que não souberam viver (...) 

As palavras nos lábios
Revelam a minha paz adiada
O meu sorriso roto e rasgado 
O meu mudo brado
No musseque dos esquecidos 

As palavras nos lábios
Queria eu que valessem: 
O homem, a sua história, 
a sua honra e a sua glória

Manuel Mulula

SOBRE O AUTOR

Manuel Francisco Mulula nasceu na comuna de Luremo-Cuango, província da Lunda-Norte, Abril de 1992. Vive no Lobito, província de Benguela, desde os seus sete anos de idade. É estudante do 3° ano no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED-Benguela) da Universidade Katyavala Bwila, na especialidade de Ensino da Língua Portuguesa. 
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A Voz do Olho: 08 | DEFESA E PRODUÇÃO


Certo governante da província de Benguela receberia em audiência um empresário de enorme carisma. À chegada, o visitante congelou perante o que via: o anfitrião estava em pé, absorto, na varanda do palácio, seu olhar encravado na linha do horizonte da Praia Morena, resgatando os melhores anos de sua infância num assobio trémulo, como da aranha a teia, para captar mergulhos acrobáticos de banhistas e aquele desfile de homens, canoas e redes, talvez para minimizar a tensão constante do exercício do cargo. Governar Benguela é missão espinhosa, não se tratasse da segunda capital, de facto, de Angola.

A audiência decorreu numa feliz dosagem entre o génio agreste de um e a energia atlética de outro. Nessa época a palavra de ordem era «defesa e produção». No final, acertaram uma data de visita às instalações fabris do empresário, a convite deste, o que também se encaixava no programa de incentivo ao contributo do sector privado à economia nacional. «Teremos muito gosto em recebê-lo, camarada excelência», enfatizaria o empresário.

E lá chegou o dia da visita. O governante, cabelos crespos disciplinados com esculpido pente de pau, balalaica sobre o tronco, calças largas e de vinco laminado, calcorreava os corredores da unidade industrial, todo ele feito acenos de cabeça como quem percebesse da alma da maquinaria. Toda a deferência era pouca no recheio do relato, com o dono a comandar a visita guiada. E o governante só se limitava a observar e a corresponder com grunhidos pontuais, de vez em quando depositando um elogio ao empreendedorismo do conterrâneo (o que, sendo ou não sincero, também pecado nenhum era, digamos).

No final da jornada, o governante era regalado à altura do seu prestígio, a mais cara mobília da montra. «É uma oferta nossa, camarada excelência, pelo seu esforço no comando dos destinos da nossa província». Visivelmente emocionado pela homenagem, conteve-se para não se diluir em fluidos de emoção, afinal um carinho daquele tamanho equivaleria, convertido na ciência dos números, a muitos anos, mas muitos mesmo, do seu vigor laboral. Agradeceu ao empresário e ao colectivo de operários ali presentes.

Mas para a surpresa geral, dos vivos e das almas de operários que já partiram, o governante perguntou pelo trabalhador mais antigo daquela fábrica, um tipo desenrascado que vivia em quarto e sala com a família (que incluía filhos e netos não assumidos). E a este ofereceu a mobília, ironicamente a rebuscada oferta do patrão. «Em meu nome, leve esta mobília, camarada. É sua, por todo o suor que tem dedicado ao crescimento desta unidade de produção que tanto dignifica a nação. Você merece. Vigilância, camaradas! E não se esqueçam da palavra de ordem, está bem? Defesa e produção!»

(adaptação)
Gociante Patissa
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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Negro drama (*)


Negro drama
Entre o sucesso e a lama
Dinheiro, problemas
Inveja, luxo, fama

Negro drama
Cabelo crespo
E a pele escura
A ferida, a chaga
À procura da cura

Negro drama
Tenta ver
E não vê nada
A não ser uma estrela
Longe, meio ofuscada

Sente o drama
O preço, a cobrança
No amor, no ódio
A insana vingança

Negro drama
Eu sei quem trama
E quem tá comigo
O trauma que eu carrego
Pra não ser mais um preto fodido

O drama da cadeia e favela
Túmulo, sangue
Sirene, choros e vela
Passageiro do Brasil
São Paulo
Agonia que sobrevivem
Em meia às honras e covardias

Periferias, vielas e cortiços
Você deve tá pensando
O que você tem a ver com isso

