sábado, 14 de dezembro de 2013

Do arquivo, fábulas da Terra: O CÃO, O GATO E O PEIXE NA GRELHA

Pelo menos uma vez na vida, o Cão e o Gato tentaram levar uma vida pacífica. É que não se justificava mais – entendiam ambos – a rivalidade, quanto mais não fosse pelo facto de habitarem debaixo do mesmo tecto:
– Vizinho Cão, consegues dizer-me a razão de sermos inimigos?
– Para ser sincero, mano Gato, eis uma pergunta que nunca ninguém me soube explicar! Então, por falar nisso, mas porquê a pergunta?
– Bem, não é nada de especial. Mas…
– Eh pá! Acho melhor te afastares. Ir na tua conversa não significa que me apanhaste a pata, fica já a saber!!!
– Lá estás tu, ó Cão, com a tua parvoíce! Por acaso te faz mal conversarmos?
– Ora... Digamos que não.

E a conversa continuou entre inimigos, que aproveitavam bem a saída da dona de casa para as compras:
– Você já imaginou, ó Cão, como temos tanto em comum?
– Hum... Será?
– Claro! Vê só: andamos sobre quatro patas, temos cauda, a mesma ama, somos solteiros. Então?
– Estamos juntos, mas não misturados, ó Gato!
– Para quê usar estas palavras que nem são tuas sequer?

Tanta era a argumentação do Gato, que ao Cão faltavam argumentos para não acreditar no novo projecto de paz no lar. Perante tão boas intenções, também já cansado de andar aos murros com o “baixinho miau”, decidiu aceitar o pacto. Surpresa, porém, ficou a dona de casa ao notar que, ao contrário do habitual, o Cão e o Gato já não disputavam a graxa na apresentação das boas vindas. «Esses gajos devem ter muita fome», pensou:
– Mas vocês ouviram óbito ou quê?
– NÃO, não. Quê isso, nossa ama?! – responderam os ex-inimigos.
– Mas não vos parece que há paz a mais nesta casa? Então já não brigam? É como, então?
– Bem… temos algo a dizer, avançou o Gato. – Decidimos acabar com a inimizade de longos anos, cuja origem desconhecemos.
– Têm certeza que é mesmo isto o que querem?– Sim! – asseguraram.

O tempo passava e melhor entendiam-se. A ama só seguia, admirada, o novo fenómeno, bonito de se apreciar, por assim dizer. E sempre que ela saísse, um deles fazia de Oficial-dia. Geralmente, o Cão tinha o papel de protector físico, enquanto o Gato era electricista. E num belo dia, enquanto a ama aguardava pelo noivo para um almoço romântico, descobriu ela que algo faltava para os temperos. E:
– Meus amigos, tenho de sair.
– Está bem, nossa ama!
– Vocês sabem que nesta casa somos pela responsabilidade.
– Claro, senhora! – confirmavam.
– Hoje, de quem é avez ?
– Do mano Cão, senhora. – disse o Gato.
– Pois! Meu cãozinho, toma conta da casa e ajuda o Gato.
– Pronto! A senhora sabe que sempre fui seu amigo e fiel protector físico.

E dizendo isso, o Cão estendia os braços para mostrar sua mascote de ouro e fingia sacudir poeira no seu casaco novo, mais novo até que a gravata.
– Não quero encontrar problemas.
– Relaxe, senhora. Desde que fizemos o pacto com o Cão, reina a tranquilidade – garantia o Gato.

Meia hora depois, com fome e gula, o Cão dirigiu-se ao Gato:
– Confrade Gato, tira então um naco desse peixe na grelha.
– Caro Cão, não digas isso nem mesmo a brincar.
– Gato, então você acha justo aqui suportarmos o cheiro do grelhado, com fome?
– Não! Roubar é feio e crime.

E nesse puxa e não puxa, a boca do Cão ficava cada vez mais cheia de água, até não aguentar mais. Foi então que pegou na pata do gato, levou-a à grelha, beliscando assim boa parte do peixe, o qual comeu num piscar de olhos, enquanto o Gato sofria com a dor da mão queimada.

Ao chegar à casa, a ama reparou a desgraça com o peixe na grelha e chamou ambos para uma conversa dura e rija. O Cão limitou-se a fazer gestos de fino, dizendo que, se ao longo dos anos nunca roubou nada, não seria naquele dia que sujaria a sua reputação por um simples peixe. O Gato, que ainda chorava por causa da queimadura na mão provocada pelo falso amigo, não teve tempo para se defender, e foi expulso do lar.

Moral da estória: “muitas vezes o mal vem de quem menos se espera, mas geralmente paga o pobre”.

