quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Crónica | BESTIÁRIO DO INTELECTUAL ANGOLANO (*)

Com um drone à procura de água e campos para cultivar, no nosso país está, hoje, o intelectual desencantado: testemunhou o fim da utopia, assistiu ao florescimento da corrupção, aderiu ao silêncio cúmplice e viu o desgaste da moral na sociedade angolana.

O balanço dos últimos sessenta anos, em Angola, é estarrecedor: o intelectual passou de ser revolucionário a ser irrelevante, de guia a indíviduo acanhado, de laico e marxista a religioso e obscurantista, de útil a parasita, de clarividente a manipulador, de orgânico a contestatário, de vital a inerte, de patriota a diaspórico e com dupla nacionalidade. Para não sucumbir, decidiu adorar a ciência para garantir o seu sustento.


Doze animais, - o camaleão, o rato, o pirilampo, o caracol, a lebre, o avestruz, o cão, o pássaro, o cágado, o papagaio, o porco e, porventura, o homem - são, pois, parte do bestiário que me ajuda a explicar o papel que os intelectuais foram e vêm desempenhando, na história de Angola. Alguns nem intelectuais são, porque não se dedicam às coisas do espírito e à reflexão séria, mas, se projectam como tal.


Em finais do século XIX houve, em Angola, um intelectual humanista preocupado com o cidadão consciente, autóctone, livre pensador e activista político nativista à altura das suas circunstâncias. Depois vieram o intelectual-camaleão, próprio do tempo colonial, e o intelectual-rato de biblioteca, que juntar-se-iam aos movimentos de libertação nacional, transformados em pirilampos. Ambíguos, versatéis e estudiosos, os intelectuais do fim do período colonial desejavam uma coisa e, em parte, o seu contrário, queriam a independência nacional, mas trabalhavam para as instituições coloniais, identificamse com os autóctones, mas eram colonos.


Os que conseguiram unir-se aos movimentos de libertação nacional estabeleceram uma ruptura decisiva, na luta anti-colonial: são os intelectuais-pirilampo. Ex-estudantes do liceu e ou da universidade, a maioria frequentou a Casa dos Estudantes do Império, outros andavam na rede da clandestinidade urbana, em Luanda, e não nos podemos esquecer dos que sairam dos seminários e das igrejas, todos converteram-se em guerrilheiros, à volta deles criou-se uma aura.


À margem do intelectual-pirilampo esteve, também, o intelectual-caracol: enrolado sobre si mesmo, casmurro por convicção e maniqueísta por educação.


Depois da Independência, apareceram o intelectual-lebre e o intelectual-avestruz: são os intelectuais orgânicos, militantes de partidos políticos. Quando eram mais adiantados que as massas actuavam como as lebres e depois, quando as teias de aranha os impediam de ver com olhos críticos os processos sociais, viraram avestruzes. Os totalitarismos de esquerda para eles não existiam. Eles assumiram ideologias de esquerda ou de direita, acomodaram-se, passaram a entender a política como um modo de vida.


Quando o muro de Berlim caiu, o intelectual angolano que viveu dos anos sessenta e chegaria até princípios dos anos noventa do século XX, que antes fora rato, pirilampo, lebre e avestruz, virou intelectual-cão: de cultura enciclopédica, sabia latim, falava alguma língua nacional e várias línguas europeias. Mas, nós vimo-lo a andar a pé na cidade, com os calçados empoeirados e com ponta deformada. Isso foi o que aconteceu com os que não enveredaram pela política: terminaram abandalhados pelo sistema.


A guerra continuou pouco mais de uma década e recomeçou, então, a vaga de exilados, que fez o surgimento do intelectualpássaro: faz parte da diáspora, desenvolve os seus trabalhos fora, nos circuitos comerciais e académicos ou entra e sai de Angola, a seu bel prazer. Parcial ou totalmente desconhecidos, ostracizados por aqueles que deviam promovê-los, muitos são lidos por todos, de outros não sabemos o que publicam. Neles reside parte da esperança no amanhã.


