domingo, 26 de outubro de 2025

Ontem! Cerimónia de Benção e Outorga de Diploma do meu Mestrado em Ciências da Comunicação

Ontem! Cerimónia de Benção e Outorga de Diploma do Mestre em Ciências da Comunicação, especialidade de Comunicação, Marketing e Publicidade, 2022-2024. Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, turma internacional leccionada em Inglês. Curriculum: Estudos avançados em comunicação / Media, Sociedade & Cultura / Meios Sonoros e Podcasting / Guionis mo-audiovisuais / Marcas e Reputação / Responsabilidade Social Corporativa-Sustentabilidade / Publicidade / Comportamento do Consumidor / Marketing Estratégico / Estratégias e Métricas de Marketing Digital / Metodologias de Investigação Científica. Média Final: 16 Valores. Defesa: Fev 2025




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sábado, 18 de outubro de 2025

TPA completa 50 anos. Sinto-me filho da casa, o escritor e o jornalista em mim foram revelados ali


18 de Outubro pertence à TPA (Televisão Pública de Angola), que comemora 50 anos de existência. Sem nunca ter feito parte dos quadros da estação, considero-me filho da casa nas minhas dimensões Jornalística e Literária. Tudo começou em adolescente quando "fugia" da escola e fui abordado pelo caminho pela carrinha de reportagem, na Catumbela, tendo sido entrevistado e convidado a assistir às gravações do programa infanto-juvenil Comboio da amizade. Ali fui rabiscando e recitando poemas, contei piadas e cheguei a produzir/efectuar três reportagens como aprendiz não remunerado na área do desporto, até desistir e seguir outros caminhos. Ao longo destes anos, senti-me sempre tratado com carinho e amparo por profissionais de diferentes áreas da televisão e procurei dar o meu contributo para o serviço público de cidadania. Estamos de parabéns. TPA somos todos nós. A foto é de 2025.

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DIÁRIO | O CONDE CORAÇÃO?

 DIÁRIO | O CONDE CORAÇÃO?

"Mas Ó MULHER! MU-LHER! Estás esse tempo ali fechada no quarto. Mas já não se almoça nesta casa?! É mesmo assim?!"

"Marido? Fala só um pouco mais alto, não se ouve bem..."

"Perguntei o almoço, pá! Não viste que o comboio das 12h40 já apitou?"

"Vou já fazer..."

"MAS SÓ PORQUE VOCÊ É QUE TRAZ COMIDA EM CASA, UM GAJO TEM QUE SUBORDINAR, MINHA SENHORA?!"

"Marido das outras também, quando a mulher está incomodada, cozinham lá um bocado..."

"Essa merda é brincadeira com coisas sérias, pá! Muito cuidado, ó mulher, marido hoje em dia tá difícil então. Tás a ouvir, né?!"

"Aprende ainda a ter paciência, marido. Estou a ver condecoração..."

"ASSIM JÁ É NOVELA DESSA PORCARIA DA TURQUIA, NÉ?"

"NÃO! CONDE-CO-RA-ÇÃO..."

"Agora começaste a namorar no telefone? Quem é esse tal conde do coração, que é para um gajo lhe partir já os cornos?! Um dia vou perder a compostura, sabés, né?!" 

"Marido, eu disse estou ainda a assistir condecoração..."

"Conde coração, conde coração!!. Você acha que tens mais idade para se apaixonar, essas coisas de fadas e condes e reis e princesas, mulher?! Um gajo cheio de fome e tu aí, em vez de cuidar dos teus deveres perante o marido, não! Ficas a viajar na maionese...."

"50 anos, homem."

"O que é que tem a ver se já tenho 50 anos?! Por isso fico a fome porque a minha mulher está com um conde novo no coração..."

"Nada, homem, já ganhaste. MAS NÃO SABES QUE ESTÃO A DAR MEDALHAS NAS PESSOAS O PRESIDENTE?! Está a pipocar. Quero ver ainda se nos 600 reconheço lá um..."

"Ah, quando é assim falava mais cedo, mulher. Essas medalhas vão matar gente de vontade. Faziam só já um livro com nomes e cada um espera o seu dia..."

"Se bem te conheço, lá no fundo também queres..."

"Achas que sou um professor qualquer?! Vai lá perguntar no PUNIV quem foi o primeiro prof a vender fascículos aos alunos. Ainda antes dos computadores do chinês, ouviste, mulher pouco informada?!"

"Seria medalha da candonga, meu marido?"


 www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | L. 18 Outubro 2025

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quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Poema inédito | LOIÇA LIMPA

Poema inédito | LOIÇA LIMPA 

Aos meus amores

Não ofereçais relógio

amanhã ontem nem agora

Não vá o céu cair na tentação

De lhes cobrar o pulso

Ou o ponto da hora


Aos meus amores

Não ofereçais vestidos

Alvos rendilhados 

A ferro bem passados

Não vá o diabo ou o seu oposto

Sujar a nódoa


O amor come-se com as mãos

De amassar o pão

Minha mãe

E eu feito de mãos e argamassa

Lavei a louça

Mais cedo

toda ela

desta vez

toda

e se não mais cozinhar

É para não vê-la suja

outra vez.


