sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Crónica: Divagações da hora doze

Julgo ter-me já referido, nestas reflexões bloguistas, sobre como é sempre relativa essa coisa da relevância dos assuntos. As linhas de hoje não fogem muito disso. É como não almoçar em casa, que pode ser inócuo para a grande maioria, excepto para uns poucos sujeitos irremediavelmente a comerem fora de casa, por causa do serviço.

Um ano depois de conseguir o emprego de aprendiz de fotógrafo, num estabelecimento precário do bairro Santa-Cruz, no Lobito, fui transferido para a dependência do mercado informal da Catumbela. Nessa altura, entendia já de foco, revelação e impressão. E mais, era impecável no ardil de “flashiar” (na falta de material, fotografávamos de máquina vazia, cabendo ao flash completar a impressão de normalidade. No mínimo 24 horas depois, com semblante incólume, mostrávamos ao cliente qualquer rolo escuro. O resto era já previsível: queimou, há que repetir).

Uma simples barraca – barrotes, esteiras de palha, lona e panos – chamada Foto Boa Imagem. O nome foi sugestão minha. Os encravamentos da máquina fotográfica eram por mim remediados, agachado como muçulmano em hora de meditação, bastando a secretária inundar-me com todos os panos e lonas dali, numa improvisada câmara escura. Estamos em 1994, eu ia a caminho do 16º aniversário. Frequentava a 7ª classe. O entusiasmo foi curto, pois não mais almoçaria em casa. Comíamos o arroz de feijão e peixe frito, em barracas vizinhas. Na verdade, continuo almoçando fora, às vezes mais por puro hábito do que por impossibilidade.

Entre 2000 e 2007, por exemplo, durante a consolidação de uma ONG angolana por nós trazida à luz, podia bem disciplinar o horário do almoço. Eram, afinal, só 15 minutos a pé entre o escritório e a casa, mas acabávamos por consumir ração fria. Cenário diferente fora no emprego anterior, na Sonamet, que fica no centro da cidade. Em 2006 ainda, durante os três meses enquanto segunda pessoa do projecto RBC (Reabilitação Baseada na Comunidade) da Handicap International, na cidade de Benguela, tentava “patar” o almoço em casa da kota, mas lá estava aquela “resistência”. No actual emprego, a caminho de cinco anos, não é diferente. Enfim, parece irreversível… o “mal” está em ser solteiro, provavelmente.

Rendido à tal fatalidade nesses 18 anos de caçador de ganha-pão, transformo em oportunidade cada lugar público de refeições; sempre se pode aprender mais sobre gastronomia, interagir mais com colegas ou mesmo enriquecer o repertório de boatos. Soma-se a isso um aguçado sentido de observação. Por falar em observação, tenho a impressão que conheci ontem um muito exigente cliente de lanchonete, talvez o maior que há entre lobitangas.

Estava pronto o almoço, no beco ao lado da Taag, zona comercial do Lobito, lugar concorrido, que combina bem a simplicidade com o preçário. Não é nem a melhor nem a pior cozinha. Lá o tipo entra e pede kalulú. Uma vez servido, implica: não se pode misturar peixe seco com fresco! A servidora engole, perplexa, em seco. E prossegue, em tom que seria professoral, se não soasse rabugento: diz lá à cozinha, pá! Vocês não sabem, mas as coisas não são assim. Ou peixe seco, ou fresco! A rapariga tenta em tom baixo condescender, mas o cliente tem outro protesto: o quiabo não pode ser servido inteiro, isso não é ético, pa! Tem que ser cortejado!

Não sendo para aqui chamado o que consegui saber sobre a vida e “obra” daquele compatriota, deixei o local com uma certeza: sempre se pode aprender como cozinhar mal à hora do almoço.

Gociante Patissa, Aeroporto da Catumbela, 4 Novembro 2011 
Share:

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Poesia Umbundu: "Upongo wa fela"


Upongo wa fela




A fela,
Nye wa ñembela 
okuti mbela wiya? 
Anga kulete okuti ndulavoka?
 Wa nyola ocipundo cange 
omu nda ndawunda la mbela. 

