terça-feira, 17 de maio de 2011

Eduardo Paim "Sou o precursor da kizomba" (Grande Entrevista ao jornal O País, Vladimir Prata 17 de Maio de 2011)





Eduardo Paim é a figura desta grande entrevista. Compositor, cantor e produtor musical, a sua obra, desenvolvida quase toda nos anos 80 e 90, continua a marcar várias gerações. Começou o seu sucesso no grupo SOS, atingindo o estrelato já em Portugal com uma carreira a solo. Diz-se o precursor da kizomba, um dos estilos musicais mais consumidos em Angola. Nesta entrevista o, também conhecido General Kambuengo fala do seu percurso, das “calúnias” de que foi alvo quando acusado de tráfico de droga e do “desrespeito” que o levou a não actuar no “show da saudade” realizado recentemente na Cidadela.

Quando, onde e como é que foi “patenteado” a General Kambuengo?
Esta patente foi o público que me deu. Acho que é uma gratificação de carinho, um manifesto de estima que o público me concedeu, na medida em que ao longo dos anos fui fazendo música, vamos, em abono da verdade.
Claro que na apreciação do público, o carinho, o reconhecimento pela minha pessoa não faltou. Daí que, a determinada altura, alguém que se chama Miguel Neto disse “o Eduardo Paim, na música, é um general. Isso foi num espectáculo da Feira Popular, em 1997. O Miguel Neto terá dito assim: e agora, os vossos aplausos para aquele que eu considero o general da música. E o público ficou a repetir “ge-ne-ral, ge-ne-ral”, enquanto eu entrava para o palco. E resolvi assumir a patente que me foi dada com esse carinho todo. E num outro espectáculo, 15 dias depois, também na Feira Popular, apresentei-me fardado, mostrando claramente que eu assumi a patente e que levaria as causas do exército musical da melhor maneira possível (risos…).


E a expressão Kambuengo, de onde vem?
Kambuengo é o primeiro nome que me foi dado pela minha avó. Quando eu nasci, ela disse “esse é o Kambuengo””. As pessoas que me conhecem desde que vim ao mundo conhecem o Kambuengo. Eduardo Paim é nome de registo, de baptismo, o nome que usava na escola; em casa sempre fui o Kambuengo. E como também sou uma pessoa cujo passado me envolve com a história deste país – os meus pais foram pessoas ligadas à luta clandestina, à revolução – naturalmente, por causa de tudo isso, acabei também adoptando o termo “Kambuengo” como minha alcunha. Sabe que nas guerras dos Maquis – meus pais foram maquisardes – todos tinham uma alcunha. Meu pai, por exemplo, era o Dituba Geral. O camarada Agostinho Neto era o Kilamba. Camarada Lúcio Lara é o Tchiweca. O falecido camarada Rocha era o Dilolwa. Então, eu sou o Kambuengo (risos…). E quando sou patenteado a general da música, assumi ainda mais a minha alcunha.

Já que falou desta relação que os seus pais tiveram com a luta de libertação nacional, gostaria de perceber como é que Eduardo Paim veio a nascer em Brazzaville.

Eu nasço justamente no percurso dos meus pais. Em 1963, os meus pais viram-se forçados a salvar a pele, uma vez que o sistema colonial terá descoberto a implicância deles com a revolução angolana, a ligação deles com o movimento que, não me lembro agora se era o MPLA. Tiveram, então de fugir. Os meus pais fazem parte do famoso grupo de pessoas que sai de Nambuangongo até Kinshasa a pé. Naturalmente, neste percurso, o meu pai e a minha mãe já se conheciam, acho até que já trocavam alguns namoriscos. Uma vez rechaçados de Kinshasa pelo regime de Mobutu, baseiam-se em Brazzaville, onde eu acabo por nascer. É neste percurso dos meus pais que eu acabo nascendo onde, se me fosse dada a possibilidade de trocar, teria trocado, porque não tinha nada que nascer lá, mas pronto, aceito com muita naturalidade a minha naturalidade.
Sou o quinto de sete irmãos. Todos nasceram em Angola, inclusivamente o Nelo, que é o sexto, portanto, depois de mim. Eu fui o único que teve de nascer fora, porque até o Nelo teve a sorte de vir nascer em Luanda (risos…). Mas tenho que desmistificar algo: eu sou o quinto filho da terceira e última relação do meu pai, mas sou o primeiro filho da minha mãe.

Quando é que veio pela primeira vez a Angola?

Vamos por partes: em 1964, dia 13 de Abril, no L´hospital General de Maia-Maia, eu nasci. Lá permaneci até aos nove anos – isso bate 1974. Neste ano, após o 25 de Abril, todos os angolanos refugiados já vislumbravam o regresso à pátria. É assim que venho a Angola. Mas nesta altura eu trazia já um sonho comigo: a partir dos sete anos, comecei a revelar-me e a revelar as pessoas próximas, neste caso, ao meu pai, minha mãe, familiares e amigos da família, que tinha uma certa queda para a música. Enquanto criança já fazia uns malabarismos até com os meus brinquedos que emitiam sonoridades. Aos sete/oito anos, a minha mãe me ofereceu uma viola de brinquedo. Mas com esta viola mesmo na versão brinquedo eu fiz algumas pequenas maravilhas. Aos nove anos venho para Angola. Aos dez anos retorno a Cabinda, por razões de matrícula escolar. Nesta altura, por causa das situações de instabilidade que ocorria em vários pontos do país, todos faziam recurso a Luanda, único sítio com maior estabilidade, e todas essas famílias vindas das províncias, das aldeias, dos kimbos, enfim, congestionaram o processo escolar.
Era uma demanda muito grande para a resposta disponível. E eu fui uma das vítimas disso. Não pude me matricular em Lu8anda porque eram filas enormes. E como tinha um irmão a residir em Cabinda e me dissera que lá havia vaga, então fui para lá estudar a 5ª classe.

