PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sábado, 27 de agosto de 2016

Alguém viu por aí a brigada anti poluição sonora?

O karaoke da lanchonete Petisco da Ilha, no bairro Kioxe, ultimamente levado a cabo quase que todas as noites, é no mínimo um atentado à saúde. Vai até tarde (para lá da meia-noite), volume alto, vozes desafinadas e com um desastroso mestre de cerimónia. Custa é entender como é que os moradores/vizinhos aceitam isso com normalidade.

Divagações | E tudo os leitores levaram

Passar pela livraria do KERO Benguela tem sido uma emoção agridoce. Por um lado a "inveja" por não ter ali livros meus disponíveis, já por outro lado, a alegria de saber que os que ali existiam estão esgotados, incluindo a Antologia "Angola, 40 Anos, 40 Contos, 40 Autores", editada pela Mayamba no ano passado. O KERO foi revendedor dos meus três livros, nomeadamente, "A Última Ouvinte", "Não Tem Pernas o Tempo" e o "Fátussengóla, O Homem do Rádio Que Espalhava Dúvidas". Muito obrigado, caros amig@s e leitor@s, pela preferência e investimento. "O nosso trabalho é trabalhar!" Gociante Patissa.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

No princípio da tarde, hoje, o telefone chamou. We have good news for you, Mr. Patissa. Agradeci-lhes a eles e ao dia em que decidi (em 1993, auto-didacta aos 15 anos) investir na língua inglesa. Não chega a abrir tantas como o sobrenome, mas é uma chave a não desprezar. O Inglês abre portas. It pays off.

Diário | Mas o doutor é assim à toa porquê?

“Doutor! O doutor vai-me desculpar, mas o doutor às vezes só me dá raiva a vida do doutor. Olha só mesmo!… O doutor afinal vai-se respeitar mesmo quando, ó minha vida?!”
“O que foi, filho?”
“Assim mesmo é verdade, hã?, um doutor fica mesmo a andar ali de baixo para cima, cheio de suor, camisa de mangas compridas, calças de lã, parece vem do congelador? Custa mesmo ter só um pouquinho de estilo no grife?”
“Bem…”
“Mas ó doutor, faz favor! O estudo te levou mesmo a estudar até não se dar valor? Já viste os outros médicos como aparecem, hã? Carro perfumado, pele fina tipo de branco. Aquilo até, você mesmo já de longe percebe que, sim senhor!, o filho alheio estudou... Em casa, garrafeira não vale apena!, grandes mobílias; não é o doutor, que só tem uma secretária e cadeiras de plástico em casa. Porque condições sempre vos deram, governo é filho alheio! Agora você fica aí a se misturar com gente a cheirar a sovaco. Eu se fosse doutor como você, juro mesmo!, você ia ver só. Vida lixada, grandas damas!”
“Quer dizer…”
“Doutor, olha só. O governo te deu carro, ze-ri-nho da fábrica, mas você oferece o carro a um sobrinho… para andar mesmo a pé… Isso é vontade mesmo de se fazer sofrer? Mas o doutor afinal é assim à toa porquê?”
“Mas se eu te perguntar se és aleijado da perna porquê, tu vais-me responder como?”
www.angodebates.blogspot.com
Gociante Patissa (adaptação). Lobito, 26.08.2016

(arquivo) Citação

"Me encontrou mesmo ali na cozinha. Me deu um beijo da testa. Eu falei: ó patrão, esse beijo assim é quê, você me ama?"
www.angodebates.blogspot.com

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Quem adivinha o personagem?

(arquivo) Reportagem | «Na rua eu já escrevia»: Entre o sonho e a crueldade da vida, a história do jovem Mauro Solitário

Gociante Patissa (texto e fotos, 25.08.2015)

Mauro Solitário é como prefere ser chamado «o poeta» da Okutiuka, ONG que alberga crianças e pré-jovens vulneráveis na cidade do Huambo. José Litalato Graciano é o seu nome de registo. Tem 21 anos e destaca-se pela inclinação à arte. Sonha ser psicólogo e um grande escritor mas, antes, tem de estar acordado para a crueldade da vida real.

Por limite de idade, Mauro deverá abandonar o centro que o acolhe há uma década. Sem meios nem a quem se encostar, resta-lhe um futuro sombrio. A ligação com os pais parece ter-se ficado pelo biológico. «A minha tia me disse que estão vivos, mas nunca tive contacto com eles». Voltar a morar ao relento seria a última escolha, se escolher lhe fosse possível. Mas não é tudo. Deixou de estudar ainda na 9.ª classe, segundo disse, por ter perdido os documentos numa deslocação que fez a Luanda para tratar da saúde.

A reportagem do Blog Angodebates conversou com Mauro no domingo (23/08) à pala do poeta Chico Pobre, que organiza e faz tenção de incluir Mauro solitário no naipe de declamadores do festival de poesia aprazado para Setembro. Não foi possível contactar a responsável da Okutiuka, Sónia Ferreira, que não se encontrava nas instalações.

«A princípio, quando eu vivia na rua, já escrevia. Escrevia algumas coisas, tipo romance, mas os meus amigos não iam de acordo com aquilo. Gostaram mais quando um dia lhes mostrei poesia. Daí comecei a escrever coisas que fazem com que a pessoa sinta. Mas propriamente, comecei a me dedicar mais por aí há três anos», conta Mauro.

Os impulsionadores «são os meus amigos que deixei na rua mesmo», esclarece Mauro Solitário. Se ainda mantém contacto com eles? A resposta é negativa. O primeiro poema por si escrito, «era sobre uma namorada», revela, e logo acrescenta: «Já não me lembro, já passa muito tempo; é sobre a namorada dos meus amigos. Quando se deixaram, então eu escrevi uma prosa para ele, para que não pensasse mais assim muito nela.»