Gociante Patissa | 04 Outubro 2009 - 08 Outubro 2025

www.angodebates.blogspot.com

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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Ensaio | SÓ MULHERES CANTAM NA PEDRA DA FUBA: O MILHO E O DESCANTE COMO PILARES DA CULTURA UMBUNDU [actualizado]



Gociante Patissa, Luanda 17-21.09. 2025 | 

Da sabedoria popular nigeriana lembra-nos o provérbio que “o homem não vai longe de onde se assa/cozinha o seu milho” (em inglês, “a man doesn't go far from where his corn is roasting”), um apelo à memória das nossas origens e laços em cada etapa da vida.
 

Mais uma vez o milho aparece no eixo da construção societária pela cultura alimentar e espiritualidade, o que implica atravessar e catalisar uma série de processos, valores e saberes de povos de origem Bantu, na região austral do continente africano. 

 

De acordo com o Relatório do Mercado de Milho da África, “o tamanho do Mercado Africano de Milho é estimado em US$ 41,40 bilhões em 2024, e deverá atingir US$ 57,26 bilhões até 2029, crescendo a um CAGR (taxa de crescimento anual composta) de 6,70%.  O milho é considerado o alimento básico para a maior parte da África Subsaariana (...) África consome 30,0% do milho produzido no mundo, sendo a África Subsaariana responsável por 21,0% do consumo. Cerca de 14 países em África consomem 85,0-95,0% de milho como alimento básico” (Mordor Intelligence 2023).

 

À parte a economia e com foco no grupo etnolinguístico ou sociolinguístico Ovimbundu (predominante no sul, centro e sudoeste e faz mais de 1/3 da população de Angola), o nosso campo de pesquisa combina a linguística, sociologia, antropologia e a vivência, explorando o milho e o imaginário como factores de ignição na dinâmica das estruturas sociais e argamassa cultural. 

 

O presente ensaio nasce da análise de um curto vídeo (FAS 2025), que reporta a tradição de transformar o milho em fuba de forma artesanal por mulheres de uma comunidade rural de Benguela, sentadas num rochedo à beira do rio (em Umbundu, “ohanda” ou “esenje”). E ao compasso dos pisos de madeira com que trituram o milho, essas mulheres improvisam em coral de harmonia impecável uma antologia de cânticos declamativos.

 

O pirão ou funji de milho é o prato principal na essência Ovimbundu, acompanhado de carnes, peixe e verdura, superando os restantes cereais, designadamente a massambala, o massango e o trigo. Do milho derivam outros pratos, como “asola” (canjica), “ekende” (panquecas), sem esquecer a bebida não espirituosa e o maior símbolo de hospitalidade, “ocisangwa”. É com o milho que se ensina a rapaziada a montar armadilhas de pássaros, a par do farelo com que se prospera na suinicultura. A sêmola do milho chegou mesmo a emular o arroz para animar a mesa especial de Natal, nas décadas de 1980 e 1990, ante a quebra da ligação entre o interior e o litoral por conta da guerra civil que assolava o País. 

 

“O cimbundu, como qualquer Bantu, tem um ouvido bastante educado para o descante. Ele canta quando ara a terra dura (…); canta quando moe no rochedo no alto da montanha ou no almofariz seguindo um ritmo cadenciado (…); canta quando pesca” (...) Todas essas imagens são levadas ao âmbito metafísico e ético, numa linguagem metafórica, poética, única capaz de exprimir a beleza, o encanto, o espanto” (Tchikale 2011:17).

 

É sobre a inserção deste instituto de iniciação feminina que filosofamos nesta sequência de ensaios sobre o milho na antropologia Umbundu. Um é intitulado A ORIGEM DO NOME LUSATI: Um pouco de antroponímia umbundu (Patissa 2021) e outro, Oratura: Breve nota sobre o sentido etimológico da bebida “ocisangwa” (Patissa 2013).

 

A mensagem e a sua alegoria no plano dos hábitos e costumes

 

“Lele / si topola / si topola vali we” (oh, eu não desmato / já não desmato)

“Nãwã ka topola / ame si topola” (o cunhado recusa-se a desmatar / e eu mal consigo)

“Lele / okwenda umbumba kuvala” (oh, o quão sofrida é a vida de viúva)

“Visolo we / mweya ombimba / yele” (o arvoredo de mulembeiras foi invadido por bimba)

“Epungu vateyateya liocindongo” (o milho ideal de colher é o de espigas multicoloridas).

“Ondambi vayongoyola yukusole” (beldade para conquistar é aquela que gosta de ti).

 

A primeira parte da cantiga tem um alcance social e gravita em torno do verbo “Okutopola” (abater com machado ou catana). Neste contexto produtivo remete a desmatar uma parcela de terra para cultivo, papel socialmente atribuído ao homem. 

 

Dado que os valores do meio tradicional são de grande solidariedade para com a franja vulnerável (as crianças, os idosos, as pessoas com deficiência e as viúvas), torna-se, pois, insólita a negação a uma viúva que pede socorro para actividade braçal de subsistência, como é o caso de desmatar a terra de cultivo, ainda mais a desfeita vinda de um cunhado (grau que abrange também amigos e conhecidos do finado). Tal afronta à moral e ao capital social é logo inserida no repertório declamativo do rochedo, compondo-se assim mais um belo canto dolente feminino de autoria comunitária. O lamento expressa o mecanismo social de protesto e sanção, como desenvolveremos mais adiante.