Uma vez afastado dos meus pais – eu sempre fui uma pessoa muito ligada à minha mãe – criou uma lacuna que eu preenchi naturalmente com a música. Porque no lar dos estudantes onde eu fiquei, onde também estava o meu irmão, havia um elemento que já era o viola ritmo do então conjunto Bela Negra, que é o Arcanjo. Ele também era um dos alunos no lar. A tardinha ele ficava a ensaiar, a praticar, e eu era o público dele. Cada vez que o Arcanjo estivesse com a guitarra a praticar, eu estava a frente dele, sentado, a observar. Até ao dia que ele me disse “tu olhas tanto porquê? Gostas de música?” e me entrega a viola. E eu, assim ao calho, consegui esboçar dois acordes. De tanto olhar as posições que ele fazia com os dedos no braço da guitarra, consegui este feito. Ele espantou-se: “mas tu tocas?” “Estou-te a ver…”.
Ele próprio entusiasmou-se e então foi me dando alguns toques. Também fui me entusiasmando. Ainda me lembro de uma música que dizia “Eh, avante povo, África em luta pela libertação”; foi por aí que eu comecei. Daí descobri que aquela tendência estava mesmo enraizada em mim. Comecei a praticar mais.

E partir de quando começa a levar a música como profissão? 
Em 1976 volto de Cabinda para Luanda, com a 5ª classe feita, para retomar a minha vida ao pé dos meus pais.
Nesta altura, estou a estudar na escola Nzinga Mbande. Em 1977 já tinha um grupo que era um trio formado na escola que se chamava Os Puros.
éramos mesmo puros, porque era uma música feita só com vontade de fazer, não esperávamos benefícios nenhum.
Até que em Setembro de 1979 morre o camarada Presidente Agostinho Neto. Então, eu resolvi pegar nalguns poemas do camarada Agostinho Neto e musiquei. E fomos prestar uma homenagem em nome dos alunos da escola Nzinga Mbande ao Guia da Nação. A nossa prestação foi bastante aplaudida pelas pessoas, uma vez que éramos todos miúdos de 13, 14, 15 anos de idade, e a empunharmos instrumentos como guitarras, flautas, harmónicas e a cantarmos poemas que têm a ver com a nossa história, naturalmente todos entusiasmaramse e incentivaram-nos a continuar.
Um ano depois transito para a formação profissional, e nessa altura, depois de uma breve passagem pelo Huambo, acabo no Instituto Politécnico Karl Marx “Makarenko”, hoje IMIL. Há um dado curioso: quem tinha posto o painel luminoso em cima com o nome do Instituto foi um grupo de sete pessoas da minha turma, e eu fiz parte deste grupo. Portanto, quem fez os furos lá em cima fui eu (risos…). O painel foi feito por nós que pertencíamos ao curso de Electricidade, portanto tínhamos a missão de fazer a parte da instalação eléctrica. Outro grupo do curso de Mecânica é que fez o molde.
A partir daí, o grupo Os Puros evolui para SOS, com outras tendências, uma diversidade maior nos objectivos. O grupo marca esta viragem, introduzindo instrumentos na agremiação – primeiro eram só violas, flautas, harmónicas, depois já havia bateria, guitarras solo, baixo, órgãos (nem eram sintetizadores). Então a coisa foi andando e nunca mais parou.

