Tony do Fumo Júnior foi alvo de crítica
positiva do Semanário Angolense, num artigo do veterano jornalista Salas
Neto, o director, na
sequência de um reparo manifestado pelo veterano músico Prado Paim, estando na
base a preguiça de jovens músicos que se agarram aos conteúdos de outro tempo
para brilharem, às vezes, sem a elementar observância dos direitos autorais. Nas suas aparições, ressalta o
redactor, o jovem nunca passa de interpretar temas do pai, quando era já altura
de mostrar algo seu, original. Na minha condição de leitor, já não sei se o que
é pior, se o show de Edy Tussa com o tema "monami", por exemplo, inserto no disco
Picante, de Dias Rodrigues, ou se o rapaz agarrar-se a um repertório que é do
próprio pai.
sábado, 14 de junho de 2014
sexta-feira, 13 de junho de 2014
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Oratura: «ULONGA», A SAUDAÇÃO ENQUANTO INSTITUIÇÃO NA SOCIOLINGUÍSTICA UMBUNDU
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| curiosidade: a região é rica na cultura do abacaxi |
Da casa de um primo seu fazendeiro no
Dombe-Grande, o meu pai voltara com arranhões e o bolso da camisa rasgado. A saudade
fora tão grande que, à chegada, partiu para um efusivo abraço, gesto que o cão de
guarda tomou por agressão ao seu amo, acostumado à regra de se sentar primeiro e
saudar depois. Assim é com os Va Cisanji.
Num universo marcado pela exiguidade
bibliográfica na recolha da tradição oral, os rígidos preceitos científicos não
são propriamente a nossa tenção. Não abdicamos é de contribuir com vivências,
ainda que o façamos com a regularidade de um vaga-lume.
Tornando à cena do visitante agredido. Passa-se
que tanto este como o anfitrião são de uma localidade culturalmente fronteiriça
entre os municípios de Balombo e Bocoio, encaixada administrativamente no
último. Dista cerca de 170 Km a nordeste da capital da província de
Benguela, território com predominância da etnia Ovimbundu e que se comunica na
língua Umbundu, representando 1/3 da população — estatísticas
avulsas —
e abrange as províncias do Kwanza-Sul, Benguela e Namibe (costa), Bié, Huambo e
Huila (planalto centro e sul).
Segundo Fernandes & Ntondo (2002), referidos
em Kavaya[1]
(2006: 54), formam o grupo os va Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei,
Vatchisandji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu,
Kakonda, Tchicuma, o maior etnolinguístico angolano (acima de 4.500.000
pessoas). Quanto à etimologia, Arjago[2]
(2002: 23) sugere que foram apelidados, “pelos povos encontrados, de vakwambundu, o que significa gente vinda
das zonas de nevoeiro, tratando-se do litoral”.
Nestes subgrupos, cada encontro, por simples
que seja, representa provavelmente uma oportunidade de inventariar a vida, sem preocupações
relativas à economia do tempo. «Okwimbwisa
ulonga», fazer a saudação, é um longo relato da situação familiar e
introduzir o motivo do encontro, desde o último contacto, cobrindo depois o social,
o económico e o político. A linguagem é coloquial e inevitavelmente proverbial.
Como veremos adiante, entre os Va Cisanji, a «ulonga» é ainda mais minuciosa. Podemos concluir esta fase
generalista com a certeza de que é ao bem-estar que se aponta.
Do Bocoio, a
minúcia da «ulonga» é norma nas demais quatro comunas:
Monte-Belo, originalmente Utwe Wombwa (cabeça de cão), Chila (de Ocila,
palco, pista), Cubal-do-Lumbo (de Kuvale Kwelumbu, Cubal Mágico) e Passe
(Epasi). O chefe do lar é o interlocutor exclusivo. Nos meios mais conservadores,
acomoda-se o hóspede sem diálogo quase nenhum, enquanto alguém vai buscar o
interlocutor. Na impossibilidade, é substituído pela esposa e, na ausência
desta, pelo descendente mais-velho. É sempre o mais-novo (inferior hierárquico por
idade, grau de parentesco, cargo) quem começa a contar o estado de saúde, sendo
facultativa a pergunta. Se o mais-velho começa a explicar, é sinal para o inferior
distraído o interromper.