Nye ocimangela, a fela? 
Wa sakalalisa utima wange lesanju lya mbela wiya
pwãi ocili caco mbela wosia. 
Linga ohenda ko ngunja yilo. 
kopilile mbela.
Lupukako muenle. 
Ulima ulo  ndo pongiyila ongusu.

A fela,
Ndingue ohenda 
Mbela u nena.
Kofeka a kasi kwalinga onumbi! 

António Salomão Ngandu, Benguela 31/10/11
Share:

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Urgente: Alguém que coloque quebra-molas na "praça" do Caimbambo. O perigo é iminente.

No dia dos mortos, convivi com aviões até às 14h00. Depois, fui com amigo à fazenda dele, no Caimbambo, rever os imbondeiros, com as chuvas, mais para o verde do que para o castanho. Deu também para assistir em tempo real a um atropelamento na praça, rapaz de 9 anos mais ou menos "varrido" por motociclista que vinha com velocidade a mais. Deu ainda para meter o puto na carroçaria da L200 do meu amigo, rumo ao hospital. Espero, muito mesmo, que sobreviva. Gritava de dor à entrada do banco de urgência do precário hospital municipal, já após umas palmadas na pata, aplicadas ainda no local por vendedoras e curiosas. O atropelador tentava em vão evadir-se, tendo sido, já mais tarde, levado pelo porta-bagagem do Rav4 ao serviço da polícia. Agora dá para pedir quebra-molas para aquele lugar, enquanto a mentalidade dos automobilistas atrasa a lembrar-se de reduzir a velocidade, e enquanto as crianças não aprenderem a não brincar à beira da estrada.
Share:

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Prémio Quidgest Atribuído ao MSc. Carlos Pacatolo, Professor da Unipiaget Benguela


Carlos Pacatolo foi premiado com o Prémio Quidgest - Consultores de Gestão, Lda, pelo facto de ter sido, no ano lectivo 2010/2011, o melhor estudante da parte curricular do Mestrado em Economia e Políticas Públicas (área de Finanças e Administração Pública) do ISEG (Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa, Portugal).

Será no próximo dia 17 de Novembro, pelas 15h00, na Sessão Solene de Abertura do Ano Lectivo 2011/2012, que receberá publicamente o Prémio.

Docente da Universidade Jean Piaget de Benguela, comentarista para questões sociais e políticas das rádios Morena Comercial e Rádio Benguela, Carlos Pacatolo é ainda assessor da Administração Municipal do Lobito.


O Blog Angodebates e o seu editor reforçam os parabéns ao Pacas.
Share:

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

UMBUNDU: Ndo kuvangula cesilivilo lyo ocisangwa ko kukala kutundasyãhulu wo wiñi wovimbundu (PORTUGUÊS: Breve nota sobre o sentido etimológico da bebida Ocisangwa na cultura Ovimbundu)

Ombenje, yo vo
Internet 
UMBUNDU: Ndo kuvangula cesilivilo lyo ocisangwa ko kukala kutundasyãhulu wo wiñi wovimbundu

Ocisangwa (vamwe vacitukula vati “quissangua” e “kisangua”), casyata okunyuiwa mulo von Ngola, cipongiyiwa lo huta yaleluka kwenda yatanda ko kovaimbo vosi. Tusima tuti kakuli onjila imosi lika yo ku pongiya, nda twa vanjiliya awiñi la wiñi vo lo nyitiwe. Haimo lumwe, ha citangi ko nda tulinga tuti kuli ovisangwa vivali: (a) cina cakwaya kwenda cikolwisa, (b) la cina cakwaya ale syo, pwãi kacikolwisa. Oco katukainde olonjila vya sanjavala, tupopya ño eci ca syata kwapata ovimbundu.

