sábado, 24 de abril de 2010

Memória do escritor Raul David anima noite de poesia, prosa e trova (actualizado)

O Centro Católico, na cidade de Benguela, foi na sexta-feira (23/04) palco de um espectáculo músico-cultural para saudar a data de nascimento de Raul Mateus “David”. A iniciativa foi de Eder Lopes (poeta) e Agostinho Sanjambela (músico e artesão). Entre os convidados de destaque estiveram a viúva, D. Carocha, e dois filhos do escritor, tendo um deles lido da biografia do pai.  * 
"Ver esta juventude aqui presente é um testemunho vivo, muito activo mesmo, se bem que muitos aqui não estão. O pessoal que aqui está é muito valioso para mim e para a família”, classificou D. Carocha. Questionada se os herdeiros já tiveram a oportunidade de conhecer a terra do pai, D. Carocha referiu que ainda não. Mais disse ser um compromisso tido em conta. Afinal ela também nasceu na Ganda. “Cedo ou tarde, vão chegar”, garantiu. 
* Cerca de cem pessoas, na maioria estudantes e amigos da arte, atenderam o evento, que teve entradas grátis. Uma pequena exposição montada à entrada dava a oportunidade de a juventude ter contacto com as obras de Raul David (23/04/1918 - 20/02/2005). Elogios à sua figura vieram também da escritora Paula Russa e do jornalista Alexandre Lucas Tchilumbo. Foi um “serão” agradável de se ver.
* Sobre a trajectória de RD, o site da União dos Escritores Angolanos destaca: "Depois de estudar na escola primária da vila, prosegui os estudos no seminário menor do Galangue, de onde saiu habilitado com o grau escolar do 6ºano, em 1938. Exerceu, profissionalmente, vários cargos na administração civil no Bocoio e Luanda. Trabalhou na Companhia do Caminho de Ferro de Benguela (CFB) e no Comércio. Nas vésperas da independência nacional, em 1974, publicou a sua primeira obra literária “Colonizados e colonizadores”, que vai agora na sua 3ªedição. Seguiram-se os títulos: “Poemas”(1977), “Narrativas ao acaso”(1981), “Cantares do nosso povo”(1987), “Contos tradicionais da nossa terra- I”(1979), “Brado patriótico”, “Crónicas de ontem para ouvir e contar”, “Contra lei e pela grei”(1988), “Do julgamento tradicional dos umbundus”,(1997) “Benguela no tempo e no espaço”(no prelo), agraciado com o prémio Menção Honrosa pelo Instituto Camões, e “História da velha coruja”. Nos finais dos anos 80, foi adido cultural da Embaixada de Angola na Zâmbia. Actualmente, reside em Benguela, onde exerce as funções de assessor da Direcção provincial da Cultura e na TPA/provincial". *
O Blog Angodebates deixa aqui os elogios aos organizadores, aos Bismas das Acácias que emprestaram a aparelhagem, à ONG portuguesa Leigos para o Desenvolvimento, bem como à actuação dos artistas, quer potenciais ou já consagrados. O Angodebates sabe, por outro lado, que o evento impulsionou a constituição do Clube de Poetas e Declamadores de Benguela, que se reuniu na manhã de hoje. Num encontro agendado para o próximo sábado serão acertadas questões de ordem organizativa e a constituição do corpo directivo. Força aí!
Gociante Patissa
(Fonte da foto de Raul David: Angop)
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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Humor daqui: "Tala tala kilu" (Arquivo/Umbundu e português)

Kuakala ukuenje umue okuti, omo kasolele upange wokulima, wavanja upange vocakati kolupale waye. Vokuenda kuoloneke yu wainda lokulilongisa elimi lio'putu. Lo ame layo vo yafetika okuvokiya.