Eis algumas passagens
de diversas «ulonga». (a) Dialéctica: “Etu
vo, mumosi haimo. Tulinga tuti vamwe vatokota, vamwe vapola. Apa mbi omãlã omo
vakulila, etu twakulu omo tukukila” (Connosco é igual. Uns quentes/doentes,
outros frios/com saúde. Se calhar é o jeito de nós, os mais velhos, envelhecermos
e os mais novos crescerem); (b) Fome: “Twalale,
omo mwenle apa omo… Etaili, okulikwata komenlã, oco okusuyako” (A noite passou-se,
enfim… Hoje, levar a mão à boca, só se for para coçá-la); (c) Insegurança: “Wangombe, apamba lilu” (ao jeito do
boi, os chifres em riste); (d) Aflição: “Wambwa,
kwatwim kuliwa” (ao jeito do cão, as orelhas sendo roídas).
Resumindo, «Okwimbwisa ulonga», a saudação a preceito, é uma instituição entre
os Ovimbundu, constituindo na tribo Ocisanji uma afronta ser questionado pelo
mais-novo sobre o estado de saúde, e como tal choque de cultura na interacção até
com povos vizinhos.
Gociante Patissa, Benguela, 11 de
Junho de 2014
terça-feira, 10 de junho de 2014
Diário: UM PEQUENO PUNIDOR
No calçadão da praia morena onde aguardo pela
ligação da estação de serviço, estou sentado um pouco distante de dois jovens,
mas próximo o suficiente para captar o que dizem. Um, que aparenta ter 22 anos,
sacou dessas pastas de computador a sua pequena Bíblia. O outro, um pouquinho
mais novo, é zungueiro de CD pirateados. O primeiro fala mais, é pregador. O
segundo está o tempo todo de braços cruzados, preenchendo de vez em quando
as propositadas lacunas do pregador. Este, por sua vez, tem uma criteriosa selecção
de versículos, os quais apresenta num tom de "já devias saber". O
zungueiro olha agora para o relógio do telemóvel, olha para o lado mas
permanece sentado. Faz agora alguns apontamentos, cuidando o pregador de falar
dos que têm olhos mas não vêem, têm ouvidos mas não ouvem, etc. Ah, e para que
não restem dúvidas, questiona em que parte da Bíblia está escrito isso de
adorar estátuas e bonecos. Claro que não está, remata o pregador, é perder
tempo pedir ainda através da mãe Maria... Jesus basta! Tudo indica que o jovem
foi preparado numa oratória punitiva.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Crónica: AS PARTIDAS DO ELISEU
A pior
das partidas que nos pode alguém chegado pregar é, certamente, partir.
Eliseu
Mondi Pedro Figueiredo confunde-se com a língua inglesa, à qual viria a dedicar
duas décadas de auto-didactismo, chegando a dar aulas no terceiro nível dos
Bambus na Catumbela, onde residia, e mais tarde no católico Instituto de
Ciências Religiosas de Angola (ICRA), no bairro da Caponte, Lobito, onde veio a
residir. O extrovertido, criativo e brincalhão Mr. Elisha (pronunciado /elitsha/)
abraçou o inglês por influência do irmão mais velho, dos poucos tradutores benguelenses
no contexto de emergência, resultante do fracasso eleitoral de 1992, a época
dourada da ONU e demais agências internacionais de caridade.
Já
na sexta classe, dava o Eliseu nas vistas pelo vício das contagens em voz alta,
qual récita a Shakespeare, pelos corredores da escola Comandante Dangereux, na
Catumbela. E pregava bwé de partidas aos colegas, eles que mal sabiam o que era
o verbo “To Be”. De sorte que quando o conheci na sétima classe, onde começava o
ensino de inglês antes de surgir essa coisa chamada de reforma educativa, foi
com o inevitável receio de lidar com ele, pois era reinante o espírito de
competição entre os falantes. A empatia foi à primeira vista!
De
carteira acabamos sendo colegas até ao primeiro ano do ensino médio, optando
pelo curso de ciências sociais no Centro Pré-Universitário (PUNIV) do Lobito. O
Eliseu pregaria outra partida a professores e alunos com uma suposta habilidade
em conjugar o “To Be” na língua Umbundu, quando na verdade dizia o verbo
defecar. E ria-se, para o meu desgosto.