Nos últimos quinze anos, um grupo muito reduzido de intelectuais “enriqueceu” material e espiritualmente, “camuflado” em qualquer outro ofício: trabalham por vocação absoluta e são o germe do “intelectual humanista”, que ressurgirá ao lado do cidadão consciente. Mas, o que escandaliza é a aparição de três outros tipos de intelectuais: o intelectual-papagaio, que passa a vida a repetir lugares comuns, o intelectual-porco, que se chafurda em todas águas e pensa que sabe tudo, e o intelectual-cágado, que é um mandrião e finório. Estes intelectuais não têm feito quanto deviam para, com conhecimento, inteligência e imaginação, catalizar as transformações sociais, políticas, económicas e culturais de que a sociedade precisa.


Sem perder a esperança num amanhã diferente, o intelectual outrora desencantado está, hoje, a sobrevoar com o drone as zonas virgens e as mais belas paisagens deste país: ele está convencido que, com a força da juventude e dos que continuam a trabalhar com rigor, podemos construir um país melhor.


(*) Adriano Mixinge - Historiador, Escritor e Crítico de Arte | Jornal de Angola 24 Abril 2018

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domingo, 17 de agosto de 2025

Jornal Expansão deste fim-de-semana traz grande entrevista com escritor angolano e linguista Gociante Patissa


O Jornal Expansão deste fim-de-semana traz uma grande entrevista (grande no sentido de género jornalístico) com o escritor angolano e linguista Gociante Patissa, cujo rosto não me soa estranho, pode ser que já tenha ouvido falar do predicado, aliás sujeito, eh pá, é só já ler🤣🤣🇦🇴

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sábado, 9 de agosto de 2025

Diário | EM TERMOS CLAROS, OU NÃO?

Locutor: "Estamos a falar e a repetir 'backdrop. Backdrop'. É preciso simplificar para que o ouvinte perceba em termos claros, ou não?..."

Especialista: "Mas isso tem tradução. Backdrop... "

Locutor: "Está bem. Mas em comunicação social, temos de ser coloquiais."

Especialista: "Mas o ouvinte pode encontrar a tradução. A linguagem de comunicação é assim mesmo, é cheia de termos técnicos."

Locutor: "Cabe-nos traduzir. Porque até existe em português. Backdrop é uma parede que fica ao fundo com informação publicitária."

Especialista: "É isso. Backdrop é uma espécie de outdoor."

www.angodebates.blogspot.com | hoje, ouvindo a rádio sobre a eficiência do marketing 
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sábado, 2 de agosto de 2025

Crónica | POR ESTES DIAS ESTÁ DIFÍCIL OPINAR

Ainda em processo de assimilar a ressaca dos tumultos de Luanda a 28 e 29 de Julho, que seriam de greve do serviço do táxi em reivindicação contra o aumento do preço da corrida, decorrente do fim da subvenção aos combustíveis. Centenas saíram às ruas feito enxames com acção de movimento inorgânico caracterizada por bloqueio de vias de circulação, apedrejamento e incêndios a viaturas públicas e particulares. Passadas duas horas mais ou menos a reacção das forças de defesa e segurança utilizando balas reais traria um saldo dramático de perdas humanas, num total de trinta mortes nas províncias de Luanda, Malanje e Huila (incluindo um agente da polícia que teria tombado às mãos dos populares), de acordo com dados oficiais. Moro num dos prédios no centro da cidade com uma loja de conveniência no rés-do-chão também alvo de saque, por volta das catorze horas (não que alguma vizinhança também não participasse). Não sei como terminaria "o ataque" a bens públicos e privados no quarteirão se a polícia não chegasse em meia hora para dissuadir a voragem. Como quem sentiu de perto, confesso que aquilo era tudo menos protesto cidadão, espalhando o pânico e a insegurança e agressão gratuita, era mesmo selvajaria indiscriminada em ascensão. É uma experiência que para o bem de todos não se deverá nunca repetir. Mas por outro lado, é impossível não nos condoermos com as famílias enlutadas pela acção repressiva na hora de repor a ordem. É certo que alguns, entre detidos e baleados, não se encontravam propriamente a roubar ou a praticar vandalismo, mas no afã ingénuo de uma geração de caça-likes por meio de vídeos e fotos. A meio a este misto de emoções, ontem fiz companhia a um amigo que foi levantar documentos ao tribunal de Luanda (que ironicamente é vizinho do Ministério das Relações Exteriores, a casa da nossa cara para lá dos limites da extensão do nosso território). E durante uma hora aproximadamente acabei vivenciando o ambiente de cenário real de julgamentos sumários, naquela azáfama envolvendo autoridades judiciais, familiares dos detidos, advogados e os próprios réus. Alguns dos jovens transpareciam claramente o estado de choque, seria a primeira vez que se viam nos corredores de um tribunal. Na barriga, quase treze horas. La fora o sol de cacimbo é tépido, dentro ares condicionados e odores em notas dissonantes na pauta.  Houve quem chorasse após a condenação e o encaminhamento para a viatura celular na cave, com a avenida da prisão a desenhar-se. Homem não chora, lembra-lhes às tantas a guarda prisional, suportada na retórica por uma funcionária do tribunal. A fila indiana segue, mas o passo é lento, o último tem ferimento no pé, os colegas avisam o agente de escolta, que demonstra empatia e anui para o reduzir do passo. O tribunal Dona Ana Joaquina cheirava o cheiro forte de seres humanos com banho em atraso. Entre detidos estão naquele momento umas dez senhoras que se terão juntado à avalanche de pilhagens de lojas e armazéns e tutti quanti. No entanto a grande maioria são jovens com traços predominantes de uma camada social economicamente vulnerável, cabelos e barbas só assim, trajes mal-amanhados, o que seguramente emite recados sociológicos dos desafios que temos de vencer como País no sentido de criar cada vez mais oportunidades de formação, aumento da renda das famílias e recriação do futuro para periferia. Que se faça justiça. Mas é preciso que o sentido reivindicativo não morra, nunca, por uma a cidadania participativa. Há no entanto que desaconselhar o radicalismo! Tal como termina o nosso Hino Nacional, "Pátria Unida / Liberdade / Um só povo / Uma só nação".