Eteke limwe vokuenda okuñualañuala wasokolola okulia osanji lovakamba vaye ko'nanya. Okuiya wosika ndona yaye hati:
- Ó mulher, vou trazer meus migos. Tráta lá aquilo (eye kalongisa oputu yaco ku'ndona)

Vokutiuka weya apa lesanju lesolo kumosi. Puãi hati ndivanjiliya pevindi, osanji alopo yeyi ivanja, kayapondelwe, kayatelekelwe.
- Mas, ó mulher, osanji kwayitelekele?
- Sio! - Ukai watambulula
- Mas eu não disse trata lá aquilo?
- Oco mwele ndapanga. Omo okuti walinga heti tala tala kilu, ndasima siti ukuetu mbi wasakalala lombela. Oko mwele ndalaña loku tala tala kilu... ndamuna wacinuma.


(Wasapuila ko kota lyange Rosa Ngueve Gociante Patissa)
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domingo, 11 de abril de 2010

segunda-feira, 5 de abril de 2010

sábado, 3 de abril de 2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Crónica: "Guiné-Bissau, o golpe de estado e o dia das mentiras"

Para não passar em branco o dia das mentiras, assinalado ontem (01/04/10), a Guiné-Bissau brindou o mundo com a melhor mentira que o Guiness-the book of  records jamais registou. Diz a máxima que, para convencer, a mentira deve ter sempre um pingo de verdade. 

Assim foi que, cedo, as chefias militares entenderam raptar o primeiro-ministro e chefe de governo, Carlos Gomes Junior, num aparente golpe de estado. É provável que o presidente, Malam Bakai Sanhã, lhes tenha dito «ó ganapada, eu não me misturo neste tipo de brincadeiras, estão a ouvir? Incluam-me fora disso!!!». E manteve-se sereno no seu canto, possivelmente envolvido em gargalhadas. Mas para parecer que era verdade, raptaram também outra patente grande do exercito, que continua sob custódia. Talvez o guarda tenha engolido a chave, julgando que, passado o dia das mentiras, arrotaria a maldita chave. 

Mas o povo, este povo que não entende que, como disse o britânico, Guine-Bissau «is not a good place to be born in», entendeu sair à rua de protesto. Como se a sua fosse uma terra normal, mandaram umas bocas na televisão a dizer que queriam justiça, estabilidade, que estavam cansados de golpes e arrogâncias militares. Que estavam dispostos a morrer, em apoio ao primeiro-ministro, se tal fosse necessário. Mas os colossais chefes da junta militar, que já sabiam que tudo aquilo é mentira, que guineense sabe logo ao nascer que o destino da pátria é ser palco de chacinas, tráfico de drogas, perseguições políticas e ajustes de contas, disse: «Aié, estão a brincar de mentir o mundo, né? Esperem ali que vamos matar o primeiro-ministro, matar mesmo de verdade, depois diremos que foi tudo no dia 1 de Abril, dia das mentiras. Olha que não duvidem do que somos capazes!!!». E a comédia militar foi esperta: antes mesmo de escurecer, levou o refém de volta ao seu gabinete e disse «pronto, rapaz, continua lá a mentir o mundo que tens poder de chefiar o governo, enquanto a verdade é que os militares é que mijam o líquido com que o povo deita lágrimas, quer de alegria, quer de dor». Pronto! Foi tudo uma anedota!

Diferentes na ideologia e na forma de actuar, um militar e um palhaço de circo, na Guiné-Bissau, têm contudo uma grande semelhança: servem para fazer espectáculos. A única diferença consiste no impacto, sendo que os militares têm a fama e a visibilidade, resultantes da auto-promoção, tirando proveito do carisma da ponta da espingarda.

Gociante Patissa, bairro do Kioxe, Benguela, 2 Abril 2010
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quinta-feira, 1 de abril de 2010

Crónica: "Hoje é dia mundial dos empreiteiros (em especial os de Angola)"

Há dia mundial para tudo e mais qualquer coisa, né?! Assim, e antes que seja tarde demais, institui-se hoje o Dia Mundial dos Empreiteiros. Quem acha que não, que levante a mão!

Já agora, você ainda se lembra da lenda dos “Crocodilos Sagrados”? Perdão, disso já falamos lá mais adiante. Olhemos primeiro ao que é mais recente.