Fala-se também de influências familiares na sua formação como artista…

Eu particularmente fui influenciado pelas seguintes pessoas: enquanto miúdo, com idade compreendida entre o zero e os seis anos, a minha mãe trabalha directamente com o camarada António Agostinho Neto, primeiro Presidente desta República, desempenhando as funções de secretária. Ora, esta aproximação da minha mãe ao camarada Agostinho Neto por inerência de trabalho, fez-me também uma pessoa próxima do camarada Neto.
Normalmente, em datas festivas, na altura, para o MPLA, havia sempre um acto comemorativo onde acontecia música, também. E nestes convívios, aos quais tive acesso, eu pude sempre estar ao pé de pessoas como Fernando Assis, a quem eu chamo Fernando, o Maestro, o camarada José Eduardo dos Santos, a doutora Ana Wilson, o camarada Loy, o camarada Eurico Gonçalves, morto no fraccionismo; eles é que tocavam e cantavam nestas actividades. Eu tinha entre sete, oito nove anos de idade. Fui logo contagiado aí.
É do conhecimento de toda gente a ligação do camarada José Eduardo dos Santos com a música. Portanto, logo aí, eu pude ter este acesso. Posteriormente, após o 25 de Abril, meses antes de voltarmos a Angola – quer dizer, os meus pais voltaram, eu ia conhecer – tenho a felicidade de conhecer o nosso saudoso Liceu Vieira Dias. E, numa serenata, no bairro Potô-Potô, na rua Mongo, número 4, casa dos meus falecidos avôs padrinhos, em jeito de comemoração porque os angolanos já vão poder voltar à sua terra, o kota Liceu fez uma serenata, coisa que me marcou a vida toda. Eu pude ver as músicas que só ouvia no rádio cantada e tocada pelo próprio. Naquele dia, cheguei a conclusão que eu também seria músico, que eu queria também ser como aquele mais velho que eu estava a ver naquela serenata, numa sala em que estavam pessoas que, na altura, eu não entendia porquê, choravam ao ouvir o kota Liceu Vieira Dias a cantar “xiami, xiami, xiami”. E eu chorava também por indução, ao ver os meus pais, os meus padrinhos, até o próprio Liceu a chorar.
Como o momento foi extremamente marcante, aquele dedilhar, aquela voz aparentemente roca mais muito segura, aquela figura firme a cantar e que algumas vezes deixou cair algumas lágrimas, mas que não parou nunca de cantar, não vacilou nunca, lembro-me perfeitamente de, no final de cada música, toda gente a bater palmas, a vibrar, ele só limpava os olhos, mas sempre sereno. Então, uns meses depois, começou o processo de evacuação das pessoas que estavam em Brazzaville para Angola. Eu faço este trajecto com os meus e com muitos camaradas, na altura, de carro.
Saímos de Brazzaville para Dolizze de comboio, de Dolizze para Cabinda de carro, e de Cabinda para Luanda de avião. Ainda me lembro que a companhia que nos trouxe era a DETA. Foi umj processo bonito, um bocado marcante, já que é complicado estar numa situação de refugiados, a viver num acampamento várias famílias, entre militares, comida, tudo racionalizado, tudo a horas, toca o sino, todos ter que ir a fila buscar a comida, tudo agrupado, enfim, um processo que no fundo até dava num bom filme, mas prefiro apenas ressalvar a parte melhor, o que eu pude aprender e conservar ao longo da minha vida.
Ter tido a oportunidade de conhecer o camarada Agostinho Neto, a kota Maria Eugénia Neto, os filhos deles, lidar com eles, com os camaradas, conhecer o próprio camarada José Eduardo dos Santos e ter a felicidade de fazer parte desta história de alguma forma, tudo isso depois transportei para a música.

Quer dizer que o facto de ter um parente que se notabilizou como músico, que é o Prado Paim, em nada influenciou na sua carreira?
Ia já chegar aí. Confesso que nessa altura que venho a Angola ainda não conhecia o meu parente. E quando chego, há uma música que estava no auge, a fazer sucesso, que é “Bartolomeu”. Autor e intérprete da música: Prado Paim. Eu sou Eduardo Paim, logo, questionei aos meus pais: este é nosso familiar? É. E passado alguns dias tive a sorte de o conhecer. Então acho que a partir daí tinha todos os condimentos necessários para iniciar o meu trajecto. Já trazia algumas e vivas referências. O restante era aquilo que eu ouvia de Urbano de Castro, David Zé, Elias Dya Kimuezu e todos os artistas que naquele momento também emergiram, aliando ao facto de que tinha uma referência extremamente honrosa na família, primeiro Disco de Ouro ainda sob o jugo colonial – acho que na altura eram só duas referências: Teta Lando e Prado Paim – acho que tinha tudo para naturalmente reunir entusiasmo para continuar.
Qual foi a fase mais marcante da sua carreira? Eu sou uma pessoa extremamente movida por sentimentos. Sentimentalmente falando, o que às vezes, nos distancia do aspecto prático da vida, uma das coisas mais marcantes da minha carreira foi ter convencido os meus pais que não queriam que fosse músico. Outra coisa foi ter convencido o meio que me rodeava que poderiam contar com alguma coisa da minha parte como contributo para a música angolana. Nesta fase eu cooperava com a Rádio Nacional e com a TPA e respondia algumas demandas da grelha de emissão como, por exemplo, fazer jingles, pontos musicais; acabei, desta forma, fazendo uma das coisas que me orgulha muito sempre que são treze horas na Rádio Nacional, que é aquela pré-sintonia que, acredito, até hoje, muitos não sabem que é produção do Eduardo Paim, e inclusivamente é executado por mim. Ter feito nomes como Paulo Flores, Jacinto Tchipa, Diabick, Mamborró, ter sido fundador de um grupo como os SOS, ter ido para Portugal e conseguir virar as atenções para a nova dinâmica da música angolana, mesmo sendo alvo de muitas críticas e muitas delas injustas, gratuitas e levianas, olhar para atrás hoje e ver uma legião de seguidores, mesmo admitindo – e assim é que está certo – que as tendências possam variar, isso é mesmo assim: a gente aprende A e B, mas juntado A e B, multiplicando, dividindo, subtraindo, fazendo o que a gente quiser, criamos um C. tudo isso fazem momentos importantes da minha vida. Se formos a apresentar cronologicamente, então consegues ver. A medida que o tempo vai passando, ganhar algumas distinções, primeiro a nível interno, depois a confirmação lá fora, chegar aos tops de um país europeu – tudo bem que eu não ganhei, mas fiquei em quarto lugar – ter o prazer de um dia receber um Disco de Ouro,tudo isso são coisas marcantes. Mas o mais marcante no meio disso tudo é naturalmente o carinho deste povo do qual eu faço parte, a admiração que muitas pessoas nutrem por mim.
‘DAQUI SÓ ME TIRAM SE FOR À FORÇA’



