sexta-feira, 2 de maio de 2014
quinta-feira, 1 de maio de 2014
GUARDANAPO DE PAPEL, o meu livro de poesia com edição em Portugal, seguiu para a gráfica. Talvez o lancemos por lá em Agosto. Tem 48 páginas, sairá pela editora NósSomos
Esta será a capa, para a qual o editor escolheu o poema...
Excepto pombos
no tecto
asas insuflando incoerências
e o esvair-se de um sono
que perdeu a missão
não passou dos olhos
talvez urja desaprender
tudo,
o hoje desmentir
o mundo de criança vestir
será?
Bem, se calhar nada
mesmo
há
a assinalar.
Gociante Patissa
quarta-feira, 30 de abril de 2014
terça-feira, 29 de abril de 2014
Diário: olhando da vidraça
Sentado naquilo que se concebeu como esplanada
do Aeroporto da Catumbela, salta à vista algo que seria de se ver como um
desafio à racionalidade humana. Há sempre algum tipo a ser multado pelo agente de
trânsito a cada meia-hora, ou menos até, por exceder os três minutos
permitidos para se parar/estacionar no espaço de partidas/chegadas. É o que as
placas de sinalização se encarregam de informar. A multa, certamente, vai passar dos 2 mil
kwanzas por exemplo, contas redondas. É aí que reside o paradoxo, pois no
parque convencional, que muita gente resiste em levar em conta, o que se cobra
é apenas 200 kwanzas por hora. Neste momento, está alguém a assinar a multa e
o agente retém a carta. Eu, que por acaso também tenho o meu apurado génio
rebelde, estacionaria só já no parque. Cooperar, enfim...
NOVIDADES NA TABACARIA GRILO: livro NÃO TEM PERNAS O TEMPO, de Gociante Patissa, tem disponível o segundo lote. E o que é melhor, você adquire o livro ao preço da editora, mil kwanzas apenas
Depois de sucessivas notificações de pessoas
amigas e amigos de seus amigos, cuidamos de reforçar o stock na Tabacaria
Grilo, no rés-do-chão do edifício do Mercado de Benguela. Edição da União dos Escritores Angolanos, 2013. Obrigado!segunda-feira, 28 de abril de 2014
Nota positiva à jornalista Sílvia Samara
À parte a agenda oficial, gostei, do ponto
vista estritamente técnico, do desempenho da jornalista Sílvia Samara, TPA, no
apontamento em directo a partir de Paris para o telejornal. É no rodapé que a
profissional deu o cunho pessoal, com um feliz improviso sobre a agenda do dia
seguinte, pincelada meteorológica e um comedido sorriso. Sim, senhorita Samara,
os meus mestres haviam de lhe dar uma positiva!
Para quem não sabe ou não se incomoda com a vivência profissional de outrem, vale dizer que fui um dos quatro redactores-repórteres-noticiaristas, seleccionados ao longo de três meses de estágio entre várias dezenas e que assegurariam a Rádio Ecclesia em Benguela, se se efectivasse o seu arranque em 2004, pupilos de Ze Manel e do padre Sammy de Jesus. GP
domingo, 27 de abril de 2014
Oratura: ONDUKO YOLONGONJO YAFETIKA NDATI? - Qual é a origem da toponímia Longonjo?
Há uma localidade chamada Longonjo, na província do
Huambo. Segundo uma fonte oral entrevistada recentemente pela Televisão Pública
de Angola, o nome vem de "olongonjo", que é o plural de
"ongonjo", utensílio que se resume em desbastar o tronco seco de uma
árvore até ter uma cavidade. O uso daquele instrumento está directamente
associado à era da escravatura ou a do trabalho forçado na Angola colonial,
uma vez que se caracterizava pelo seu transporte ao ombro, o que representava
um peso enorme (o do instrumento e o do material para obras de construção,
podendo ser sólido ou líquido). Há inclusivamente uma canção de revolta na
língua Umbundu, a qual destaca: "kombya, kongonjo, konungi yovava;
ndicambata ndati? (Dão-me a panela, o ongonjo e o reservatório de água; como
querem que leve tudo isso de uma vez?) Hoje, o "ongonjo" é usado para
outros fins, geralmente feito bandeja para a comida de animais domésticos
(porcos e outros) em criações de baixa renda. Resumindo, devia haver um tipo de
obra que deu a impressão de uso excessivo de "olongonjo", pelo que a
região ficou conhecida como "pimbo lyolongonjo" (aldeia dos
"olongonjo"). A fotografia foi captada em 2010 na fazenda de uma
pessoa amiga no município do Caimbambo, província de Benguela.
Gociante Patissa, Benguela, 27 Abril 2013
Fragmento
— Meus camaradas, com muito
respeito e sinceridade, facultem-me só a documentação!
