"No
Facebook tudo é verdade até provar-se o contrário" (de internauta
incógnito)
domingo, 4 de março de 2018
sábado, 3 de março de 2018
Crónica | Onze anos a ver aviões ou a idade de uma ambivalência
![]() |
| Foto ilustrativa apenas. |
Quando perdi, por culpa
da modéstia, a primeira oportunidade de emprego na aviação, não imaginava o que
o destino me pregaria uma década mais tarde.
Em finais da década de
1990, o Isaac, um amigo de adolescência lá do bairro da Santa Cruz, no Lobito,
notificou-me que uma sua tia procurava alguém com o domínio da língua inglesa
para trabalhar na então Base Aérea Operacional da Catumbela, das Forças Armadas
Angolanas. Ele não tinha bem a certeza da função mas como a dado momento falou
em se comunicar com os voos, deduzimos logo que estaria relacionado com a
torre.
Mostrei disposição para
conhecer a senhora, a fim de passar pelos testes, mas cuidei também de
antecipar que, tendo já o meu domínio do inglês, garantidamente, um nível acima
do curso médio, era fruto do auto-didactismo. Não possuía, por exemplo, o
certificado de um CELIESTRE (Centro de Línguas Estrangeiras Revolução), do
renomado Mr. Germano, à época a coqueluche. Este detalhe levaria a
“recrutadora” a descartar-me. Pois ainda bem. Que se lixasse! Acreditei que a
aviação seria distracção no foco da vocação, a comunicação social, sobre a
qual, aliás, nunca tive dúvidas.
Meu kota Bento Kangamba, o kumbu da indemnização que o kota diz não querer, é só doar aqui a sua excelência eu, que, já a quarentar, sonha com o dia de realizar os sonhos adiados de uma juventude de entraves. Até temos uma coisa em comum: somos ambos filhos de camponeses. Naquela base, ya? Ainda era só isso. Obrigado
Diário | Em legítimo ataque, né? Mas, doutor, isso existe mesmo?…
“MEUS
SENHORES, VOCÊS DEVIAM TER MAIS JUÍZO, PÁ! ENTÃO, POR CAUSA DE SIMPLES QUASE-COLISÃO
ENTRE MOTA E CARRO, É LUTAR?!”
“Foi
ele, chefe… Até não houve nada de colisão, nem quase…”
“De
facto, digno senhor investigador, o ónus é do cidadão ali…”
“NESTA
FASE DO CAMPEONATO, O PAÍS A TENTAR UM NOVO COMEÇO MORAL, E OS SENHORES FICAM
NO MEIO DA ESTRADA A PRATICAR AS BARAFUNDAS DO PASSADO, IMPEDEM O TRÂNSITO
FLUIR. SÃO MODOS?!”
“Bem,
chefe, eu até sou inocente…”
“EU
QUANDO VI O PATRULHEIRO EM ASSALTO, JULGUEI QUE FOSSE UM CASO BANAL DE RIVAIS
PARVAS QUE EM PLENO MARÇO MULHER DO SÉCULO 21 AINDA SE METEM EM PANCADA POR
CAUSA DE UM HOMEM…”
“Digno
senhor investigador, eu fui empurrado para a circunstância de forma fortuita…”
“MEU
SENHOR! O REGISTO DA OCORRÊNCIA REZA QUE ESTA VOSSA LUTA, FEITO TOUROS, NO EIXO
DA VIA, COM ESTE SOL DE DERRETER CHUMBO, FOI PROTAGONIZADA POR INICIATIVA DO
SENHOR…”
“Digníssimo
senhor investigador, não é bem por aí. Estou em crer que há pormenores que
escaparam à narrativa, mormente os factores que concorreram para a altercação.”
“Ele
só está a afinar bwé, chefe. Me agradiu com força e funhatou até o capot do
carro…”
“MAS
CALA A BOCA, MEU! AINDA NÃO ME DIRIGI À TUA PESSOA…”
“Vou
só calar já… Mas esse tempo que o dólar disparou, importação está gato, estragar
carro do outro assim?! O chefe tem carro pessoal, né? Já viu na representante o
preço?”
“RESPOSTA
UM, NÃO. RESPOSTA DOIS, IDEM.”