Quando é que sente o sucesso na sua carreira?
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Eu sinto o sucesso pela primeira vez quando fiz uma música chamada “Carnaval”, com os SOS. Sinto o sucesso pela segunda vez quando produzo as cinco primeiras músicas públicas da vida pública do nome Jacinto Tchipa. E daí para frente, são já repetições. Sinto o sucesso, de uma forma diferente, pela terceira vez, quando sou contemplado em Portugal com um dos mais coutados músicos africanos do momento. Tive a sorte de conhecer pessoas interessantíssimas, um deles, uma referência de que nunca abdicarei, porque foi um momento muito bonito das nossas vidas, quer a minha, quer a dele, e a de muitos que nos seguiram, quando conheci um miúdo chamado Paulo Flores que veio de Portugal de propósito para trabalhar comigo, eu que me sentia cacimbado, desmotivado em Angola, afinal os meus acordes, os meus arranjos, a minha versatilidade, estava a convencer conterrâneos meus além fronteiras. Poder ir a países em que a minha música chegou primeiro, poder conhecer quase todos os países da lusofonia e lá ser recebido com algumas honras, tudo isso são motivos para me sentir bem; foram momentos de sucesso.



O que o levou a escrever e a compôr a música “Foi aqui”? Teve necessidade de justificar a sua identidade?
Essa música foi escrita aqui mesmo nesta casa, num telhado; numa tarde em que me senti inspirado, peguei na guitarra e subi naquela chapa que vês aí. Era o único sítio onde ninguém me via, a mãe não ia me chamar para fazer os deveres. Aí eu estava totalmente isolado, com a guitarra. Saíram quatro acordes, uma melodia, e na sequência fui narrando o que eu estava a sentir. Estar aqui, naquela altura, quando isso não tinha muitas casas, era quase deserto, sentia-me um rei: isso é o nosso espaço; daqui ninguém me tira, e se o fizer vai ter de ser à força. Eu tenho o meu espaço, eu sou angolano, essa é a minha terra, tenho que cuidar bem dela, tenho que enaltecê-la. É assim que sai essa música. Queria mostrar aos que me pudessem ouvir que eu tenho um espaço, nós temos este espaço, é a nossa terra, é aqui que nascemos, caminhamos, caímos, levantamos e esse é o nosso lugar, onde nós temos que resolver tudo que seja necessário resolver. E valeu-me muito essa música lá fora. Quando eu cantava essa música que muitas pessoas chamam de “Aiué Ngola” as pessoas adoravam. Cantei esta música em Sevilha, na Expo 92, e os espanhóis entenderam a música perfeitamente, aplaudiram-na e pediram para bisar.
Acho que qualquer pessoa que ama a sua pátria, ao perceber aquilo que se está a narrar, acaba por gostar da música.


Aceita que lhe atribuam o título de precursor da kizomba?

Não aceito. Eu sou. Eu sou. Não sou sozinho, porque no narrar desta história, acabam acontecendo algumas lacunas. Isso é um processo que começa mais ou menos em 1981, com grupos cujos nomes são Afro Sond Star e logo a seguir SOS. Esse movimento que nós acabamos de criar e que começa com os Afro Sond Star – eu mesmo inspirei-me neste grupo que já assumia como estilo de referência o kilapanda, mas na mistura apareciam coisas que a mim entusiasmaram, e junto um bocado as últimas referências que eu pude agarrar do semba, do nosso merengue e com aquele vínculo que acabamos por fazer com a América Latina, estas referências acabaram por me dar condições de, sem querer, desenvolver uma sonoridade que, convenhamos, caiu no goto das pessoas. E assim a música angolana volta a fazer parte do convívio dos angolanos. Não é mentira que nesta altura, numa festa familiar, desde que começasse até que terminasse, não tocava uma música angolana. As músicas de intervenção política acabam dissipando a música livre. Obviamente ficamos vulneráveis à música brasileira, cabo-verdiana, do Congo Democrático, do Congo, da região central de África, enfim. Isso criou uma lacuna muito grande, e tenho muito orgulho de, sem querer, ter feito algo que voltasse a despertar os angolanos à necessidade de voltar a consumir o que é seu. Nesta altura tive que considerar que eu tinha um grupo e que queria ouvir as músicas do meu grupo a tocar nas festas. A única forma que encontrei foi admitir algumas influências. Daí que a minha primeira música foi extremamente criticada, e até lhe chamaram zouk. Não é zouk. É kizomba.
‘QUEM DEU O NOME DE KIZOMBA FOI O BIBI’
Qual foi a primeira música no estilo kizomba?
Foi “Carnaval”. Músicas, com o “Kutonoca”, entre outras, não queriam aceitar, mas, epa… sou jovem, estou a ouvir… hoje quem vive sem a internet? Também não fomos nós que inventamos! Hoje quem vive sem esse meios? Então, vamos é optimiza-los, aproximar isso à nossa realidade. E damos sequência à nossa tradição ao que quiserem chamar.

Quem deu o nome de kizomba a este estilo?
Quem dá o nome de kizomba é o antigo percussionista dos SOS, o famoso Bibi que eu canto na música “Ilha maravilha” quando digo “dá-lhe Bibi, o rei da passada”. O Bibi é que intitulou aquele tipo de música que nós fazíamos como kizomba. Este era o objectivo: entreter as pessoas, dar motivos as pessoas para extravasarem.