Pois é! Ontem, o Telejornal da TPA exibiu uma reportagem, que julgamos vir da província do Kuando-Kubango, sobre o curso de certa obra, obra esta, que concorrerá para o bem-estar social decorrente das sinergias pela reconstrução do país… quanto mais não seja por se tratar de residências e escritórios. O repórter em serviço (sempre essa raça de jornalista que é melhor nunca ter por perto) colocou uma impertinente pergunta. “ Quando pretende entregar a obra?”

O empreiteiro (coitado!), num semblante que lembrava ladrão de ovos apanhado em flagrante delito, não podia estar mais incerto: “Depende. Pode ser até à fase do natal. Porque, às vezes, nem sempre o material chega a tempo. Então, vai depender do material”.

Ora, diante desse quadro conspirador contra os inocentes empreiteiros, só podemos deduzir o (falso) dilema de que construir em Angola e cumprir os prazos de entrega é impossível. Para ser mais claro, se alguém tiver de ser responsabilizado pelo atraso na conclusão das obras, então, já sabemos quem é: o cidadão de seu nome completo “material de construção”.

Repito: você ainda se lembra da lenda dos “crocodilos sagrados”? Segundo uma lenda da antiga Grécia, o imperador era responsável pela criação de um lago, tipo viveiro, que era o habitat de colossais crocodilos, os Crocodilos Sagrados. Para quê? Ora pois, todo o empreiteiro que não honrasse a promessa de entregar atempadamente as obras que lhe fossem adjudicadas (não sei dizer se por concurso público ou não), era lançado aos Crocodilos Sagrados. Ainda bem que a nação angolana tenha nascido muito, mas muito tempo depois dessa época. É que, com os nossos empreiteiros, os crocodilos morreriam de obesidade e fartura…

Gociante Patissa, bairro da Santa-Cruz, Lobito, 1 de Abril 2010
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quinta-feira, 25 de março de 2010

"Os dentes do Soba", conto nº 3 de 7, in "A Última Ouvinte", livro acabadinho de sair

Em Outubro de 1945, um arrolamento extraordinário estava na iminência de ocorrer na Ombala de Tchiaia, capital de cinco aldeolas plantadas no cimo de montanhas vizinhas, que mais se pareciam com dedos de uma mão tentando tocar o céu: Pedreira, Kandongo, Samangula, Kawio e Tchiaia, hoje pertencentes à comuna do Sambo, município da Tchikala Tcholoanga, na província do Huambo.

Ia ao rubro a ansiedade na Ombala, como de costume em véspera de arrolamento. Cada família procurava catanar a idade dos filhos, o que contribuiria na diminuição dos impostos, o mesmo acontecendo com o número de animais domésticos. Menos posses, melhor. O que restava fazer só dependia da visita do Chefe do Concelho, branco português conhecido por observar ao mínimo pormenor até mesmo os pelos de um porco. Andava intrigado o Chefe do Concelho com a notícia do registo de dezassete óbitos em oito meses. E de nada o convenceram as justificações das autoridades, que atribuíam tal azar ao aparecimento do dragão, que fora visto por poucos sobrevoando o caminho do cemitério.

Era fenómeno raríssimo no meio rural, mas havia na aldeia uma mulher (chamada Kutala) em condições de dar conta do recado em matérias de recenseamento. Fora logo cooptada para o posto de secretária-tradutora-dactilógrafa da Ombala. Despachava diretamente o expediente com o Soba.

Nascida doentia, Kutala vivera a sua adolescência sob os cuidados de missionárias, tendo com elas aprendido as práticas de dactilografia, costura, doméstica e o domínio da gramática portuguesa. Mas com o desabrochar dos seios e o surgimento de sonhos eróticos — que ela não sabia se gostava ou se odiava —, Kutala convenceu-se de não ter vocação para madre, optando por abandonar a residência. Não era de ser pretendida por qualquer um, dada a sua capacidade de análise crítica, embora não fosse cheia de «não me toques».
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A Última Ouvinte
Mbocoio, o felizardo marido da Kutala, não gostava nada da ideia de se trabalhar com o Soba — apesar de iletrado, o Soba era muito astuto, carismático e, dir-se-ia até, bonito. Mas foi aconselhado pelos amigos a ver o lado positivo da coisa. Ser marido da mulher mais influente no poder dar-lhe-ia um estatuto visível, uma gratificação até acima do razoável. Lá o homem aceitou, mas não sem antes propor uma das irmãs da esposa para auxiliar na lida doméstica e cuidar do Velho, o bebé do casal, enquanto a mulher fosse trabalhar — Velho era a alcunha do bebé, uma solução arranjada para evitar o desgaste do sagrado nome do avô paterno, que era seu chará.