Gociante Patissa, 02 Agosto 2025 | www.angodebates.blogspot.com  
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segunda-feira, 28 de julho de 2025

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Conto | AS MÁSCARAS E O CASTIGO DIVINO (inédito de Gociante Patissa, publicado na Revista Ngapa, edição 002, 2025


AS MÁSCARAS E O CASTIGO DIVINO

Gociante Patissa

  

«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar» (António Cardoso)

 

Chamo-me Silvestre. Silvestre Kanjaya. Todo o mundo me chama Semestre, inclusive a minha sogra. Se me perguntam a partir de que momento passei a ser o Semestre, pouco sei dizer. Na verdade, absolutamente nada, exceptuando a hipótese da praga de castigo divino que um antigo empregado meu me rogou, andava eu na casa dos vinte e coisa anos, quando em boa hora dei por findo o contrato por período experimental do rapaz a coberto da lei num distante segundo semestre. 

Voltou-me as costas e partiu. Sem esboçar um aceno de despedida. Nem Deus saberia controlar a ira com que expeliu a praga, depois de se assegurar fora do alcance. Ainda tentei ir atrás e solicitar que fosse mais específico, doseasse o castigo divino que acabava de plantar no meu destino. No instante vi-me tentado a intuir, porque me favorecia, que seriam palavras da boca para fora, uma máscara do mau perder, contra a minha, a lei laboral. No fim das contas, homens são as máscaras com que se impõem consoante a circunstância.

Que me perdoem se for apenas paranóia, é que eu repugno a coincidência com que as minhas desgraças têm lugar desde aquele insosso dia. Justo no decurso de segundos semestres, sempre assim, mas é que é assim sempre! Eu e os segundos semestres não servimos.

Aos 62 anos de idade a gente percebe que o grau de expectativas na vida do homem é e deve ser proporcional ao nível de testosterona em si. Se “ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”, na lei da vida segundo Guevara, pois então nas entrelinhas não deixa de morar o inverso. Quanto a mim, tenho uma família e não me queixo. Só não queria morrer sem ter acesso com a transparência que me é devida ao saldo do prometido castigo divino. Terei sofrido já o suficiente ou ainda está para chegar o dito?

Já estive perto de realizar o sonho de casar uma filha quando completei meio século de dormires e acordares. Foi aí que percebi que a esposa que Deus me deu, a minha amada Ndyondyo, pode bem ser o próprio castigo. Em má hora lhe confiei a aproximação com potenciais genros. Até já imagino o diálogo:

Mas, filha! Esse vosso namoro afinal é como, tanto tempo que até já passou – estou a contar mesmo bem – do total dos anos que andou cá o colono português?

