O anúncio foi
oficializado à saída de uma reunião de proclamação que teve lugar na Mediateca
de Benguela, no dia 07 de Março. Ao fim de três anos de actuação entusiasta por
Benguela, o Movimento Lev'Arte perde os mais influentes membros, que agora
surgem com a Associação Literária e Cultural de Angola (ALCA),
apresentada como movimento literário.
A lista de
dissidentes inclui nomes como Efraim Chinguto, Américo Chikete, Vilma
Kapingala, Jorge Dudas, Valdemar Hossi, Alexandre Silivondela, só para citar
estes. "Foi bom termos servido durante três anos todos e todas, sobretudo
alguns. Agora, os esforços da Arte e Cultura serão redobrados com a ALCA",
dizem. Na verdade, há muito que as coisas não iam bem entre a direcção central
e o núcleo provincial. É certo que a distância entre Benguela e Luanda não
costuma facilitar a comunicação nem a supervisão, nascendo nesta lacuna
incompreensões e desvios ao perfil traçado.
Fora de jogo mal assinalado e um cartão vermelho na sequência do protesto marcam pela negativa o trabalho do árbitro. A victória (1-0) do Kabuscorp, que devia ser atribuída à incompetência do ataque do D'Agosto, vai reforçar suspeitas de "resultados arranjados" no futebol angolano, no que a equipa do Palanca não tem fama de muito inocente.
«Adoramos livros! Os editados por nós e muitos
editados por outros. Vivemos nas nuvens, mas descemos à terra, de vez em quando,
e editamos obras-primas. E também alguns disparates.» (Trecho da nota de
auto-apresentação da Chiado Editora)
Em época de crise, e aproximando-se alguns dias
de férias, idealizei uma forma de rentabilizar o tempo e os olhos. Aqui vai: se
você vive em Benguela, pratica escrita criativa (preferencialmente prosa) e tem
possibilidade de imprimir, pode sempre dar-me os textos para ler e, se
necessário, emitir opinião. Até que não cobro assim muito, basta um kwanza por
página, é só para garantir assim pequenos vícios de dias de férias. Cumpra-se
hahahaha
PS: não vou ensinar
língua portuguesa, a ferramenta de trabalho, e reservo-me o direito de escolher
o que e a quem ler hahaha
A fazer fé na denúncia tornada pública esta manhã por um repórter da Rádio Benguela, a elevada procura pelo carapau fresco (entenda-se acabado de pescar no nosso mar) é oportunidade para cidadãos de má fé enganarem os consumidores. Os trapaceiros adquirem nos armazéns consideráveis quantidades de peixe congelado (importado), que são carregadas em canoas e demais embarcações de pesca, na orla marítima do Kawangu, a Norte da cidade, de onde partem para o mercado das Tombas, a Sul da cidade, onde desembarcam e simulam tratar-se de produto recém-capturado, para a inocência dos revendedores. Segundo algumas donas de casa abordadas pelo blog Angodebates, tem-se notado nos últimos dias que o peixe deteriora-se muito mais cedo do que seria normal, sobretudo o carapau e a sardinha. Então já sabe, quando pedir carapau, a única certeza que se tem é que foi pescado; agora, se pescado no mar ou no armazém, isto já é outra conversa. Até porque quem compra gato por lebre... por alguma semelhança foi induzido. Haja "chicote" no lombo de tais trapaceiros, ó camaradas da polícia econômica!
Os poucos museus que temos e tantas vezes referenciados afinal não são minimamente representativos quando se fala de preservação da memória antropológica e etnográfica. Segundo o historiador Simão Souindoula, de cuja folha de serviço consta a coordenação do Projecto A Rota dos Escravos (da UNESCO), as peças que se encontram expostas são tão simplesmente aquilo que restou da iniciativa da antiga Companhia de Diamantes ao tempo colonial. "Você vai o museu do Lobito, só encontra máscaras e peças da cultura Lunda Cokwe; Vem a Luanda, é a mesma coisa. Afinal onde estão os patrimónios dos ambundu, dos ovimbundu?", questionou o académico, que de seguida rematou: "Sem memória, você não tem como transmitir a história. " Tudo o que temos é do Leste, claro, porque é onde funcionou a companhia de diamantes, que tinha esta preocupação de recolher e classificar. Haja quadros do sector da restauração museológica e um repensar de políticas culturais para a representatividade que se impõe num país que se define por isto mesmo, um conjunto de pequenas nações.