Guarda o projecto de livro no seu computador portátil mas, para não fugir à regra de reduzir a poesia à declamação, comum entre jovens aspirantes a poeta, Mauro Solitário guarda alguns temas em áudio no estúdio artesanal que um «irmão» seu montou ali mesmo no espaço da Okutiuka. «Tenho muitas dificuldades. A principal é de encontrar um apoio para que peguem ou patrocinem a minha obra. Outros apoios… é encontrar um sítio para ficar, porque daqui a mais um ano já poderemos sair», frisa o jovem.

Mauro, que faz da solidão a sua identidade e o fio condutor dos textos que escreve, conhece bem o valor do centro que o acolhe: «A Okutiuka representa para mim uma casa que nunca tive, uma família. Quando cheguei aqui na Okutiuka, vim por intermédio do maltrato da minha família. Passei muito tempo na rua, seis anos e tal. Então, tem uma pessoa que me acolheu, me trouxe cá em 2004», completa.

Diz gostar pouco de ler poesia, preferindo obras técnicas e científicas, o que soa um tanto dissonante para quem sonha consagrar-se como poeta. O livro mais recente que leu foi um «sobre a geografia do presente e do passado de Portugal». O acesso aos livros é outro luxo de que não dispõe, já que «a biblioteca encontra-se sem condições». Ainda assim, sonha ser psicólogo para poder «estudar a mentalidade de qualquer um». Da lavra de Mauro Solitário, escolhemos o poema que se segue:

A NOITE É COMO UMA CHUVA QUE CAI

A noite é como uma chuva que cai
Em um bairro isolado com caminhos apertados e parados ao mesmo tempo
Entre as marcas da solidão da beleza das pequenas coisas que fazem a vida valer a pena

A noite é como uma chuva que cai
Em um caminho perdido no cheiro do mar onde a história de um pobre órfão
Transforma-se em guerra num território virgem de segredos mais profundos
E mais sombrio entre os caminhos tão simples de oportunidades de vida mergulhados
Entre crimes do século de mágoas.

A noite é como uma chuva que cai
Em uma cidade perdida no meio do nada com caminhos tão simples resmungados
De esperança a um metro de distância.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Divagações | Mais holofotes do que melodia

Com o devido respeito à diferença de gostos, começo a suspeitar da verdadeira agenda motivadora da imprensa cor-de-rosa angolana em impor tanto Titica na classe do canto. Já não discutiria por exemplo se lhe enquadrassem na categoria da dança. Será que de cultura geral os editores voam assim tão baixinho? Também, numa sociedade que endeusa insólitos vocais como Nagrelha, Gasolines e afins, enquanto verdadeiros astros e vultos minguam na sombra, nada mais devia surpreender. Mas no caso Titica, figura que volta e meia impõem ao focinho da sociedade como Diva sem ter conseguido uma única entoação genuína e digna de realce, o melhor se calhar seria destrinçar quando é que a pauta é musical e quando é que versa sobre a orientação sexual. E já acostumados a falar em nome do povo angolano por tudo e por nada, li em tempos num portal também cor-de-rosa uma referência ao facto de musicalmente gozar do carinho e admiração de todo o país. Da mesma geração há nomes com potencial vocal de aplaudir ao primeiro toque, como os casos de Edmásia e Puto Português, para só citar estes. O pior é que de tanto que se repete, qualquer dia Titica passa a acreditar na mentira de ser um diamante na arte de cantar. É que é muito holofote junto para tão pouca melodia.
Gociante Patissa. Benguela, 24 Agosto 2016

Diário | O quê que ela vai pensar?!

"Amor, posso fazer uma crítica ou um pequeno reparo? Quer dizer, não é bem reparo. Se calhar é uma observação. Ou seja, talvez até não chegue a ser uma observação, é mais ou menos uma nota. Diria mais uma espécie de ponto de vista, um parecer..."
"Pára de dar voltas, homem! Qual é o assunto?"
"Sabes que eu mesmo... o amor é aquele, né?..."
"Já estás há dois dias a patinar nesta rotunda, desculpa-me o exagero... Queres dizer o quê, que a relação termina aqui?"
"Claro que não!!! Hoko!"
"Então esta tal crítica, que não é bem crítica, ou o reparo que não é reparo, ou a nota ou moeda, sei lá, é sobre o quê? Até já estou a bocejar. Que sono!"
"Amor, estamos a namorar há já quatro meses, pelo que, ah!... e já é tempo de me apresentar aos teus pais, sabes?..."
"Hum! Ó coiso! Assim, quatro meses de namoro, te apresento na minha mãe. Amanhã te dá na cabeça me trocar por outra. Pouco tempo depois vou apresentar outro homem que 'ah, mãe aquele já não é, o dono das pastas agora é esse'. O quê que ela vai pensar?!"
www.angodebates.blogspot.com
Gociante Patissa. Katombela, 24.08.2016

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Edital | Leiloando o meu voto

Numa altura em que as formações políticas se posicionam na corrida para as eleições do próximo ano, e já reunido o mais alto conselho deliberativo em mim, torno público o leilão para a venda do meu voto. Que não se assustem, pois também não está o referido produto num bom momento de cotação, na medida em que o cidadão em causa, sua excelência Eu, cada vez mais inevitavelmente a caminho dos 40 anos longe de se sentir realizado, acabou de fazer o komba dos sonhos, das ilusões, dos planos, das aspirações, da fé na nobreza dos humanos e afins. Assim sendo, o partido que garantir uma expedição de cruzeiro para Cabo Verde, uma volta terrestre por Angola, a harmonização da grafia das línguas africanas Bantu, enfim, o patrocínio para a criação e abertura de uma rádio FM dedicada à cultura... e também, já agora não sendo demais, uma reforma antecipada para nos dedicarmos só à pesquisa, literatura e fotografia, juro mesmo, fica com o meu voto. Cumpra-se. Cada um manda no que é seu. Gabinete de sua excelência eu em Benguela, aos 23 Agosto 2016. Assina: Sua excelência Eu. www.angodebates.blogspot.com

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Citação

"Envelhecer é pura poesia: até o sorriso fica entre aspas."
(Cris Guerra, escritora brasileira)

Diário | Mas tudo não é lá?