A verdade é que também não havia muito a fazer para impedir a esposa de desempenhar tão decisivo cargo. A vontade dele não podia estar acima do poder, fosse político, administrativo ou real. Mbocoio era uma pessoa singular na Ombala, não impressionando ninguém com o seu corpo atlético, peito de almofada e altura de mercenário. Era vagaroso a reagir e cauteloso a decidir, se calhar por ser gago.

Ia o emprego no seu primeiro mês. Faltavam dois dias para o pagamento do ordenado, quando a mulher chegou à casa e disse ao marido:
— Ó pai do Velho, tem uma coisa para te falar.
— Sim…?
— O Soba disse para o outro, ainda, deixar de passar a mão na minha cara. É para evitar espinhos, porque o Chefe do Concelho está para vir… e a cara é importante.
— Como assim?
— Bom, ele me falou que, como escriturária-dactilógrafa da regedoria, a minha cara tem que brilhar como bebé. E mão de homem faz borbulhas.
— Tá bem.

Não gostou nada do recado, mas suportou. Por mais que lhe custasse travar a mão toda a vez que ela teimasse em fazer um carinho involuntário à esposa, sujeitou-se durante semanas. Era coisa passageira, acreditava. Mas a visita nunca mais acontecia e, para a sua surpresa, surgia a mulher com mais um recado do Soba:
— O Soba me falou, fala no pai do Velho ainda para deixar de me dormir em cima. — respirou fundo para buscar a coragem de dizer o resto. — Falou a parte de sentar está a ficar rasa e as mamas estão a ficar grande.
— Então, daqui p’ra frente é só de lado? É isso?
— Acho que sim…

Contrariado, Mbocoio concordou. Como se não bastasse a proibição de tocar o rosto da mulher, vinha agora mais essa de fazer amor só de lado. Sujeitou-se, todavia, outra vez. Mais um sacrifício pela subida da mulher no trabalho. Seria passageiro porque, pelo tempo, a visita estaria perto de acontecer, acreditava o homem. Volvidos três penosos meses, era ainda incerta a chegada do Chefe do Concelho. Tudo indicava que ficaria para o ano seguinte. Mbocoio começava a acreditar que as limitações do quarto acabariam brevemente.

Ansioso. Nutrido pela enorme esperança. Mas a esperança é, às vezes, a mais cruel das ilusões. Desiludido, Mbocoio veio perder a cabeça perante mais um impasse:
— Ó pai do Velho — disse outra vez a mulher —, o Soba me apanhou a sonegar e me falou que isso tudo é cansaço de fazer as coisas de lado. Falou então para o pai do Velho pensar bem, ficar ainda uns dias sem fazer nada…
— Mas é para chegar aonde com essa merda de recados? — interrompeu, colérico, Mbocoio. — Porra! Até aonde vai o poder desta merda do Soba?

Muito gostaria a mulher que o marido falasse mais baixo, ela que já não se sentia à vontade em abordar coisas do quarto por causa da sua formação religiosa. Temia que os berros acordassem a vizinhança, que era basicamente composta por familiares do marido, o que seria um escândalo.
— Vamos falar no pescoço. — rogou, impotente. — A essa hora, a aldeia está a dormir.
— Mas, para dormir com a minha mulher, ele é que tem que autorizar? Merda, pá!
— Você vai chamar de merda a autoridade?
— Merda mesmo. É isso! Merda, merda d’homem! Ele pensa que é patrão até aonde?
— Mas ele não é só meu patrão. É também regedor da Ombala.
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A Última Ouvinte
— Safótalá, que eu mando lixar! Estou na minha casa!
— Mas ele também já viu muita coisa nesta vida. É mais velho, é a experiência dele.
— Ele mazé te quere…
— CHEGA! Olha que o nervo só te leva, não te traz!
— Chega nada! Aqui na minha casa, autoridade sou eu!
Pensou a mulher que, pelo desabafo do outro, o problema estivesse resolvido. Errado. Mbocoio saiu disparado, fora de hora, sujeito a todos os perigos, uma vez que a aldeia costumava ser invadida por onças e hienas que caçavam cabritos e porcos vadios. Podia também ser atacado por jibóias, isso, sem esquecer que naquele ano fora visto um dragão. Tudo isso punha a pobre esposa angustiada, ela que mal podia imaginar o que faria um gago impulsivo.