 

Já a segunda parte tem um alcance mais simbólico, sem deixar de ser uma metáfora da harmonia entre os seres e a sua ligação espiritual com a ancestralidade e com a natureza, à volta de três tentáculos: o vegetal, o gastronómico e o afectivo.

 

O arvoredo de mulembeiras foi invadido por bimba sugere uma tensão a favor da árvore da sabedoria e sagrada (usolo), cuja fronde dá a sombra suficiente para se transformar em espaço de diálogo e de convergência (onjango). A mulemba oferece ainda raízes aéreas de uso medicinal (que simbolizam, por outro lado, a barba dos ancestrais), ao passo que a bimba, de caule leve, de pouco mais serve do que transformar-se em banquinhos e canoas artesanais. A sua presença junto à mulembeira ilustra a corrosão de valores. Quanto ao segundo e terceiro tentáculos, estes sentenciam que o milho ideal de colher é o de espigas multicoloridas; beldade que vale a pena conquistar é aquela que gosta de ti. Em termos estéticos emerge um trocadilho, posto que “ovisolo”, plural de “usolo”, partilha morfologicamente a mesma radical e fonema com “okusola” (gostar ou amar).

 

Para aprofundar a compreensão deste manancial da oralidade, desafiámos algumas fontes orais com recurso a plataformas digitais, das quais destacamos as três que se seguem: 

 

“A mbimba desenvolve-se em pântanos ou à beira-rio, Usolo é em terreno firme, sem exigência de rega quando já grande. Usolo tem uma copa grande e acolhe ninhos de várias aves. A mbimba cresce em tronco único e erecto, vai diminuindo o tamanho conforme cresce. Usolo tem um atributo medicinal que a bimba não tem” (Justo Cataca 2025). 

 

“Epungu lyotchindongo”, conhecido noutras variantes como “ocitengasova”, representa a convivência harmoniosa entre povos diferentes na mesma aldeia. Partilham o mesmo espaço, os mesmos meios de produção, porém cada um preserva a sua identidade. No momento da colheita, quando o camponês se depara com uma dessas espigas, separa-a das demais e guarda (...) Tem o nome de tchindongo, porque faz parte do conjunto sagrado de informações femininas simbolicamente codificadas do grupo: Ndongo, olundongo e otchindongo", coisa que só chega a descodificar quem for perspicaz ou “tchisukila okwenda undongosi”[1] (Sakaungu Sangalangui 2025).

 

Estas espigas raras “na dimensão do povo ovimbundu representam unidade (o milho branco e o vermelho são principais). “Ame pungu liyela. Sikwete epañu” (sou milho branco. Não rejeito ninguém). É assim que os mais velhos dizem” (Job Sipitali 2025).

 

Estrutura, forma e filosofia do cancioneiro Umbundu/Bantu


O cancioneiro Umbundu, como de resto não andará muito distante das demais línguas/culturas irmãs de matriz Bantu, é fragmentado, constituído por números breves de versificação livre, poucas estrofes e elipse frequente. Os trechos funcionam ainda melhor quando entrelaçados em antologia temática e por vezes, até, rítmica. Olhando para aquilo que é dado a tocar pela imprensa, são os casos das rapsódias interpretadas por Bessa Teixeira (sulunlã), Patrícia Faria (Tambula Osaya) e Duo Canhoto (Omboyo).

 

Não se podendo dizer que se trate de canções datadas, é seguro afirmar que impera no seu âmago o princípio da contextualização, ou se quisermos, a estratificação contextual por subgéneros que levam em conta factores sociais como a idade e o género, entre outros.

 

“Temos cantigas de amigos, cantigas de amor, cantigas de escárnio e de maldizer, canções de casamento ou epitalâmios, hinos à vida (acções de graças), canções bucólicas, etc.” (Tchikale 2011:18).

 

“Há também canções específicas para assuntos ou ocasiões específicas que se celebrem: nascimento, óbito, ritos de iniciação, casamento, lavoura, caça, acolhimento de um hóspede especial, recordação nostálgica de um ente querido, etc”. (Bonifácio Tchimboto e Eusébio Tchamawe 2019:51).


Margarido, Alfredo (1964:5) assevera mesmo que “não deixa de ser importante notar a conjugação existente entre a orientação que se regista em tais canções e a espinha dorsal que podemos encontrar na poesia erudita angolana”.

 

“No campo da literatura, sobretudo das narrativas de intenções pedagógicas condensam sistemas filosóficos. Porquê? Porque ensinam causas e efeitos de comportamentos cívica e moralmente desviantes, perniciosos ao equilíbrio e harmonia da vida comunitária dos Bantu” (Macedo 2010:25).