"Marido, é como afinal essa cara de limão azedo?"
"Mulher, aquele azar que costumo ver no lar dos outros, onde as mulheres também têem opinião em assuntos de homens, faz favor, que aqui ainda não chegue."
"Tchia! Olha já ele!... Por acaso há um assunto teu que depois não fica meu?! Você mesmo que quando tem problemas passa a noite toda a resmungar, quem é que sofre a ouvir?"
"Aí falaste a tua razão. Senta, isso até... Porra, meu! Esses camaradas afinal como é?!"
"Qual é o problema, ó pai do Quim?"
"Eu até já não me dói o lixo que sai da boca de deputado, mas ouvir de um colega defender que só os licenciados serão licenciados a exercer jornalismo?..."
"Isso mais é desde quando? "
"Parece que vai entrar em vigor uma nova lei de imprensa. É o que eu digo, algumas pessoas têem de fazer consulta. Sofrem de Luanda crónica na hora de pensar o país..."
"Mas tudo não é lá?"
"Possas, pá! Como é que um país que só tem ensino superior de jornalistas em Luanda e Huila vai esperar que de repente tenhamos todos um canudo específico?"
"Quer dizer que com a tua licenciatura em história e outra em direito não serves para jornalista?"
"Já viste?! Esses homens se esquecem que o país se constrói com todos e que foram os técnicos médios que aguentaram isso? Queriam o quê, que desfalcássemos as nossas províncias atrás de título?"
"Hum..."
"Só porque vivem em províncias privilegiadas, alguns foram lá fora com bolsa do estado, agora querem amerdalhar os que sempre suaram?"
"Mas ainda me fala só, mor! P'ra quê que o jornalista precisa de licenciatura? A missão não é só falar bem do patrão, do amigo do patrão e da família do patrão?"
Gociante Patissa. Lobito, 22.08.2016

domingo, 21 de agosto de 2016

Citação

"O Administrador disse 'aqui não há dizer que eu sou do Bocoio, eu sou da Kanjala, ou sou d'aonde; não dá, não pode! Todos somos angolanos.' Mas eu vi que não. Nós somos todos angolanos mas cada um tem o seu sítio, onde nasceu. A pessoa não vai fazer que, onde te nasceram, o outro vai-te dizer 'sai daí, porque todos somos angolanos, eu vou construir lá'. Não dá!"
(Constância, cidadã. Lobito. Vídeo disponível no blog Quintas de Debate)

sábado, 20 de agosto de 2016

Expressão. Ainda clics do 3.º Concerto de Jazz da Baía Azul

(Adamú da Silva. Cantor e compositor)

Solidão pública. Ainda clics do 3.º Concerto de Jazz da Baía Azul

(Kátia, cantora e intérprete) 

Citação

"Eu acho que o humor é político. Porque você está sempre batendo em alguém. Para se tornar humorístico, é claro, tem um trabalho estético. Então é bater em alguém de forma estética, basicamente. Quando você bate em alguém, você está tomando partido, certamente. Esse alguém pode ser uma instituição, pode ser uma verdade, uma ideia, pode ser você mesmo. Quando a ideologia não fica clara, a piada é mais engraçada. Mas a ideologia está lá, com certeza."
(Gregório Duvivier, humorista brasileiro. Vídeo disponível no Youtube)

Decretar falência universal do jornalismo vinha mesmo a calhar

BLOG ANGODEBATES HÁ 10 ANOS NO AR | É A oficina responsável pelos livros de Gociante Patissa

A 15 de Agosto de 2006, lançamos o blog «Angola, Debates & Ideias». O primeiro texto foi uma crónica intitulada POR QUANTAS VEZES MAIS?, dedicado à memória de Gabriel Agostinho "Gaby", da Okutiuka-Acção Para a Vida, neste link http://angodebates.blogspot.com/…/por-quantas-vezes-mais.ht…. O texto saíra pela primeira vez no blog do amigo Upindi. Mais tarde, adaptei para o conto A ÚLTIMA OUVINTE, publicado pela União dos Escritores Angolanos, no qual é atribuído o cenário ao funeral da personagem Esperança da Graça. 


POR QUANTAS VEZES MAIS...??? (*)
Uma voz, a habitual para ser sincero, lançava ao vento palavras de consolo, equilibrando-se entre o repouso agora e um espaço melhor num futuro distantíssimo, enigmático.

“Não sei quantas vezes mais terei ainda de voltar aqui, mas a chatice de cá estar é sempre a mesma”, desabafei com um amigo. Já fora, no fim de tudo, uma senhora em trajo preto desabafava impotente com uma suposta amiga (ambas para mim eram desconhecidas, sendo a viatura e a viagem a única coisa em comum entre nós): “uma gaja nunca vem aqui para relaxar… é sempre com problemas. Possas!”