O crítico de artes Jomo Fortunato afirma que a kizomba é uma imitação mal feita do zouk…
Porquêe é que ele acha que é uma imitação mal feita? Quem é que lhe disse que era imitação? Vamos partir do princípio que este direito ninguém o tem. Portanto, há que fazer as afirmações tendo em conta os resultados negativos que podem causar. Criticar é fácil, mas difícil é executar. E nós executamos; a prova está aí. Agora, as similaridades rítmicas são óbvias.
Jomo Fortunato, enquanto compositor, enquanto criador, também lembra Djavan, se calhar mal feito. Ou não?
Então acho que não lhe compete o direito de julgar os outros. Há que compreender primeiro. A kizomba não é nada imitação mal feita do zouk. É um sentimento traduzido por acordes, por uma temática e por harmonias que podem até estar próximo daquilo que chamam de zouk, mas ao mesmo tempo temos que ter em conta que há todo um percurso que faz história no meio disso tudo.



Porque é que se deu o fim dos SOS?
Quando tinha cerca de 24 anos, eu, com muitas aspirações, muitos sonhos e com perspectivas de nunca iria conseguir tornar realidade a maior parte deles, acabo tendo a possibilidade de conhecer Portugal. O que me levou a Portugal, em princípio, foi só o sonho de adquirir um sintetizador, consequentemente, por causa de um trabalho do Paulo Flores que eu ia para lá para finalizar. Chegar a Portugal para terminar aquele trabalho e ter cativado a atenção das pessoas que gostaram daquela dinâmica nova de se fazer música em Angola fez-me pensar que devia me fixar lá. Regresso a Luanda, mas confesso que com um pé lá. Aqui não se podia ir a loja comprar um encordoamento para uma guitarra; tudo tinha de vir de fora.
A determinada altura tive de tomar a decisão que penalizou o meu grupo.
Não houve problemas entre nós. A minha decisão pessoal condicionou o prosseguimento dos SOS.
Quem, na altura, fazia parte do grupo SOS? Didi, percussionista e chefe do grupo; Eduardo Paim, teclista, vocalista, director musical e compositor; Diógenes (Dinho), viola baixo; Ferreira de Andrade, viola ritmo e solo, anteriormente. Simon Massini vem substituir Ferreira de Andrade que devido ao seu trabalho – ele é actualmente o director nacional dos Serviços Prisionais, já tinha vínculo com o Ministério, por isso teve que pôr a música de parte; Toy Batera, baterista. Esses foram os principais, sem esquecer o Cassé que inicialmente fez parte da agremiação mas depois saiu. Não vou falar mais do Bruno Lara porque estaria a falar dos Puros. o falecido Levi, companheiro de nascença, praticamente – o Levi foi um dos fundaodres de tudo isso, ao meu lado e ao lado do Bruno Lara.
Na fase SOS também há que falar do Diabick. Era um grupo versátil, multifacetado, daí que as nossas participações em espectáculos eram muito abrangentes, porque conseguíamos completar o público. Fazíamos desde um estilo aos outros, tudo produção nacional. Diabick tinha uma queda para o romantismo e o reggae, e fazia muito bem isso. Eu desenvolvia muito bem a trova, kizomba, kazukuta, kabetula. O Bibi se situava num estilo mais ligeiro. Tudo produção nossa.
Fazíamos muita coisa boa, mas tudo acaba ficando condicionado com a minha retirada. Era aqui neste edifício que os SOS ensaiavam. Eu e o Bibi fomos sempre o factor de ligação para todos. A partir do momento que vou para Lisboa deixou de haver aquela correlação de forças que juntava toda gente. Houve tentativa de sequência noutras paragens, mas o contexto era outro já. Há toda uma viragem até na política do país. Os objectivos passaram a ser outros. Naquele tempo nós tínhamos valor, e defendíamos estes valores. Hoje tudo ganhou preço, e andamos todos a tentar encarecer o máximo possível, ainda que de forma absurda, os nossos preços. Naquele tempo trabalhávamos, mas não sabíamos o que tantos mil dólares. O benefício era ver toda gente a rir, contente.
Se me derem um saco de arroz, batata, uma grades de gasosa para alegrar a família em casa já era o suficiente. Depois de todas essas viragens, as coisas tornaram-se difíceis. Basta ver que grupos como os Merengues desapareceram, grupos como o Fenomenal, Congo Flash e outros tantos desapareceram. Os próprios Kiezos e os Jovens dos Prenda passaram a enfrentar dificuldades sérias e várias vezes tiveram que pôr as mãos no chão, porque os pés já não eram suficientes. Isso tudo condiciona a sequenciados SOS. Estou falar de 1989.