Ocimãho cokutaya cilo oku yevalisa vimwe twamãla okuyeva, kweci catyamenla kelomboloko lyo cinsangwa (cina cakwaya ale syo, pwãi kacikolwisa) kutundasyãhulu, casumbiwa ndovava, cina okuti kakuli omõla ale ukulu kacisole. Olonjanja vyalwa, u waliveta ocisangwa olaña mwenle lo kulima kepya, ke yevi onjala.

Ocisangwa cipongiyiwa lo kufelula, ndeci ño ke kela. O sema yitengiwa lo loseke, vikalinga noke ovitami (vikoka okuti tê lo kuvenja venjamo vombya ale vo neka, oco kavikalinyolehenle). Kuli vo vana va panga ovitami lo lwoso. Onduko yovitami, tusima tuti yatundilila ko “kutamenla”.

Oco ocisangwa cisonse, osimbu omanu vainda lo kukapa kapa ko ombundi, vamwe lavo vo vakapa ko onyoñolo oco cikwate okalemba kamwe kaposoka. Ovituwa vyaco, ndomo caleluka okucitala, haiko vili kovaimbo, omo lyu hwasi wukasi vusitu, kenda andi mekonda lyu kulihinso wapiãla kweci catyamenla kuhayele lovihemba vyumbundu. Pwãi osuka oyo vali yasyata oku kapiwa kocisangwa. Kweci ca tyamenla kovikwata vyokusoleka ale okwambata, tukwete ombenje, pwãi volupale omunu osoleka leci akwete.

Ocisangwa laco vo kacitava okukamba pongandala, pepunda pana pakapiwa ovikwata vyociholo co kutambela ale oku lomba (ko putu vati “consentir”, “alambamento” ale andi “alembamento”). Mekonda lya nye? Pepulilo eli opo tusanga osapi yondaka. Ndeci twayeva kwakulu vendamba, ocisangwa cikwete esilivilo linene konepa yokutambula akombe. Onduko yocisangwa yitundilila “ko kusangiwa” ale “oku sangwa”. Tulinga tuti ocina co ku sangiwa ale cimwe cisangwa, ocidenkaise cekalo liwa ku yu wasangiwa. Njali yukãi eye ukwacikele cokucipongiya lo ku cava, kacitava cikamba.

Eli olyo esapulo twatenla ko, pwãi nda okwete lya kwavo, tulilavoka lesanju.

Gociante Patissa, Benguela, 26/10/2011
.................................................................................. 

PORTUGUÊS: Breve nota sobre o sentido etimológico da bebida Ocisangwa na cultura Ovimbundu

A “ocisangwa” (mais conhecida pelas corruptelas “quissangua” e “kisangua”) é uma bebida típica em Angola, feita à base de ingredientes simples e naturais. Não creio haver uma forma consensual que sirva de receita, tendo em conta até a nossa peculiar diversidade étnica. Ainda assim, podemos resumir a sua classificação em dois galhos: (a) a fermentada e alcoólica, (b) a azeda ou não, mas não alcoólica. Mas para não dispersar o foco, concentremo-nos à realidade dos Ovimbundu.

O propósito destas linhas é partilhar o resultado de uma recente recolha, quanto ao significado antropológico de “ocisangwa” (a azeda ou não, mas não alcoólica), aquele líquido da importância da água, sempre presente e acessível a todas as idades. Às vezes basta uma boa dose de “ocisangwa” para se passar o dia todo na lavoura.

O modo de preparo é pela fervura, similar ao de “ekela lyo sema” (papa de milho), com uma mistura de fuba e rolão, que fará o papel de “ovitami”, (minúsculas porções trituráveis de milho para engrossar o líquido, que fazem com que se esteja constantemente a agitar o copo para se evitar o desperdício de os abandonar no fundo deste). Há quem use o arroz como “ovitami”, substantivo que julgamos advir de “okutamenla”, que em Umbundu significa engrossar.

