domingo, 8 de março de 2015

Dissidências no Movimento Lev'Arte | Ex-membros de direcção do núcleo de Benguela proclamam nova associação

O anúncio foi oficializado à saída de uma reunião de proclamação que teve lugar na Mediateca de Benguela, no dia 07 de Março. Ao fim de três anos de actuação entusiasta por Benguela, o Movimento Lev'Arte perde os mais influentes membros, que agora surgem com a  Associação Literária e Cultural de Angola (ALCA), apresentada como movimento literário.

A lista de dissidentes inclui nomes como Efraim Chinguto, Américo Chikete, Vilma Kapingala, Jorge Dudas, Valdemar Hossi, Alexandre Silivondela, só para citar estes. "Foi bom termos servido durante três anos todos e todas, sobretudo alguns. Agora, os esforços da Arte e Cultura serão redobrados com a ALCA", dizem. Na verdade, há muito que as coisas não iam bem entre a direcção central e o núcleo provincial. É certo que a distância entre Benguela e Luanda não costuma facilitar a comunicação nem a supervisão, nascendo nesta lacuna incompreensões e desvios ao perfil traçado.

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sábado, 7 de março de 2015

1-0

Fora de jogo mal assinalado e um cartão vermelho na sequência do protesto marcam pela negativa o trabalho do árbitro. A victória (1-0) do Kabuscorp, que devia ser atribuída à incompetência do ataque do D'Agosto, vai reforçar suspeitas de "resultados arranjados" no futebol angolano, no que a equipa do Palanca não tem fama de muito inocente.
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sexta-feira, 6 de março de 2015

Parada

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Citação

«Adoramos livros! Os editados por nós e muitos editados por outros. Vivemos nas nuvens, mas descemos à terra, de vez em quando, e editamos obras-primas. E também alguns disparates.» (Trecho da nota de auto-apresentação da Chiado Editora)
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Passatempo | À procura de kumbú mínimo para gastar na lua

Em época de crise, e aproximando-se alguns dias de férias, idealizei uma forma de rentabilizar o tempo e os olhos. Aqui vai: se você vive em Benguela, pratica escrita criativa (preferencialmente prosa) e tem possibilidade de imprimir, pode sempre dar-me os textos para ler e, se necessário, emitir opinião. Até que não cobro assim muito, basta um kwanza por página, é só para garantir assim pequenos vícios de dias de férias. Cumpra-se hahahaha
PS: não vou ensinar língua portuguesa, a ferramenta de trabalho, e reservo-me o direito de escolher o que e a quem ler hahaha
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quarta-feira, 4 de março de 2015

(do arquivo Do arquivo o poema que hoje parece "profecia") ISSO EU JÁ SEI

Isso eu já sei

Quando partirem
não os censurarei

Se me abandonassem
não os condenaria
nem que me viesse alguém atiçar o faria

Que não fui para os que me conheceram
exemplo consistente de companhia
ora isso eu já sei


Gociante Patissa, 2008. In «Consulado do Vazio» (KAT-Consultoria e empreendimentos, LDA, Benguela, Maio 2008)
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terça-feira, 3 de março de 2015

Diário| Atentado à saúde no peixe carapau, há gente a pescar em armazéns

A fazer fé na denúncia tornada pública esta manhã por um repórter da Rádio Benguela, a elevada procura pelo carapau fresco (entenda-se acabado de pescar no nosso mar) é oportunidade para cidadãos de má fé enganarem os consumidores. Os trapaceiros adquirem nos armazéns consideráveis quantidades de peixe congelado (importado), que são carregadas em canoas e demais embarcações de pesca, na orla marítima do Kawangu, a Norte da cidade, de onde partem para o mercado das Tombas, a Sul da cidade, onde desembarcam e simulam tratar-se de produto recém-capturado, para a inocência dos revendedores. Segundo algumas donas de casa abordadas pelo blog Angodebates, tem-se notado nos últimos dias que o peixe deteriora-se muito mais cedo do que seria normal, sobretudo o carapau e a sardinha. Então já sabe, quando pedir carapau, a única certeza que se tem é que foi pescado; agora, se pescado no mar ou no armazém, isto já é outra conversa. Até porque quem compra gato por lebre... por alguma semelhança foi induzido. Haja "chicote" no lombo de tais trapaceiros, ó camaradas da polícia econômica!
Gociante Patissa, Benguela 03.03.15
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Diário| O acervo museológico que (não) temos