Entretanto, em Portugal deu-se bem. Como é que foi possível?
Vou para Portugal na fase da segunda maior emigração de angolanos para aquele país. A primeira deu-se a em 1974, com aquela fuga desvairada, abandona tudo e salva a pele. Depois surge aquela fase em que as pessoas têm necessidade de realizar os seus sonhos e chegar a conclusão de que no país não era possível. Eu sou um deles.
Naquele altura, o que eu precisava já não estava aqui, estava lá fora. Não conseguia trazer o fora para aqui; eramais fácil eu ir lá. E como eu muitos também foram. Estes fizeram o nome do Eduardo Paim lá fora. Porque todos aqueles que se queriam rever com Angola tinham-no no Eduardo Paim que também emigrou. Onde o Eduardo Paim estivesse havia uma afluência de público muito grande. E os portugueses tiveram que se render a isso. Não esquecendo que muitos portugueses têm ligação com Angola. Ter acesso a Angola a partir da música de um Paim, de um Paulo Flores, ou até de um Tropical Band, referências novas, actualizadas, terá trazido até nós a notoriedade que felizmente temos até hoje. É assim que consigo firmar-me lá. Não foi só o facto de chegar aí com uma música diferente.



Como é que consegue dar a volta ao facto de não ter o apoio da sua banda em Lisboa?
O angolano desenrasca-se. Sempre fui uma pessoa desenrascada, desde a nascença. Não nasci em berço de ouro.
Nasci num contexto específico, e sei um bocado dos dois lados por experiência própria, por vivência, não é de ouvir contar. Sei o que é fome, e também sei o que é fartura. Todas essas situações acabam por nos dar como recompensa o “savoire faire”, ou seja, o saber fazer. É com a dificuldade que aguçamos o nosso engenho. Temos necessidade de fugir a dificuldade, então temos que ser inteligentes, pensar, encontrar as fórmulas. Por outro lado, aprendi a tocar vários instrumentos, o que me terá valido muito em Portugal. Porque se não teria que ter um conjunto, um grupo, uma banda. Mas sabia tocar os instrumentos e executálos a media das minhas músicas. Daí que pude granjear um bocadinho de mais admiração, tudo isso jogou a meu favor.
Fui até visto como um génio, só porque dou um toque no teclado, no baixo, na guitarra, na bateria, nos batuques, na flauta, fazendo uma música que agradou a todos. Isso deu-me um bocadinho mais de visibilidade. A música foi bem aceite. Aí já pude formar uma banda com maior facilidade, porque eu já era o Eduardo Paim, e já podia escolher quem iria tocar na minha banda. Tive necessidade de defender o meu produto, aquilo que as pessoas ouviam nas rádios e viam em televisão. Nas aparições em público tinha de executar aquilo que as pessoas ouviam. Nada de Play-back. Nunca fui apologista. Para televisão sim, mas para o público não. Já tinha capacidade de resposta. Os meus discos vendiam bem; ganhei disco de ouro, prata, platina. A minha atitude já era outra. Já tinha palavra de peso naquele meio. Mas os primeiros passos foram dados com a experiência adquirida na CT 1, na Rádio Nacional de Angola, e nos programas de televisão da TPA.
Todas essas pequenas experiências me deram também um lugar ao sol em terras lusas, e daí pude chegar noutros países com muita facilidade.



Porque então que regressa a Angola?
Para evitar que muitos passassem pelo percurso difícil que eu tive de passar. Hoje é fácil gravar em Portugal.
Basta receber um patrocino de uma estrutura, ou até de um familiar abastado. Naquele tempo não era bem assim, e todos sabem; não havia estruturas a patrocinar artistas. Volto para Angola porque vi que tinha condições de montar um estúdio cá. Nunca respirei, nem por um segundo, a hipótese de viver definitivamente em Portugal.
Fui a busca de algo. E quando vi frente a frente daquilo que fui buscar, trouxe.
E assim nasce o E.P Estúdio. Tive sempre a noção que o país não vai se desenvolver levando ele lá para fora.
É mais fácil trazer a tecnologia de fora aqui para dentro, e desenvolver o país.
Orgulho-me de ter sido o primeiro a despertar sensibilidades nesse sentido.
E como é que se deram aqueles rumores que davam conta que Eduardo Paim estivesse envolvido em drogas? Disseste bem, foram rumores. Eu já reagi muito mal com esta parte da minha vida. Sou uma pessoa cuja educação se baseia em princípios cristãos.
Não tenho educação para práticas que a vida condena. Isto é um livro aberto, quem quiser pode ir pesquisar onde quiser. Não tenho ligações com bandidagem, com nada disso. Isso foi uma injustiça, acusar um inocente.
Prova disso é que eu vou para Europa ou qualquer parte do mundo e não sou acompanhado por nenhum guardacosta, sempre andei sozinho, com a minha família e nunca me aconteceu nada. Não tenho contas com a justiça portuguesa, nem com a justiça angolana, não tenho conta com a justiça de lado nenhum. Sou uma pessoa de bem; sempre fui. Esta foi a educação que me deram. E á determinada altura, lamentavelmente, esta calúnia terá afectado de certa forma a minha vida, mas dei a volta a isso.



Mas de onde e porquê surgiram estes rumores?
Quando se é alvo público estamos a mercê de qualquer coisa. Eu tive, felizmente, uma desenvoltura em Portugal invejável e rápida. Ao fim de oito meses em Portugal eu já estava com condições de vida minimamente aceitáveis. Soube rentabilizar as facilidades que a vida me deu. Mas isso, por outro lado, terá atiçado, entusiasmado sensibilidades menos dignas. O balanço que eu trazia não podia ser parado de outra forma, só com casca de banana. E orgulho-me de poder dizer isso. Todos viram. Naturalmente, há a necessidade de criar um freio: vamos diminuir a aceleração deste camarada; umas tantas cascas de banana para que eu tropeçasse. Tinha uma agenda de trabalho invejável. Eu dava-me ao luxo de dizer ao meu agente “este mês não aceita nada, não posso estar a correr assim, sem tempo para estar com os meus filhos, sem vida própria”. A determinada altura vi-me forçado a ir perguntar ao agente “como é, não há nada, não há solicitações?”. Isso porque uma notícia destas, à volta de um nome a bombear naquele momento, teve o seu eco. Foi um bocado mau.
Mas felizmente consegui, unicamente com a verdade. Nunca fui preso, não tenho contas com ninguém.



