As filas do banco são um acontecimento em si. Adoro-as ao
menos pela sua sinceridade. No final ou princípio de cada mês, é a altura mais
aconselhável para as observações, ainda que venham logo de imediato a ser
engolidas pelo silêncio do politicamente correcto. Algumas agências instalaram
dispositivos, mesmo já como forma de minimizar os efeitos da subjectividade
humana. Até porque, trazendo para a conversa a lógica de ordenamento do trânsito,
o semáforo é sempre preferível ao critério do agente de apito à boca. O que gosto de ver nos
bancos é como a tecnologia assume o papel de presépio, porquanto as enchentes
enchem de graça a casa. Só assim se explica que haja apenas um caixa, quando tantas
senhas sofrem de húmidas na mão que aguarda atendimento. Enquanto isso, como
que em ultrapassagem à direita, vêm uns e vão outros. Entram com cara de susto,
não se dão à maçada de premir o botão que imprime a senha da ordem de chegada e
saem pouco depois. Os critérios? Uma barba branca, por vezes, uma gestação
(aqui nada discutível), ou na maior parte dos casos um sorriso eloquente, um
sobrenome elegante ou a pele mais clara. E todo o resto se cala com receio de
ser rotulado... porque somos uma nação que reprova o preconceito, exceptuando
circunstâncias particulares em que ele, o preconceito, revestido de silêncios,
nos beneficia e faz regra.
Gociante Patissa, Benguela, 7 Abril 2014segunda-feira, 7 de abril de 2014
ENQUANTO ISSO... (Desligar o telefone, diz o reclame na porta)
Ouve-se alto, RnB americano, o jovem atende. O segurança (na
casa dos 50 anos), à paisana, aborda o jovem (maior de 30 anos)
"Jovem, tem
que desligar ou atender lá fora". (O jovem ignora os
bons modos do segurança:)
"É o quê? Nós
somos angolanos. Chinês, se vem aqui, telefona à vontade, vocês não falam
nada".
"Estou a falar contigo bem e
você estás a refilar. São as regras da instituição. Estou a vir de uma reunião
operativa sobre isso. Quando estou aqui dentro, é para ver isso".
"Eu não estou a refilar. A pessoa tem que ter
liberdade de falar a sua razão".
domingo, 6 de abril de 2014
Socorro!!!
Alguém me ensina o segredo necessário para não desistir da
leitura de Espontaneidades da Minha Alma, de José da Silva Maia Ferreira
(1849)? No meu caso de quem lê pelo gosto de ler apenas, é uma poesia sem
carisma, um ler em piloto automático. Passa a ser, por outro lado, a primeira
experiência com poemas quilométricos (por exemplo, que tal 36 estrofes, todos
acima de uma quadra, quer dizer 8 páginas que dão corpo ao poema "A minha Terra"?)
sábado, 5 de abril de 2014
sexta-feira, 4 de abril de 2014
quinta-feira, 3 de abril de 2014
No seu mais recente livro intitulado "O Leito do Silêncio" (pág. 47), a escritora Isabel Ferreira cita Gociante Patissa, com dois versos do poema África Mãe Zungeira, conforme ilustra a foto.