Os poucos museus que temos e tantas vezes referenciados afinal não são minimamente representativos quando se fala de preservação da memória antropológica e etnográfica. Segundo o historiador Simão Souindoula, de cuja folha de serviço consta a coordenação do Projecto A Rota dos Escravos (da UNESCO), as peças que se encontram expostas são tão simplesmente aquilo que restou da iniciativa da antiga Companhia de Diamantes ao tempo colonial. "Você vai o museu do Lobito, só encontra máscaras e peças da cultura Lunda Cokwe; Vem a Luanda, é a mesma coisa. Afinal onde estão os patrimónios dos ambundu, dos ovimbundu?", questionou o académico, que de seguida rematou: "Sem memória, você não tem como transmitir a história. " Tudo o que temos é do Leste, claro, porque é onde funcionou a companhia de diamantes, que tinha esta preocupação de recolher e classificar. Haja quadros do sector da restauração museológica e um repensar de políticas culturais para a representatividade que se impõe num país que se define por isto mesmo, um conjunto de pequenas nações. 
Gociante Patissa, Benguela, 03.03.15
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segunda-feira, 2 de março de 2015

Crónica| Da palavra falada à palavra cantada, o carisma de António Firmino "Tula"


Recebi de oferta o disco de estreia de Antonio Firmino Antonio "Tula", conhecido sobretudo pela sua faceta de locutor de língua Umbundu na Rádio Lobito. O homem completa neste dia 4 de Março mais um ano de vida, contagem que começou em 1977.

A nossa amizade remonta ao ano de 2005, quando nos sentamos na carteira para aprender jornalismo e técnicas de comunicação, no Instituto Camões em Benguela, que albergava o curso básico de quatro meses, promovido pela APHA e respaldado pela Direcção Provincial da Comunicação Social. Na sua terceira temporada, era até então o que de melhor havia (se não mesmo o único) em termos de formação de profissionais do ramo. Residíamos ambos no Lobito e o trajecto era feito na maior parte das vezes em pé de autocarro, destes transportes colectivos e democráticos, que juntam o operário, o funcionário público e a candongueira e respectivos cestos com peixe e hortaliças numa mesma corrida.

Na primeira impressão ao ouvir as músicas do Tula, é impossível dissociar o locutor do cantor, ou não habitassem ambos na mente de um ser comprometido com a valorização da sua cultura através da tradição oral, comprometido com a missão de inverter a tendência decadente da conduta social, enfim, um mensageiro. É nas faixas 08 e 12 que me parece termos o ponto mais alto da criação, onde ritmo, harmonia, colocação de vozes e relevância do conteúdo batem no mesmo compasso.
  
Como quem parte em viagem para explorar novos sonhos e caminhos, olhemos para este primeiro CD como se fosse um percurso de ida, vai faltar o regresso, que é a parte mais confortável da viagem. Sim, o amigo Firmino Tula, com essa estreia, acaba de franquear as portas para um desafio ingente. A persistência, a capacidade de ouvir e permitir-se à auto-crítica, entre outros valores do fazer artístico, é que vão determinar se vinga no ramo da música ou se se vai dar por satisfeito com uma única experiência.

Para terminar, se me permite a brincadeira, gostaria de discordar do título, segundo o qual - cito - «a minha vida mudou». Não, a tua vida está intrinsecamente ligada à vida do teu povo, das suas aspirações e da luta pela preservação e divulgação cultural. Logo, se neste campo ainda não há mudanças encorajadoras, a tua vida também não pode, ó activista social, ter mudado. O caminho é para frente, e vamos a isso. Estou contigo.

Gociante Patissa, Benguela, 2 Março 2015
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domingo, 1 de março de 2015

Ensaio| Oratura: «Sulunla» e o carácter sociopolítico de uma canção

Gociante Patissa, Benguela 13 de Setembro de 2012 (Foto: Development Workshop)

«Sulunla» é título de um tema do cancioneiro do grupo etnolinguístico ovimbundu, que se pode dizer que ganhou mais visibilidade com a roupagem no estilo sungura dada por Bessa Teixeira, natural do Huambo. Não deixa de ser bela a versão mais branda do benguelense Fedy (autor de «Kalupeteka»), mas é em Bessa que se evidencia, no ritmo dançante e no espírito, uma maior proximidade à essência.

Com Bessa Teixeira, o tema foi tão-somente a joia da primeira edição do álbum (colecção nascida na pirataria) «Sucessos do Huambo», em 2003. Naquele mesmo ano, foi o segundo mais votado do Top dos Mais Queridos, concurso anual da Rádio Nacional de Angola, edição ganha por Patrícia Faria, a ex-integrante do grupo «As Gingas», conhecida por alguns êxitos do seu disco de estreia, nomeadamente, «Pacheco» e «Caroço Quente».

