Sábado, 19 de Janeiro. O relógio marcava vinte minutos depois da uma da tarde. Tinha acabado de voltar de viagem. O Boeing 727 Luanda-Benguela tinha sido pontual e rápido, ou seja, eficiente! Não tinha nem desfeito as malas ainda, quando o telemovel vibrou enquanto uma tonalidade curta completava o sinal de mensagem recebida. Quem será e que conteúdo? (Aqui há que confessar que a expectativa é sempre de se tratar de uma admiradora secreta, para um daqueles textos sem juízo e sem prejuízos).
"Um avião com 12 passageiros, Valentim Amões é um deles, está desaparecido", dizia a mensagem de Amós Patissa, meu kota.
"Ouviste aonde?", perguntei imediatamente.
"Na TPA, noticiário das 13H30".
Ligar o rádio e ouvir o Jornal de Sábado foi só ouvir "está confirmado o despenhamento da aeronave da companhia Gira-Globo. 13 ocupantes são vítimas mortais, entre elas o empresário Valentim Amões".
Nunca privei com o empresário (as poucas referências fortes durante a minha passagem pela província do Huambo em 2005 eram três: 1º que foi ele quem comprou os semáforos que devolveram a estética da cidade que apenas pecava por ter buracos ainda no asfalto (utilidade pública); 2º Andava e vi com um Hammer com as luzes sempre acesas noite e dia (não sendo o único, reforçava o circulo de arrogantes; 3º Não tinha em mente o número que compunha a frota de viaturas da sua empresa (empresário bem sucedido). Nunca estive em altura para com ele me encontrar e depositar o meu desespero em ver um pouco mais de atenção para os habitantes de Ombala de Tchiaia no Huambo, que morriam um pouco todos os dias, de fome e seca.
Não me vou alongar mais quanto à filosofia da morte (já que morre-se todos os dias, em todas as idades, por todos os motivos, de todas as partes). O que não se pode ignorar é, contudo, a geografia do impacto da morte.
Valentim Amões foi o "dono" da conquista da Taça de Angola em Futebol pelo clube 1º de Maio de Benguela, de que foi Presidente de Direcção e patrocinador. E se o desporto-rei é o fetebol, para a maioria dos adeptos do Maio Valentim Amós é (porque não morrerá jamais) um membro real. Um homem, empresário de "peito" (não conta a fonte do dinheiro) que soube abrir a mão à bolsa para fins sociais, não só no Huambo como em diversas partes desta imensa Angola. Este mesmo grupo de admiradores exigem a continuidade de sucesso à obras de Amões.
Por isso, e do fundo da minha consciência, dizemos bem alto que Valentim Amões não pode morrer, que faz cá falta à Nação.
Gociante Patissa