Para adoçar o líquido, os povos antigos usavam raízes, havendo também quem lhe acrescente troncos de “pnyoñolo” para caprichar no aroma. Tais práticas, como é de imaginar, são ainda usuais no meio rural, dada a riqueza da flora angolana e o vasto conhecimento sobre sua multidisciplinar aplicação na medicina alternativa. Mas é ao açúcar que mais se recorre de modo geral. Quanto à sua conservação e até transporte, recorre-se à “ombenje” (cabaça), substituída por utensílios mais modernos conforme o meio.

A “ocisangwa” é dos bens de presença obrigatória na “ongandala”, a trouxa tradicional que se leva nos rituais de “okutambela” e/ou “okulomba” (conhecidos como “consentir” e “alambamento” ou “alembamento”). Então porquê? E é daqui que parte a vontade de partilharmos. Segundo nossas idóneas fontes, o líquido é de elevado valor no que à hospitalidade diz respeito. O termo “ocisangwa” vem de “oku sangiwa”, que também se diz em muitas variantes do Umbundu “okusangwa. Ou seja, “ocina co ku sangiwa ale cimwe cisangwa”, é algo encontrado, símbolo pelo qual o anfitrião se revela hospitaleiro, claro está, tendo na mulher a garantia da sua existência.

Essa é a nossa, mas aguardamos com agrado pela versão que você tiver.

Gociante Patissa, Benguela, 26/10/2011
Share:

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

SEGURANDO NOSSAS LÍNGUAS (Artigo publicado pela revista Universo, Setembro 2011, propriedade da Sonangol produzida em língua Inglesa e distribuída no Reino Unido; tradução de Gociante Patissa).

Enquanto o português é a língua oficial de Angola, o país é anfitrião de uma riqueza de línguas e dialectos de raízes mais antigas. A revista Universo olha para os esforços para preservar e dar vida nova para a estes.

A versão do português falado pelos angolanos contém muitas palavras que seriam totalmente estranhas a lusófonos do Brasil, Portugal ou mesmo Moçambique. Isso, porque muitas palavras usadas em Angola de hoje vêm de suas línguas indígenas Africanas, como o Kimbundu, Umbundu, Kikongo e Tchokwe.

Por exemplo, os táxis colectivos miniautocarros azúis-e-brancos que se vêm em toda a Luanda são conhecidos como candongueiros. Esta vem da palavra kimbundu Candonga, que significa  mercado. É fundida com 'eiro', o ​​sufixo português, que significa mercado negro. Este nome foi dado aos táxis porque eram o meio de transporte para os vendedores que trabalham no famoso mercado da cidade, o Roque Santeiro.

Um exemplo semelhante é zungueira, palavra usada para descrever os vendedores do sexo feminino que vagueam pelas ruas da capital, oferecendo tudo, desde frutas, peixes e legumes a chinelos e ainda verniz para unhas. Zunga, em Kimbundu, significa “movimento contínuo", que resume muito bem o facto de que as zungueiras vão sempre em busca de novos clientes.

Raridade

De acordo com o escritor e antropólogo angolano, António Tomás, as pessoas em Luanda recorrem frequentemente ao Kimbundu quando querem descrever novos fenómenos sociais. "As pessoas usam Kimbundu quando se referem a algo que não possam descrever adequadamente em português; Acho que é algo exclusivamente angolano", explicou.

"É como se o Kimbundu fosse um recurso de armazenamento de palavras quando há um novo fenómeno social a precisar de nome. Outro exemplo é maka. Significa muito mais do que a palavra portuguesa "problema" , apesar de ser a tradução literal. Mas maka é mais rico de alguma forma, parece ter um significado mais profundo ".

Acredita-se haver em Angola cerca de 50 diferentes dialectos ou línguas (dependendo de como você classifica uma língua). A maioria é de origem Bantu, como o Kimbundu e o Umbundu, enquanto uma pequena maioria falada em áreas remotas vem de grupos menores, como os Khoisan. O Kimbundu é falado nas províncias do centro-norte e litoral, Luanda, Malange, Kwanza Norte e Bengo, enquanto o Umbundu é predominante no centro e sul: Benguela, Huambo, Huíla e Bié.