«Sulunla», daqueles temas bem metafísicos, chegou a ser receita obrigatória em quase tudo o que fosse farra por esta Angola, não importando o desconhecimento da letra – e é aqui que reside o motivo destas linhas. Há uma conjugação bem elaborada entre a voz (projectada um pouco acima do habitual) e o ritmo quente – aqui aliás a vantagem. É um trecho relativamente curto, talvez seja por isso que «sulunla» surge sempre encaixado em rapsódia. Assim o fez Bessa Teixiera, assim o fez Fedy.

Eis o extracto e respectiva tradução livre: «Ukãi wasoma ka la wala onanga/ Etali wayiwala/ Ukãi wasoma ka la wala onanga/ Etali wayiwala (…) Sulunla, osõi ku kwete la nãwã/ Ndilisunlunla?/ Sulunla, osõi ku kwete la nãwã!» (A mulher do Soba nunca foi de usar panos/ E hoje está a usar/ A mulher do Soba nunca foi de usar panos/ E hoje está a usar/ Devo despir?/ Tira lá isso, que devias ter vergonha perante os cunhados!/ Devo despir?/ Tira lá isso, que devias ter vergonha perante os cunhados!)

Em se tratando de um tema satírico sobre a figura do «osoma» ou «soma» (rei), que teria dado origem à corruptela «Soba», torna-se relevante levantar alguns aspectos de ordem antropológica e sociológica, para uma melhor compreensão do papel das canções interventivas. Seria uma canção nascida «pesenje» (na pedra), «poloñoma» (nas batucadas), ou no «ocipata» (o quarto do velório)? Entre os ovimbundu, pelo menos falando dos de Benguela para não perdemos o foco, existem estes três cenários para punição comunitária de condutas e defeitos por via da canção, não havendo por vezes, digamos assim, a noção ocidental de vida privada.

Assim, temos: (a) «na pedra», onde as mulheres passam o dia transformando bagos de milho em fuba com ajuda de «upi», triturador de madeira acotovelado, que marca o compasso ao coral improvisado e quase perfeito; (b) ao contrário da pedra, que é marcadamente uma arena feminina, no batuque oñoma», em Umbundu) é inquestionável a superioridade masculina em torno da figura mítica «ocinganji» (também chamada de palhaço), para quem se toca o melhor possível do ritmo dos tambores, não havendo cuidados quanto ao uso da linguagem. Um outro cenário é (c) no «ocipata», o quarto em que estiver assentado o cadáver antes do funeral, o qual depois se transforma em palco de machos e umas poucas mulheres, até o varrer de cinzas. Nesse ritual, também não há temperos na linguagem, daí o acesso restrito.

Considerando que a educação tradicional desencoraja a mulher de verbalizar abertamente a sexualidade e/ou afronta às autoridades, e ainda porque não há como planificar as actuações no «ocipata», uma vez dependerem da ocorrência de mortes, tomamos como válida a tese do velho PATISSA, Manuel (1916- 2008), segundo a qual «sulunla» – cujo significado é «despe-te» – encaixa-se no repertório do «ocinganji». No entender da nossa fonte, a origem da canção reside num repúdio à corrupção das autoridades tradicionais africanas, aquando da invasão do regime colonialista português.

É em Arjago que encontramos evidência ainda mais precisa:

“A partir da década de 40 assistimos a institucionalização de regedorias por todo o país com uniformes brancos e bandeiras erguidas nas suas residências. Para tal era preciso pactuar com o regime colonial. Perante a situação, os Sobas dividiram-se: uns a favor, outros contra o colonialismo, dependentemente das capacidades que tinham de resistir ou de sobreviver. Os Regedores reconhecidos pelo regime colonial passam a ordenado de 1.500$00, o suficiente para comprar 3 cabeças de gado por mês e vestir todas as esposas” (Arjago 2002, p.60).

Concluindo, diríamos que não obstante a euforia que o tema hoje transmite, «Sulunla» nasceu da mágoa social e é indicador da perda de legitimidade que grassou entre as autoridades africanas. Naquele contexto, a ostentação de vestes ocidentais pela mulher do Soba, a par de desvio de identidade, foi considerada um acto de corrupção material.

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Bibliografia

Arjago. (2002). Os Sobas - Apontamentos étno-histórico sobre os ovimbundu de Benguela. Benguela: edição do autor.
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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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TV-ANGODEBATES (novidades 2022)

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