segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Divagações | COMO SE MATAR CURASSE CHIFRES

O porta-voz da polícia, Pinto Caimbambo, destacou, durante o balanço das ocorrências criminais do fim-de-semana à rádio Benguela esta manhã, o caso de um compatriota do Lobito que apanhou "em flagrante delícia" (como diria o escritor Canhanga) a esposa (49 anos) com um jovem (29 anos) e não fez outra coisa senão matar ambos com, segundo disse o oficial, um instrumento contundente. Mas eu me pergunto: assim já, matando, achas que os separaste?! Se aqui (com essas crises financeiras todas, paludismo é paludismo, fofoqueiros é fofoqueiros, ainda assim) o romance às escondidas foi fulgurante, imagina lá no paraíso... É uma felicidade que nunca mais acaba, até porque, se justiça houver, todos os eventuais pecados do finado "casal" ficam endossados ao assassino. Agora mesmo é que piorou, oh compatriota corno celestial. Não façam isso, meus irmãos! É sempre mais honrado um corno em casa do que este definhando na cadeia, não? Sem contar que vai ser mais uma boca passiva e improdutiva que terá de ser alimentada com verbas do orçamento geral do estado, dos contribuintes, de todos nós que até não somos apologistas da violência, seja de que natureza for. Não fica socialmente mais confortável ser-se a vítima do que passarmos por carrasco? Ainda era só isso. Obrigado. Gabinete de sua excelência eu, muito furiosamente.
www.angodebates.blogspot.com
Share:

sábado, 4 de novembro de 2017

(arquivo) Diário | Vou ao Dombe Grande, não sei se conhece

(I)
“Bom dia, vizinho Notícia.”
“Bom dia, vizinho Candeeiro. Como é lá em casa?”
“Bem, mas, ainda, passamos. Somente.”
“Aqui, também, de queixar não temos. Saúde ainda há.”
“Queria só um remendo aqui entre as pernas.”
“É da bicicleta, não é?”
“Trabalho-casa-trabalho. Pedalar, pedalar. As escalças só rasgam só no meio das pernas.”
“É só deixar. Passa daqui a duas horas.”
“Duas horas tudo, para um remendo?! Ene! Na burocracia os outros mba estão lá…”
“Mas assim o mano queria como afinal?”
“Está bem. E o preço assim é quando é?”
“Só depois do trabalho. Pode ficar calmo. O mano Candeeiro é de casa.”

(II)
“Bom dia outra vez, vizinho Notícia!
“Bom dia, irmão amado…”
“Está pronta aquela nossa coisa?”
“Sim, quase. Só falta engomar…”
“Até que não era preciso. Mas como já começaste, né?… E qual é a importância?”
“Se o remendo tem qual valor ou se tem importância engomar? Não entendi bem…”
“Ah, importância é o mesmo que perguntar o valor da obra. É precisamente quando?”
“Ah, então é isso?… É só ler a fartura…”
“Xé! O vizinho Notícia me surpreendeu, ya?... Até bloco de factura sai da gráfica por causa de um karremendo?! Assim então não fala só na boca porcádequiê?”
“Oh meu benquisto irmão Candeeiro, essa coisa da fartura aprendemos outrora no tempo do branco – sabe que naquele tempo, tudo funcionava na linha, a palavra ou a chicote. Porque os nossos mais velhos já diziam: no trabalho, não há pequeno. Ou falo mentira?”
“Por acaso, a organização do branco era outra coisa, as coisas andavam p’ra frente…”
“Bloco, bloco, não temos, mas folha do caderno mesmo dá para farturar. É só ler…”
“Hoko! Ficou maluco ou quê?! É que você me leve a mal se quiser, mas também não é assim que se fica rico, ó vizinho Notícia, sinceramente!!!”
“O que é isso, irmão Candeeiro? Essas palavras amargas hoje já porquê?”
“Possas, pá! Por causa de um remendozinho, você vai pedir logo três mil kwanzas?! Mas esse valor dá para uma escalça nova!… Já para não dizer a boutique inteira…”
“Falaste o quê, meu querido irmão?!”
“Não tenho tudo isso que cobraste, não venho preparado. Acho que vamos a prestações.”
“Ah, a situação é essa, né?... Mas até isso era uma coisa normal... O problema é que tenho uma viagem assim mesmo hoje. Vou resolver um assunto aqui perto, no Dombe Grande, não sei se o meu irmão conhece…”
“Ah, olha só!… Desculpa, mestre Notícia, afinal tinha mesmo aqui no bolso de kafokolo o dinheiro. Nem dei conta… Mba esse esquecimento, o esquecimento?…”
 www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | 14 de Novembro de 2015
Share:

