sábado, 14 de junho de 2014

Diário: AINDA O "PARASITISMO" NA RIBALTA MUSICAL ANGOLANA

Tony do Fumo Júnior foi alvo de crítica positiva do Semanário Angolense, num artigo do veterano jornalista Salas Neto, o director, na sequência de um reparo manifestado pelo veterano músico Prado Paim, estando na base a preguiça de jovens músicos que se agarram aos conteúdos de outro tempo para brilharem, às vezes, sem a elementar observância dos direitos autorais. Nas suas aparições, ressalta o redactor, o jovem nunca passa de interpretar temas do pai, quando era já altura de mostrar algo seu, original. Na minha condição de leitor, já não sei se o que é pior, se o show de Edy Tussa com o tema "monami", por exemplo, inserto no disco Picante, de Dias Rodrigues, ou se o rapaz agarrar-se a um repertório que é do próprio pai.
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Ombambi

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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Oratura: «ULONGA», A SAUDAÇÃO ENQUANTO INSTITUIÇÃO NA SOCIOLINGUÍSTICA UMBUNDU

curiosidade: a região é rica na cultura do abacaxi
Da casa de um primo seu fazendeiro no Dombe-Grande, o meu pai voltara com arranhões e o bolso da camisa rasgado. A saudade fora tão grande que, à chegada, partiu para um efusivo abraço, gesto que o cão de guarda tomou por agressão ao seu amo, acostumado à regra de se sentar primeiro e saudar depois. Assim é com os Va Cisanji.
Num universo marcado pela exiguidade bibliográfica na recolha da tradição oral, os rígidos preceitos científicos não são propriamente a nossa tenção. Não abdicamos é de contribuir com vivências, ainda que o façamos com a regularidade de um vaga-lume.
Tornando à cena do visitante agredido. Passa-se que tanto este como o anfitrião são de uma localidade culturalmente fronteiriça entre os municípios de Balombo e Bocoio, encaixada administrativamente no último. Dista cerca de 170 Km a nordeste da capital da província de Benguela, território com predominância da etnia Ovimbundu e que se comunica na língua Umbundu, representando 1/3 da população — estatísticas avulsas — e abrange as províncias do Kwanza-Sul, Benguela e Namibe (costa), Bié, Huambo e Huila (planalto centro e sul).
Segundo Fernandes & Ntondo (2002), referidos em Kavaya[1] (2006: 54), formam o grupo os va Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei, Vatchisandji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu, Kakonda, Tchicuma, o maior etnolinguístico angolano (acima de 4.500.000 pessoas). Quanto à etimologia, Arjago[2] (2002: 23) sugere que foram apelidados, “pelos povos encontrados, de vakwambundu, o que significa gente vinda das zonas de nevoeiro, tratando-se do litoral”.
Nestes subgrupos, cada encontro, por simples que seja, representa provavelmente uma oportunidade de inventariar a vida, sem preocupações relativas à economia do tempo. «Okwimbwisa ulonga», fazer a saudação, é um longo relato da situação familiar e introduzir o motivo do encontro, desde o último contacto, cobrindo depois o social, o económico e o político. A linguagem é coloquial e inevitavelmente proverbial. Como veremos adiante, entre os Va Cisanji, a «ulonga» é ainda mais minuciosa. Podemos concluir esta fase generalista com a certeza de que é ao bem-estar que se aponta.
Do Bocoio, a minúcia da «ulonga» é norma nas demais quatro comunas: Monte-Belo, originalmente Utwe Wombwa (cabeça de cão), Chila (de Ocila, palco, pista), Cubal-do-Lumbo (de Kuvale Kwelumbu, Cubal Mágico) e Passe (Epasi). O chefe do lar é o interlocutor exclusivo. Nos meios mais conservadores, acomoda-se o hóspede sem diálogo quase nenhum, enquanto alguém vai buscar o interlocutor. Na impossibilidade, é substituído pela esposa e, na ausência desta, pelo descendente mais-velho. É sempre o mais-novo (inferior hierárquico por idade, grau de parentesco, cargo) quem começa a contar o estado de saúde, sendo facultativa a pergunta. Se o mais-velho começa a explicar, é sinal para o inferior distraído o interromper.
Eis algumas passagens de diversas «ulonga». (a) Dialéctica: “Etu vo, mumosi haimo. Tulinga tuti vamwe vatokota, vamwe vapola. Apa mbi omãlã omo vakulila, etu twakulu omo tukukila” (Connosco é igual. Uns quentes/doentes, outros frios/com saúde. Se calhar é o jeito de nós, os mais velhos, envelhecermos e os mais novos crescerem); (b) Fome: “Twalale, omo mwenle apa omo… Etaili, okulikwata komenlã, oco okusuyako” (A noite passou-se, enfim… Hoje, levar a mão à boca, só se for para coçá-la); (c) Insegurança: “Wangombe, apamba lilu” (ao jeito do boi, os chifres em riste); (d) Aflição: “Wambwa, kwatwim kuliwa” (ao jeito do cão, as orelhas sendo roídas).
Resumindo, «Okwimbwisa ulonga», a saudação a preceito, é uma instituição entre os Ovimbundu, constituindo na tribo Ocisanji uma afronta ser questionado pelo mais-novo sobre o estado de saúde, e como tal choque de cultura na interacção até com povos vizinhos.
Gociante Patissa, Benguela, 11 de Junho de 2014