 

Assim, está visto que tanto o milho como a terra transcendem no imaginário e na memória colectiva a presença funcional de alimento e enquanto meios de produção. A gastronomia é o cabouco da cultura de um povo. No processo em si de idas e vindas entre o lar e o rio ou entre o lar e a “Ohanda/esenje” constrói-se a escola de educação para a vida de mulher para meninas, reservando ao universo feminino a privacidade para tratar dos seus tabus. O magazine social entoado ao transformar milho em fuba é outra conquista em termos de expressão em sociedade patriarcal, de recato e submissão. O rochedo que alberga as canções sabe muito mais da intimidade da aldeia do que a figura do próprio Rei.

 

Referências:

 

Bonifácio Tchimboto e Eusébio Tchamawe. 2019. Ética e Pedagogia na Literatura Oral Africana - Estudo Etnolinguístico do Umbundu. Vol. I. 1.a ed. Benguela: Factalux.

FAS, dir. 2025. «Si topola» - cancioneiro Umbundu com mulheres do Kaseke Benguela.

Job Sipitali. 2025. «Conceito e alcance proverbial de “Epungu lyocindongo” na cultura e imaginário Umbundu».

Justo Cataca. 2025. «Relação entre as árvores Usolo e Ombimba na cultura e imaginário Umbundu».

Macedo, Jorge. 2010. A Dimensão Africana da Cultura Angolana. 2.a edição. 35.o Aniversário da Independência Nacional. Luanda: INIC/Ministério da Cultura.

Margarido, Alfredo. 1964. Canções Populares de Nova Lisboa. 1.a ed. Lisboa: Casa dos Estudantes do Império.

Mordor Intelligence. 2023. «Milho África Tamanho do Mercado». https://www.mordorintelligence.com/pt/industry-reports/african-maize-market.

Patissa, Gociante. 2013. «Oratura: Breve nota sobre o sentido etimológico da bebida “ocisangwa”». http://ombembwa.blogspot.com/2013/03/oratura-breve-nota-sobre-o-sentido.html.

Patissa, Gociante. 2021. «A ORIGEM DO NOME LUSATI:  Um pouco de antroponímia umbundu aproveitando a moda». https://angodebates.blogspot.com/2021/05/a-origem-do-nome-lusati-um-pouco-de.html.

Sakaungu Sangalangui. 2025. «Conceito e alcance proverbial de “Epungu lyocindongo” na cultura e imaginário Umbundu».

Tchikale, Basílio. 2011. Cantares dos Ovimbundu: 135 canções em Umbundu. Colecçâo Ciências humanas e sociais. Luanda: Kilombelombe.



[1] A fonte utiliza a grafia católica ainda em uso para as línguas Bantu em Angola




 




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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Crónica | EU NEM SEI QUEM O SENHOR É!

 


A capital inexiste em Agosto. Corrigindo, existir, até existe, mas é vestida de fantasma. Tudo parado na agenda cultural, tirando fiapos de animação em bares, restaurantes e tascas de terceira linha. Porque os papões do ramo, estes, nessa época do ano, fecham-se em copas, fechar só a copa era pouco. Na vidraça das boas-vindas, como se poupassem no escrivão, estabelecimentos diferentes convergem na voz da folha A4 estampada. A estação é de Férias. Volta à carga só depois de 25. 

No pico do verão, a grande Lisboa inexiste. O sol, que ocupa três quartos do ano em expectativas desde a tenra idade, agora é o único a preencher avenidas. Radiante, a dizer estou aqui, abraçai-me! Só que não. É um sol solitário. A gente a sombra levou. Nada melhor que baixar os estores da janela, hidratar, resguardar a pele dos raios.

Há quem aproveite para dar vez a obras cosméticas, de burro pouco tendo. Pisca-se o olho à quebra de jejum que se avizinha, apimentando a relação com o cliente. Não dizem por aí que com os olhos se come? Até lá, ao apetite que cace pratos mais para o mediterrâneo é fazer o caminho de volta com a sua fome. Conforme-se! Um deles eu, ainda lerdo nisso de kebabs e de costas viradas com os Eats bicicletados da vida, por motivos outros (fiquem para outras crónicas).

Só mesmo a ASMA, perdão AIMA, a desmentir o defeso institucional, para o gáudio de imigrantes em sufoco de regularizar a condição de residentes. Brasileiros, PALOPianos, Indostânicos, Latino-americanos, bwé só. Abastados, trabalhadores, desenrascados, estudantes, mwambeiros, mixeiros e pambaleiros (os três últimos coisa nossa). Estreantes e repetentes prontos na data indicada por e-mail de agendamento, em alguns casos com uma antecedência estreita agravada pela alta dos bilhetes de avião. Feliz sai quem chega à etapa dos sinais biométricos, não faltando dramas de só abrir e-mail em Agosto quando o agendamento era para Abril.

É este o tema que povoa, mais o Afrobasket reconquistado ontem após quinze anos a tentar. Meia hora depois do fecho de portas, e o Boeing 777 TAAG ainda no chão. Taxiar mesmo (guardemos a palavra rolar para momentos especiais), que é bom, nada. O embarque até correra suave. Como sempre, figuras públicas e publicadas a colorir. Jornalistas, DJ's, músicos, políticos e para-políticos, tudo à mão de semear.

