terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Crónica | PSICÓLOGOS QUE CEDO NOS DEIXAM PORQUÊ E PARA QUÊ, MANO NVUNDA TONET?

Adianta alguma coisa fazer planos, investir em sonhos, apostar na formação e no autoconhecimento, fazer
poupanças para o nosso conforto junto dos mais chegados, crer em causas, sonhar com um mundo melhor? Por acaso adianta isso se, assim num piscar de olhos, o sopro da vida nos prega partidas, tudo se esfarela, nada os médicos podem, tampouco as preces ao alto, e de nós já só resta aquilo que um dia fomos em vida?!

Psicólogos há muitos; Nvunda há só um. Herdeiros de projectos jornalísticos com generosidade e sentido desinteressado de promover a arte, a cultura e a substância há muitos, talvez aos montes; Nvunda há só um. A literatura teve em ti um padrinho nas páginas do Folha 8, vibraste com cada conquista dos outros, cada livro lançado.

Obrigado, companheiro Nvunda Tonet, por todo o contributo que dedicaste ao universo das ideias, ao pensamento crítico, ao desenvolvimento da ciência e da prática da Psicologia no teu País, no meu País, no País de todos nós. O País que, como várias vezes convergimos, não está ainda no nível que desejamos, aos olhos de utópicos como nós os da geração intermédia. Geração dos 40 e tais, hoje, aquela que aprendeu a honrar o sacrifício dos libertadores e herdou na corrente sanguínea o dever de não se conformar com a pobreza social dos nossos concidadãos nos seus mais variados sentidos.

Eis-me neste exercício ingrato de sangrar pelos dedos o golpe da notícia, das piores que se podem receber ao cair da tarde, distante da nossa terra. Mano Nvunda Tonet faleceu esta tarde, foi coisa de poucas horas, em Luanda. Quisera eu ter um telemóvel capaz de adivinhar o conteúdo que motivou a ligação e assim, por instantes, alimentar a ilusão de não atender a chamada. Porque quem não conhece não entristece. Mas a verdade, ácida verdade da tua partida perpassa, porque tal era a altura da tua dimensão, do teu sorriso genuíno, do teu ar cordato que não teria como não abalar meio País.

Foste mau, mano Nvunda, como são todas as boas pessoas que partem e nos deixam a fazer contas à vida, impotentes e esvaziados no espírito, nesse universo incerto, tão insensível e carente de gente como tu a fazer pontes. Psicólogos porquê e para quê? Agora perguntamos nós! Perguntamos nós rendidos à inútil esperança de acalentar os teus descendentes, as pessoas que te amam e amaste, a sociedade intelectual que deixas órfã. Ascende em paz, companheiro Nvunda Tonet.

Gociante Patissa | Lisboa 20 Janeiro 2026 | www.angodebates.blogspot.com
Imagem: Livraria Lello

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

sábado, 17 de janeiro de 2026

Crónica | ANGOLA E A TOPONÍMIA DESAJUSTADA À IDADE DA SENSATEZ

O colchão é das coisas que mais duram na dura vida de um luandense, já que não sabe dormir. Tão poucas horas na cama. O resto do tempo é madrugado no transporte para o trabalho (inclui negociatas) ou buzinado, com insultos à mistura, no trânsito. No fim do dia, porque ninguém é de ferro, inventam-se motivos para empurrar uns copos e dançar.

Esta semana tive de encarnar o luandense e sair da cama às seis da manhã para conhecer o novo Aeroporto Internacional António Agostinho Neto. Também sei madrugar. Não é que goste. Como o meu guia vive no Kilamba, 35 km da Baixa, chamei o táxi por aplicativo a 13 mil Kwanzas. Luanda é tão dispersiva na sua geografia e burocracia que a gente se desdobra em verdadeiras viagens intestinais, até para carimbar um documento.

 

No canteiro relvado do quarteirão saltou à vista a sequência de placas de sinaléctica de estacionamento. Reagi com breve risada ao anedótico. Sobre a mesma figura histórica lia-se nas placas “Nimi-a-Lukeni, Nimi-a-Likene, Nini a Lukini e Nimi a Likena”. Mas logo pensei. Queres ver? Há cá fenómenos de simbolismo, justo no mês da Cultura Nacional. De resto, a Lei de Bases N.º 14/16, aprovada há de anos no Parlamento quando Nandó o presidia, define Toponímia como o estudo histórico e linguístico da origem e evolução dos nomes próprios dos lugares ou a designação das localidades pelos seus nomes.

 

Naquele jardim e estacionamento dá-se o embarque diário de crianças para a escola. A sua primeira leitura do dia mora naquelas placas negligenciadas. Imagine-se que o professor pergunte a cinco alunos em coro o nome do quarteirão. Babel total. Por outra, Kilamba (do Kimbundu, líder), principal urbanização social erguida no programa de reconstrução nacional iniciado em 2004, dá nome ao presidente fundador Agostinho Neto.

 

Constam entre as funções da Toponímia, conforme a Lei de Bases e o Decreto Presidencial N.º 163/19, que o regulamenta, “manter vivos e perpetuar aspectos culturais de honorabilidade; (...) perpetuar nomes de personalidades nacionais e estrangeiras”. E mais diz a lei: “Os topónimos são escritos em língua portuguesa, seguindo a grafia latina; nas demais línguas de Angola, são escritos em conformidade com as regras de grafia da língua correspondente, devendo ser certificados pelo Instituto de Línguas Nacionais”.