Voltará a sorrir tão cedo a pobre mulher? Talvez (espero que sim!), mas o rosto transparecia abalo, com um suspiro sentido, enquanto tentava sentar-se no pára-choques traseiro empoeirado da viatura, que não sabia a quem pertencia nem o sujeito que a conduziria. Nestes momentos, qualquer carro dá, não há lugar para formalidades. No fundo todo o mundo vai ao mesmo sítio e volta já, já, à base – excepto, claro, a pessoa do dia.

E os primeiros instantes no destino então são os mais ingratos, sobretudo quando no quintal – cujo branco não é sinónimo de uma paz sincera, racional, mas apenas de conformismo, face a uma derrota sem recurso impeditivo – a leitura daquele texto de costume caminha para as últimas linhas.

Como sempre, já sei o que vem a seguir. Mas me retiro, e é agora, para não olhar de frente, pelo menos desta vez, o passo mais concreto de toda a cerimónia (aquele momento que põe de parte toda a natureza de aparências que normalmente norteiam o socialmente recomendável em termos de apresentação individual e de discursos em relação ao personagem único; o momento pragmático do “terra p’ra terra”). Dou dois passos à retaguarda devagarinho para não dar nas vistas (péssimo momento para um eventual show-off!). Uma obra de arte castanha, que atende pelo nome de caixa, capitaliza as atenções, disputando nalguns casos com os rostos húmidos daqueles directamente mais atingidos (oh, e há sempre!).

O filme é repetido e o impacto também. Enquanto deixo o círculo em busca de forças, sinto as pernas trémulas, a cabeça doendo… Estão muito frescas as imagens de uma conversa de “amizade em trabalho” que travamos na única pensão do Cubal, há um mês. Tudo agora passa para a classe de um passado sem interacção, juntamente com os seis anos da relação de colegas de “profissão”. É mais uma repetição da triste constante: a vida um dia nos junta e, logo, logo, nos separa…!

O homem da bata branca, de livro de capa azul na mão, com os olhos por detrás dos óculos, continuava a apregoar o Senhor e o descanso eterno, enquanto amigos e familiares se rendiam em segurar as poucas pás disponíveis. E cada pausa do seu discurso corajoso era preenchida por um barulho agudo, num compasso que se tornou perfeito face à peculiar frequência ao longo dos anos. O buraco tinha de ser tapado, o homem ficaria mesmo!

A poucos passos, um atraente vaso na cabeceira de uma campa de humilde aparência salta à vista. É natural ou artificial? Agacho-me, arranco uma folhinha e o verde húmido entre o meu polegar e indicador, ao esmagá-la, diz tudo. De um verde nutrido e uma flor amarela sorridente, foi trazida para cá no meio de lágrimas e choros de uma família que depositava para sempre mais um ente querido, como essa, hoje, agora. Não há dúvidas. Ela, a flor, sem me dizer há quanto tempo não recebia irrigação, só mostrou que tem conseguido sobreviver, ao lado de um vasto universo de flores artificiais em vasos com água.

Por mais voltas que dermos vamos lá sempre ter… no cemitério. Como é chato, principalmente quando cada visita representa sempre a partida de alguém conhecido e/ou chegado, para nunca mais se voltar a ter novidades?! Como doem as habituais irrespondíveis perguntas lançadas aos choros por órfãos, viúvos/as e familiares em geral? Como é ingrato sabermos que o fim da vida dessa pessoa é o início de um problema para muitos, o de dar seguimento ao seu projecto de vida? O hoje lá se vai, mas quem sabe o amanhã? Ou melhor, é coisa de a pessoa se perguntar: por quantas vezes mais terei de voltar ao cemitério?
Por: Gociante Patissa, em memória de Gabriel Agostinho, o “Gaby” da Okutiuka, Lobito, 12/08/2006

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

SE CALHAR A ÚLTIMA DAS AULAS DE FOTOGRAFIA POR CORREIO 

Decidido a fazer um upgrade no equipamento fotográfico no ano passado quando gozava uma semana de férias em Londres, adquiri a máquina Nikon D7000 directamente da representante oficial da marca japonesa. Nesta altura passei a fazer parte do clube de utentes da Nikon, por um acréscimo de aproximadamente cinquenta libras. Mais do vínculo simbólico, tal condição dá direito durante um ano a receber por correio a revista impressa trimestral vinda da Suécia com novidades, dicas sobre técnicas e artigos com troca de experiência de fotógrafos de vários pontos do mundo, portanto são verdadeiras aulas de fotografia por correio, para além de e-mails regulares. Desconfio que esta revista, hoje mesmo recebida, esteja a fechar o ciclo, numa altura em que a renovação não é viável. Claro que para aquela realidade não é nada mais do que política comercial, mas ainda assim, olhando para os nossos hábitos cá na relação de seguimento pós-venda entre fornecedores e clientes... temos muito que aprender.
Gociante Patissa
www.angodebstes.blogspot.com

Novidade | INDYHANA, uma voz em busca de espaço na música angolana

O Blog Angola, Debates e Ideias, vulgo Angodebates, recebeu por e-mail um pedido de ajuda na divulgação do trabalho musical de uma jovem. A música "querida sogra", kizomba, pode ser ouvida no link a este post anexo, basta clicar na imagem.
"Chamo-me Indyhanna, Cantora há 12 anos, como faço para promover a minha imagem no vosso portal, quais são os requesitos? Sou vencedora do concurso de música, Feskizomba 2011e fui representar Angola em Moçambique na VII Bienal de jovens criadores."

Diário | Mas vai usar como, se ele não tem braços?

