O porta-voz da polícia, Pinto Caimbambo, destacou, durante o balanço das ocorrências criminais do fim-de-semana à rádio Benguela esta manhã, o caso de um compatriota do Lobito que apanhou "em flagrante delícia" (como diria o escritor Canhanga) a esposa (49 anos) com um jovem (29 anos) e não fez outra coisa senão matar ambos com, segundo disse o oficial, um instrumento contundente. Mas eu me pergunto: assim já, matando, achas que os separaste?! Se aqui (com essas crises financeiras todas, paludismo é paludismo, fofoqueiros é fofoqueiros, ainda assim) o romance às escondidas foi fulgurante, imagina lá no paraíso... É uma felicidade que nunca mais acaba, até porque, se justiça houver, todos os eventuais pecados do finado "casal" ficam endossados ao assassino. Agora mesmo é que piorou, oh compatriota corno celestial. Não façam isso, meus irmãos! É sempre mais honrado um corno em casa do que este definhando na cadeia, não? Sem contar que vai ser mais uma boca passiva e improdutiva que terá de ser alimentada com verbas do orçamento geral do estado, dos contribuintes, de todos nós que até não somos apologistas da violência, seja de que natureza for. Não fica socialmente mais confortável ser-se a vítima do que passarmos por carrasco? Ainda era só isso. Obrigado. Gabinete de sua excelência eu, muito furiosamente.
www.angodebates.blogspot.comsegunda-feira, 6 de novembro de 2017
domingo, 5 de novembro de 2017
Utilidade pública | Livros do escritor Adriano Botelho de Vasconcelos para download gratuito em PDF
Livros grátis do escritor Adriano Botelho de Vasconcelos e algumas antologias de poesia e conto - do tempo em que o autor era secretário-geral da União dos Escritores Angolanos - estão disponíveis para download (descarga). Era só isso. Obrigado
7. Tábua
8. Adivinhas
11. Laços de Memória
12. Olímias
sábado, 4 de novembro de 2017
(arquivo) Diário | Vou ao Dombe Grande, não sei se conhece
(I)
“Bom dia, vizinho Notícia.”
“Bom dia, vizinho Candeeiro. Como é lá em casa?”
“Bem, mas, ainda, passamos. Somente.”
“Aqui, também, de queixar não temos. Saúde
ainda há.”
“Queria só um remendo aqui entre as pernas.”
“É da bicicleta, não é?”
“Trabalho-casa-trabalho. Pedalar, pedalar. As escalças só
rasgam só no meio das pernas.”
“É só deixar. Passa daqui a duas horas.”
“Duas horas tudo, para um remendo?! Ene! Na burocracia os
outros mba estão lá…”
“Mas assim o mano queria como afinal?”
“Está bem. E o preço assim é quando é?”
“Só depois do trabalho. Pode ficar calmo. O mano
Candeeiro é de casa.”
(II)
“Bom dia outra vez, vizinho Notícia!
“Bom dia, irmão amado…”
“Está pronta aquela nossa coisa?”
“Sim, quase. Só falta engomar…”
“Até que não era preciso. Mas como já começaste, né?… E
qual é a importância?”
“Se o remendo tem qual valor ou se tem importância
engomar? Não entendi bem…”
“Ah, importância é o mesmo que perguntar o valor da obra.
É precisamente quando?”
“Ah, então é isso?… É só ler a fartura…”
“Xé! O vizinho Notícia me surpreendeu, ya?... Até bloco
de factura sai da gráfica por causa de um karremendo?! Assim então não fala só
na boca porcádequiê?”
“Oh meu benquisto irmão Candeeiro, essa coisa da fartura
aprendemos outrora no tempo do branco – sabe que naquele tempo, tudo funcionava
na linha, a palavra ou a chicote. Porque os nossos mais velhos já diziam: no
trabalho, não há pequeno. Ou falo mentira?”
“Por acaso, a organização do branco era outra coisa, as
coisas andavam p’ra frente…”
“Bloco, bloco, não temos, mas folha do caderno mesmo dá
para farturar. É só ler…”
“Hoko! Ficou maluco ou quê?! É que você me leve a mal se
quiser, mas também não é assim que se fica rico, ó vizinho Notícia,
sinceramente!!!”
“O que é isso, irmão Candeeiro? Essas palavras amargas
hoje já porquê?”
“Possas, pá! Por causa de um remendozinho, você vai pedir
logo três mil kwanzas?! Mas esse valor dá para uma escalça nova!… Já para não
dizer a boutique inteira…”
“Falaste o quê, meu querido irmão?!”
“Não tenho tudo isso que cobraste, não venho preparado.
Acho que vamos a prestações.”