Recebi de oferta o disco de estreia de Antonio Firmino Antonio "Tula",
conhecido sobretudo pela sua faceta de locutor de língua Umbundu na Rádio
Lobito. O homem completa neste dia 4 de Março mais um ano de vida,
contagem que começou em 1977.
A nossa amizade remonta ao ano de 2005,
quando nos sentamos na carteira para aprender jornalismo e técnicas de
comunicação, no Instituto Camões em Benguela, que albergava o curso
básico de quatro meses, promovido pela APHA e respaldado pela Direcção
Provincial da Comunicação Social. Na sua terceira temporada, era até então o
que de melhor havia (se não mesmo o único) em termos de formação de
profissionais do ramo. Residíamos ambos no Lobito e o trajecto era feito na
maior parte das vezes em pé de autocarro, destes transportes colectivos e
democráticos, que juntam o operário, o funcionário público e a candongueira e
respectivos cestos com peixe e hortaliças numa mesma corrida.
Na primeira impressão ao ouvir as músicas
do Tula, é impossível dissociar o locutor do cantor, ou não habitassem ambos na
mente de um ser comprometido com a valorização da sua cultura através da
tradição oral, comprometido com a missão de inverter a tendência decadente da
conduta social, enfim, um mensageiro. É nas faixas 08 e 12 que me parece termos
o ponto mais alto da criação, onde ritmo, harmonia, colocação de vozes e
relevância do conteúdo batem no mesmo compasso.
Como quem parte em viagem para explorar
novos sonhos e caminhos, olhemos para este primeiro CD como se fosse um
percurso de ida, vai faltar o regresso, que é a parte mais confortável da
viagem. Sim, o amigo Firmino Tula, com essa estreia, acaba de franquear as
portas para um desafio ingente. A persistência, a capacidade de ouvir e
permitir-se à auto-crítica, entre outros valores do fazer artístico, é que vão
determinar se vinga no ramo da música ou se se vai dar por satisfeito com uma
única experiência.
Para terminar, se me permite a
brincadeira, gostaria de discordar do título, segundo o qual - cito - «a minha
vida mudou». Não, a tua vida está intrinsecamente ligada à vida do teu povo,
das suas aspirações e da luta pela preservação e divulgação cultural. Logo, se
neste campo ainda não há mudanças encorajadoras, a tua vida também não pode, ó
activista social, ter mudado. O caminho é para frente, e vamos a isso. Estou
contigo.
Gociante Patissa, Benguela 13 de Setembro
de 2012 (Foto: Development Workshop)
«Sulunla»
é título de um tema do cancioneiro do grupo etnolinguístico ovimbundu, que se
pode dizer que ganhou mais visibilidade com a roupagem no estilo sungura dada
por Bessa Teixeira, natural do Huambo. Não deixa de ser bela a versão mais
branda do benguelense Fedy (autor de «Kalupeteka»), mas é em Bessa que se
evidencia, no ritmo dançante e no espírito, uma maior proximidade à essência.
Com Bessa Teixeira, o tema foi tão-somente
a joia da primeira edição do álbum (colecção nascida na pirataria) «Sucessos do
Huambo», em 2003. Naquele mesmo ano, foi o segundo mais votado do Top dos Mais Queridos,
concurso anual da Rádio Nacional de Angola, edição ganha por Patrícia Faria, a ex-integrante
do grupo «As Gingas», conhecida por alguns êxitos do seu disco de estreia,
nomeadamente, «Pacheco» e «Caroço Quente».
«Sulunla», daqueles temas bem metafísicos,
chegou a ser receita obrigatória em quase tudo o que fosse farra por esta
Angola, não importando o desconhecimento da letra – e é aqui que reside o
motivo destas linhas. Há uma conjugação bem elaborada entre a voz (projectada
um pouco acima do habitual) e o ritmo quente – aqui aliás a vantagem. É um trecho
relativamente curto, talvez seja por isso que «sulunla» surge sempre encaixado
em rapsódia. Assim o fez Bessa Teixiera, assim o fez Fedy.