— Como assim, chefe?! A paz
trouxe a livre circulação de pessoas e bens…
— Os senhores sabem que não se
pode transportar assim um cadáver, como saco de carvão. Há toda uma burocracia
e procedimentos médicos e funerários…
— Sim, mas como vamos só aqui
perto já, chefe… No Kicombo mesmo…
— Ainda mais! Kicombo é
Kwanza-Sul, outra província. Vocês estão detidos! Tentativa de furto de cadáver
não tratado! Até provas em contrário. Eu escolto até na Investigação Criminal
da província. — dito isto, a viatura fez inversão de marcha para Benguela, à
mesma velocidade de trinta e cinco quilómetros horários que o troço aconselhava.
— Chefe, nós até entendemos a
lei. Mas podemos conversar como irmãos. Até porque Kicombo é já aqui perto,
mais longe fica Benguela. — insistiu um deles.
— O vosso caso é grave. Imaginem
o que diriam os colegas da outra província…
— Chefe, tudo se conversa, não
precisa ser assim tão tóxico…
(Gociante
Patissa, in «Não tem pernas o tempo», pág. 96-97. União Dos Escritores
Angolanos, 2013. Luanda)
Excerto
«Certa vez, e já na defensiva ante o jogral de
mendigos à porta da pastelaria, só depois de dizer “não tenho nada!”, notou que
ainda nada lhe haviam pedido. Às vezes, a gente foge a miséria, não sabe
porquê, mas evita cruzar com ela pelas avenidas. E ela caminha e se perpetua,
como a própria indiferença.» (Gociante Patissa, in «Não tem pernas o tempo»,
pág. 51. União Dos Escritores
Angolanos, 2013. Luanda)
sábado, 26 de abril de 2014
Conto: OCIPAKUPAKU [otsi-páku-páku] - A INSÓNIA
Vivências, não há como fazer delas uma espécie
de tábua-rasa. E quando o tempo é anterior a 1992, é grande a presença dos
efeitos da guerra civil no meio rural do território de Benguela, sublinhando-se ali e acolá pequenos diálogos hilariantes.Indo ao ponto, na comuna do Monte Belo, do município do Bocoio, que dista aproximadamente 100 quilómetros a leste do Lobito, muitos dos adultos passavam a ideia de que tinham insónia, ou no mínimo exibiam pela manhã um aspecto de terem tido poucas horas de sono. Para quê? Para cada um mostrar-se em prontidão permanente, já que os ataques de guerrilha se davam na calada da noite, geralmente fazendo-se coincidir com datas festivas, circunstâncias típicas de os armazéns, como os próprios lares, estarem recheados de comida e agasalho.
A par do rico cultivo de abacaxi, a comuna tem a vantagem de estar plantada ao longo da estrada que liga o litoral ao centro-sul do país, sendo o Huambo o mais directo vizinho. Isso fazia do local (sob tutela da administração do Estado) boa fonte de logística para quem procurasse alimentar, por via da força, o seu exército (Unita, tida na época como movimento armado).
Havia então uma senhora (a qual trataremos por kumasini A- corruptela de comadre) que, ao ser cumprimentada ("walale?"), respondia invariavelmente: "Sa lale, ndalale locipakupaku" (não dormi bem, dormi com insónia).
Assim, uma sua comadre (chamemo-la de kumasini B) não conseguia sossegar, preocupada com o risco à saúde da outra, pelos alegados vários dias sem dormir. Numa bela oportunidade, não planificada, passaram a noite uma ao lado da outra. Foi então que a kumasini B encheu o peito de alegria, pois a outra atravessara a noite em doce sono de recém-nascido, roncando a noite inteira como motor com manutenção em dia. E pela manhã...
"A kumasini, walale?" (Dormiste bem, comadre)
"Sa lale, a kumasini, ocipakupaku
cindilonga" (não dormi nada bem, comadre, a insónia dá cabo de mim) --
respondeu, com o habitual semblante de desgaste.
"A kumasini, ove pwãi uhembi. Ove mwenle,
walale lokwõlã, okalinga eti kwa lale?" (Ó comadre, és afinal uma mentirosa. Então tu,
que passaste a noite a ressonar, dizes que não conseguiste dormir?)
Sem esperar que a dona da insónia se justificasse, foi a kumasini B cuidar de outros afazeres. Eu cá julgo compreender a kumasini A, posto que "Vigilância!" era a palavra de ordem. Ora, se os homens tinham de assegurar a defesa, era normal as mulheres contribuírem com a produção agrícola... e um pouco de insónia. Ou não?
Gociante Patissa, Benguela, 26 Abril 2014






