[1] KAVAYA, M. 2006. EDUCAÇÃO, CULTURA E CULTURA DO ‘AMÉM’: Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda,/ Benguela, ANGOLA. Rio Sul, Brasil: Pelotas.
[2] ARJAGO. 2002. OS SOBAS: Apontamentos Étno-linguísticos Sobre os Ovimbundu de Benguela. Edição do autor.
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terça-feira, 10 de junho de 2014

Diário: UM PEQUENO PUNIDOR

No calçadão da praia morena onde aguardo pela ligação da estação de serviço, estou sentado um pouco distante de dois jovens, mas próximo o suficiente para captar o que dizem. Um, que aparenta ter 22 anos, sacou dessas pastas de computador a sua pequena Bíblia. O outro, um pouquinho mais novo, é zungueiro de CD pirateados. O primeiro fala mais, é pregador. O segundo está o tempo todo de braços cruzados, preenchendo de vez em quando as propositadas lacunas do pregador. Este, por sua vez, tem uma criteriosa selecção de versículos, os quais apresenta num tom de "já devias saber". O zungueiro olha agora para o relógio do telemóvel, olha para o lado mas permanece sentado. Faz agora alguns apontamentos, cuidando o pregador de falar dos que têm olhos mas não vêem, têm ouvidos mas não ouvem, etc. Ah, e para que não restem dúvidas, questiona em que parte da Bíblia está escrito isso de adorar estátuas e bonecos. Claro que não está, remata o pregador, é perder tempo pedir ainda através da mãe Maria... Jesus basta! Tudo indica que o jovem foi preparado numa oratória punitiva.
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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Crónica: AS PARTIDAS DO ELISEU

A pior das partidas que nos pode alguém chegado pregar é, certamente, partir.

Eliseu Mondi Pedro Figueiredo confunde-se com a língua inglesa, à qual viria a dedicar duas décadas de auto-didactismo, chegando a dar aulas no terceiro nível dos Bambus na Catumbela, onde residia, e mais tarde no católico Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA), no bairro da Caponte, Lobito, onde veio a residir. O extrovertido, criativo e brincalhão Mr. Elisha (pronunciado /elitsha/) abraçou o inglês por influência do irmão mais velho, dos poucos tradutores benguelenses no contexto de emergência, resultante do fracasso eleitoral de 1992, a época dourada da ONU e demais agências internacionais de caridade.

Já na sexta classe, dava o Eliseu nas vistas pelo vício das contagens em voz alta, qual récita a Shakespeare, pelos corredores da escola Comandante Dangereux, na Catumbela. E pregava bwé de partidas aos colegas, eles que mal sabiam o que era o verbo “To Be”. De sorte que quando o conheci na sétima classe, onde começava o ensino de inglês antes de surgir essa coisa chamada de reforma educativa, foi com o inevitável receio de lidar com ele, pois era reinante o espírito de competição entre os falantes. A empatia foi à primeira vista!