Nas províncias do nortenhas do Zaire, Uíge e Cabinda, as pessoas falam maioritariamente o Kikongo,  mas também Lingala e Fiote, línguas usadas na fronteira pelos congoleses.

O Tchokwe é falado nas Lundas e mais ao sul ao longo e através da fronteira com a Zâmbia, enquanto que na província mais meridional do país, o dialeto é conhecido como Cuanhama, embora seja por vezes também escrito Oshikwanyama ou Kwanyama.

António Tomás, foto A Semana
No entanto, ao contrário da África do Sul, onde há 11 línguas oficiais e para onde é mais provável ouvir um político falar em zulu ou xhosa quando você usa Inglês ouAfrikaans, em Angola as línguas  africanas são relegadas muito para o último plano. O escritor António Tomás, que nasceu em 1973, cresceu na cidade de Luanda e, enquanto seus pais são oriundos de zonas de expressão Kimbundu, em casa só falavam Português .

"Faço parte dessa geração, cujos pais viveram a era colonial dos anos 1960, quando os portugueses tentavam nacionalizar o país através da língua e alienar a etnicidade das pessoas", disse à revista Universo. "Forçaram as pessoas a assimilar. Tinham de falar Português, se quisessem um emprego, e muitas pessoas, inclusive meus pais, mudaram de nome para serem mais Portuguesas. Só quando eu tinha 18 anos é que eu descobri que o verdadeiro nome de meu pai era Kutubiko ".

Tomás, que está actualmente a concluir doutoramento em Antropologia Cultural na Universidade de Columbia em Nova York, disse que o seu primeiro contacto real com as línguas de Angola - além de sua avó, cujo Kimbundu era sempre traduzida em Português por sua mãe – deu-se quando cumpriu o serviço militar na década de 1990.

"Fui enviado para Benguela e as pessoas vieram das áreas circundantes onde todo mundo falava Umbundu mais do que Português", lembrou. "Eu não  tinha antes passado por aquilo. Pessoas da minha idade, em Luanda, simplesmente não falavam Kimbundu, apesar de os nossos pais falarem. Foi lá, ouvindo as pessoas contarem maravilhosas estórias em sua própria língua, relatos passados de geração em geração através dos avós,  que me comecei a  interessar por língua, cultura e antropologia."

Tomás disse que planeou aprender mais Kimbundu e Umbundu, e se possível algumas outras línguas de Angola . "Essas línguas são como uma caixa de armazenamento para as nossas culturas e precisamos mantê-las vivas para manter nossa cultura viva. "Se não fizermos algo agora, dentro de 100 anos o Português será a única língua falada em Angola. Precisamos urgentemente fazer valer as nossas diferenças e aprenderas nossas línguas para aprendermos também a nossa cultura. "

A residir em Benguela está o Gociante Patissa, que partilha o entusiasmo de Tomás por línguas angolanas. Totalmente bilingue em Umbundu e Português, o jovem de  32 anos é autor de um Blog e sobre a sua língua materna, onde traduz poesia e excertos da literatura e explora provérbios. "Adoro línguas e eu adoro escrever", disse. "E acho que através da minha, Umbundu,  tenho uma herança cultural muito rica e  quero compartilhar isso, então é por isso que fiz o Blog. Gostaria de um dia escrever um livro”.

Patissa, que estudou linguística na universidade e é também fluente em Inglês, nasceu na comuna rural de Monte Belo, movendo-se para a cidade costeira do Lobito, 100 km de distância, quando tinha sete anos. "Quando chegamos à cidade, a maioria não falava Umbundu, mas acho que por a minha mãe não dominar muito a língua portuguesa, continuamos falando em casa e ainda falamos enquanto adultos", afirmou. "Ainda há essa timidez de falar em línguas africanas em Angola, e isso vem do sistema colonial, mas precisamos superar isso e ter orgulho de nossas raízes culturais".