Na fila ao lado um passageiro de por aí cinquenta e meio anos, sentado no corredor, ao ver uma menina de não mais de sete anos passar com o seu trolley abonecado, sauda-lhe com ternura de neta. "Estás boa?" Ela caladinha. Ao fundo do corredor vem a mãe, que não tem como ouvir o papo. Ele insiste. "Estás boa, menina?" A menor então responde: "Eu nem sei quem o senhor é!" Pausa. "Não sabes, né? Tens razão", completa o homem. Em instantes passa a mãe da menina, esta sim conhecida. Pela conversa de circunstância há pelo menos cinco anos que não se viam. Embarque segue.

A cena, curta na sua acção, projecta bem o dilema que se coloca às formas de educar o ser social. A dose certa entre a herança de um sistema de valores mais comunitário (de parentesco africanista extensivo) e a consciência de prevenção da criminalidade urbana (onde se educa a criança a não interagir com estranhos)... quem achará?

Gociante Patissa | por cima do Atlântico| 25 Agosto 2025 | www.angodebates.blogspot.com

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sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Partida de César Kangwe deixa Benguela sem a sua maior referência no drama-radiofónico

 A asserção atribuída a Octavio Paz, segundo a qual “não há poesia em si, mas em ti”, fazjustiça a pessoas da estaleca sociocultural de César Kangwe (pequena onça, na língua Umbundu). A lenda deixou o mundo dos vivos, fiquei a saber há instantes. De facto, pouca diferença faz que não se tenha convivido com ele no círculo mais restrito. O impacto do seu trabalho permanecerá sempre vivo, tanto nos arquivos sonoros da então Emissora Provincial de Benguela como na memória colectiva.

Tive o privilégio de o convidar em 2007 para a mesa-redonda que discutiu os desafios de valorização das línguas angolanas de origem africana, num espaço que realizei e co-apresentei com o Edmundo Francisco ao serviço da AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade). Impressionava a distância a que o kota Kangwe se mantinha do microfone, no entanto preenchendo o espectro com a potente voz.

 

Trovador, compositor, guionista, locutor, actor de drama radiofónico de expressão Umbundu, o filho da Ganda ficou conhecido pelos episódios de “Cimbanda Kawele – haeye oloha, haeye osakula”, “Quem cacó ndaqui”. Através das radionovelas retratava-se em tom satírico as peripécias na coesão social de um país ainda novo, com um mosaico diverso que se tentava adaptar ao modo de vida na cidade. Kangwe e a sua equipa produziram durante duas décadas o que representa, sem sombra de dúvidas, a mais alta referência social e antropológica.

 

Para as gerações mais recentes o nome César Kangwe poderá soar algo distante, excepto talvez pela corruptela na saudação “Um braço!”, celebrizada em companhia de Agostino Tropa, Mirene Praia, Luwawa, Pedro Largo, Victorino Hosi, entre outros, no programa “Omenle Yocinjomba” (manhã de festa), depois rebaptizado como “Ocinjomba Cokoviteketeke” (festa da madrugada). Era um fenómeno de audiências e magnetismo digno de estudo sociológico, colocando meio litoral de Benguela acordado, rádiorreceptor debaixo do braço entre as 4h00 e as 7h00 da manhã.

 

A mística viria a ser corroída já mais recentemente, nos últimos quinze anos, numa iniciativa da Rádio Nacional de Angola que entendeu reduzir o tempo de emissão e “despejar” o magazine social da frequência principal da Estação que emite nos 92.9 FM,  realojando-o numa frequência secundária. De resto, um gesto legítimo da entidade que gere a rádio, porém difícil de compreender, face ao capital social que o programa granjeara como património do povo, à parte um ou outro deslize editorial. Ocinjomba Cokoviteketeke unia os vários segmentos da sociedade, pela vívida identificação que estimulava em quem ouvia a língua/cultura projectada no espaço mediático oficial.

 

Quem o visse passear pela cidade, já em idade de reforma e se reinventando nas antenas da Rádio Morena Comercial onde Kangwe animava um espaço nocturno, podia não lhe captar suficientemente a envergadura do contributo prestado ao País e à memória colectiva, nas décadas de 1980-90. Eram tempos em que se contavam aos dedos de uma mão as casas com televisor, cabendo à rádio o papel social de educação e enriquecimento do imaginário, produzindo radionovelas e uma série de programas na linha daquilo que hoje se designa por infoentretenimento.

 

Mais velho Venâncio César Kangwe, ou Ngunsu Yowiñi (A força do povo), como também te deste a conhecer no Facebook, a nós resta-nos a vénia eterna à tua figura. Upongo wove uliliwa ndati? Twasala upongo, a sekulu. Wapesela ka nõlã!

 

Gociante Patissa | Lisboa, 22 Agosto 2025 | www.angodebates.blogspot.com


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quinta-feira, 21 de agosto de 2025

"O PROBLEMA É QUE QUEREMOS POSICIONAR-NOS NO PLANO INTERNACIONAL ANULANDO O LOCAL" - Gociante Patissa, escritor angolano, entrevistado pelo Jornal Expansão (*)

Uma das mãos que se posiciona como um dos herdeiros do virtuosismo da literatura angolana não vê "o escritor como um estágio ou como um lugar onde se chega", mas como um intermediário, um "tradutor do pensar, do imaginário". Gociante vive com o medo natural de ser lido só por escritores.