 

O flagrante da sinalética espelha bem a desarmonia institucional da Toponímia, num país que seguindo o ciclo de vida humana completou 50 anos, a idade da sensatez, de exercer o ouvir com ouvidos, dar valor a aspectos que em idade de sangue a ferver não puderam caber no balaio das prioridades. Tudo desemboca no investimento que tarda em relação à diversidade das línguas nacionais. Nos aspectos linguísticos reside a alma do povo.

 

Quem vem a ser Nimi-a-Lukeni ou Lukeni-Lua-Nimi? A generalidade das fontes consultadas indica que foi filho de Nimi-a-Nzima e de Lukeni-lua-Nsanse, viveu entre 1380 e 1420. O Ntotila fundou no século XV o Reino do Kongo, unificando tribos na África Central, tendo Mbanza-a-Kongo como capital de seis províncias: Mbamba, Mbata, Mpemba, Mpangu, Nsundi e Soyo. Suas ossadas repousam no monumento Kulumbimbi.

 

Resta-nos terminar esta crónica respigando um dos valores do Hino Nacional, “honramos o passado e a nossa história”. Venham a nós políticas culturais que dediquem à etnolinguística a experiência aplicada em promover a dimensão performativa das artes e resultou internacionalizando a expressão do Carnaval, Semba, Kizomba e do Cuduro.


Gociante Patissa | L. 17 Janeiro 2026 | www.angodebates.blogspot.com


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domingo, 11 de janeiro de 2026

Crónica | BENGUELA DE PAIXÕES QUE NÃO POISAM


O sonho da casa própria atingia proporções de febre por Benguela a partir de 2010, antes de
ser freado
com a abundância do projecto social das centralidades. A sociedade superava o complexo em relação à periferia, fazendo com que famílias preferissem morar literalmente em garagens, na parte urbana herdada do colono, a ter de o fazer num T3 mais espaçoso, porém para lá do asfalto. No calor da onda adquiri um terreno no 11 de Novembro, bairro árido equivalente a uma embaixada do Sumbe (de até há dois anos, se é que me faço entender). Bloco atrás de bloco, lá a obra foi ganhando forma e personalidade. Sentido e beleza. Casa própria, design moderno, material de qualidade, só a zona destoava. No fundo a velha sensação. Não é bem o que sonhamos, é o que se conseguia arranjar. As paredes, a muda que aos poucos dava voz à arborização, os acabamentos, cada detalhe a contar uma história de vida. Ao fim de três anos no projecto que passou de obra a residência comigo já lá a morar, a vida, dinâmica como é, ditava outro rumo. Havia que ceder a um inquilino. Uma nova etapa, uma nova forma de ver e viver a casa. Até que certo dia, passados largos meses sem visitar o espaço, mesmo já para permitir o à vontade ao inquilino, os meus olhos não acreditavam no que viam! O inquilino tomara a liberdade de matar a árvore, ceifando o ninho de amores apócrifos da comunidade junto ao portão. Depois de lhe serrar os galhos barrou as feridas com calda de cimento, mais outros químicos mesmo na raíz da minha frondosa, agora reduzida a um tronco seco. Porque as folhas faziam lixo, dizia-se. Nem uma palavra com quem tão carinhosamente a plantara e cuidara, o meu cunhado. Ainda hoje sangra em mim aquela árvore. Do mesmo jeito que sangram as casuarinas que não mais poesia inspiram na tão cantada e versejada Praia Morena. Não sobra uma para contar história. Tomou-lhes o lugar um punhado de palmeiras sem passado. A velhota Morena foi um dia deitar-se e despertou estrondosamente linda, rejuvenescida, escaldante, porém sem as marcas da idade. Já não é poltrona, é só lugar de se ver, olhar e seguir. O sol ralha, paixões não poisam. O que me darão as esbeltas das palmeiras quando bater sede daquele beijo adolescente e travesso que só o atrás da árvore conhece, sob o silêncio sábio do Sombreiro? O progresso nega vez às casuarinas porque sujavam, porque albergavam garças da caca branca, não tolera natureza sendo natureza? E lavar a loiça, não é porque houve vida?

Gociante Patissa | www.angodebates.blogspot.com | Benguela-Luanda Janeiro 2026
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domingo, 26 de outubro de 2025

Ontem! Cerimónia de Benção e Outorga de Diploma do meu Mestrado em Ciências da Comunicação

Ontem! Cerimónia de Benção e Outorga de Diploma do Mestre em Ciências da Comunicação, especialidade de Comunicação, Marketing e Publicidade, 2022-2024. Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, turma internacional leccionada em Inglês. Curriculum: Estudos avançados em comunicação / Media, Sociedade & Cultura / Meios Sonoros e Podcasting / Guionis mo-audiovisuais / Marcas e Reputação / Responsabilidade Social Corporativa-Sustentabilidade / Publicidade / Comportamento do Consumidor / Marketing Estratégico / Estratégias e Métricas de Marketing Digital / Metodologias de Investigação Científica. Média Final: 16 Valores. Defesa: Fev 2025




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Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

TV-ANGODEBATES (novidades 2022)

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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