“Hoje vamos falar da camisinha!…”
“OK, professora!, eu tenho uma dúvida…”
“Já? E qual é tua dúvida?”
“Assim o mano António, que não tem braços, também usa camisinha?”
“Claro! Se já pratica sexo, deve usar protecção!”
“Mas vai usar como, se ele não tem braços?! Só se deixar a mulher lhe colocar a camisinha. Até aí, também já é muita falta de respeito…”
“Falta de respeito?! Na hora da intimidade?! Acoooorda!!! E o vírus da SIDA sabe lá dizer que a esta pessoa eu não ataco porque é portadora de deficiência?”
Gociante Patissa, Lobito, 4 Março 2009. (Concebido e difundido em drama radiofónico pela AJS - Associação Juvenil para a Solidariedade)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Está frio

Na Mediateca a espreitar a exposição Olongombe. A minha ignorância em artes plásticas e eu estamos a deixar o local com a impressão de nos ter causado muito pouca impressão. Talvez a presença dos autores ajudasse a criar alguma empatia depois da explicação. Está frio. 

Sociolinguística | "OKO" ou "HOKO"? BREVE NOTA SOBRE O USO INCORRECTO DA INTERJEIÇÃO UMBUNDU EMPRESTADA AO PORTUGUÊS DE ANGOLA 

Quando estiver a usar “oko” e “aka” para interjeição, você estará a fazer tudo, menos acertar. É que tem crescido nos últimos tempos, principalmente na comunicação coloquial das redes sociais, o uso de duas interjeições da língua Umbundu, as quais pretendem transmitir simultaneamente admiração e reprovação. O que faz confusão para quem acompanha com alguma acuidade é que se multiplica e populariza cada vez mais a gralha. O correcto seria “hoko!” e/ou “haka!”, isso mesmo, com H, aspirado, correspondendo ao português “Irra!”, “caramba!”. “Oko” tem outra função, a de advérbio de lugar, quer dizer lá. Por exemplo, “kwende oko” (vai lá mais é). “Aka” também é pronome demonstrativo, quer dizer este ou esta, mas com conotação diminutiva. Por exemplo, “okamõlã aka” (esta criancinha).

Talvez seja já demasiado tarde para a presente chamada de atenção, olhando para a experiência negativa no que respeita ao uso por empréstimo de termos e expressões de origem africana (Bantu) à língua portuguesa. Geralmente, dada a velha questão de status inclinado, a língua portuguesa acaba impondo corruptela, na ausência de rigor ou interesse para um mínimo exercício de pesquisa sobre o sentido, grafia e uso correcto da palavra, como ocorre por exemplo com a palavra "kota" (irmão mais velho), que emprestada à língua portuguesa virou "cota", facilmente confundida com indicador estatístico.

Por favor, quando quiser usar as palavras para expressar admiração/reprovação, não coma o H, se faz favor. É “hoko!” ou “haka!”.

Gociante Patissa. Benguela, 17 Agosto 2016
www.ombembwa.blogspot.com

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Diário | Xé!, você é mau, ya?...

(I)
"Boa noite, meu irmão. Vai para o Lobito?"
"Boa noite. Mais ou menos. Parei para dar boleia àquele moço, é um primo meu. Não é bem Lobito, está mais próximo da Katombela o destino dele."
“Dá-me só um jeito também, ya?”
“Fica complicado, mano. Vai-me desculpar. Estou a vir da escola, são já 22 horas. Portanto, aquilo vai ser um depositar o homem na paragem e voltar.”
“Não faz mal, fico onde ele ficar…”
“Pronto, vamos…”
(II)
 “Eh pá, primo, estás entregue. Chega bem à casa e cumprimentos à família.”
“OBRIGADO. VOCÊ TAMBÉM, BOM REGRESSO E VAI COM DEUS.”
“Mano, conforme falamos, a paragem é aqui.”
“Mas vai ter que fazer a rotunda lá na bolacha do campo do Buraco, ou não é isso?”
“Sim, com certeza.”
“OK, ali estou bem.”
(III)
“Pronto, meu caro amigo, aqui já estás entregue.”
“Meu irmão, entra só até depois da ponte [500 metros]. Vais ter mesmo coragem de me deixar nesta escuridão?”
“Assim fica complicado ajudar, companheiro. Lembras-te de quando eu disse que só traria o primo?”
“Meu irmão, não custa nada, ajuda só. Eu tenho medo de bandidos. Vais fazer isso mesmo comigo, me deixar nesta escuridão?...”
“Olha, neste caso, há uma solução boa para ambas as partes. Fecha a porta, ainda vou a tempo de te deixar na paragem de Benguela [35 km] onde subiste. Lá não há bandidos.”
“Xé!, você é mau, ya?…”
Gociante Patissa, Benguela. 17 Agosto 2016

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Procura-se

Do ponto de vista meramente jornalístico e como contraponto ao tema dominante da semana, que é o congresso do maioritário, alguém tem o registo sonoro da conferência de imprensa do demissionário mais-velho Ambrósio Lukoki?

Just a question

"Porque será agora que aparece gente cujo apelido é Escritor, Poeta, Escritora, Poetisa? Nalguns casos até sem obras literárias! Simples modismo, banga... O que será? Me respondam os jovens, pois, este é o tempo deles." (Joao Tala, escritor angolano)

Algum voluntário para fazer chegar a foto aos donos?

Estes convivas do Lobito interpelaram-me muito simpaticamente durante o show de jazz na Baía Azul, no sentido de lhes tirar uma fotografia. É frequente isso ocorrer e o meu receio é sempre passar a ideia de falsa qualidade, pois calculo que imaginem tratar-se de alguém ao serviço de revistas famosas ou com a capacidade de imprimir, quando afinal só trabalho para o meu próprio Blog. Se alguém puder ajudar a lhes fazer chegar a foto, agradeço.