Esta é uma posição apoiada pelo governo, que já começou a com projectos experimentais de ensino do Umbundu, Kimbundu e Tchokwe em algumas escolas primárias e dirige o Instituto de Línguas Nacionais para promover dialectos autóctones.

Valorizando as línguas

Falando numa conferência em Luanda no início deste ano, Cornelio Caley, Vice-Ministro da Cultura, disse: "É muito importante que valorizemos as nossas línguas nacionais, porque nos permitem apreciar a nossa cultura nacional. Saímos recentemente de um sistema de colonial, durante o qual nossas línguas maternas foram sistematicamente negligenciadas e linguisticamente alteradas."

O vice-ministro considerou triste que jovens angolanos tivessem mostrado mais interesse em aprender línguas estrangeiras, como Inglês e Francês, em detrimento de suas línguas nacionais, e pediu aos pais para passar os seus conhecimentos aos filhos.

Na opinião de Tomás, no entanto, ao falar dialectos em casa vai mantê-los vivos, mais precisa ser feito para trazer línguas do espaço doméstico para o oficial. "Os Portugueses foram realmente eficazes na forma como criaram esse tabu em torno do nosso línguas nacionais e as pessoas tinham esse complexo real de inferioridade reais sobre o uso de dialectos africanos", disse. "Dizia-se que era uma língua inferior, menos útil e menos versátil, e lembro-me na escola que se você falasse Kimbundu, podia ser intimidado ou o professor diria que tal interferiria negativamente no seu Português. "Isso tem continuado hoje e há essa mentalidade que as línguas africanas são para falar em casa, em privado, não em público. Isto é muito triste e quando perdemos essas línguas, ninguém vai notar mesmo".

Professor Prah, foto IMPLAN
A ajudar Angola a preservar as suas muitas línguas está o Centro de Estudos Avançados da Sociedade Africana (CASAS), com sede em Cape Town, África do Sul. O Diretor Kwesi Kwaa Prah vem liderando o projeto para produzir uma ortografia-padrão (sistema ortográfico) para idiomas do país Bantu que, segundo ele, são todos muito semelhantes.

"Se você é um falante Cuanhama, pode não ser capaz de falar kimbundu, mas de lê-lo", explicou. "O que estamos fazendo é racionalizar as estruturas de ortografia para fazer uma versão harmonizada para que se possa em seguida publicar formas de escrita das línguas. "Trata-se de economias de escala. Se apenas 20 mil pessoas são capazes de ler um livro, você vai lutar para produzir muitos livros para esse público, mas se cinco milhões podem lê-lo, então você terá mais oportunidades."

Professor Prah, ganês, cuja organização trabalha em toda a África, tem opiniões fortes sobre promoção das línguas nacionais. Acredita que o legado colonial dominante de idiomas europeus, como Português, Inglês e Francês está a atrasar o desenvolvimento do continente.

"Não acredito que se possa avançar  através da língua de outra pessoa", disse. "Olhe para a Alemanha, eles falam alemão; olha para a Itália, eles falam italiano. E agora olha para a Ásia, também uma vez colonizados, mas agora falando suas próprias línguas. Vietname, por exemplo, costumava ser francês, mas agora as pessoas usam vietnamita, e na Malásia, ex-britânico e apesar de muitas pessoas falam Inglês, sua língua materna é o malaio. Estas são sociedades com economias em crescimento e estão se movendo para a frente; África ainda está atrás com isso".

Professor Prah acredita que Angola ainda precisa de agitar o que ele vê como uma dependência neo-colonialista em Português, e diz que é preciso fazer mais para promover as línguas africanas que estiveram intrinsecamente ligadas à identidade nacional e da cultura. "Se não protegermos as nossas línguas Africano, é essencialmente o etnocídio, porque as nossas línguas são parte da nossa identidade e nossa cultura e é através da nossa cultura e da língua que nós nos definimos", acrescentou.