“Então
é por isso… Você chega lá, o carro mesmo está na montra, mas meteram o letreiro
RESERVADO. Então mas como é que o comprador não vem levantar?! Tudo truque! Suspenderam
as vendas, a esperar até desflutuamento do câmbio indicar preço bom…”
“SE
PROFERIR MAIS UMA PALAVRA, CAMARADA, VAIS PRESO, OK?!… E O SENHOR DA MOTA, O
QUE TE LEVOU A AGREDIR O HOMEM DO CARRO?”
“Digníssimo,
imagine que vinha eu com a mulher a bordo. O cidadão, ao passar por nós,
faz-nos sinal para parar. E eu, na boa-fé, frenei. Aí diz à parceira o
seguinte: Moça, você não é mulher para andar no kupapata. Vem no meu carro, eu
te levo aonde você quiser…”
“AÍ
O SENHOR PARTIU PARA A AGRESSÃO, CERTO? SENDO ASSIM, ESTAMOS PERANTE UM CRIME
PASSIONAL, ESTÁ BEM?”
“Se
me permite, discordo, digníssimo. Na verdade o foro é mais profissional…”
“COMO
ASSIM?! A MULHER QUE FOI ASSEDIADA NÃO É SUA ESPOSA?”
“Efectivamente.
União de facto. Uma relação iniciada na academia…”
“ENTÃO
JÁ NÃO ENTENDO. O ASSÉDIO NÃO FOI O MOTIVO DA BRIGA…?”
“Ele
me chamou de kupapata…”
“COISA
QUE E O SENHOR NÃO É, CERTO?”
“Nem
um pouco mais ou menos! Podemos estar em trajes casuais, empoeirados e tal, mas
somos diplomados, e bem. Ela Medicina, eu Direito… pese embora mal
reconvertidos. Nesta sociedade, uma médica iria casar com um
kupapata?!”
“MAS
O SENHOR AGREDIU E CAUSOU DANOS PESSOAIS E MATERIAIS…”
“Foi
em legítima defesa! Caso de honra, digníssimo senhor investigador…”
“MAS
HÁ DESPROPORCIONALIDADE DE FORÇAS. VOCÊ DEU GOLPE FÍSICO PERANTE A PROVOCAÇÃO VERBAL…
LEGÍTIMA DEFESA NÃO VAI DAR…”
“Então
considere legítimo ataque, excelência.”
“LEGÍTIMO ATAQUE, NÉ? MAS, DOUTOR, ISSO EXISTE MESMO?…”
“LEGÍTIMO ATAQUE, NÉ? MAS, DOUTOR, ISSO EXISTE MESMO?…”
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Gociante Patissa | Benguela, 03.03.2018
sexta-feira, 2 de março de 2018
Há quase um ano que venho adiando a crónica de viagem e aventura que fiz ao sul/litoral da Namíbia (Swakopmund e Walvis Bay) à espera de uma oportunidade melhor de a vender literalmente a um jornal ou revista. Hoje adianto algumas fotos para atiçar a curiosidade (turistas por país na foto: Alemanha, Brasil, Áustria, Angola, Argentina)
(arquivo) Diário | Mas já foste ao quarto dele. Ou não?
(I)
“Mas, filha! Esse vosso namoro afinal é como, tanto tempo que até já passou –
estou a contar mesmo bem – do total dos anos que andou cá o colono português?”
“Assim mais é o quê?! A mãe também chateia muito…”
“Chateia? Mas isso mesmo é homem, que nunca só dá
pelo menos a cara nas pessoas que trouxeram ao mundo a miúda que constantemente
faz com ele…?!”
“MÃE!, faxavori, pára só, ya? Estou a ver já aonde
estás a ir com a conversa…”
“Estou cansada, filha! Você dorme com o inimigo.
Porque é essa a palavra. Ah porque fomos no KFC; ah, ah porque jantamos no
Angry Lion. Ó filha, já viste como entre você e o frango não há diferença? É só
comer… não se pergunta mais os pais…”
“Não exagera só mãe. Ele vai cumprir com a
tradição. Há-de chegar o dia…”
“Esse dia então é quando?! Mas já foste ao quarto
dele. Ou não?”
“Claro que já, né, mãe?!”
“E quem construiu a casa?”
“Mas para quê que vou saber isso… se não sou
pedreira?”
“Estás a ver as nossas filhas?!… É só ku-duro nesta
cabeça… Lá ninguém te valoriza, senão te contavam a história da família.”