Feito bicho, Mbocoio trespassou o palácio do Soba, que enganava a insónia consultando os antepassados. Este pôs-se em pé em jeito de respeito, como aliás fazia sempre que recebesse visitas, por muito estranha que julgasse uma invasão do seu território quando a noite dava lugar à madrugada. Mas foi tudo tão rápido, que não teve tempo para saudar o visitante. Mbocoio fitou os olhos do Soba com toda a raiva que lhe subira à cabeça. E acertou o suposto rival com dois violentos socos da cara, até vê-lo cair para o chão como saco de múcua, embora calado como uma ovelha, já que homem grande não chora. Possuído pelo impulso, Mbocoio espancou o Soba, como se de pessoa qualquer se tratasse, mas rapidamente caiu em si. Não evitou a comiseração ao ver a mais alta autoridade da aldeia levantar-se do chão, sacudindo da calça a sujidade, com os lábios a verterem sangue.
— Ndifila nye?1

Mbocoio ficou estático, articulações bloqueadas pelo susto. Cometera o mais grave erro da história do seu povo. Era o primeiro a agredir um Soba, e o que era pior, ao ponto de partir metade do dente incisivo esquerdo. O Soba convocou os mais próximos conselheiros para uma reunião de emergência. A assembleia visava evitar que o Soba, figura que só
Pag. 33
participa dos contenciosos como juiz, aparecesse como vítima, o que fragilizaria a sua soberania. Decisão: guardar o segredo bem fechado, dando a Mbocoio o castigo de ser o tocador de sino da Ombala por tempo indeterminado, sendo inclusive subordinado da esposa.

Mbocoio, que temia castigo pior dos deuses pela agressão ao soberano, aceitou sem resistência. Quando a força toda que resta no ser humano só chega para chorar e implorar pela vida, todas as valentias e preconceitos reduzem-se à cinza. Mbocoio era incapaz até de se lembrar do próprio nome.

Mas como o Soba não podia surpreender a aldeia com um dente meio partido, foi feita uma operação de estética chamada omeyeko, aplicando um «chanfro em V» aos dois dentes incisivos como símbolo de nobreza.

Agora, com o doce sabor da reviravolta, o Soba até parecia ter ganho na altura. Abandonou a sala de reuniões e, sem ir muito além da porta, olhou à sua volta, sardónico. Mandou para o ar o fumo do seu malcheiroso cachimbo, como que em gesto de charme, e voltou a entrar, deixando nas mãos dos conselheiros a preocupação de propagar o fenómeno.

Contou-se que tudo acontecera durante um sonho, decifrado como recado dos antepassados: já não bastava a circuncisão para a honra masculina. E como o que vem do Soba é exemplo, surgiu uma nova profissão: a de limador de dentes. Foi então que se juntou omeyeko ao ritual da circuncisão, de tal modo que, entre a vaidade e a tradição, sorrir cerrando os dentes passou a ser documento em Tchiaia.

São os segredos e os sacrifícios que fazem o poder, portanto este não seria o primeiro nem o último pela revitalização da mística da aldeia. Mbocoio continuou pouco valorizado no seu posto de tocador de sino.

1 Que mal fiz para me matares?

In "A Última Ouvinte", copyright 2009, Gociante Patissa, União dos Escritores Angolanos, 1ª Edição, Luanda , 2010 (versão com base no novo acordo ortográfico)
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segunda-feira, 22 de março de 2010

A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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