 

A oralidade é uma tradição africana muito rica. Como muitos, teve a bênção de nascer num berço griot [contador de histórias]. Qual é o significado para si?

No meio rural, naquele contexto, era muito mais propenso à palavra falada. Porque não havia "a contaminação" dos órgãos de comunicação social e da globalização. Os valores eram muito mais fortes. Sendo um meio pequeno e num contexto de guerra, a tendência de as pessoas ficarem circunscritas ao meio era mais forte. Por isso, sempre falei o português e o umbundu. Aquilo a que se chama idiossincrasia (o conjunto de valores, de simbologia, de crenças) tudo era quase uniforme da região Ovimbundu, que fica na fronteira entre o Huambo e o Bocoio.

Tal como em muitas regiões a oralidade imperava?

A nossa realidade do mundo era aquela [oralidade]. Um bocado de escola, mas a grande característica sociocultural ou socioeconómica era no meio rural. Depois tem a questão do provérbio, do conto, a forma de socialização, que eram instrumentos da educação diária. Havia também o serão, que era para contar histórias. E aí a tradição oral ia passando de geração em geração.

Tradicionalmente as noites eram para contos... eram os "mimos" daquela altura para as crianças?

Sim, era esse ambiente. E não havia diferente. Em todos os lares, depois do jantar, as pessoas sentavam-se à volta, dependendo da época do ano. Mas o hábito de contar histórias era como - não diria uma regra, porque tinha de haver um mecanismo de fiscalização —, mas era uma extensão natural do nosso modo de vida. Tanto é que na oralidade, a parábola e o provérbio surgem como mecanismos de regulação. Então havia sempre uma crença, segundo a qual, se contássemos histórias durante o dia, íamos ganhar chifres. Mas hoje, olhando para trás, se calhar era para dizer que de dia tínhamos de ir trabalhar, e à noite era o momento para a socialização e a transmissão da tradição oral.

"As tradições orais não devem ser julgadas pelo critério de verdade ou mentira, mas pela lição que transmitem"

E quando é que transita da oralidade para a palavra escrita?

A transição não consigo estabelecer, porque a própria escrita também é oralidade — embora muitas vezes seja uma oralidade concebida até no contexto espiritual, como você disse, em umbundu — para depois transpô-la num outro código linguístico, no caso, o português. Mas, em 1985, com o agudizar da guerra civil, os meus pais entenderam que tínhamos de sair do interior para o litoral. Na altura, tinha cinco, seis anos. Mas a oralidade nunca morreu. Costuma-se dizer que ninguém é do Lobito, assim como de Luanda: todo mundo veio de algum lado quer pela máquina industrial, quer à procura de melhores condições de vida. Ou seja, aonde quer que fôssemos morar no Lobito, havia sempre as bases etnolinguísticas salvaguardadas. Isso manteve-se até 1995, 1996. O hábito de contar histórias prevaleceu.

Como nasce a escrita?

A escrita, penso que foi a partir da 4.ª classe, com a obrigação de escrever redacções e fazer ortografia. Mas o livro, como tal, publiquei em Maio de 2008, reunindo os textos que considerava mais representativos, escritos desde 2001: "O Consulado do Vazio". Nesta obra, aglutinei esses textos, muitos dos quais escritos ainda durante a guerra, naquela aspiração de que isso tinha de acabar, de que precisávamos de um mundo melhor, com menos mortos e mais compreensão.

É um livro típico do sofrimento do poeta?

Sim, do poeta e do activista também, porque passei a fazer parte do mundo das ONGs. Então, "O Consulado do Vazio" era a voz do poeta, do activista e também do blogueiro — mais ou menos uma combinação distinta. Era uma voz para a paz.

Curioso que o primeiro livro é um apelo à paz, mas o seu primeiro contacto com o livro foi motivado também pela guerra civil?

Como todos nós, porque naquela altura, no contexto da Guerra Civil, o exército ou Ministério da Defesa era quem mais comprava livros para animar as tropas; o livro chegava à frente de combate. Então, nesse contexto, era indissociável a abundância do livro e a guerra. Não que a guerra fosse ou seja uma virtude, mas sabe que a guerra tem duas características: quando não é estúpida, tem a capacidade de aproximar as pessoas.

Naquele tempo, vivia-se o que se chamava criatividade orientada. Havia muita produção de textos voltados para a mobilização; a literatura prestava-se também a alimentar a propaganda. Então, por meio do meu pai, iam chegando livros a casa. A tomada de posição, no fundo, não estava apenas no escritor, mas também no leitor. Nós éramos de uma geração que aprendia a ler não de forma insípida, não a leitura pela leitura, mas como arte com posicionamento.

Mas literatura ideológica não impediu que o escritor se fizesse por ler?

Sim, o escritor faz-se por ler, mas também por observar e viver o mundo à sua volta.

"se não tivesse nascido no interior, se tivesse nascido só na cidade, acharia que a alienação identitária que vivemos hoje é normal."

É fácil perceber as marcas da sua infância nos seus textos. Que influência ela teve na forma como escreve?