(II)
“Mãe! Não viste a visita?! É assim que se atende?! Depois fala que não
apresento…”
“Este assim é quem? É outro que veio cobrar a dívida do cabelo brasileiro que a
alma d’outro mundo que o teu quase-namorado promete assumir mas nunca chega a
pagar?”
“MÃE! Ca-la-a-boca! Por favor, não me faças entrar no chão…”
“Será que falei demais, né?…”
“É ele…”
“Ele mais quem, então?”
“O meu boy. Finalmente estás de cara-à-cara com ele! Boy significa namorado.”
“Ah, entendi. Namorado que só ocupa não toma decisão de casar então é boi, né? Eu diria, até, boi malandro, mas pronto já...”
(III)
“Muito prazer, mãezinha.”
“Demais, até. Imagino. E como se chama o filho?”
“Nascimento da Cunha…”
“Ah, quer dizer que o jovem é que está a estragar o país, né?…”
“Como?”
“Comendo lá ou não, filho, Angola ficou marreca de tanto levar a cunha na
cabeça…”
“Hahahah. Adoro o sentido de humor da mãe…”
“E o filho Falecimento trabalha?”
“Nascimento!”
“Ah, desculpa. Nascimento, Falecimento, tudo passa no viver. Trabalha aonde?”
“Na ENDE e colaboro com a RNT… Sou despachador-chefe. Ligamos e desligamos as
linhas de luz consoante solicitação de corte para restrições de
racionalização…”
“Afinal é o pai que fez queimar a minha arca do negócio de gelado de múkwa?”
“Não é por aí, mãezinha…”
“ACABOU! JOVEM! EM NOME DO POVO ANGOLANO, SAI AGORA MESMO DA MINHA CASA, OK?!”
www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Lobito,
5 Outubro 2017
quinta-feira, 1 de março de 2018
NADA A ASSINALAR (*) (**)
no tecto
asas insuflando incoerências
e o esvair-se de um sono
que perdeu a missão
não passou dos olhos
talvez urja desaprender
tudo,
o hoje desmentir
o mundo de criança vestir
será?
Bem, se calhar nada
mesmo
há
a assinalar.
___________
(*) Gociante Patissa, in «Guardanapo de
Papel», 2014, pág. 44. NósSomos. Vila Nova de Cerveira, Portugal
(**) Idem, in «Almas de Porcelana», pág. 73. 2016. Editora Penalux. São Paulo.
Brasil
Citação
"Eu nunca tive a oportunidade de me transformar em outra pessoa. Nuca tive a oportunidade de obter riqueza, mesmo trabalhando muito. Dizem que o dinheiro, o poder e o ego transformam as pessoas, eu não sei se é com todos. O que me podia transformar seria a vaidade, mas a vaidade não conseguiu, até porque as pessoas por quem podia fazer vaidade já fazem parte da minha vida." (Sérgio Rodrigues, apresentador da TPA, in Caras e Vidas, 01.03.2018)
Em linhas tortas (32)
"Mas o comandante dos trânsitos que ouvi na rádio também exagerou lá só muito no apetite. Uma piquena de 13 anos é que você de 40 e tal vai lhe namorar?! Aquilo dá muito trabalho, namorar criança aquece a cabeça, mulher tem que ter um pouco de experiência. Até isso dele, é mesmo já a tal pedofolia de úrtimo grau, ya? Só qui também urtimamenti há piquenas de 13 qui já é assim corpo-lenta. Dizem qui já entrou no xadrez, o assunto já é notícia nacional, assim fica compilicado bater a bola baixa, abafar o bagulho. Lobito é muito piqueno. Mas se o wi conseguir mexer mesmo bem o borso do adivogado ainda se safa, pode ser expurso da polícia, como oficial policial que é, né?, mas cadeia é bandeira. Você que mijava na unidade, vão te ver mesmo argemado porque violou menor?... Eu nestas coisas, é saber comer e limpar a boca bem, porque a lei é tipo abelha, sabes?, não pode só ouvir cheiro de doce... Vou-te falar um mambo, chefia: eu a minha esposa como se dá que me vigia só muito, sabes faço quiê? Activo não incomodar. O telefone fica mesmo aí, ela está a ver com os olhos dela qui tá ligado, mas não chama. E ela num tá a intender nada. Eu já, estou a ver o meu jogo na TPA e a chupar meu copo, santo até padre é pouco..."
(Colagem de diálogo do táxi. Lobito, 01.03.2018) | www.angodebates.blogspot.com















