"Alguns professores estão a pedir 20, 25 a 50 dólares. O prof. de EP só pede 10. Deve ser porque é presbítero na igreja dele".
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Entender o kuduro (fragmentos)
"Porém, para alguns de nós, na diáspora angolana, o kuduro é um estilo de música que nos inquieta – para uns até dá vergonha. Sentimos uma certa aversão pela agressividade das suas líricas sexuais; pelo seu materialismo ostensivo; pela sua celebração de um certo hedonismo ou, ainda, pela sua inutilidade. Ficamos sem saber, o que leva tanta gente cá no Ocidente a gostar tanto do kuduro e de certos artistas (que nunca iríamos convidar para um almoço) mas que chegam a encher os salões". - Sousa Jamba, 2013, no artigo "Entender o kuduro"
terça-feira, 2 de abril de 2013
Respeita a muleta
Li nos jornais que a banda Afra Sound Stars se encontra em Luanda, onde já deu o brilho de sua graça com show à sua dimensão. Gosto de suas músicas, mas marcou-me mesmo um tema deles que tem um solo impecável. Da letra, lembro-me do trecho "Ó Mariana, respeita a muleta, respeita a cicatriz", trilha sonora, aliás, de uma telestória da TPA que se chamou "Yana, uma mulher só". Se ao menos os caminhos de Benguela se abrissem para eles...
Leituras e vagares
Depois de desistir um bom número de vezes, acabei lendo até ao fim "A Metamorfose" de Franz Kafka. Não sendo crítico literário, geralmente leio na base do gosto, da atracção inicial pelo que me chega, ou seja, guio-me pela sensibilidade. E a metamorfose não preenchia nenhum desses vazios. De tal sorte que não marquei sequer a data da compra no livro, naquele tradicional traço de tinta à mão dizendo "propriedade de..., Benguela aos..." Mas como não se chega a escritor sem ler os clássicos (risos), acabei resistindo à minha própria resistência de leitor. Uma coisa é certa, o narrador é forte no que ao rítmo diz respeito, o que facilita sobremaneira o leitor. Julgo não ser muito difícil pegar uma versão PDF por esta vasta Internet. Partilho uma resenha que achei neste Blogue http://gsobota.blogspot.com/2009/05/cultural-metamorfose-franz-kafka.html
Dúvida existencial?
“Na actividade do Dia da Mulher Angolana, levei cinquenta e cinco senhoras no autocarro; nenhuma só disse que o lar ia bem, que estava feliz. Será que nós, maridos angolanos, somos assim tão malandros?”
Oratura: DIALECTOS, VARIAÇÕES REGIONAIS E ALGUMAS BARREIRAS ENTRE OS OVIMBUNDU (ensaio de Gociante Patissa, Jornal Cultura 1-14 Abril 2013)
DIALECTOS, VARIAÇÕES REGIONAIS E
ALGUMAS BARREIRAS ENTRE OS OVIMBUNDU (Gociante Patissa, Jornal Cultura 1-14 Abril 2013)
Em Angola, é comum o uso
do termo dialecto para designar as línguas nacionais de
origem africana, sejam elas de matriz Bantu ou pré-Bantu, remetendo-as
implicitamente ao papel de subalternas da língua portuguesa. Por
desconhecimento ou por preconceitos, é ponto assente que tal fenómeno é, mais
do que problema linguístico, uma questão social e de políticas de Estado.
A caminho de quatro décadas
de independência, urge esbater tal herança pejorativa da colonização
portuguesa, de si célebre pelo investimento na fragilização da identidade
cultural dos indígenas de então. Como defende MCCLEARY, Leland (2007: 11), “a
sociolinguística não usa a palavra dialecto nesse sentido
pejorativo. Para a sociolinguística, dialecto quer
dizer, simplesmente, uma variação regional”.
Ainda quanto aos
conceitos, o site http://conceito.de/dialecto
diz que dialecto é “todo o sistema linguístico
que deriva de outro mas que não apresenta uma diferenciação suficiente relativamente
a outros de origem comum (…) Dialectos são, na realidade, formas particulares
de falar ou de escrever uma determinada língua”.
Quanto à demografia, segundo Fernandes & Ntondo
(2002), citados em KAVAYA, Martinho (2002: 54), formam o grupo Ovimbundu, os va
Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei, Vacisanji, Lumbu, Vandombe, Vahanya,
Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu, Kakonda, Tchicuma, e este grupo corresponde
ao maior etnolinguístico angolano (acima de 4.500.000 pessoas) e comunica-se na
língua Umbundu.