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Divagações | Um reencontro histórico com Paulino Handa, o ouvinte que se fez médico



Foi com muita alegria e nostalgia que sua excelência eu reencontrou a excelência dele Paulino Handa Capusso, pelas bandas de Ondjiva, uma amizade e estima que resulta da relação entre locutor e ouvinte. Até 2008, Handa morava no bairro São João, no Lobito, e à semelhança de Baptista Timóteo, era assíduo nas intervenções ao programa de debate/mesa-redonda semanal «Viver para Vencer», concebido, coordenado e conduzido na altura por sua excelência eu pela ONG AJS (Associação Juvenil para a Solidariedade), através da Rádio Morena Comercial. Em 2007 chegou a receber das mãos da activista/membro Celma o prémio simbólico por isto mesmo, como atesta a segunda foto. Os nossos caminhos distanciaram-se, ele radicou-se na província do Kunene, onde desempenha a actividade de médico, enquanto sua excelência eu ficou por Benguela e da actividade radiofónica já só lhe restam estas gratas camaradagens. Aliás, na mais recente viagem à república da Namíbia, num misto de lazer e consultas de rotina, o companheiro Handa foi mais do que prestativo ao garantir guarida para o carrito de sua excelência eu, para além de ter sido um guia na travessia da fronteira. De regresso, assim de improviso, a pretexto de autografar os livros A ÚLTIMA OUVINTE e NÃO TEM PERNAS O TEMPO, teve a proeza de apresentar quem vos fala à sua hospitaleira família, tendo saído daí um bom funji de peixe e rama. Sabe sempre melhor um pitéu de lar do que o de restaurante, né? Como nota de rodapé, partilho várias coisas com o Handa, sendo uma delas no BI o local de nascimento (o município da Baía Farta. Ele, sim, nasceu lá de verdade), a perseverança (já foi mecânico de navios, trabalhou numa empresa de manutenção de automóveis, foi voluntário por uma instituição não governamental, fez o curso básico de jornalismo, trocou o Lobito por um desconhecido destino, trabalhou numa empresa de telefonia e finalmente fez a faculdade de análises clínicas). Ainda era só isso. Obrigado 

Gociante Patissa | Ondjiva-Lubango, 02-03 Novembro 2017

Share:

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

(arquivo) Diário | Só que o posto dele é na cama, ouviste, né?!