De carteira acabamos sendo colegas até ao primeiro ano do ensino médio, optando pelo curso de ciências sociais no Centro Pré-Universitário (PUNIV) do Lobito. O Eliseu pregaria outra partida a professores e alunos com uma suposta habilidade em conjugar o “To Be” na língua Umbundu, quando na verdade dizia o verbo defecar. E ria-se, para o meu desgosto.

Estamos em 1996 e eu, que gozava já de certa notoriedade mediática por colaborar num programa infanto-juvenil da TPA, não via como continuar os estudos. Como se não bastasse andar de ténis com a sola gasta ao ponto de o polegar beijar o chão, impunha-me o professor Barros um ultimato; não tolerava o bloco de facturas para os apontamentos do seu sagrado português. Só podia ser indisciplina, acreditava ele. Por seu turno, o professor Kupuiya, com quem me havia incompatibilizado pela imaturidade com que o corrigia em plena aula, decidira ser pai; isentou-me de pagar as folhas de prova de inglês. Como compensação, eu partilhava com ele jornais e livritos que me chegavam por correspondência. Mas… e as outras provas? Eram dez disciplinas, e o Eliseu decidiu custeá-las. Custeava de vez em quando um lanche na cantina da professora Belinha. Ofertou-me também uma camisola.

Bem, depois de o agradecer no meu livro de estreia, Consulado do Vazio, entendi metê-lo num livro de crónicas que a União dos Escritores Angolanos tem em edição. «O contacto com os capacetes azuis era fruto proibido em certos quarteis. Recordo-me de quando o Eliseu viu o seu negócio retido no Hotel Términus. Mais conversa, menos conversa, prometeu-se subornar o guarda angolano, penhorando o Bilhete de Identidade. Parvo do guarda, já que ficava sempre mais fácil tratar outra via do documento».

Julgava-se no direito de arranjar um emprego que prestigiasse a minha vocação e aptidão. Há dois meses, falou-me da oportunidade numa promissora multinacional japonesa no Huambo como tradutor e assessor de comunicação. Fiquei à espera de mais dados. E o Eliseu foi hoje a enterrar, derrotado por um estado de saúde que há muito titubeava. Ninguém faz ideia dos últimos suspiros do homem. Espero que tenham sido sob um sonho com diálogos em inglês. Seja como for, Eliseu, não te perdoo essa partida de partires!

Gociante Patissa, Lobito 9 Junho 2014
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domingo, 8 de junho de 2014

Diário: BREVE PARAGEM À SOMBRA DE UMA ÁRVORE QUE NÃO SE IMAGINA MULEMBA

A vida, esse museu interactivo de incontáveis emoções, costuma ser de inquietações, também elas, incontáveis. Ora, se fosse só isso, bem podíamos considerar o sintoma como estando localizado. Sim, porque, agora que falamos de localizações, sendo binária a memória humana, como que a lapa às pedras, anda tudo agarrado ao tempo e ao lugar. Algumas localidades visitámo-las, quase sempre por lá termos mortos e vivos, quer humanos, quer fauna e flora paisagísticas. Entretanto, é no inverso, quando somos os visitados pelo lugar, que nos damos conta de andarmos com a indelével marca entranhada na pele. Geralmente é a saudade no comando, por um reencontro tão-só impossível ou pode-se dar o caso, não menos profundo, de a alma buscar proximidade com a identidade, afinal a humanidade mais não é que uma busca, às vezes cega, da noção de pertença. Mas incompreensível, como sabe a natureza ser, há quem com frequência volte a lugares que despertem em si principalmente a revolta. E eu venho à Baía Farta há por aí uma década. Não adianta, ela sabe onde estou.

 Gociante Patissa 08.06.14
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sábado, 7 de junho de 2014

Cozeduras

"Os livros saem sempre com grande atraso entre a altura em que termina a escrita e a chegada ao público, geralmente um a dois anos". António Lobo Antunes, escritor português, ao canal Sic Notícias, 2013

PS: E calha, acrescento eu, que as demoras se cruzam e, por exemplo, três editoras diferentes colocam no mercado ao mesmo tempo obras de um mesmo autor ou autora, embora uma tivesse sido aprovada em 2012, outra em 2013 e a terceira ficado pronta em 2011. Resultado, arrisca-se o escritor ou escritora a passar uma ideia de estar a publicar demais
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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

Com tecnologia do Blogger.

TV-ANGODEBATES (novidades 2022)

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