Assim mais é o quê?! A mãe também chateia muito…

Chateia? Mas isso mesmo é homem, que nunca só dá pelo menos a cara nas pessoas que trouxeram ao mundo a miúda que constantemente faz com ele…?!

MÃE!, faxavori, pára só, ya?! Estou a ver já aonde estás a ir com a conversa…

Estou cansada, filha! Tu dormes com o inimigo!!! Porque é essa a palavra. Ah porque fomos no KFC, que jantamos churra. Ó filha!!! Já viste como entre ti e o frango não há diferença? É só comer… não se pergunta mais pelos pais…

Não exageres só, mãe! Ele vai cumprir com a tradição. Há-de chegar o dia…

Esse dia então é quando?! Mas já foste ao quarto dele. Ou não?

Claro que já, né, mãe?!

E quem construiu a casa lá?

Mas para quê que vou saber isso… se não sou pedreira?

Tásaver a ver nossas filhas?!… É só ku-duro nesta cabeça… Lá ninguém te valoriza, senão te contavam a história da família.

 

Nesse dia que vos conto encontrei um clima carregado entre a mulher e a minha primogénita. Não se passava nada, bem tentaram disfarçar, só que eu conheço o olhar delator da minha Leocádia desde quando nasceu. Orientei então a companheira a não deslocar a menina para a nossa época. Mais paciência! Algum tempo depois e já no segundo semestre...

 

Mãe! Não viste a visita?! É assim que se atende?! Depois fala que não apresento…

Esse assim é quem mais?! É outro a cobrar a dívida do cabelo brasileiro que a alma d’outro mundo que é o teu quase-namorado promete assumir e nunca chega a pagar?!

MÃE! Ca-la-a-boca! Por favor, não me faças entrar no chão…

Será que falei demais, né?…

É ele…

Ele mais quem, então?

O meu boy. Finalmente estás de cara a cara com ele! Boy significa namorado.

Ah, entendi… Namorado que só ocupa, não toma decisão de casar, então é boi, né? Eu diria, até, boi malandro! Mas pronto só já...

 

Leocádia é bem hospitaleira. Puxou o lado do pai. Aí acomodou o pretendente à sombra do mamoeiro no centro do quintal. Já só cheguei a conhecer o rapaz pela foto de perfil no Facebook. Nascimento era uma fraca figura física, ar furtivo. Ndyondyo, que usava máscaras respiratórias por conta de uma rinite alérgica que lhe invadiu já em idade adulta, tinha raiva a ser interrompida no pico do processo de lida doméstica...

Muito prazer, mãezinha!

Tens tido demais, até! Imagino... E como se chama o filho?

Nascimento da Cunha…

Ah, quer dizer que o jovem é que está a estragar o país, né?…

Como?

Comendo ou não, Angola ficou marreca de tanto levar a cunha na cabeça…

Hahahah. Adoro o sentido de humor da mãe…

E o filho Falecimento trabalha?

Nascimento, mãe! Nascimento!

Ah, desculpa só. É só que Nascimento, Falecimento, tudo passa pelo viver. Onde é que o pai trabalha?”

Na ENDE e colaboro com a RNT… Sou despachador-chefe. Ligamos (ou não) as linhas de luz consoante a instrução de corte para restrições de racionalização…

Afinal é o pai que fez queimar a minha arca do negócio de gelado de mukwa?!

Não é bem por aí, mãe sogra…

ACABOU! JOVEM! Em nome do povo angolano, batalha já não é batalha, só que a tal vida é que não ajuda, SAI AGORA MESMO DA MINHA CASA, PAPÁ. NÃO QUERO DISCUTIR, OK?! VAI, SÓ, PAPÁ, VAI, YA?…

 

Voltei do serviço nesse dia ao anoitecer e já só me cabia recolher os cacos do desastre. A minha filha andava à beira do suicídio. Suei para implantar esperanças. Era questão de esperar, o rapaz voltaria. O amor emerge por defeito. Lembro-me como se fosse ontem. E assim estamos a levar a vida, Leocádia envelheceu mais oito anos debaixo do saiote da mãe, correndo o risco de acabar amante de qualquer polígamo por aí além.

 

***



Ah, as coisas que me acontecem! Não é à-toa que estamos aqui no meio de ladrões. Dizem que o Digno Magistrado do Ministério Público hoje não pode vir, que vamos passar o fim-de-semana nessa merda da esquadra. Sinceramente vi logo que isso do novo Coronavírus ia sobrar para um gajo, eu que nem o antigo alguma vez vi. Tinha de irromper justo num segundo semestre deste 2020?!