Contraluz

domingo, 14 de agosto de 2016

Reportagem | O JAZZ EM BENGUELA TEM LOCAL PRÓPRIO

Francisco Rasgado, mentor do Clube de Jazz
A Baía Azul, célebre urbanização turística que adopta o nome do tom vibrante em sua praia de 3 Km de extensão, foi a capital do Jazz na noite de sábado (13/08), por conta do 3.º Grande Concerto de Praia. O cartaz prometia: Dodó Miranda, Pop Show, Adamú (radicano na África do Sul), e o dúo Lázaro e Kátia. O Blog Angodebates não quis perder a festa e enfrentou os 30 Km de estrada entre Benguela e o “local do crime”.

Já em posse do passe de acesso para a imprensa, fruto da parceria com o portal Pérola das Acácias, a equipa de reportagem parte às 19h20, a faltarem dez minutos para a hora de início do evento. O prazer de conduzir numa estrada impecavelmente alcatroada é importunado pela falta de iluminação de um troço de dimensão nacional e com um histórico considerável de acidentes fatais. Toda a prudência é pouca.
Lázaro, trovador
À nossa chegada ao Rasgado’s Jazz Club, dez para as 20h00, confirma-se o já habitual nestas lides, procedia-se ainda ao ensaio do som. Somos muito bem recebidos pelo anfitrião, Francisco Rasgado (o Chico Babalada, se preferirem). O Clube, na encosta plantado, apela ao bom agasalho. O buffet montado aguça a saliva. Os convivas desfilam, entre o formal e o irreverente. A socialização entre os profissionais de informação flui, sem espaço para o espectro que divide estatais e privados. Lindo!

A trova do Duo Lázaro e Kátia espalha-se ao ritmo da brisa fria e húmida do mar. São já 21 horas. Bem-vindos à música com alma. Humbi-humbi é servido em dose dupla. Primeiro, na sua essência melódica de tema do cancioneiro Umbundu, depois na versão transfigurada por Filipe Mukenga, a que é universalmente mais conhecida.

Um homem de traço e personalidade fortes, cinquentão, olhos atrás dos óculos, boné distinto, cigarrinho à mão, vai falar. Rasgado é o dono do emblemático Clube de Jaz, restaurante e esplanada à beira-mar decorados com retratos a pincel, entre celebridades e amigos pessoais. “O Jazz em Benguela está em melhores condições do que nos restantes pontos do país, porque em Benguela o Jazz tem um local próprio”, afiança.

Dodó Miranda, acompanhado pela Banda FM
Quanto à proeza de trazer um músico radicado na África do Sul, ainda que angolano, neste contexto de crise, Rasgado considera traduzir a força da adesão e bom momento que o movimento do Jazz em Benguela vive. A noite agiganta-se de boa música e comida. Dodó Miranda brilha no palco. Se alguma dúvida houvesse do êxito do show, desfazia-se. O anfitrião puxa da voz cheia e rouca para atribuir o êxito à esposa, Zady Borrego, que se desdobra na produção do evento, ora na supervisão, ora na execução.

Adamú veio da África do Sul. Viola ao peito, voz trémula, mensagem em Kimbundu, apresenta-se a um público que não o desconhece de todo, não tanto pelos 15 anos de carreira. É que em parceria com a Rádio Benguela, Adamú é autor de temas interpretados por novos talentos no concurso “Benguela, Gentes e Músicas”, suportado musicalmente pela Banda FM, presente também neste 3.º Concerto de Praia. Passavam das 23h00 quando, vencidos pelo sono, abandonamos o Rasgado’s Jazz Club. O palco era assenhorado por Pop Show Quarteto, fazendo jus ao nome incontornável na história da música popular angolana (através do grupo Afra Sound Star). Parabéns a todos!

Gociante Patissa, Benguela, 14 Agosto 2016
www.angodebates.blogspot.com

sábado, 13 de agosto de 2016

Exercitando o outro lado profissional (atrofiado)

Divagações | A SURPREENDENTE OFERTA DOS SOBRINHOS

"Tio! Esse dinheiro é para o tio", anunciavam felizes e eufóricos dois sobrinhos meus, Abí e
Tái, cinco e sete anos respectivamente. "Para mim?" Indaguei, com vontade de devolver, ciente de que lhes faria falta para rebuçados a caminho da escola. "Nós mesmos é que estamos a dar ao tio, é nosso troco." Puxei um suspiro de alegria e satisfação, como quem colhe o que plantou. É muito útil que se cultive o sentido da partilha e desprendimento desde pequenos. Coincidiu com a hora do almoço, pelo que não sei dizer se o plano era antigo ou resultado de alguma leitura de lábios secos de fome hahaha.

Há coisa de dois anos, "se demos" encontro casual com um primo à hora do almoço. Tinha ele acabado de comprar um pacote de massa e um litro de óleo para confeccionar a refeição no seu local de trabalho. Tudo indicava que não passaria de esparguete simples de óleo e sal. Aí, saquei do bolso dois mil kwanzas no sentido de enriquecer de nutrientes a refeição do primo. Fazia-me acompanhar de sobrinhos meus, incluindo o Ataide, cinco anos na altura. "O tio afinal tem muito dinheiro, né?", ao que repliquei: "Porquê?" E ele: "O tio deu dinheiro ao tio que não pediu". Depois de alguma pausa retorqui: "Se a dado momento tens um pouco de dinheiro e vês a tua família a sofrer, tu não dás?"

Sem que eles se apercebam, dar-lhes-ei de volta o dinheiro através da mãe deles. O maior gesto já foi colhido. Obrigado!