“Mas que vozes são essas, meu Deus?!”
“Não são vozes, patroa, é uma senhora só… Está bem frustrada a tal senhora, patroa. O guarda inclusivéé não consegue lhe segurar…”
“Mas qual é o problema para tanta histeria afinal?”
“Patroa, falo mesmo?”
“Claro! Que pergunta mais parva, homem!”
“Ela diz que veio discutir os direitos dela…”
“Mas que direitos são esses?”
“O mano Sentado. É isso… é mulher do mano Sentado. Ela falou que tem certeza que o marido dela está ali dentro de casa…”
"Ai, o problema dela é só mesmo esse?”
“Parece, patroa…”
“Manda entrar a gaja.”
“A SENHORA DEVIA TER VERGONHA, PÁ!!!! ROUBAR MARIDO, COM TANTO HOMEM DISPERSO POR AÍ A SER ATROPELADO POR COMBOIO?!…”
“Muito prazer em conhecer. Eu sou Nasesa. A senhora como se chama mesmo?”
“TCHA!... VOCÊ NÃO ME ENGANA COM ESSES TEUS MODOS, MAZÉ, PÁ…”
“Estarei aqui quando entender que dialogar é melhor que ladrar, querida. Mas pode já diantar. Qual é mesmo o assunto?”
“O MEU ASSUNTO É DA VOSSA POUCA VERGONHA! FICAS ALI, TODA ASSANHADA, ACESA COMO ÁRVORE DE NATAL… MAS AS CRIANÇAS QUASE ESQUECEM A CARA DO PAI QUE VOCÊ LHE PRENDE AQUI COM A BUNDA! QUE TIPO DE MULHER É VOCÊ, QUE NÃO CONHECE A DOR DAS OUTRAS?”
“Repete o que disse…”
HÔKO!, OLHA A CARA DELA... ATÉ PARECE NÃO MENSTRUA!”
“Minha senhora, parece haver aqui uma confusão.”
“CONFUSÃO DE QUÊ, PÁ?! AGORA ENTENDO O PORQUÊ QUE O PADRE, NA CERIMÓNIA DO MEU CASAMENTO, ME DISSE ‘ORAI E VIGIAI’… ERA MESMO A CONTAR JÁ CONTIGO, MINHA BANDIDA!”
“Já que procuraste, agora vou-te responder à medida. Está a ver esta pala de sombra? É o lugar do guarda. Ali onde estás, se faz favor, estás a atrapalhar o lugar do jardineiro. Ah, é uma pena que tenhas os pés empoeirados, senão te mostrava o meu quarto…”
“PARA QUÊ? O TAL QUARTO CHEIO DE PECADOS SÓ…”
“Assim já eu é que me viste com cara de conquistar alguém, ah porque estou apaixonada e encalhada, vem-me ocupar?! Miux! O senhor Sentado, é teu marido lá, aqui é trabalhador. É só isso. Um biscateiro, desculpa o termo, ya? Vem esporadicamente cuidar de algumas manutenções, mas, atenção, não é favor nenhum. Porque de uma maneira ou outra, ele enfia normalmente no bolso a sua avençazinha consoante o suor, como os outros. Só que o posto dele já é que é a cama, ouviste, né?!

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Katombela, 14 Dezembro 2015
Share:

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

(arquivo) Diário | Mas o camarada estava ou não estava com o canhão na mão?

“OFICIAL-DIA!!!”
“Pronto, Chefe!”
“TRAZ AQUI AQUELE DETIDO DE ONTEM!”
“De ontem à noite, Chefe?”
“TEMOS OUTRO?”
“Bem, é só mesmo ele, Chefe.”
“ANDA LÁ!”
“Até o Chefe faz bem, porque ele tem estado a transpirar muito…”
“Com licença?”
“ENTRA!”
“Bom dia, excelência. Chamo-me…”
“CAMARADA! AQUI NÃO HÁ CÁ MUITAS VOLTAS, OK?”
“Efectivamente. Vai-me desculpar, excelência…”
“O CAMARADA SABE PORQUÊ QUE ESTÁ AQUI DESDE ONTEM, NÃO?”
“Não digo que não, mas não fiz nada para merecer. Aquilo, até, foi só mesmo uma bebedeira inofensiva, copitos de fim-de-semana, pronto…”
“NÃO FEZ NADA?! O CAMARADA NÃO ESTAVA A FAZER MENOR NO JARDIM?”
“Mas nem caiu minimamente nem uma gota ainda, já me prenderam…”
“ME DIZ SÓ: MAS O CAMARADA ESTAVA OU NÃO ESTAVA COM O CANHÃO NA MÃO?!”
“Estava escuro e não tinha caído nenhuma gota de xixi ainda no chão, levei duas bofetadas bem puxadas, Chefe…”
“LUCRO DO DESACATO. ASSIM É O QUÊ, HÃ? VAI DIZER QUE NESTE CASO, A POLÍCIA AGIU LEGAL OU ILEGAL?” 
“Ilegal!”
“LEVEM-ME DE VOLTA O CIDADÃO PARA A CELA! ENTÃO, O CAMARADA, EMBRIAGADO, ESTAVA A ATENTAR CONTRA O PUDOR, O CÓDIGO DE POSTURA, E AINDA DIZ QUE A POLÍCIA AGIU ILEGAL?”
“Um momento só, Chefe, faxavori. ‘Ilegal’ afinal é como?”
“SEM RAZÃO.”
"Legal é que está certo?"
"NOS TERMOS DA LEI..."
“Ah, claro que agiu LEGAL. Ilegal mais como então?!!! Ó chefe, umas coisas é ensinar, faz favor… Agiu muito legal, a polícia até fez bem!!!”

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Benguela, 08 Dezembro 2015
Share:

A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

Com tecnologia do Blogger.

TV-ANGODEBATES (novidades 2022)

Categories

Tags

Publicações arquivadas