Estamos
em 1996 e eu, que gozava já de certa notoriedade mediática por colaborar num programa
infanto-juvenil da TPA, não via como continuar os estudos. Como se não bastasse
andar de ténis com a sola gasta ao ponto de o polegar beijar o chão, impunha-me
o professor Barros um ultimato; não tolerava o bloco de facturas para os
apontamentos do seu sagrado português. Só podia ser indisciplina, acreditava
ele. Por seu turno, o professor Kupuiya, com quem me havia incompatibilizado pela
imaturidade com que o corrigia em plena aula, decidira ser pai; isentou-me de
pagar as folhas de prova de inglês. Como compensação, eu partilhava com ele jornais
e livritos que me chegavam por correspondência. Mas… e as outras provas? Eram dez
disciplinas, e o Eliseu decidiu custeá-las. Custeava de vez em quando um lanche
na cantina da professora Belinha. Ofertou-me também uma camisola.
Bem,
depois de o agradecer no meu livro de estreia, Consulado do Vazio, entendi metê-lo
num livro de crónicas que a União dos Escritores Angolanos tem em edição. «O
contacto com os capacetes azuis era fruto proibido em certos quarteis.
Recordo-me de quando o Eliseu viu o seu negócio retido no Hotel Términus. Mais
conversa, menos conversa, prometeu-se subornar o guarda angolano, penhorando o
Bilhete de Identidade. Parvo do guarda, já que ficava sempre mais fácil tratar
outra via do documento».
Julgava-se
no direito de arranjar um emprego que prestigiasse a minha vocação e aptidão. Há
dois meses, falou-me da oportunidade numa promissora multinacional japonesa no
Huambo como tradutor e assessor de comunicação. Fiquei à espera de mais dados. E
o Eliseu foi hoje a enterrar, derrotado por um estado de saúde que há muito titubeava.
Ninguém faz ideia dos últimos suspiros do homem. Espero que tenham sido sob um
sonho com diálogos em inglês. Seja como for, Eliseu, não te perdoo essa partida
de partires!
Gociante
Patissa, Lobito 9 Junho 2014
Vende-se um Ford Figo ambient em muito bom estado (62 mil km). Ano de fabrico 2012. Seguro contra todos os riscos até 31 de Novembro 2014. Título de propriedade, livrete e taxa de circulação em dia. O preço? Vem a melhor parte... menos de dez mil dólares. Mais info em mensagem privada. Passe a palavra
domingo, 8 de junho de 2014
Diário: BREVE PARAGEM À SOMBRA DE UMA ÁRVORE QUE NÃO SE IMAGINA MULEMBA
A vida, esse museu interactivo de incontáveis
emoções, costuma ser de inquietações, também elas, incontáveis. Ora, se fosse
só isso, bem podíamos considerar o sintoma como estando localizado. Sim,
porque, agora que falamos de localizações, sendo binária a memória humana, como
que a lapa às pedras, anda tudo agarrado ao tempo e ao lugar. Algumas
localidades visitámo-las, quase sempre por lá termos mortos e vivos, quer
humanos, quer fauna e flora paisagísticas. Entretanto, é no inverso, quando
somos os visitados pelo lugar, que nos damos conta de andarmos com a indelével
marca entranhada na pele. Geralmente é a saudade no comando, por um reencontro
tão-só impossível ou pode-se dar o caso, não menos profundo, de a alma buscar proximidade
com a identidade, afinal a humanidade mais não é que uma busca, às vezes cega,
da noção de pertença. Mas incompreensível, como sabe a natureza ser, há quem
com frequência volte a lugares que despertem em si principalmente a revolta. E
eu venho à Baía Farta há por aí uma década. Não adianta, ela sabe onde estou.
Gociante Patissa 08.06.14
sábado, 7 de junho de 2014
Cozeduras
"Os livros saem sempre com grande atraso
entre a altura em que termina a escrita e a chegada ao público, geralmente um a
dois anos". António Lobo Antunes, escritor português, ao canal Sic
Notícias, 2013
PS: E calha, acrescento eu, que as demoras se cruzam e, por exemplo, três editoras diferentes colocam no mercado ao mesmo tempo obras de um mesmo autor ou autora, embora uma tivesse sido aprovada em 2012, outra em 2013 e a terceira ficado pronta em 2011. Resultado, arrisca-se o escritor ou escritora a passar uma ideia de estar a publicar demais





