Gociante Patissa, Benguela, 13 Agosto 2016
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(arquivo) Diário | QUAL FUTURO, HOMEM, FUTURO DE QUÊ?!

"Mas, ó mano Vano, eu já não te falei para você não andar vir me procurar mais?!”
“Isso mais que estás a falar é como é que é?”
“Será que na vossa casa não tem televisão? Eu não posso todos os dias deixar de fazer jantar, não lavar a louça, para vir te atender, ouviste? Não vamos só se complicar, ya?”
“Ehh…, vejamos…”
“A essa hora, os outros estão a ver telejornal, depois é novela, depois é sessão da meia-noite; você se põe no caminho para vir conquistar uma mulher com quatro meses e metade?”
“Você não entende quase nada da vida, e é isso que gosto em ti, cada vez adoro mais…”
“Apaga ainda esse cigarro, faz favor.”
“Te incomoda?”
“Assim vou falar quê, hã?! Ainda me fala só… Esse dinheiro que gastas no tabaco ainda podias só comprar um par de chinelos em condições. Olha só o calcanhar como está empoeirado, ó mano Vano.”
“Ouve o fundo da questão, ó minha benquista, e isso é difícil porque você mesmo sabe que os homens… ora… não são lá bons sentimentais, né? Mas é assim, esse ponto que reclamas, para mim não influi… O filho que vai nascer ou o titular da gravidez que fugiu, para mim é pacífico.”
“Ainda não dá só muitas voltas, homem, me ouve! Haka!, ó coiso, você acha mesmo juízo conquistar uma mulher com cinco meses de uma gravidez que não te pertence?”
“Mas você não é a gravidez, ó amável. Você é uma constante, uma constelação de sorrisos, afectos, enfim, um paiol de aconchegos que o futuro me reserva…”
“Qual futuro, homem, futuro de quê?”
“Mas eu te amo!”
“Mas você não tem o direito de me amar!”
GP. 12.04.2016, Aeroporto Internacional da Catumbela

(arquivo) Um recado para o nosso Ministério da Cultura e os estrategas de conteúdos na comunicação social, esperando sempre que sobre algum tempo na agenda da promoção do ku-duro, kizomba, misses, igrejas e carnaval

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Diário | VER BEM?

"Bom dia, o Pastor chamou?"
"Sim, filha. Fizeste bem em vir. Senta ainda. O grupo coral vai bem espiritualmente, não é?"
"Graças a Deus, irmão Pastor. Depois daquele caso do dirigente do grupo que tropeçou no sétimo, tirando só isso, estamos fortalecidos."
"Louvado seja Ele, filha! É de facto uma curva perigosa para a juventude o sétimo mandamento."
"É só orar, Pastor..."
"Amen! Filha, eu chamei porque o conselho da igreja está preocupado..."
"Preocupado? Fiz algum disparate?"
"Não, filha. Nós confiamos na filha, a filha mesmo no juízo... sim, senhora!..."
"Então é o quê que preocupa o conselho de anciãos, Pastor?"
"Filha, já sabemos que a filha está de namoro com aquele irmão de Cabinda que cultua connosco... Sabe como é que é, filha. Cristo mesmo é Cristo, amor mesmo é amor; mas é preciso ver bem..."
"Ver bem?"
"Aquilo é longe. Não é a mesma coisa. Tradição deles é grande. A filha é um dos pilares cá da igreja..."
"É verdade, né? Mas ainda não percebi onde está a preocupação."
"Filha, é assim. Benguela com Cabinda ainda... não estamos a ver se as famílias se casam mesmo bem. A preocupação é perder a filha e a geração vindoura. A nossa semente, filha..."
"Ok. Irmão Pastor, muito obrigada pelo carinho. Só uma curiosidade... Quando Agostinho Neto disse 'de Cabinda ao Kunene, um só povo e uma só nação', vocês pediram a palavra para desmentir?!"
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Gociante Patissa (adaptação). Katombela, 12.08.2016

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Divagações | Termómetro

Semana de tensão na comunidade virtual Facebook. Entende-se. Já a consagração do PALAVRÃO é que tanto não recomendaria. Cidadania e intervenção, SIM. Alcance pedagógico no discurso, SEMPRE. Há menores na rede.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Crónica | Os escritores têem mesmo de competir sob agenda alheia?

Estive a cogitar em torno de uma certa confusão que me faz isso de colocar escritores a competirem por prémios, bolsas literárias ou por cargos. Ou seja, não é o acto de competir como tal, quando é por iniciativa pessoal. Mas já se torna diferente quando somos sondados (geralmente sem fazer ideia por quem) e nos colocam numa lista de potenciais elegíveis (ou derrotados?), visando legitimar a victória de um escolhido, o que implica estar sujeito a uma série de requisitos e formalidades.

Soa um tanto bizarro é sermos obrigados a provar que somos, de facto, escritores. Enfim. Nos dois últimos anos perdi (ou deixei de ganhar, por atitude de discordância passiva) duas grandes oportunidades de internacionalização. Uma foi pela Embaixada Americana que me inscreveu na candidatura à residência de artista de três meses nos EUA, com um rico programa de aprendizagem, interacção, viagens e criatividade.

Do monte de requisitos, ressalto que não me esforcei em traduzir para inglês dez páginas do meu livro «Não Tem Pernas o Tempo» nem quis pagar do meu bolso USD 500 à empresa especializada. A candidatura fez-se ainda assim de forma condicionada. Não voltei a ouvir deles, pelo que para um bom entendedor... A outra oportunidade seria pela multinacional Rolex, que tem um programa de «Tutor/Protegido», com a duração de um ano. Incluía um subsídio de 27 mil francos suíços e a possibilidade de ser acompanhado por um nome sonante da literatura em língua portuguesa.