Adaptado por Gociante Patissa, Julho/07 (publicado no Boletim informativo, educativo e Cultural “A Voz do olho”, propriedade da AJS-Associação Juvenil para a Solidariedade, Lobito, Edição de Setembro/2007. Baseado numa fábula contada pelo professor de ética social no curso de sociologia de uma universidade de Benguela que acabei  por não concluir)
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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Quando os jornalistas acertam em todas as línguas, menos nas de seu próprio país

Gosto do perfeccionismo do enviado especial da TPA à África do Sul, o grande Ernesto Bartolomeu (do telejornal), a ponto de pronunciar estalidos semelhantes a /k/, quando em português diz a palavra em "Xhosa", fonemas da língua sul-africana que, ao que tudo indica, não têm razão de ser. A parte mais triste é apenas termos a certeza de que mal saberia pronunciar o nome do ministro das relações exteriores do seu país, se /tchikóti/, /xikóti/ ou /chicote/. Ou seja, a nossa comunicação social, sobre tudo a falada, faz de tudo e mais alguma coisa para entortar acrobaticamente a língua, quando se trata de nome estrangeiro... Só não conseguem é obter resultado similar quando se tratar de nomes étnicos angolanos. Somos realmente especiais.
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Opinião: DE PICANTE EM PICANTE, ESCLARECIMENTO ESPERA-SE DO ILUSTRE DIAS RODRIGUES

Tony do Fumo Jr, em Salvador da Bahia, Brasil
Numa altura em que o mercado musical angolano se prepara para receber o quinto volume do projecto PIKANTE, iniciativa do DJ DIAS RODRIGUES que reúne em cada série uma colectânea a várias vozes, teima em não calar uma dúvida que tem a ver com a legitimidade autoral, quando se trata de temas de autores já falecidos.

Foi assim com a edição em que o clássico “NA GAJAJEIRA”, de URBANO DE CASTRO, foi interpretado pelo músico LEGALIZE. Não me interessando por ora entrar para o mérito do intérprete, não posso deixar de referir que houve vozes, bastante idóneas até, que na altura se levantaram pela possível inobservância de procedimentos legais para o usufruto do património em causa. Longe de mim fazer juízo de valor, uma vez não conhecer, nem o mentor do projecto, nem os herdeiros.

O que entretanto parece inusitado é notar que já se voltam a ouvir vozes de revolta pela interpretação de um dos temas de ANTÓNIO DO FUMO, desta feita pelo jovem EDY TUSSA. Terá havido autorização expressa, ou será mais uma daquelas coisas de, como dizemos em Umbundu, apanhar o cágado na subida? Bem, parece que é mais do que chegada a hora de o “nosso” DIAS vir a público dissipar de uma vez por todas tais dúvidas, sob pena de o descrédito ensombrar a virtude intencional do projecto e o desempenho dos intérpretes convidados.

Do alto da minha ingenuidade, e porque acredito que, mais do que comércio, o PIKANTE persegue a promoção cultural entre gerações, sou a sugerir algo que certamente terá já passado pela cabeça do seu mentor. Por que não juntar ao projecto uma dimensão de imortalidade, permitindo que as músicas reeditadas sejam interpretadas pelos próprios filhos dos autores já falecidos, por exemplo?

Penso que temos um URBANITO JÚNIOR que até não canta assim tão mal, para já não falar do TONY DO FUMO JÚNIOR, que por acaso deixou ao rubro o palco da Biblioteca de Barris, como a foto ilustra, durante a VI Bienal de Jovens Criadores da CPLP, em que Angola se fez representar por uma delegação multidisciplinar na cidade de Salvador, Bahia, no Brazil, de 3 a 7 de Dezembro de 2013. Se por um lado ficaria elevada a ética, já por outro, em nada ficaria beliscada a estética do produto mercantil.

É pincelada de um observador que não tem pretensão alguma de assumir o papel de porta-voz dos presumíveis lesados. Só que, sem descurar do benefício da dúvida, é de uma das músicas do próprio PIKANTE que ouvimos que “onde há fumo, houve fogo”.

Gociante Patissa, Benguela, 13 de Dezembro de 2013
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Do arquivo, fábulas da Terra: PORQUE É QUE A CAUDA DE LAGARTIXA CAI?

Foto de autor desconhecido
Conta-se que Dona Lebre e Dona Lagartixa eram boas comadres! Cuidavam do cabelo uma da outra. Estavam tão habituadas a manter as fofocas actualizadas que, na ausência da Dona Lebre, Dona Lagartixa ficava doente, e vice-versa. Mas… não há nada melhor do que o tempo e a fome para medir a força das relações.

Certo dia, um dos vários de um longo tempo de penúria, vinha Dona Lebre de uma aldeia vizinha, ressacada ainda pela festa da noite anterior. Trazia numa mão a felicidade e na outra a carne de vaca para a família. Mal se aproximou da aldeia, viu uma goiabeira de frutos bem maduros. Para Dona Lebre, toda emancipada, trepar uma goiabeira era coisa mínima. E trepou, deixando a carne ao pé da árvore sobre uma pedra. Ainda não tinha comido um único fruto, quando ouviu gritos de lá debaixo da árvore:

– Achei, não roubei! É minha sortiiiéééé!!!!! – gritou Dona Lagartixa.
– Deve haver confusão. A carne é minha, deram-ma na festa. – argumentou Dona Lebre.
– Nunca, comadre! Isso é que a carne não é!!! Como assim, tua? É que nem penses!
– Por tudo o que é mais sagrado. Só parei para provar goiabas. E como não dava jeito trepar com a carne, deixei-a ao pé da árvore. Vou partilhar um pouco, cara comadre…
– Dividir o que achei? Assim perco a sorte. Ou levamos o caso ao Rei, ou não sei… Hum!