Congratulando-se com o apoio do governo para o trabalho CASAS faz em Angola, o Professor Prah diz esperar que o guia ortográfico angolano esteja pronto até Novembro e que abriria portas para mais trabalhos publicados em línguas indígenas e dialectos angolanos.

O Bloguista Gociante Patissa concorda que a falta de trabalhos publicados em línguas africanas, a par de  passagens bíblicas traduzidas por missionários, dificulta a aprendizagem ou preservação de dialectos. Dicionários e gramáticas, segundo ele, são difíceis de encontrar, e o que exclui muita gente interessada em aprender. Mas é encorajado pelo crescente número de músicos que agora estão usando Umbundu e Kimbundu em suas letras.

"Estamos vendo mais música com letras africanas, particularmente artistas do Huambo, Benguela e Lobito, o que é uma boa promoção da língua", disse. "É um indicador de que o interesse em nossas línguas nacionais está crescendo e acho que vai ajudar a protegê-las nos próximos anos."

O Professor Prah concorda. "Os africanos estão lentamente começando a despertar para a cultura nacional e línguas, e percebendo que precisam para preservar esta parte da sua identidade de ser capaz de desenvolver", disse.

Apesar de muitos angolanos urbanos já não falarem as línguas africanas, se você viaja fora das principais cidades e vilas, encontrará lugares onde apenas estes dialectos são falados. A fim de fornecer um serviço a essas pessoas, cujas estatísticas não são claras, as emissoras estatais Televisão Pública de Angola e Rádio Nacional de Angola têm notícias diferentes e mostram  informações. Folhetos do governo em muitas questões de saúde e cívico, como eleições, também são traduzidos para as principais línguas para garantir que todos no país sejam informados. E na sequência das recentes chuvas fortes e inundações, existem agora os planos para o Serviço Nacional de Meteorologia INAMET (Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica ') para dar alerta nos idiomas locais.

(Artigo publicado pela revista Universo, Setembro 2011, propriedade da Sonangol produzida em língua Inglesa e distribuída no Reino Unido; tradução de Gociante Patissa).

Share:

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Crónica: Se os rios fizessem inversão de marcha

O olhar é como o rio. Ambos alimentam, mas sua natureza é rota de sentido único. Um vai da íris ao objecto, outro da nascente à foz. Os tempos também. À medida que seguem, vão nutrindo a vegetação, ou a esperança e a nostalgia. Nem inovo eu a fórmula, nem ela a mim. A humanidade é toda, no final das contas, uma repetição.

Da sociedade civil guardo memórias, mais aquelas da ingenuidade. Das metas, dos planos, das estratégias. Tudo afinal mera utopia, olhando em reverso, tal como a vontade de mudar o mundo, ou parte dele, para melhor que o senso comum permitisse. O desemprego, o inconformismo e a criatividade lançaram muitos ao sector informal, comigo deu-se em 1999, e com isso a oportunidade de pensar para lá do discurso oficial, como prevê o exercício da cidadania. Os seminários e capacitações são outros ganhos. Depois que se sai, resta aquela ambivalência.

No passado mês de Julho, fui convidado para a recepção na residência do Embaixador Americano em Luanda, Christopher McMullen, que confraternizou com ex-bolseiros e participantes de programas de intercâmbio suportados pelo seu governo. Porque em 2010, integrei o grupo de Líderes Associativos Juvenis que visitou Washington, Oregon, Utah e Florida, em nome de uma ONG angolana, de que sou co-fundador (já não estou no activo, por questões de integridade).

Noutra época, teria telefonado à Ilda, da casa de passagem da ADRA, por detrás do Xamavo. Mas a experiência na aviação ensina a tratar das reservas pessoalmente. Vencida a previsão de aterragem, a tripulação do Boeing anunciava pista congestionada. Sobrevoaríamos a capital por mais 20 minutos. Passavam das 16H00 e o compromisso seria duas horas mais tarde. Uma vez em terra, um candongueiro resolve a falta de protocolo. Bato à porta, aperto a campainha, mas tarda a resposta. Depois sai um senhor, estrangeiro talvez, com má notícia: aquilo há coisa de um ano que deixou de ser hospedaria.