Aliás, ó parente, desculpa-me lá! (tive mesmo de lhe chamar um nervo!) Mas, você deixa a pessoa falar todos podres da família, nem manda calar (dentro do respeito, claro)?! Daquele outro recluso ao canto, como está a dormir desde que cheguei, não falo. Mas você, para um simples colega de cela, até já falei demais. Praticamente uma resma…

“Ah, não é por mal, camarada. Cadeia é mesmo assim, quando entramos é cheios de energias. Depois já te passa, o tempo hiberna e nós também”.

E qual é o teu crime, já agora?

“Me apanharam a fumar…”

Mas assim, tipo fumar mesmo de fumar, ou mais ou menos aquele outro fumar? Mas também em plena Covid, isso de tingir mais os pulmões, meu mano, até que...

“Nem é por aí. Só tirei a máscara num instante para dar a baforada e ali apareceu o tanque de guerra com a tropa especial do exército por cima de mim. É a máscara só…”

Oh, é delito de fura-prevenção? Comigo foi quase igual. Meu crime foi encostar e confirmar uma cara escondida nessas máscaras de cirurgia. Era o gajo que me devia eternamente (burro eu que não ouvi minha avó na língua da avó dela do sul, “u olevalisa eye onjaki” – aquele que cede por empréstimo é turbulento). Foi mais ou menos assim, consoante consta no auto de acusação e ocorrência:

 

“SÔ AGENTE!!! Responde só já o outro, mô irmão. Não fica mais ignorante”, pedi eu.

“Tu conheces as minhas habilitações, ó cidadão?! Chama ignorante ao teu pai, faço-me entender?”

“Mas, ó chefe, até falei com boas maneiras. É de se ofender mais dos pais?...”

“Você tem noção das suas palavras?”

“Mas assim então, (nessa vida é bom perguntar para aprender, né?) onde é que me expressei mal? Só falei não me ignora mais, faz favor...”

“Não foi isso que você disse! Falaste ‘não fica mais ignorante’… Quer dizer, bastou ver que é polícia, é porque não estudou, né?!”

“Oh, afinal ignorante e aquele que ignora não é a mesma coisa? É desculpar.”

“Aprendam bem o português, OK?!”

“O português é traiçoeiro. Está a ver só, meu irmão agente? A pessoa ia só mesmo levar chapadas à-toa, é no tal funeral do Camões que já não fomos…”

“Pronto está desculpado. Mas também qual é a emergência afinal?!”

“É mesmo o Estado de Emergência, chefe!”

“Fez o quê?”

“O chefe está a ver aquele aí de camisa azul? Aproveito fazer queixa contra …”

“Mas aqui no quintal do supermercado é para apresentar queixa?!”

“Deve e não paga. Estou num ponto que o meu horizonte é o diâmetro da panela”.

 

Agora faz sentido. Foi assim tudo muito rápido. Não tardou que o civil e o fardado me viessem chatear. O vígaro, bocudo e baixinho não parava de me condenar.

 

“Ele ofendeu a Sua Excelência do Presidente da República…”

“O nosso Comandante em Chefe que Deus nos deu?”, aí o fardado replicava.

“É isso, chefe… Pode chamar só já o patrulheiro, isso dá julgamento sumário…”

“Assim estás a sugerir ou a ordenar?! Mas ofendeu o Presidente? Falou o quê?”

“Por acaso não falou nada…”

“Escreveu o quê no facebook?”

“Não sei, chefe, não lhe vi no facebook dele…”

“Mas então ofendeu o Presidente no que tange a quê? Cantou RAP de subversão?”

“Não, chefe.”

“Filho da mãe! Você fumou liamba ou o quê?! Não fala coisa com coisa, pá!”

“Me encostou meio metro... Quer estragar minha quarentena e distanciamento...”

 

E lá o jumento chamou o patrulheiro que nos recolheu. A meu ver, só usou da sua máscara ante a inaptidão de juízo arbitral. Mas como só estamos ainda em Abril, tenho esperança. Segunda-feira vou ser solto. Pior seria num segundo semestre, meu irmão. 

 

Benguela, 01 Maio 2020 – Luanda, 13 Janeiro 2025

 

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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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