E foram, trombudas, à ombala do Rei, cada convencida de ter o monopólio da razão.
– Ó Rei, – disse Dona Lagartixa, soltando palavras a jacto – se a carne fosse da comadre Lebre, não teria trepado com ela?

Engasgado, o Rei não teve outra saída senão atribuir a carne à Dona Lagartixa. Esta, feliz por ganhar a causa, saiu disparada com a gula de devorar a carne com os filhotes. Mas, por distracção, deixou a cauda do lado de fora da toca. Nisto, Dona Lebre deu conta da cauda da Lagartixa. Agarrou-a e gritou:
– Obá! Achado não é roubado! Achei uma cauda de lagartixa, é minha sorte!
– Pára, pára, pára aí, ó comadre Lebre! – resmungava Dona Lagartixa a pedalar de cabeça para baixo. – Já não reconheces a minha cauda, comadre Lebre? Isso já é ofensa!
– Não... eu achei a cauda, comadre Lagartixa…
– Mas como é que vais achar uma coisa que está presa ao meu corpo? Ou será que a comadre tem algo contra mim? Exijo justiça, vamos ter com o Rei.

Uma vez lá, e ouvidas as duas versões, o Rei já não teve problemas em decidir. E disse:
– Se entrou para a toca, Dona Lagartixa, e deixou a cauda de fora é porque não é sua. Não foi o mesmo com a carne da outra?

Dona Lagartixa ainda tentou ludibriar outra vez, mas o Rei tinha um exemplo claro, e ordenou:
– Dona Lebre, segure o machado e corte a cauda à tua comadre, senão você vai perder a sorte.

Dona Lebre cortou a cauda e, como não precisava de caudas de lagartixa, jogou ao chão, aí mesmo na ombala do Rei. A proprietária recolheu a sua cauda e saiu desesperada à procura de um bom médico-cirurgião plástico. Infelizmente, a tecnologia não andava lá muito avançada. É por isso que, quando se dá um golpe, a cauda da lagartixa cai.

Moral da estória: uma amizade de verdade resite à fome, a distância e outras tentações.

Fábula popular Umbundu adaptada por Gociante Patissa (naquela época para o programa “Aiué Sábado” da Rádio Morena), Benguela 14/08/08
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Minha terra tem

Minha terra tem
a cor
que lhe devolvemos do chão

Minha terra tem
o odor
dos que lhe separam os grãos

Minha terra tem
a força
do clandestino encontro das mãos

Arnaldo Santos, in Momentos (1958-2011), apud Revista Austral Nov/Dez 2013, pag 98. Taag. Luanda
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Duo Violim - Viola Caipira e Voz, Brasil em Sons e Versos


Formada por Domingos Salvi e Sara Melo, a dupla destaca-se pela execução da viola caipira, um instrumento peculiar da cultura brasileira, composta por cinco cordas duplicadas. Paralelamente, levam a cabo um trabalho de recolha e formação através do projecto Voamundo. "O Instituto Voamundo tem como objetivo a educação cultural e artística. Seu ponto de partida é a fonte inesgotável da cultura e dos saberes populares. O elemento principal de condução é a arte, pois através dela é possível brincar, cantar, se relacionar e se fortalecer como comunidade, sociedade e humanidade", lê-se no site http://www.voamundo.art.br/.
Palco da VI Bienal da Jovens Criadores da CPLP, que teve lugar na cidade de Salvador, Bahia, Brasil, de 3 a 7 de Dezembro de 2013. Fotos do meu telemóvel
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Ararur, banda portuguesa de Jazz


Pelo que disse a vocalista, essa foi a primeira apresentação do grupo, palco da VI Bienal da Jovens Criadores da CPLP, que teve lugar na cidade de Salvador, Bahia, Brasil, de 3 a 7 de Dezembro de 2013. Fotos da minha objectiva
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Uirapuru-Orquestra de Barro do Ceará

O grupo brasileiro, cujos instrumentos musicais acústicos são predominantemente feitos à base de cerâmica, esteve na VI Bienal da Jovens Criadores da CPLP, que teve lugar na cidade de Salvador, Bahia, Brasil, de 3 a 7 de Dezembro de 2013. Fotos da minha objectiva
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Citação

"Está provavelmente extasiado com a obesidade da sua conta bancária"
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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Quase voo

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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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TV-ANGODEBATES (novidades 2022)

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