Uma hora me separa do evento, e lá estou eu pelas ruas do São Paulo. Alameda Hotel é a paragem a seguir. Atende-me um senhor de meia-idade, refastelado no sofá da recepção, que talvez não merecesse o nome, a julgar pela mórbida luz e mofo indisfarçável. Diz-me que há cerca de três anos que andam encerrados para obras (nada visíveis). Abre excepção, provavelmente das milhares que se vêm abrindo ao longo do defeso oficial a quem quer cama para coisas rápidas. Digo que não estou acompanhado. Ah, se fosse assim, diz-me, solícito, teria que sair cedo, 6H00 da manhã o mais tardar. Cheira-me a insegurança, mas disfarço. Retiro-me apenas com a eufemista promessa de voltar. No Quinaxixe encontro um residencial em jeito de bunker, pelo qual não pagaria os meus 10 mil kwanzas, se não andasse contra o tempo.

No final tudo se arranja e a recepção é enriquecedora, acima de tudo pela interacção com personalidades dos mais diversos sectores. Encosto-me aos historiadores, Simão Souindoula e Américo Kunonoca, ao lado dos jornalistas, Lilas Orlov e Nelson Rosa. Como que a beber da fonte, ouço para aprender e tirar dúvidas sobre um pouco de tudo e sobre as implicações dos derrubes de Muamar Kadafi e Laurent Gbagbó.

O nosso mundo parece-se um pouco com o mar. Bem podia estar calmo, de tanto que tem de recursos e espaço, mas anda às ondas… talvez por ter nas ondas a forma de tomar o seu banho.

Gociante Patissa, Aeroporto da Catumbela, 21 Outubro 2011
Share:

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Mexendo no arquivo: "Girassol"











Girassol

Sintonizada à frequência
da melodrama da espécie humana
está ela perplexa humilde e sorridente
no canteiro no quintal

Escancarada aos raios escaldantes
de um sol que é de todos
traz sonhos alegres
de um amanhã sem toneladas de mortes

Num mundo de pólvoras
onde escasseia o amor
ri-se da cólera dos homens de toda parte
em conflito com a paz
em conflito com a justiça
em conflito consigo mesmos
e no seu verde e amarelo
vai singela a planta girando ao sol

Gociante Patissa, In «Consulado do Vazio», Kat-Benguela, 2008
Share:

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Lucky Dube foi assassinado num dia como hoje, há quatro anos (nossa reiterada homenagem)


Contrariando a tese «não se deve chorar pelo leite derramado» - porque por este e outros artistas que essa África perdeu, sim, se deve chorar - o Blog Angodebates recorda Lucky Dube, assassinado a 18 de Outubro de 2007.

Segundo o site Wikipedia, "Dube foi assassinado no subúrbio de Joanesburgo, em Rosettenville logo após ter largado dois dos seus sete filhos e seu tio em suas casas. Dube estava dirigindo seuChrysler 300C, que os assaltantes perseguiram. Os relatórios da polícia sugerem que ele foi morto a tiros pelos carjackers. Cinco homens foram presos com ligação comn o assassinato. Três homens foram julgados e considerados culpados, em 31 de março de 2009, dois dos homens tentaram fugir e foram capturados. Os homens foram condenados à prisão perpétua."

Entre as várias profecias da inapagével estrela do Reggae, que muito se bateu contra o apartheid, propomos extrato da música "my brother, my enemy": "Not every black man is my brother, not every white man is an enemy" (Nem todo preto é meu irmão, nem todo branco é um inimigo). "We know our heroes die in vain" (sabemos que os nossos heróis morrem em vão). 

Gociante Patissa



http://youtu.be/iUkv5FKpN5Y
Share:

A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

Com tecnologia do Blogger.

TV-ANGODEBATES (novidades 2022)

Categories

Tags

Publicações arquivadas