Tirando proveito do meio familiar como laboratório
sociolinguístico, permita-me, caro leitor, recorrer a algumas ilustrações na
primeira pessoa, à guisa de estudo de caso.
Pirão com conduto
No contexto de poligamia,
partilhamos várias vezes o mesmo tecto com outras mulheres de meu pai.
Culturalmente, as “sepakãi” (rivais) são vistas como “irmãs mais-novas” de
nossa mãe, a primeira esposa (sendo isso mais determinante do que a idade
cronológica para o estatuto de“Ukãi watete” ou “ndona
yukulu”, a principal do patriarca).
Se no princípio
tratávamos por “tias” as outras esposas, uma posterior reprimenda do pai viria
a fazer-nos mudar. (Não existindo designação correspondente a meio-irmão, as
crianças de outros lares seriam nossas primas?) Passamos a trata-las por “mãmã”,
diferente de “mãi”, que se reserva à progenitora. Na verdade, não se tratou
de invenção nossa, pois é “mãmã” qualquer prima ou irmã da
nossa verdadeira mãe, como seria “papai” o nosso, ao passo que usamos papa
[pa:pa] para nos referirmos aos seus primos e irmãos. Curioso é que mesmo que
sejam do primeiro grau, irmã ou prima do nosso pai é “tia”, bastando apenas que
não sejam do mesmo género.
Em 1992, a passar uma
temporada na comuna do Monte-Belo, que dista cerca de cem quilómetros a leste
do Lobito, senti-me intrigado por uma resposta, quando pretendia saber a ementa
do jantar, mais concretamente o que seria acompanhante para o pirão de milho,
que é invariavelmente a base das principais refeições no meio rural. “A
mãmã, tulya la nye?” (Com que vamos comer?) A resposta foi: “Tulya
mwenle lombelela” (literalmente, vamos comer mesmo pirão com
conduto).
Ainda adolescente e com
poucas noções de variações regionais, levei a resposta a mal, vendo nela um
corte rude, que em Umbundu dizemos “oku tesula”. Foi nessa
ocasião que passei a saber que a “tia”, oriunda da Chila, comunidade
fronteiriça entre VaCisanji (Bocoio, província de Benguela) e VaSele (província
do Kwanza-Sul), tinha percepção diferente, como adiante explica SAYANGO,
Avelino:
‘Nas áreas do Huambo, Bié e Kaluquembe, o termo “ombelela” é usado para designar qualquer
tipo de conduto que acompanha o pirão. Assim tanto serve para designar carne de
vaca ou de porco, de ave, como feijão, ervilha, ovos preparados de várias
maneiras, folhas de mandioqueira, de abóbora, cogumelos, etc. Nas mesmas áreas,
o número oito diz-se “ecelãlã” e o número nove “ecea”. Pelo
contrário, nas áreas Hanya, Cisanji e Cilenge, o termo “ombelela” tem
um sentido restrito. Designa a carne servida com pirão. Não se estende aos
legumes ou verduras. Carne que se não come, não se designa por “ombelela”.
Assim pode-se imaginar a decepção dum Cisanji, em casa de bieno, a quem se
anunciou um almoço suculento de “ombelela” ao encontrar na
mesa um prato de pirão com simples folhas de mandioca!’ (Sayango, Avelino,
1997: 8)
Por outro lado, em
Benguela, "sekulu yange" significa meu marido (como tal estritamente
feminino), ao passo que no Huambo é normal um menino dizer "sekulu yange",
pois estará simplesmente a referir-se ao seu avô. Na senda das diferenças,
acrescentemos outra que tem a ver com tabus. O município do Bocoio, dos Va
Cisanji, situa-se no centro, tendo a oeste o Lobito, 70 quilómetros, e a leste
o Balombo, também à mesma distância. Se para os VaMbalombo, a expressão “oku
tutumunlã ketako” significa sacudir a poeira da região das
nádegas, já para os VaCisanji tal seria um profundo disparate, porque
interpretariam como sendo sacudir os órgãos genitais.
As barreiras que ora
abordamos são de natureza semântica, susceptíveis que são de criar
constrangimentos entre falantes do Umbundu. E como bem sustentam Cyranka & Pinto
(2010: 502), “a sociolinguística ensina-nos que, onde há variação linguística, sempre há
avaliação social”.