Mas sente que isso afectou negativamente a sua carreira?
Seria irresponsabilidade dizer que não.



Foi esse o motivo principal que o levou a afastar-se dos palcos?
Não foi o motivo principal, mas foi o início. A determinada altura cheguei a ver-me com a imagem coçada. A estratégia foi não forçar, não impor a minha imagem, porque na altura alguns se sentiram magoados, mas até que provassem que não era verdade, já algum estrago estava visível. Hoje acontece o inverso. Sempre soube que as pessoas sabem que isso não é verdade, a gente às vezes tem que fazer manobras para esquivar aquilo que sempre soube que não verdade. E temos que convir que as más notícias sempre andaram mais depressa que as boas.



Foi a partir dessa altura que se volta para a produção…
Exactamente. Era parte menos lesada, apesar de ser a parte mais exigente.
É uma demanda grande, uma rotação acelerada. Isso foi-me absorvendo, a ponto de eu começar a esquecer-se de mim próprio, coisa que a partir de agora estou a contrariar. Lentamente vou impondo a minha presença.



Muitos nomes da música angolana passaram pelas mãos de Eduardo Paim…
Quase todos. Hoje até uns já andam pelos próprios pés. São quase todos.
Não adianta citar nomes para não haver um aproveitamento indevido. Mas eles sabem, o público também sabe.



E qual é, neste momento, a situação do estúdio A.P?
Está em fase de reestruturação. A tecnologia não para de surpreender, e temos que estar à altura dela. Neste momento há um estudo que está a se terminado no sentido de fazer uma actualização do sistema. Precisa-se fazer alguns ajustes na parte acústica, o que não é barato.



Hoje nota-se que muitos produtores recorrem à programação das músicas, em detrimento da instrumentalização. Isso, na sua opinião, é uma vantagem ou não?
As pessoas moldam-se à altura das suas possibilidades. É óbvio que o recurso aos meios informatizados acaba por limitar nalgum quadrante.
Produção musical é algo muito sério e oneroso. Por exemplo, gravar uma música com instrumentos convencionais em tempo real implica uma cabeça por instrumento. Isso implica ter orçamento. Esta é a razão que faz as pessoas recorrerem aos sintetizados. O que uns fazem com 18 pessoas, outros fazem com um computador, com a vantagem de muitas vezes a tecnologia avança de tal forma que os resultados quase se aproximam. Mas isso acaba por penalizar o resultado final. Um dia as pessoas não vão saber mais o que um violino; o teclado faz! Há muitas produtoras a promover aquilo que não tem qualidade, mas tem consumo.
Logo, se tem consumo, justifica o investimento. Hoje fazer comércio é isso: não interessa se tem qualidade, interessa é que venda. E se vendeu, faça mais. Mas em função disso começamos a perder determinadas referências. Já reparou que não há sambas sintetizados, ou rock sintetizado? Isso é algo que temos de cultivar em nós: incentivar o uso de instrumentos convencionais. E isso implica ter que haver mais escolas no país, mais pontos de escoamento. Repare que até bares com música ao vivo urge neste país! É tão bonito ir aqui, a Cabo Verde, onde entras numa taberna para comer uma cachupa e está lá um quarteto a tocar uma morna, a galvanizar as pessoas. Isso é que é a natureza. Se a gente perde esta referência, então vamos fazer música no computador que cria determinadas emoções, mas aquelas emoções exaltadas, mais aceleradas. 


Mundo

‘Apenas sou baixinho de altura’
Descrição: http://www.opais.net/resources/images/2009pais/edicao_131/pais%20131_lr_91.jpg
As kizombas de hoje são diferentes das que se faziam no princípio?
Obviamente. As nossas ainda eram feitas na mistura do real ao sintetizado.
Hoje é pura e simplesmente tudo sintetizado. Embora faça uma vénia aos jovens como o Yuri, o Puto Português que já começam a manifestar um cuidado no recurso ao convencional.
Este manifesto tem que ser multiplicado para que possamos ter uma música que nos dignifique e possa ser apresentada em qualquer parte do mundo.



Será que este recurso ao sintetizado tem a ver com a busca de qualidade ou se deve a dificuldades de se constituir uma banda?
A partir de 1992, este problema tornou-se o mais grave, porque antigamente não tinhas hipótese de fazer Play-back. Nem sabíamos o que era isso! Ou você ensaia com os Merengues, ou com os Kiezos, ou com os Jovens do Prenda, mas tinhas que cantar ao vivo. A partir da mudança, começamos a adoptar outros hábitos.
O artista não precisa de trazer banda; traz só um CD, põe a tocar e ele faz a mímica. Mas o cuidado que já se vem mostrando no presente para que haja maior recurso à natureza das coisas, se evoluir, vai nos levar ao ponto que devemos chegar. A necessidade sempre há-de estar lá. Eu aceito esta necessidade num principiante, que não tem recursos. Mas quando se ganha um determinado lugar, quando se atinge um determinado patamar, então somos obrigados a ser exemplos. Nunca vou sair da minha casa para ir ver o Yuri da Cunha ou o Matias Damásio, ou o Conde, ou o Puto Português em play-back. Considero um insulto.
Aceitei isso no início deles; não tinham recurso. Agora têm a obrigação de dar exemplo aos vindouros. Daí que é raro verem-me em play-back. Se for para um programa de televisão, por razões de produção, posso fazer, mas já a refilar.