“Ah, a situação é essa, né?... Mas até isso era uma coisa
normal... O problema é que tenho uma viagem assim mesmo hoje. Vou resolver um
assunto aqui perto, no Dombe Grande, não sei se o meu irmão conhece…”
“Ah, olha só!… Desculpa, mestre Notícia, afinal tinha
mesmo aqui no bolso de kafokolo o dinheiro. Nem dei conta… Mba esse esquecimento,
o esquecimento?…”
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
Divagações | Um reencontro histórico com Paulino Handa, o ouvinte que se fez médico

Foi com muita alegria e nostalgia que
sua excelência eu reencontrou a excelência dele Paulino Handa
Capusso, pelas bandas de Ondjiva, uma amizade e estima que
resulta da relação entre locutor e ouvinte. Até 2008, Handa morava no bairro
São João, no Lobito, e à semelhança de Baptista Timóteo, era assíduo nas
intervenções ao programa de debate/mesa-redonda semanal «Viver para Vencer», concebido,
coordenado e conduzido na altura por sua excelência eu pela ONG AJS (Associação
Juvenil para a Solidariedade), através da Rádio Morena Comercial. Em 2007
chegou a receber das mãos da activista/membro Celma o prémio simbólico por isto
mesmo, como atesta a segunda foto. Os nossos caminhos distanciaram-se, ele
radicou-se na província do Kunene, onde desempenha a actividade de médico,
enquanto sua excelência eu ficou por Benguela e da actividade radiofónica já só
lhe restam estas gratas camaradagens. Aliás, na mais recente viagem à república
da Namíbia, num misto de lazer e consultas de rotina, o companheiro Handa foi
mais do que prestativo ao garantir guarida para o carrito de sua excelência eu,
para além de ter sido um guia na travessia da fronteira. De regresso, assim de
improviso, a pretexto de autografar os livros A ÚLTIMA OUVINTE e NÃO TEM PERNAS
O TEMPO, teve a proeza de apresentar quem vos fala à sua hospitaleira família,
tendo saído daí um bom funji de peixe e rama. Sabe sempre melhor um pitéu de
lar do que o de restaurante, né? Como nota de rodapé, partilho várias
coisas com o Handa, sendo uma delas no BI o local de nascimento (o município da
Baía Farta. Ele, sim, nasceu lá de verdade), a perseverança (já foi mecânico de
navios, trabalhou numa empresa de manutenção de automóveis, foi voluntário por
uma instituição não governamental, fez o curso básico de jornalismo, trocou o
Lobito por um desconhecido destino, trabalhou numa empresa de telefonia e
finalmente fez a faculdade de análises clínicas). Ainda era só isso.
Obrigado
Gociante Patissa |
Ondjiva-Lubango, 02-03 Novembro 2017
Em primeira mão na imprensa brasileira | JORNAL «O RELEVO» ESTAMPA O CONTO «Você não me chame querida», do livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, do escritor angolano Gociante Patissa, a sair brevemente pela editora paulista PENALUX, da dupla altamente profissional Tonho França e Wilson Gorj. O jornal O RELEVO é um projecto encabeçado pelo jornalista, escritor e activista cultural Daniel Zanella
Aqui vai o link para o download da edição https://issuu.com/jornalrelevo/docs/relevo_-_novembro_de_2017
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
(arquivo) Diário | Só que o posto dele é na cama, ouviste, né?!
“Mas que vozes são essas, meu Deus?!”
“Não são vozes, patroa, é uma senhora só… Está bem frustrada a tal senhora, patroa. O guarda inclusivéé não consegue lhe segurar…”
“Mas qual é o problema para tanta histeria afinal?”
“Não são vozes, patroa, é uma senhora só… Está bem frustrada a tal senhora, patroa. O guarda inclusivéé não consegue lhe segurar…”
“Mas qual é o problema para tanta histeria afinal?”
“Patroa, falo mesmo?”
“Claro! Que pergunta mais
parva, homem!”
“Ela diz que veio
discutir os direitos dela…”
“Mas que direitos são
esses?”
“O mano Sentado. É isso…
é mulher do mano Sentado. Ela falou que tem certeza que o marido dela está ali
dentro de casa…”
"Ai, o problema dela
é só mesmo esse?”
“Parece, patroa…”
“Manda entrar a gaja.”
“A SENHORA DEVIA TER
VERGONHA, PÁ!!!! ROUBAR MARIDO, COM TANTO HOMEM DISPERSO POR AÍ A SER
ATROPELADO POR COMBOIO?!…”
“Muito prazer em
conhecer. Eu sou Nasesa. A senhora como se chama mesmo?”
“TCHA!... VOCÊ NÃO ME
ENGANA COM ESSES TEUS MODOS, MAZÉ, PÁ…”
“Estarei aqui quando entender
que dialogar é melhor que ladrar, querida. Mas pode já diantar. Qual é mesmo o
assunto?”