Desde o início
Por ouro e prata
Olha quem morre
Então veja você quem mata

Recebe o mérito, a farda
Que pratica o mal
Me ver
Pobre, preso ou morto
Já é cultural

(…)

Eu sou irmão
Dos meus trutas de batalha
Eu era a carne
Agora sou a própria navalha

Tin, tin
Um brinde pra mim
Sou exemplo de vitórias
Trajetos e glórias, glorias

O dinheiro tira um homem da miséria
Mas não pode arrancar
De dentro dele
A favela

São poucos
Que entram em campo pra vencer
A alma guarda
O que a mente tenta esquecer

(…)
Entre o gatilho e a tempestade
Sempre a provar
Que sou homem e não um covarde

Que Deus me guarde
Pois eu sei
Que ele não é neutro
Vigia os rico
Mas ama os que vem do gueto

Eu visto preto
Por dentro e por fora
Guerreiro
Poeta entre o tempo e a memória

Ora
Nessa história
Vejo o dólar
E vários quilates
Falo pro mano
Que não morra e também não mate

O tic-tac
Não espera veja o ponteiro
Essa estrada é venenosa
E cheia de morteiro

Pesadelo
É um elogio
Pra quem vive na guerra
A paz nunca existiu

Num clima quente
A minha gente sua frio
Vi um pretinho
Seu caderno era um fuzil
Um fuzil

Negro drama
(…)
Família brasileira
Dois contra o mundo
Mãe solteira
De um promissor
Vagabundo

(*) fragmentos da letra da música do grupo RAP brasileiro, Racionais MC's
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[Oficina literária 3] O TEMPO ME DORMIU – poema de Anjo N’silu

O tempo me dormiu

O funji duro
A fúmbwa da tia Honorine
O bendito makayabu
Elengi eleki na munoko

Aquela antiga escola do bairro
A explicação que me deu a tabuada
As palmatórias de Sexta-feira
As mobílias e carros de barro

Os companheiros já falecidos
Os alembamentos de Nganji e Ngaxi
Aqueles kandengues já crescidos
O cozido deleitoso da tia Kituxi

O kalulú de rama e mutombo
Cozido com mwamba de dendê
E temperado com alho de kimbundu
O rio que nos deu de comer o cakusso
Saudades daquele Rio Dande

Dima, difubu, dihonjo
Os frutos da Funda Kilunda
Que a avó vendia no Roque Santeiro

As gajajas que tambulávamos de kaxexe
Na kinda da avó Kuambêsa Malundu
Os gafanhotos que caçávamos no Ngola Mbande
As lixeiras que vasculhamos no Mabululu
Monandenge, pange ia dilage

Hoje não temos mãos a medir
Mas nem sempre foi assim
O imperativo de crescer é ruim
Cresci, mas o tempo me dormiu


Anjo N’silu | Retratos

SOBRE O AUTOR

Filho de pai mukongo e mãe kamundongo, Anjo N’silu nasceu no município de Rangel, província de Luanda, se bem que o registo oficial mencione, como local de nascimento, o distrito de Ingombota. É um novo talento da literatura angolana, versado em poesia, prosa, crónica, conto, dramaturgia, abordando temas que traduzem a realidade sociocultural angolana e africana.
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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

[Oficina literária 2] E EU ESCREVI – poema de Fernando Menezes


E EU ESCREVI

Pediu para escrever um poema
Sem cor nem forma
E eu escrevi
Poemas lindos como ela a sorrir

Pediu que eu escrevesse um poema
Que não fosse enorme
que seguisse a norma
E eu escrevi seu nome

Pediu para escrever um poema
Sem dor nem esquema
E eu escrevi seu olhar
À luz das estrelas

Pediste que eu fosse profundo
E falasse do mundo
E eu escrevi sobre ti
Meu resumo de tudo

Pediste para escrever um poema
Sem cor nem forma
Nem toda esta fama
E eu escrevi-te a ti
Que acalmas minha alma.

