sexta-feira, 12 de setembro de 2014
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
(do arquivo) Crónica| Elevadores Americanos, Um Monumento Ao Desconhecido
Janeiro de 2010. A chegada a
Washington DC começou com pequenos percalços no aeroporto de Dulles. Na
verdade, os percalços tinham começado bem antes, no voo de ligação em Newark,
onde o pessoal de segurança se alarmou pelo tamanho da pasta de dentes que
trazia de Lisboa estar acima do permitido, em bagagem de mão. A presença do
protocolo do Departamento de Estado (um senhor simpático de casaco azul) ajudou
a desdramatizar a coisa, pois um mês antes tinha sido abortada uma tentativa bombista
de Mutallab, um jovem nigeriano, de pele escura e desacompanhado, como eu.
Tive a oportunidade (como poucos a
quem calha anualmente) de ser indicado pela embaixada dos EUA a representar
Angola no programa de Líderes Juvenis Visitantes Internacionais, durante 28
dias. Para além da troca de experiências com várias organizações, houve visitas
a uma série de monumentos e sítios, em quatro estados: Washington DC,
Portland-Oregon, Salt Lake-Utah e Miami-Florida.
Em Washignton DC, ressalta-se o
arquipélago de melancolias que são os memoriais dos soldados mortos nas
guerras. Vindos de todos os cantos e rectas do mundo, América é uma placa
giratória de turistas, que não resistem, quando lá chegam, à maresia do lugar.
O nosso grupo era formado por vinte elementos, de países diferentes. A visita é
guiada por jovens voluntários, que emprestam a sua emoção às narrações. Certo
dia, após visita ao museu da aviação, um vietnamita desabafou: «Os americanos
lamentam e choram a morte de seus soldados, mas lá onde foram, que não é seu
território, mataram muito mais do que o dobro do que se queixam». Tocou-me,
confesso, embora seja uma verdade à vista.
Voltando a Dulles, é um enorme
aeroporto com dois pisos para saída, um reservado a viaturas particulares e
outro para serviços de táxi. Fui logo sair trocando as opções. Perguntando a
esse e àquele, lá consegui enfiar-me num Cab,
como são designados os táxis personalizados de cor amarelada. Era africano
o motorista, somali de vinte e cinco anos, que dizia estar nos EUA pela via do sorteio
Green Card, já lá iam dois anos.
Pensava buscar a família, à medida que se estabilizasse. Trinta dólares foi a
tarifa, mas acabei dando cinquenta, ficando os vinte adicionais a dever-se à satisfação
pela africanidade com que me abordou, durante meia hora de estrada.
Na recepção, aguardava por mim um
envelope com o mapa da cidade (como se o meu sentido de orientação fosse lá grande
coisa) e a chave da porta em forma de cartão multi-caixa, o famoso formato Smart Card. Estavam também os três
tradutores (mais guias do que tradutores a bem dizer, uma vez que dominar a
língua inglesa é outro pressuposto básico de elegibilidade no Programa de
Visitantes Internacionais, iniciativa diplomática que, desde o ano de 1940, dá
a conhecer os EUA abrindo portas a visitantes de vários países do mundo, cobrindo
as despesas com alojamento e passagens. O meu grupo era de líderes de
organizações ligadas à promoção da cidadania e direitos humanos).
Fiquei triste, por ter calhado com o
quarto oitocentos. Não tenho a mínima atracção por elevadores, ao mesmo tempo
que caminhar oito andares vezes sem conta, ao dia, é uma maçada sem
precedentes. A minha decisão de aguentar tais «peregrinações» teve de ser
abortada. Era casmurrice humanamente insustentável. E foi, pois, nos elevadores
que observei a multiplicidade de choques culturais e laboratórios sociológicos.
Ia saudando em cada entrada para o
elevador, como faria aqui, mas à medida que fossem entrando outras almas, notei
que não esboçavam o mínimo gesto de saudação (justiça seja feita a raras
excepções para legitimar a regra). Acomodavam-se e olhavam para o lado.
Estranho, pensei. O que vem a seguir? Essa gente faz monumento ao desconhecido?
Como posso encontrar alguém num lugar tão restrito, como um elevador, e
simplesmente fingir que não estou ali? Sim, porque saúdo para dizer que existo,
como pessoa, como ser social. O outro lado faz o mesmo, e celebramos o milagre
da vida, por muito breve que seja um sorriso, um aceno, ou um simples olá.