“O MEU ASSUNTO É DA VOSSA
POUCA VERGONHA! FICAS ALI, TODA ASSANHADA, ACESA COMO ÁRVORE DE NATAL… MAS AS
CRIANÇAS QUASE ESQUECEM A CARA DO PAI QUE VOCÊ LHE PRENDE AQUI COM A BUNDA! QUE
TIPO DE MULHER É VOCÊ, QUE NÃO CONHECE A DOR DAS OUTRAS?”
“Repete o que disse…”
HÔKO!, OLHA A CARA
DELA... ATÉ PARECE NÃO MENSTRUA!”
“Minha senhora, parece
haver aqui uma confusão.”
“CONFUSÃO DE QUÊ, PÁ?!
AGORA ENTENDO O PORQUÊ QUE O PADRE, NA CERIMÓNIA DO MEU CASAMENTO, ME DISSE
‘ORAI E VIGIAI’… ERA MESMO A CONTAR JÁ CONTIGO, MINHA BANDIDA!”
“Já que procuraste, agora
vou-te responder à medida. Está a ver esta pala de sombra? É o lugar do guarda.
Ali onde estás, se faz favor, estás a atrapalhar o lugar do jardineiro. Ah, é
uma pena que tenhas os pés empoeirados, senão te mostrava o meu quarto…”
“PARA QUÊ? O TAL QUARTO
CHEIO DE PECADOS SÓ…”
“Assim já eu é que me
viste com cara de conquistar alguém, ah porque estou apaixonada e encalhada,
vem-me ocupar?! Miux! O senhor Sentado, é teu marido lá, aqui é trabalhador. É só
isso. Um biscateiro, desculpa o termo, ya? Vem esporadicamente cuidar de
algumas manutenções, mas, atenção, não é favor nenhum. Porque de uma maneira ou
outra, ele enfia normalmente no bolso a sua avençazinha consoante o suor, como os outros. Só
que o posto dele já é que é a cama, ouviste, né?!
www.angodebates.blogspot.com | Gociante
Patissa | Katombela, 14 Dezembro 2015
quarta-feira, 1 de novembro de 2017
(arquivo) Diário | Mas o camarada estava ou não estava com o canhão na mão?
“OFICIAL-DIA!!!”
“Pronto, Chefe!”
“TRAZ AQUI AQUELE DETIDO DE ONTEM!”
“De ontem à noite, Chefe?”
“Pronto, Chefe!”
“TRAZ AQUI AQUELE DETIDO DE ONTEM!”
“De ontem à noite, Chefe?”
“TEMOS OUTRO?”
“Bem, é só mesmo ele, Chefe.”
“ANDA LÁ!”
“Até o Chefe faz bem, porque ele tem estado a transpirar muito…”
“Com licença?”
“ENTRA!”
“Bom dia, excelência. Chamo-me…”
“CAMARADA! AQUI NÃO HÁ CÁ MUITAS VOLTAS, OK?”
“Efectivamente. Vai-me desculpar, excelência…”
“O CAMARADA SABE PORQUÊ QUE ESTÁ AQUI DESDE ONTEM, NÃO?”
“Não digo que não, mas não fiz nada para merecer. Aquilo, até, foi só mesmo uma bebedeira inofensiva, copitos de
fim-de-semana, pronto…”
“NÃO FEZ NADA?! O CAMARADA NÃO ESTAVA A FAZER MENOR NO JARDIM?”
“Mas nem caiu minimamente nem uma gota ainda, já
me prenderam…”
“ME DIZ SÓ: MAS O CAMARADA ESTAVA OU NÃO ESTAVA COM O CANHÃO NA MÃO?!”
“Estava escuro e não tinha caído nenhuma gota de xixi ainda no chão, levei
duas bofetadas bem puxadas, Chefe…”
“LUCRO DO DESACATO. ASSIM É O QUÊ, HÃ? VAI DIZER QUE NESTE CASO, A POLÍCIA
AGIU LEGAL OU ILEGAL?”
“Ilegal!”
“LEVEM-ME DE VOLTA O CIDADÃO PARA A CELA! ENTÃO, O CAMARADA, EMBRIAGADO,
ESTAVA A ATENTAR CONTRA O PUDOR, O CÓDIGO DE POSTURA, E AINDA DIZ QUE A POLÍCIA
AGIU ILEGAL?”
“Um momento só, Chefe, faxavori. ‘Ilegal’ afinal é como?”
“SEM RAZÃO.”
"Legal é que está certo?"
"NOS TERMOS DA LEI..."
“Ah, claro que agiu LEGAL. Ilegal mais como então?!!! Ó chefe, umas coisas é
ensinar, faz favor… Agiu muito legal, a polícia até fez bem!!!”
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Gociante Patissa | Benguela, 08 Dezembro 2015



