Há muitas influências. Primeiro, no ritmo, na tendência narrativa, na de contador de histórias, mas também em alguns personagens. Não direi que há trauma, mas há características muito marcantes daquela altura. Quando éramos pequenos, bastava ouvir o disparo de uma arma para corrermos a abrigar-nos junto da mãe ou de uma tia. Eu tinha sempre uma tia, chamada Adelina Mbali, irmã do meu pai, que era o nosso refúgio. Essa senhora está presente em quase todos os meus livros. O personagem Mbali atravessa vários contos. Eu o coloco sempre lá inconscientemente. Acho que tem a ver também com a forma como criamos um personagem matriarcal, mas também bravo, de uma figura feminina. Até porque temos um problema na nossa história — muito concentrada no triunfalismo masculino. O feminino é destacado na região norte. Então, o facto de a personagem Mbali estar sempre presente nos contos pode traduzir essa ligação à infância. Talvez seja um lugar da infância, ao qual sempre regresso, como refúgio, segurança. 

Houve algum momento na sua infância que o definiu como escritor?

 

Não. Não vejo o escritor como um estágio, como um lugar onde cheguei. Vejo como um processo. Não quero puxar isso para um lado mais messiânico e dizer que é um dom ou não. Vejo o trabalho de escritor como um compromisso. Às vezes, fazendo a intermediação entre o pensar e a expressão, porque a literatura é essencialmente expressão. É como no jornalismo. A pessoa não é jornalista apenas quando escreve aquela peça — é jornalista o tempo todo. O risco que você vive, vive-o o tempo todo, não só por ser autor daquela peça. Para mim, ser escritor é ser tradutor de pensamento, ideia, imaginário, revolta, crítica. É um estado permanente, uma forma de ser e estar. É um processo. Não há um momento concreto que possa dizer "isto contribuiu para ser escritor". Infelizmente, como precisamos de referências para sustentar certas categorizações, considera-se escritor quem publicou um livro. Mas e se eu não tivesse publicado um? Podemos dizer que a infância é a minha essência, no sentido de reivindicar a identidade. Penso que, se não tivesse nascido no interior, se tivesse nascido só na cidade, acharia que a alienação identitária que vivemos hoje é normal.

 

Outra característica dos seus livros é a forma de ser e de conservar o ancestral, o tradicional e a cultura. Não se deixa afectar pela globalização inevitável?

 

Não, é inevitável que ela nos toque, mas cada geração é forte enquanto consegue contornar os desafios do seu tempo e contexto. Nada garante que o contexto sociocultural que encontrei ao nascer no final dos anos 70 seja a essência. Não acredito em civilizações estanques, mas também não aceito a ideia de que o português seja o ponto de partida e chegada, já que uma língua veicula uma cultura.

 

Mas na globalização, a característica essencial é uma unidade de medida universal, que serve para todas as geografias...

 

O erro é usar a cidade como régua para tudo. Até porque a velocidade da vida urbana não permite referências sólidas. Quando falo em referências, refiro-me a coisas que sustentam narrativas. Por exemplo, acho problemáticos programas como o Mitos Urbanos, da TPA, que tentam desfazer mitos fundadores — estes são necessários para sustentar o imaginário. As tradições orais não devem ser julgadas pelo critério de verdade ou mentira, mas pela lição que transmitem. Por exemplo, quando estudamos inglês, aprendemos sobre um "monstro de Londres" — os ingleses não desfazem os seus mitos. Devemos compreender o que há por detrás deles e como nos ligam espiritualmente aos nossos ancestrais.

 

Há uma fábrica urbana que produz uma verdade universal?

 

Não defendo antagonismo entre cidade e campo, mas respeito mútuo entre contextos culturais. Não é porque alguém é de Luanda que representa todo o país. É preciso criar mecanismos para dar vida às realidades locais e projectá-las para fora. O problema é que queremos posicionar-nos no plano internacional anulando o local. Vejo muitas zungueiras falando umbundu em Luanda, mas sentindo que precisam de falar português para agradar o cliente. Precisamos de valorizar e preservar essas línguas. Podemos explorar esse mosaico cultural sem criar guetos ou regionalismo. O carnaval não basta; é preciso um plano contínuo. Podíamos ter formações, encontros, eventos para fortalecer essa identidade. Pode parecer utopia, mas é necessária. Eu sou da utopia e do sonho, pois a realidade é chata.

 

Os seus contos representam o campo e a cidade. Continua a assistir-se à quase "marginalização do mundo rural"?

 

No livro "A Última Ouvinte", escrevi contos que representam tanto a cidade como o campo. Há, no entanto, marginalização crescente do mundo rural, fruto de mentalidade europeizada. Mas também porque ainda não investimos nas zonas rurais e não criámos uma sistematização, acabamos por tomar como referência de civilização uma mentalidade europeizada. Ainda achamos que o locutor tem de falar como um branco, então aí existe um complexo que não conseguimos superar. O que eu entendo, conversando com muitas pessoas naturais de Luanda e ligadas à elite, é que o luandense da elite acha que não tem sotaque — porque, para ele, sotaque remete a algo negativo. E isso é uma contradição total, porque a língua falada carregará sempre o registo do meio, não importa onde. O próprio português não se fala da mesma maneira em todo o Portugal, porque cada meio acrescenta o barro à língua. Achar que, por ser de Luanda e da elite, não se tem sotaque é apenas reflexo de alienação total, associar sotaque a algo sujo ou inferior.