Eis o extracto e respectiva tradução livre:
«Ukãi wasoma ka la wala onanga/ Etali
wayiwala/ Ukãi wasoma ka la wala onanga/ Etali wayiwala (…) Sulunla, osõi ku kwete
la nãwã/ Ndilisunlunla?/ Sulunla, osõi ku kwete la nãwã!»(A mulher do
Soba nunca foi de usar panos/ E hoje está a usar/ A mulher do Soba nunca foi de
usar panos/ E hoje está a usar/ Devo despir?/ Tira lá isso, que devias ter
vergonha perante os cunhados!/ Devo despir?/ Tira lá isso, que devias ter
vergonha perante os cunhados!)
Em se tratando de um tema satírico sobre a
figura do «osoma» ou «soma» (rei), que teria dado origem à corruptela «Soba»,
torna-se relevante levantar alguns aspectos de ordem antropológica e
sociológica, para uma melhor compreensão do papel das canções interventivas.
Seria uma canção nascida «pesenje» (na
pedra), «poloñoma» (nas batucadas),ou no «ocipata» (o quarto do velório)? Entre os ovimbundu, pelo menos
falando dos de Benguela para não perdemos o foco, existem estes três cenários
para punição comunitária de condutas e defeitos por via da canção, não havendo
por vezes, digamos assim, a noção ocidental de vida privada.
Assim, temos: (a) «na pedra», onde as mulheres passam o dia transformando bagos de
milho em fuba com ajuda de «upi»,
triturador de madeira acotovelado, que marca o compasso ao coral improvisado e
quase perfeito; (b) ao contrário da pedra, que é marcadamente uma arena
feminina, no batuque («oñoma», em Umbundu) é inquestionávela superioridade masculina em torno da
figura mítica «ocinganji» (também
chamada de palhaço), para quem se toca o melhor possível do ritmo dos tambores,
não havendo cuidados quanto ao uso da linguagem. Um outro cenário é (c) no «ocipata», o quarto em que estiver
assentado o cadáver antes do funeral, o qual depois se transforma em palco de
machos e umas poucas mulheres, até o varrer de cinzas. Nesse ritual, também não
há temperos na linguagem, daí o acesso restrito.
Considerando que a educação tradicional
desencoraja a mulher de verbalizar abertamente a sexualidade e/ou afronta às
autoridades, e ainda porque não há como planificar as actuações no «ocipata», uma vez dependerem da
ocorrência de mortes, tomamos como válida a tese do velho PATISSA, Manuel (1916-
2008), segundo a qual «sulunla» – cujo significado é «despe-te» – encaixa-se no
repertório do «ocinganji». No
entender da nossa fonte, a origem da canção reside num repúdio à corrupção das
autoridades tradicionais africanas, aquando da invasão do regime colonialista
português.
É em Arjago que encontramos evidência
ainda mais precisa:
“A partir da década de 40 assistimos a institucionalização de regedorias
por todo o país com uniformes brancos e bandeiras erguidas nas suas
residências. Para tal era preciso pactuar com o regime colonial. Perante a
situação, os Sobas dividiram-se: uns a favor, outros contra o colonialismo,
dependentemente das capacidades que tinham de resistir ou de sobreviver. Os
Regedores reconhecidos pelo regime colonial passam a ordenado de 1.500$00, o
suficiente para comprar 3 cabeças de gado por mês e vestir todas as esposas”
(Arjago 2002, p.60).
Concluindo, diríamos que não obstante a
euforia que o tema hoje transmite, «Sulunla» nasceu da mágoa social e é
indicador da perda de legitimidade que grassou entre as autoridades africanas. Naquele
contexto, a ostentação de vestes ocidentais pela mulher do Soba, a par de
desvio de identidade, foi considerada um acto de corrupção material.
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Bibliografia
Arjago. (2002). Os Sobas - Apontamentos étno-histórico
sobre os ovimbundu de Benguela. Benguela: edição do autor.