Pediram um absurdo conjunto de comprovantes, a saber, dois livros publicados em PDF, umas três cartas de recomendação de instituições credíveis a atestar a condição de escritor, recortes de jornal (não vá um alfaiate inscrever-se), carta dirigida ao tutor, vídeo gravado a manifestar intenção, quer dizer, chatices que nunca mais acabavam. E tive de provar que afinal era mesmo escritor (algo em que eu também às tantas já não acreditava).

Para não ser muito duro, tenho de reconhecer que em certa medida foram generosos e se ficaram pelo benefício da dúvida, pois podiam muito bem no quadro dos procedimentos exigir uma fotografia em alta resolução dos órgãos genitais do candidato, que era para atestar o género. Ora, se não acreditam nos «olheiros» ou painel (secreto) de júris que identificam os candidatos, não é melhor encerrar o programa?

Penso que não se devia pegar em alguém por se destacar numa determinada área de artes e lhe colocar a concorrer com base na agenda dos organizadores. Em ambos os casos, pede-se discrição aos candidatos (que eles próprios localizam, não por anúncio público). No final saem aquelas notícias pomposas: «escritor fulano de tal vence isto e aquilo no meio de tantos».

É certo que a nível interno já concorri em 2012 por iniciativa própria ao prémio Sagrada Esperança como o livro «Fátussengóla, o Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas», finalista vencido e recomendado pelo júri para publicação. Por outro lado, tinha fé que seria galardoado quando me convidaram para apresentar candidatura ao Prémio Provincial de Cultura e Artes de Benguela, o que acabou por acontecer (creio que mais por convicção do presidente do júri, ArJaGo) com a distinção na categoria de investigação em ciências sociais e humanos devido ao contributo que presto na divulgação da língua/cultura Umbundu através de contos e novas tecnologias de informação.

E quando saem as notícias dos premiados, o público não faz ideia dos bastidores. Desengane-se, pois, quem pensa que os processos de premiação são consensuais, transparentes e baseados no puro talento. Ainda era só isso. Obrigado. Ah, ia-me esquecendo. No momento em que escrevo esta crónica, estou à espera da aprovação do júri de um governo europeu que me convidou para uma semana literária.
Gociante Patissa, Benguela 10 Agosto 2016
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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Ponto de ordem | EXCELÊNCIAS, UMA ANGOLA ASSIM, NÃO!

A imagem da criança assassinada por elementos das Forças Armadas Angolanas em Luanda é um importante recado para a humanização das medidas, quaisquer que sejam elas, no exercício da autoridade. O governo, enquanto gestor do Estado, deve formar, supervisionar e punir os seus agentes quando surgem excessos. O que se sabe é que o menor Rufino (que anda na 3.a classe do ensino primário? 14 anos?) foi baleado deliberadamente quando tentava travar a demolição do habitáculo dos pais num dos bairros emergentes de Luanda, que atende pelo nome de Walale. Definitivamente não há argumento nenhum razoável para justificar uma tal tragédia, a começar mesmo pela colossal desproporcionalidade. Excelências, é cada mais audível o coro de denúncias de violência na relação entre as camadas socialmente menos posicionadas e as forças da ordem. Desta vez voltou-se a ir longe demais. Há que humanizar! Há que legar cidadania. Há que ter presente que o fim nobre das políticas é melhorar as condições de vida do povo. "À criança, tudo o que ela merece", e não fui eu quem sabiamente o idealizou. Porque uma Angola que regula à ponta do fuzil, excelências, não beneficia ninguém. Assim, não!
Gociante Patissa. Benguela, 9 Agosto 2016
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Elaleko | Convite | Invitation

Ukwetu Ndaka Yo Wiñi walaika okwimba helanyã liya vombala yofeka 
(o companheiro Ndaka Yowiñi vai actuar depois de amanhã na capital do país)

Citação

"Minha filha, eu lá em casa nem açúcar não tem, mas vi o jogo de Angola, aquelas meninas que ganharam, fiquei tão contente que, mesmo velha como sou, esqueci tudo!!!"
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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

"TEMOS IMENSA DIFICULDADE EM ASSUMIRMO-NOS COMO UM COLONIZADOR QUE FOI RACISTA" - Joana Gorjão Henriques, jornalista portuguesa, entrevistada pelo portal Rede Angola

Extractos
“Eu pensei na questão do racismo exactamente por causa do luso-tropicalismo. Em Portugal continua a existir no senso comum a ideia de que nós fomos “melhores colonizadores” e que, por nos termos misturado com as populações locais, fomos menos racistas do que os outros colonizadores, digamos assim. Como povo há esta ideia da brandura e também da bondade do projecto colonial. Portanto, o meu objectivo era mesmo desconstruir o mito do luso-tropicalismo pela voz dos africanos. É certo que existe, por exemplo, alguma reflexão na academia aqui em Portugal, que depois não passa para o senso comum como desconstrução deste mito, mas é tudo um bocadinho da perspectiva portuguesa.
(…)
"Não, porque acho que temos muito material em Portugal do ponto de vista português, o que nos falta era exactamente o ponto de vista africano, que há também e é produzido nos próprios países. Por exemplo, na escola aprende-se a história do lado de quem foi oprimido, de quem foi colonizado e essa versão africana existe, mas em Portugal não, ela não é ensinada. Quando se abre um livro de História e se começa a aprender a História colonial portuguesa é só o ponto de vista dos descobrimentos e da expansão, não temos outro ponto de vista para termos uma fotografia mais completa."