Os adeptos da originalidade por originalidade na arte têem mais um motivo com a promoção cada vez maior do português Conan Osíris, do tema telemóveis. Em termos rítmicos, mistura influências árabes, ciganas, fado e algum compasso da música electrónica africana, senão mesmo do funk brasileiro, ao que se junta em palco uma performance aparatosa pop. As letras, segundo se advoga, aparentam banalidade mas carregam "camadas de significados". Goste-se ou não, é seguramente uma proposta estética um bocado esquisita aos ouvidos. Ele vai representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção 2019, o que para outros segmentos é uma sub-representação de um país com uma tradição tão rica e consistente musicalmente.
segunda-feira, 4 de março de 2019
Diário | EM LEGÍTIMO ATAQUE, NÉ? MAS, DOUTOR, ISSO EXISTE MESMO?…
“MEUS SENHORES, VOCÊS DEVIAM TER MAIS JUÍZO, PÁ! ENTÃO, POR CAUSA DE SIMPLES QUASE-COLISÃO ENTRE MOTA E CARRO, É LUTAR?!”
“Foi ele, chefe… Até não houve nada de colisão, nem quase…”
“De facto, digno senhor investigador, o ónus é do cidadão ali…”
“NESTA FASE DO CAMPEONATO, O PAÍS A TENTAR UM NOVO COMEÇO MORAL, E OS SENHORES FICAM NO MEIO DA ESTRADA A PRATICAR AS BARAFUNDAS DO PASSADO, IMPEDEM O TRÂNSITO FLUIR. SÃO MODOS?!”
“Bem, chefe, eu até sou inocente…”
“EU QUANDO VI O PATRULHEIRO EM ASSALTO, JULGUEI QUE FOSSE UM CASO BANAL DE RIVAIS PARVAS QUE EM PLENO MARÇO MULHER DO SÉCULO 21 AINDA SE METEM EM PANCADA POR CAUSA DE UM HOMEM…”
“Digno senhor investigador, eu fui empurrado para a circunstância de forma fortuita…”
“MEU SENHOR! O REGISTO DA OCORRÊNCIA REZA QUE ESTA VOSSA LUTA, FEITO TOUROS, NO EIXO DA VIA, COM ESTE SOL DE DERRETER CHUMBO, FOI PROTAGONIZADA POR INICIATIVA DO SENHOR…”
“Digníssimo senhor investigador, não é bem por aí. Estou em crer que há pormenores que escaparam à narrativa, mormente os factores que concorreram para a altercação.”
“Ele só está a afinar bwé, chefe. Me agradiu com força e funhatou até o capot do carro…”
“MAS CALA A BOCA, MEU! AINDA NÃO ME DIRIGI À TUA PESSOA…”
“Vou só calar já… Mas esse tempo que o dólar disparou, importação está gato, estragar carro do outro assim?! O chefe tem carro pessoal, né? Já viu na representante o preço?”
“RESPOSTA UM, NÃO. RESPOSTA DOIS, IDEM.”
“Então é por isso… Você chega lá, o carro mesmo está na montra, mas meteram o letreiro RESERVADO. Então mas como é que o comprador não vem levantar?! Tudo truque! Suspenderam as vendas, a esperar até desflutuamento do câmbio indicar preço bom…”
“SE PROFERIR MAIS UMA PALAVRA, CAMARADA, VAIS PRESO, OK?!… E O SENHOR DA MOTA, O QUE TE LEVOU A AGREDIR O HOMEM DO CARRO?”
“Digníssimo, imagine que vinha eu com a mulher a bordo. O cidadão, ao passar por nós, faz-nos sinal para parar. E eu, na boa-fé, frenei. Aí diz à parceira o seguinte: Moça, você não é mulher para andar no kupapata. Vem no meu carro, eu te levo aonde você quiser…”
“AÍ O SENHOR PARTIU PARA A AGRESSÃO, CERTO? SENDO ASSIM, ESTAMOS PERANTE UM CRIME PASSIONAL, ESTÁ BEM?”