«I don't think I should say hello to the people that I don't know» (não acho que seja obrigação saudar
pessoas que não conheço), disse certa vez, no contexto angolano, alguém de
nacionalidade (e cultura) americana. Não lhe prestei grande atenção cá, como é
óbvio. Agora que estava lá, as mesmas palavras tinham sentido bem diferente.
Mas depois repreendi-me a mim mesmo,
por essa análise tácita, em função da construção social, do meu sistema de
valores, sobre a leitura de uma realidade geográfica e culturalmente distante. O
que será que representa para a sociedade americana «o desconhecido»? Um ser
inerte, uma fonte de medo, uma indiferença em movimento?
Benguela, 24 Novembro 2012
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Diário| VINTE MENOS UM
Já há muito andava tomada a decisão: passar
pela livraria e, discretamente, comprar todos os exemplares em stock, colocando
assim um ponto final ao depósito por consignação. Uma viagem na livraria acaba
sempre em mergulho no infinito,
pelo que acabei comprando pelo menos cinco títulos, entre ensaios literários de
Kandjimbo e outros na vertente criativa. Quando me pronuncio ao que vinha,
diz-me a atendedora que já só restava um dos vinte. Quer dizer, ficava sem
efeito o plano de recolher os exemplares do «Consulado do Vazio», capa de Délio
Batista, o livro de poesia com que me estreei em Maio de 2008, à venda nestes
seis anos ao preço de quinhentos kwanzas na livraria SUCAM, Benguela.
domingo, 7 de setembro de 2014
Bonga – trecho da música HORA KOTA
“Isso não é recuar
É somente afirmar
Quem és tu para onde vais
(…)
Não despreze essa matriz
Me conserva por favor
Não se esqueça da raiz
Seja lá quem você for
Não agrave a minha dor”sexta-feira, 5 de setembro de 2014
escritor Gociante Patissa em palestra Mediateca Benguela 04.09.14
Nos festejos do segundo aniversário da Mediateca
de Benguela, Gociante Patissa foi convidado a palestrar sobre "A
Salvaguarda do Valor Literário" para uma plateia de cerca de 40 directores
escolares do município de Benguela. O evento teve lugar na sala de conferências,
a 4 de Setembro de 2014 (21 minutos de áudio)
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Censura em miniatura
"Ó tio, no hospital matam?"
"Acho que não,
o trabalho do hospital não é matar, é tratar o doente. Porquê?"
"Se matam..."
"Vamos falar
de outra coisa, ya? Me pergunta se o funji alimenta. É claro que alimenta."
Ele e os irmãos
meteram-se a rir. Quer dizer, o censor passa sempre por ridículo, não é? hahaha
terça-feira, 2 de setembro de 2014
SOCORRO! Há uns espertalhões do bairro Golfe, em Luanda, que fazem uso indevido para fins comerciais da foto que regista a outorga da minha licenciatura
O cartaz chegou-me agora há pouco por um amigo
que acidentalmente o viu afixado. Julgo que os infelizes furtaram a foto ao meu facebook e/ou blog angodebates.
Peço por isso entre os meus amigos e conhecidos na capital para a aplicação do
devido correctivo, o qual desde já agradeço. Os contactos são evidentes na
publicidade. Pobre ironia a minha, desta vez vítima de um anúncio surreal.
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Com quantas caras imaginamos
Ó tio, assim uma coisa que passou ontem, a
gente imagina com as nossas duas caras?"
"Mas então,
temos quantas caras?"
"Duas!..."
"Ah, é? Quais
são?"
"Essa e essa!"
"Isso que
mostras não são caras, são os olhos. A cara é a parte de frente da cabeça, é
onde estão os olhos, a boca, nariz..."
"Ah..."
"Mas também
não é com a cara que imaginamos, é com o cérebro, que está dentro da cabeça."
E ele pegou no
comando do descodificador da Tv e ligou o canal de bonecos. Devia fazer mais
sentido.
Pode?
"Ó tio, assim se uma pessoa a namorada
dele gosta uma equipa que sai fumo branco e ele gosta uma equipa que sai fumo
escuro, dá?"
triagem
"O senhor tem feito febres?"
"Bem, em princípio, não."
E a enfermeira regista 36°C... talvez para poupar o termómetro.
"Bem, em princípio, não."
E a enfermeira regista 36°C... talvez para poupar o termómetro.