Obras
Citadas:
KAVAYA, Martinho. (2002). Educação,
Cultura e Cultura do ‘Amém’: Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda /
Benguela / ANGOLA. Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em
Educação da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial à obtenção. Rio
Sul, Brasil: Pelotas.
CYRANKA, Lucia; PINTO, Consuelo. (2010). Aportes Sociolinguísticos à Prática do
Professor – Implicações na Sala de Aula (Vol. XIV). UFJF. Brasil.
MCCLEARY, Leland. (2007). Curso de Licenciatura em
Letras-Libras. São Paulo, Brasil: USP.
SAYANGO, Avelino. (1997). O
Meu Pai (Vol. 1). Luanda, Angola: Barquinho – Livraria Evangélica.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
(Crónica do arquivo): O Zé do 28, o inglês e eu no Porto
Aleija-me profundamente a mentira: a das mulheres, a dos mestres, a dos mecânicos, a dos políticos, a das crianças. Nunca fui, todavia, o primeiro a atirar pedras.
À chegada do interior, tive a felicidade de morar no morro da Quileva. Tem-se vista avantajada do coração da cidade. Cintura verde, a sul, as salinas, no centro, e o mar, a norte. Se desci o morro, foi somente atrás da máquina burocrática para questões escolares. Para lá dos jardins, uma vez na baixa, a cidade sumia, daí o desejo de logo regressar à prateleira. Por exemplo, disputávamos a titularidade de carros que víamos circularem no limite da linha do horizonte.
Em cidades singulares, as portas todas costumam dar em uma só com alma, o porto. Às marés ou aos caudais, faz-se entrada e saída, ao mesmo tempo, o cais. E é este desfile aparentemente desconexo dos navios que adensa na história do meu Lobito o fio.
Com a greve dos professores, foram três meses de tédio, agora no bairro da Santa-Cruz, zona com vista limitada, sem o televisor em casa, que por sua vez somava meses no conserto. Tudo levava a crer que o eletrotécnico não despacharia o trabalho sem a paga, posição quanto a nós injusta, porquanto o dinheiro que lhe faltava a ele faltava-nos a nós também. Estamos em 1995, e a presença, às centenas, de capacetes azuis da ONU e demais agências humanitárias ilustrava bem o quadro de penúria que o país vivia.
Não me ocorrendo a posição do pai, decidimos entre irmãos tirar proveito da ONU. Coube-me a missão de juntar a coragem ao meu arrojado inglês e comercializar, do tipo zunga, as estátuas de madeira lá de casa. Arrecadaríamos 55 USD, o equivalente a dois salários de professor. Em vão. O televisor já tinha sido extraviado.
O contacto com os capacetes azuis era fruto proibido em certos quarteis. Recordo-me de quando o Eliseu viu seu negócio retido no Hotel Términus. Mais conversa, menos conversa, prometeu-se subornar o guarda angolano, penhorando o Bilhete de Identidade. Parvo do guarda, já que ficava sempre mais fácil tratar outra via do documento.
Lá conheci o Zé, mais novo e mais alto do que eu. Até em sua casa, no 28 (Zona Comercial), cheguei a beber água. Impressionava ver-me falar “fluentemente” com os estrangeiros, ganhando uma vez ou outra desde livros, cassetes, a produtos de higiene. Foi o Zé quem decidiu levar-me ao Porto do Lobito, onde esteve naquele dia navio britânico da ONU. Atleta de basquetebol na escola da Casa do Pessoal, o Zé passava pelo portão sete como água pela garganta. Como entraria eu?
O Zé instruiu-me a dizer ao polícia que iria ter com o guindasteiro Frederico Carlos, meu pai. O polícia fitou-me, e autorizou. Ainda melhor, disse para voltar a ter com ele, caso alguém me molestasse. Tinha resultado! Antes de degustarmos as iguarias do navio, observei ao longe o guindasteiro. De facto, tínhamos algumas semelhanças, no tom de pele ligeiramente clara e no semblante aparentemente “mentalista”, enfim.
Hoje, o Zé é um homem feito, fazendo carreira como professor de educação física em colégios. Um dia desses lhe lembro daquela emocionante aventura, todavia reprovável.
Gociante Patissa, Benguela 11 Dezembro 2012