“Se me permite, discordo, digníssimo. Na verdade o foro é mais profissional…”
“COMO ASSIM?! A MULHER QUE FOI ASSEDIADA NÃO É SUA ESPOSA?”
“Efectivamente. União de facto. Uma relação iniciada na academia…”
“ENTÃO JÁ NÃO ENTENDO. O ASSÉDIO NÃO FOI O MOTIVO DA BRIGA…?”
“Ele me chamou de kupapata…”
“COISA QUE E O SENHOR NÃO É, CERTO?”
“Nem um pouco mais ou menos! Podemos estar em trajes casuais, empoeirados e tal, mas somos diplomados, e bem. Ela Medicina, eu Direito… pese embora mal reconvertidos. Nesta sociedade, uma médica iria casar com um kupapata?!”
“MAS O SENHOR AGREDIU E CAUSOU DANOS PESSOAIS E MATERIAIS…”
“Foi em legítima defesa! Caso de honra, digníssimo senhor investigador…”
“MAS HÁ DESPROPORCIONALIDADE DE FORÇAS. VOCÊ DEU GOLPE FÍSICO PERANTE A PROVOCAÇÃO VERBAL… LEGÍTIMA DEFESA NÃO VAI DAR…”
“Então considere legítimo ataque, excelência.”
“EM LEGÍTIMO ATAQUE, NÉ? MAS, DOUTOR, ISSO EXISTE MESMO?…”
www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela, 03.03.2018
domingo, 3 de março de 2019
(arquivo) Diário | NÃO ESTÁS EM MÃOS LIVRES, NÉ?
"Aló, cunhada! Feliz ano novo!..."
"Já?! Ainda é só natal. É pressa de quê, minha nhã?"
"Aliás. Feliz natal. Essa boca um dia nos mata, cunhada hahaha..."
"Você não liga isso, minha bro. Estamos bem ali ou não queres dizer nada?"
"Bem é pouco, nhã..."
"Estou já curiosa. E essa euforia, minha ndengue?"
"Ia mesmo falar nisso. Mas, fala ainda uma coisa. Não estás em mãos livres, né?"
"Fica calma, xé! Estou nos fones, bro. Abre a loja."
"Nhã, é assim. Aquele meu pretendente, tipo já lhe preparei o sim..."
"Não faz isso, miúda..."
"Mas porquê?"
"Gostas mesmo dele?"
"Yá. Ele é assim engraçado, tás a ver?"
"Mas acho que não devias aceitar. Espera mais um pouco..."
"Mas, cunhada, não me esconde nada! Sabes alguns podres dele, é isso?"
"Até não. Mas..."
"Mas então esse mas...?"
"Até não sei como falar. Mas é assim, vai-te aparecer um galã, um broto. Se garante, mulher, faz favor! Esse teu pretendente é muito feio, desculpa, nhã... !"
"Ah, mas o primo também não lhe fica atrás, cunhada. Também a beleza não é o ponto forte do teu querido fofinho. Mesmo assim lhe aceitaste e não dás espaço às namoradinhas que se engraçam com ele. Ou não?"
"Mas não se compara, o meu caso é diferente, eu amo o teu primo..."
"Hum! Afinali?..."
sábado, 2 de março de 2019
[Grupos focais, moderadora dirigindo-se a grupo de rapazes na Índia]: "Já ouviram falar da menstruação?"
- É tipo período das aulas ao fim do qual somos avaliados?
- Eu já. É tipo uma doença, certo? Ouvi dizer que é uma doença que afecta maioritariamente as mulheres.
(Documentário «Absorvendo o Tabu», sobre como o estigma persiste, via Netflix)
A diferença crucial entre escrever livros e ser escritor
Se você quer escrever livros, seu foco é se tornar um autor publicado. Se você quer ser escritor, seu foco é escrever textos que iluminem dentro do leitor algo importante que você iluminou dentro de você mesmo." (José Jorge Letria, português)
Guardanapo de papel
Já cansadoo velho bar
fecha-se ao pó
fértil
da esquina
qual navio atracado
para nova largada.
Do mar de verão
vem pujante a brisa
traçando cordão
na esquina
monumental
do cine.