Porque é que o Eduardo Paim não actuou no “show da saudade” realizado recentemente na Cidadela?
A verdade é que em Angola é normal valorizar-se o que é de fora em detrimento daquilo que é de dentro.
E isso, uma vez mais, aconteceu na Cidadela no dia 23 de Abril. Porque um músico que até se encontrava em Portugal, a trabalhar nos seus projectos, a finalizar o projecto chamado “Etu mu dietu” que é o meu próximo disco de músicas inéditas, a terminar um outro projecto que se chama “Eduardo Paim: 30 anos – The Best Of” e que interrompe esta actividade para vir brindar aqueles que o fazem aquilo que ele é num projecto chamado “show da saudade”, e posto no terreno não actua porque temos convidados que valem mais do que nós, santa paciência!
Afinal de contas eu também sempre fui fã do grupo em causa, mas não posso permitir essa falta de respeito.
Porque eu apenas sou baixinho de altura. Mas como ser humano mereço ser respeitado, principalmente encabeçando um grupo de treze pessoas.
Porquê que os Kassav não podiam fechar o espectáculo conforme estava planificado? Porque são três ou quatro da manhã, está tarde, o Paim é que vai fechar, as seis da manhã, com toda gente cansada? Não fui eu que fiz o plano; não fui eu quem fez aquele guião. E depois assim quase que sem consideração, dizerem “ele que espere”. Desculpem-me lá! Permaneci no local até ao último acorde do grupo em causa, e depois retirei-me, para que ficasse claro que as seis menos tal eu não tinha mais condição de subir ao palco, porque estava triste, estava frustrado, revoltado. Nem eu, nem aquele público que resistiu a chuva, a falta de higiene do espaço em causa para no fim serem expostos a isso. E vêm os outros com as melhores condições, regalias. Eu é que pergunto: isso está certo? Acho que os angolanos não merecem isso. Prefiro interpretar isso como uma falha de experiência miúda. Uma coisa posso lhe dizer: isso se acontecesse em Cabo Verde, os Kassav não entrariam em palco. Já vi isso lá, com o mesmo grupo.



Mas houve um contrato…
Sim, houve. E a organização cumpriu com tudo. A única falha foi eu não ter actuado, mas não por culpa minha, porque eu estava lá, e o público viu-me lá.



E para quando o lançamento destes novos trabalhos que está a preparar?
Estou com algum receio de avançar datas, mas posso garantir que é nos próximos sessenta dias. Um deles sairá primeiro que o outro, mas ambos estão em fase final. Todo este processo atrasa apenas porque eu estava a preparar um espectáculo à altura das pessoas que gentilmente conservaram o Eduardo Paim mesmo estando ausente.
Dai eu ter decidido trazer um grupo de Portugal devidamente preparado.
Estava a altura de qualquer grupo que actuou, mesmo os Kassav. Não tenho medo de ninguém, nem deles, embora eu tenha me inspirado muito neles.
Mas atenção: todos nós crescemos.
Tenho consideração e muito respeito por eles; medo não. Estamos em Angola, este é o meu povo, o povo que me conhece, que sabe porquê que me bate palmas e me considera. Não tenho que temer ninguém. E naquele dia, na Cidadela, eu teria sim senhor – digo isso alto e em bom som – teria feito um espectáculo à altura do meu povo. Estava tudo preparado. Ensaiei um mês inteiro, seis horas por dia. Não tive a sorte de mostrar o meu trabalho as pessoas. Mas vou lutar para que, ainda este ano, muito brevemente, eu faça acontecer um grande show Eduardo Paim. Ou então não terá valido a pena todos estes anos.



Sente-se reconhecido pelo seu trabalho?
Para ser franco, tal como eu gostaria, é algo que vou deixar entre aspas, porque o ser humano nunca está satisfeito com o que tem. Mas tenho que dizer que desde que aderi as redes sociais tenho noção do quão mimado, quão considerado sou.
Estes meios conseguem nos dar uma panorâmica mais extensa. Sou daqueles artistas que nos últimos anos pouco ou nada aparece em público, mas apareci nas redes sociais e tenho uma noção mais nítida do carinho, da consideração que as músicas que fiz há mais de 20 anos criam até hoje.
O Eduardo Paim só é vivo por causa disso, não por causa de uma música do ano passado, ou antepassado ou há cinco anos. O Paim só é vivo por aquilo que fez num raio de quinze anos para trás.

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2 Deixe o seu comentário:

Manuel Luis disse...

Um abraço...Mais um abraço...Outro abraço pelo trabalho.

Angola Debates e Ideias- G. Patissa disse...

Obrigado, caro Manuel Luis. é de facto um trabalho interessante este o do Jornal o País. retribuimos o abraço com a vontade de vê-lo mais vezes por cá.

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