Eis o poema de Gociante Patissa
ÁFRICA MÃE ZUNGUEIRA
Esta que se aproxima
carrega uma criança às costas
e outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade
Conhece bem demais a cidade
não tanto pelos monumentos
mas pela necessidade
viandante como a borboleta
fez-se fiel e histérica amante
da lei da compra e venda de porta à porta
uma lei entretanto não prevista por lei
“depender só do marido? Nunca”
mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes
no estômago só o funji do jantar de ontem
sem tempo sequer para escovar os dentes
Lá vai mais uma dobrando a esquina
de pregão firme como a voz do tambor
humilhada aos poucos pelo sol
nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor
Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo
veja esta nos olhos encarnados grita despercebida
uma mulher mal amada
nunca descoberta
rainha de etapas queimadas
ele que devia ser companheiro
é de se esconder no copo
quando os ventos são ásperos
autêntico chá em taças de champanhe
não estar disposta para mais um suor sagrado
é para ele frontal apelo à violência
habituada a levar da cara
odeia a sinceridade do espelho
Por aqui passou mais uma profissional da zunga
protagonista anónima com mil mestrados da vida
contudo não contada na segurança social
para o turista uma espécie de paisagem
rosto de uma noite que lançou a mulher
às avenidas dialécticas dos centros urbanos
no seu dever de sustentar a sociedade
a mesma que a condenará antes de amanhecer
por não participar da vida política
ou por não saber ler
nem escrever
Gociante Patissa, in «Consulado do Vazio», 2008, pág. 28. KAT-Benguela, Angola
Esta que se aproxima
carrega uma criança às costas
e outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade
Conhece bem demais a cidade
não tanto pelos monumentos
mas pela necessidade
viandante como a borboleta
fez-se fiel e histérica amante
da lei da compra e venda de porta à porta
uma lei entretanto não prevista por lei
“depender só do marido? Nunca”
mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes
no estômago só o funji do jantar de ontem
sem tempo sequer para escovar os dentes
Lá vai mais uma dobrando a esquina
de pregão firme como a voz do tambor
humilhada aos poucos pelo sol
nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor
Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo
veja esta nos olhos encarnados grita despercebida
uma mulher mal amada
nunca descoberta
rainha de etapas queimadas
ele que devia ser companheiro
é de se esconder no copo
quando os ventos são ásperos
autêntico chá em taças de champanhe
não estar disposta para mais um suor sagrado
é para ele frontal apelo à violência
habituada a levar da cara
odeia a sinceridade do espelho
Por aqui passou mais uma profissional da zunga
protagonista anónima com mil mestrados da vida
contudo não contada na segurança social
para o turista uma espécie de paisagem
rosto de uma noite que lançou a mulher
às avenidas dialécticas dos centros urbanos
no seu dever de sustentar a sociedade
a mesma que a condenará antes de amanhecer
por não participar da vida política
ou por não saber ler
nem escrever
Gociante Patissa, in «Consulado do Vazio», 2008, pág. 28. KAT-Benguela, Angola
Isabel Ferreira lança em Benguela “O Leito do Silêncio”
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| A autora procedendo aos autógrafos |
Ao tomar a palavra, o docente e historiador Tuca Manuel, que cuidou de apresentar a obra literária, sublinhou tratar-se de uma autora a retratar a sua vivência e a de sua gente, mas sem ser com uma voz de soberba, portanto longe de alguém que se coloca no papel de subalternizar os demais em função das suas habilidades.
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| Tuca Manuel (à direita) |
“O Leito do Silêncio”, título da obra, foi interpretado pelo Director Provincial da Cultura, Mário Kajibanga, como sendo um pau de dois bicos. “Por um lado, podemos ver o conselho de não levarmos a público coisas que acontecem na intimidade do lar. Por outro, podíamos dizer que é a falta de partilha de coisas boas que pode levar a violências. Porquê calar, se podemos partilhar coisas boas?”, completou.
Entre as curiosidades, elogios e questões da plateia, Isabel Ferreira viu-se obrigada a justificar o preço do livro, considerado muito caro para o mercado livreiro benguelense. “Eu costumo dizer que sou uma zungueira dos meus livros, como chamo os escritores que cuidam da distribuição de suas obras, com toda a maçada que isso implica”, referiu, para adiante retomar o chavão segundo o qual “a arte nunca é cara”.
Ainda no que se refere às vendas, a autora aproveitou o ensejo para agradecer o governo provincial de Benguela, por ter adquirido já uma centena de exemplares. Na sua qualidade de anfitrião, o director da mediateca, Leonardo Pedro, tranquilizou aqueles que não conseguiram custear a obra, uma vez que a sua instituição vai adquirir exemplares para os colocar à disposição dos leitores que frequentam a biblioteca.
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| Director da Mediateca, Leonardo Pedro |
Isabel Ferreira nasceu em Luanda em 1958. Viria a partir para Portugal em 2002 em busca de formação. É membro da União dos Escritores Angolanos, da Ordem dos Advogados de Angola, da União dos Nacional dos Artistas e Compositores
, bem como da Sociedade Portuguesa de Autores. Publicou os livros Laços de Amor, Caminhos Ledos, Nirvana, À Margem das Palavras Nuas, Fernando D'Aqui, o Guardador de Memórias e O Coelho Conselheiro, Matreiro e Outros Contos Que Eu Te Conto.
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| Mário Kajibanga (esq.), Isabel Ferreira e Tuca Manuel |
