Estátua e gente
parece tudo de madeira
pela porta entreaberta
vê-se que algo voa
bem rente
mas ninguém vai dizer
se é saia
ou guardanapo de papel.
___________
(*) Gociante Patissa, in «Guardanapo de Papel», 2014, pág. 22. NósSomos. Vila Nova de Cerveira, Portugal
(**) Idem, in «Almas de Porcelana», 2016, pág. 46. Editora Penalux. São Paulo. Brasil (disponível para aquisição online no site da editora https://www.editorapenalux.com.br/loja/almas-de-porcelana)
Umbilical pára-quedas
Se voar é de asas
abertas
Em replay põem-se a nu as cicatrizes.
Tudo é nada mais senão o vento
que faz assobiar e sublima cantos
tocar o céu pelo penteado da montanha
até ceder à lei de gravidade
Houve sempre uma mão
houve sempre uma mãe.
Gociante Patissa, in «Almas
de Porcelana», 2016, pág. 42. Editora Penalux. São Paulo. Brasil (disponível
para aquisição online no site da editora https://www.editorapenalux.com.br/loja/almas-de-porcelana)
sexta-feira, 1 de março de 2019
As honras aos líderes talvez se fizessem anexar de pedidos de perdão às suas vítimas. Vou pensando no tio José Samuel (Lobito 1975), no pai dele, o avô Samuel Ferramenta e no tio Caterça (Monte Belo, pós 1992) e outros anónimos assassinados pelas forças de Savimbi, por exemplo. Não é vingança, é justiça histórica
(arquivo) Diário | MAS O CAMARADA ESTAVA OU NÃO ESTAVA COM O CANHÃO NA MÃO?!
“OFICIAL-DIA!!!”
“Pronto, Chefe!”
“TRAZ AQUI AQUELE DETIDO DE ONTEM!”
“De ontem à noite, Chefe?”
“TEMOS OUTRO?”
“Bem, é só mesmo ele, Chefe.”
“ANDA LÁ!”
“Até o Chefe faz bem, porque ele tem estado a transpirar muito…”
“Com licença?”
“ENTRA!”
“Bom dia, excelência. Chamo-me…”
“CAMARADA! AQUI NÃO HÁ CÁ MUITAS VOLTAS, OK?”
“Efectivamente. Vai-me desculpar, excelência…”
“O CAMARADA SABE PORQUÊ QUE ESTÁ AQUI DESDE ONTEM, NÃO?”
“Não digo que não, mas não fiz nada para merecer. Aquilo, até, foi só mesmo uma bebedeira inofensiva, copitos de fim-de-semana, pronto…”
“NÃO FEZ NADA?! O CAMARADA NÃO ESTAVA A FAZER MENOR NO JARDIM?”
“Mas nem caiu minimamente nem uma gota ainda, já me prenderam…”
“ME DIZ SÓ: MAS O CAMARADA ESTAVA OU NÃO ESTAVA COM O CANHÃO NA MÃO?!”
“Estava escuro e não tinha caído nenhuma gota de xixi ainda no chão, levei duas bofetadas bem puxadas, Chefe…”
“LUCRO DO DESACATO. ASSIM É O QUÊ, HÃ? VAI DIZER QUE NESTE CASO, A POLÍCIA AGIU LEGAL OU ILEGAL?”
“Ilegal!”
“LEVEM-ME DE VOLTA O CIDADÃO PARA A CELA! ENTÃO, O CAMARADA, EMBRIAGADO, ESTAVA A ATENTAR CONTRA O PUDOR, O CÓDIGO DE POSTURA, E AINDA DIZ QUE A POLÍCIA AGIU ILEGAL?”
“Um momento só, Chefe, faxavori. ‘Ilegal’ afinal é como?”
“SEM RAZÃO.”
"Legal é que está certo?"
"NOS TERMOS DA LEI..."
“Ah, claro que agiu LEGAL. Ilegal mais como então?!!! Ó chefe, umas coisas é ensinar, faz favor… Agiu muito legal, a polícia até fez bem!!!”