 

"O erro é usar a cidade como régua para tudo. A velocidade urbana não permite referências sólidas"

 

NASCIDO GRIOT

[Gociante Patissa nasceu em 1978, na comuna de Belo Monte, município do Bocoio, província de Benguela. Sob forte influência do pai e da mãe, tornou-se um exímio griot, afirmando-se como um dos maiores contadores de histórias da nova geração de escritores angolanos. Possui sete obras literárias publicadas, entre poesia e contos. É jornalista e apaixonado por rádio. As suas obras "A Última Ouvinte" (contos) e "O Apito que Não se Ouviu" (crónicas) foram, desde 2023, incorporadas no catálogo da Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil), na secção de Estudos Africanos.]

 

Voltando para a escrita e aproveitando a sua deixa: a escrita também serve para fugir da realidade chata?

 

Se entendermos a escrita como um processo mental, pode ser uma forma de testarmos os limites da sociedade. Portanto, não é só o real, mas também o imaginário (como seria, se...). Mas, às vezes, o imaginário pode ser uma forma de negar o presente, porque não concordamos com ele. Pois, toda a escrita é política, envolve tomada de posição, não há arte por arte. A arte combina dimensão social e cultural com estética.

 

Qual é o seu maior medo como escritor angolano?

 

O único medo que tenho é que, infelizmente, os escritores escrevam apenas para outros escritores.

 

Porquê?

 

Porque o livro custa caro e não há subvenção, as políticas que existiam de incentivo e subvenção foram descontinuadas. Então, o meu medo é escrevemos para sermos lidos fora do país, enquanto os nossos cidadãos não nos lêem. Este é o meu maior medo. Sempre critiquei a tiragem limitada. O meu medo é que a literatura se torne um exercício de elite, escritores escrevendo para escritores — e se desligue da sociedade, do cidadão comum.

 

Mas passa-se também a ideia que o angolano não lê?

 

Claro que generalizar é sempre injusto, mas para entender os angolanos e a matriz do povo, temos de olhar para a sua forma ancestral de expressão: somos um povo de oralidade. O meio de comunicação mais forte ainda é a rádio, porque a rádio é a palavra. Mesmo nas redes sociais, o audiovisual vai ganhando espaço, pois reflecte quem somos. O texto escrito exige domínio das ferramentas de descodificação, que se aprende na escola e na família e também se aprende no contacto permanente com o livro — se ele for abundante. Mas, se tiver de escolher entre comprar um livro ou pão, vou escolher o pão. Este é o contexto socioeconómico. Durante anos, subsidiamos o combustível. Talvez agora seja necessário subsidiar o livro, tal como se fez/faz com o combustível.

 

"O poder financeiro não deve definir a voz do artista. O leitor define a qualidade do escritor"

 

Mas a oralidade é como passa um testemunho, há que haver sincronização geracional e rigor?

 

Sim, a oralidade implica presença. Os mais velhos — guardiões dos nossos valores estão a ir embora. O livro pode servir como ponte. O mais velho que partiu pode ter deixado algo escrito. Alguém pode transcrever. É preciso que o livro não seja caro. Uma coisa é a produção científica, que exige altos investimentos. A outra é a preservação da nossa identidade por meio do registo e da memória colectiva, que deve ser incentivada. Não vale pensar que a indústria literária vai sustentar-se sozinha. Nós não temos mercado. Por um lado, não temos tantos leitores. Por outro, não é suposto haver tanta gente a escrever, como se vê agora. O ideal seria o livro ser barato e estar disponível até nos pontos mais remotos. Por exemplo, está-se a introduzir o ensino  das línguas nacionais, mas com que suporte bibliográfico? É preciso bolsas de investigação e editais para fomentar a produção literária em línguas nacionais, para sustentar o ensino.

 

Há esta tendência de todos quererem escrever?

 

Que a solução seja todo o mundo escrever. Não faz sentido. Do mesmo jeito que nem todos têm de cantar. Hoje, a literatura está a ser engolida pela lei do mais forte no mercado. Se tenho dinheiro, posso pagar publicação e, logo, sou escritor. Se domino design, logo sou editor. A consistência está a ser sacrificada. Isso afecta a qualidade da obra. Falta selecção objectiva. Hoje, basta escrever uma crónica bonita no Facebook para sugerirem "deveria lançar um livro". Não se ouve "continue, aperfeiçoe, amadureça". A expectativa não deveria ser apenas publicar, mas manter a escrita como prática constante. Eu escrevo poesia desde 1993/94 e nunca parei. Estou sempre à procura de me superar. Hoje, há mais acesso às gráficas, muitos escrevem e já pensam em lançar um livro. Mas é preciso desconfiar do que é demasiado fácil. O poder financeiro não deve definir a voz de um artista. A qualidade do leitor define a qualidade do escritor. Sem leitores exigentes, surgem escritores iludidos.


(*) Íntegra da entrevista publicada pelo Jornal Expansão no fim-de-semana de 15 de Agosto de 2025, que resultou da condensação editorial de 50 minutos da conversa conduzida na marginal de Luanda pelo repórter José Gonga, com fotografias de Manuel Tomás.

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