Fernando Menezes | Coracão Que Fala

SOBRE O AUTOR

Fernando Menezes, filho de Joaquim José Menezes e de Adália Tchanguendela, tem 24 anos e vive no bairro da Bela Vista Baixa, cidade de Benguela. É estudante do ISCED-Benguela, da Universidade Katyavala Bwila, na especialidade de Pedagogia. Gosta de escrever artigos que reflectem o quotidiano e também, em tempos livres, poesia lírica. Alemeja uma obra literária e afirmar-se na nova vaga de escritores Benguelense e no engrandecimento da literatura angolana.
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terça-feira, 6 de novembro de 2018

"Nós somos 12% da população, e ainda assim, consumimos 70% de perucas e extensões. O que significa isso?"

"Que odiamos os nossos cabelos?"
(em referência aos afro-americanos. Do filme A FELICIDADE POR UM FIO)
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domingo, 4 de novembro de 2018

Opinião | Mano Matias Damásio, que te salve a opinião contra

Sala cheia, banda em prontidão. Veio todo o mundo, menos o cantor. Matias Damásio tomou a arriscada decisão de não cantar na segunda noite contratual, a menos que fosse substituído o mestre de cerimónia, Salú Gonçalves, com quem vem tendo uma incompatibilidade em função das críticas sistemáticas deste à sua figura.

A indignação pública não se fez esperar. O apoio também não. Errou o Matias por "mandar lixar" o seu público? Errou a nova energia ao manter o Salú? Quanto a mim, a questão vai além do "clubismo". Há realmente quem defenda ceder à pressão, ainda que fora do contrato, sendo o Matias a estrela. Outros recomendam um engolir de sapos, por profissionalismo. Não faltaram ainda, infelizmente, comentários a pôr em causa a origem de pobreza material, como se só os da cidade e de berço rico fossem assertivos.

É isso. À boa maneira angolana, a opinião pública fractura-se em reacção à desfeita de o Damásio não ter comparecido ao segundo dia de show no Royal Plaza Hotel, em Luanda, no contrato com a Nova Energia, produtora de eventos do casal Yuri e Yuma Simão.

Já na sexta-feira (02/11), ainda ao primeiro dia, num gesto tido por deselegante, Matias Damásio usou do microfone para manifestar desconforto em virtude de ser o jornalista Salú Gonçalves (seu inimigo) o mestre de cerimónia. Ainda assim, garantiu o cantor, iria dar o seu melhor por respeito ao público ali presente. No segundo dia, porém, e goradas a negociações, segundo fez saber o líder da nova energia, quanto à "chantagem" (de afastar o apresentador Salú), Matias não compareceu.

Seguiu-se um desfile dramático de discursos, aplaudidos em pé, lamentando não só o que consideraram falta de respeito, mas também anunciando para breve a devolução do dinheiro por cada bilhete pago. Ficou-se a saber que partira do próprio cantor a vontade de passar pelo Show do Mês. A equipa do cantor promete para as próximas horas um "comunicado à nação" e contar a sua versão. Sobrevivera a mais esta? A quem é que o Matias deverá dar ouvidos? Aos que o apoiam na intransigência ou às vozes discordantes?

Ora, reduzir o ocorrido à incompatibilidade é muito redutor, passe aqui o trocadilho. O palco é território neutro, não é nem do cantor nem do apresentador, que ali estavam, aliás, a desempenhar as suas tarefas para ganhar o seu quinhão. O mais sábio seria, ao solicitar contratação, fazer-se o trabalho de casa, isto é, pesquisar o modus faciendi. O espectáculo tem cinco anos de existência. Ora, se o Matias não conhece o apresentador residente, revela então uma falta de solidariedade para com a classe, ao não prestigiar shows de colegas (repare-se que nas fotos aparece a Pérola, cantora consagrada, sentada na plateia).

Engolir o sapo ajudaria a renovar a razão, pois o lado polémico de Salú já é conhecido. O radicalismo não penalizou o apresentador, muito pelo contrário. O público ficará com a imagem final, a da ausência antecedida de um desabafo, de si já deselegante, de quem era suposto ser a "vítima da perseguição". Não se trata de estar contra o Damásio, trata-se de ajudar o menino de Benguela a melhorar na postura quando reivindica respeito e honra. Terminamos corroborando com os apelos à união entre o Yuri, o Salu e o Damásio. Até lá, mano Matias, que te salve a opinião contra. Ainda era só isso. Obrigado.

Gociante Patissa | Benguela, 04 Novembro 2018 | www.angodebates.blogspot.com
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Vídeo | Gociante Patissa, escritor na 2ª FLIPELÔ 2018, Bahia. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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