Gostei de ver agora no Janela Aberta (TPA) os
breves minutos de teatro com o grupo Oásis (ligado à Força Aérea Nacional). A
peça era de intervenção e retratava distúrbios alimentares, numa prestação
simplesmente bem conseguida. O personagem é um pedreiro que enfrentava
indigestão, depois de ter ingerido gelado, funji, batata, tudo, em quantidades
excessivas. É só apetite mesmo, sublinhava. Aí entra a mulher que lhe esfrega petróleo
iluminante e passa com a vassoura sobre a barriga, suspeitando tratar-se de
maus espíritos, até surgir uma terceira pessoa que aponta o caminho do
hospital. Humor inteligente, mobilidade sóbria em palco, expressão muito
próxima ao natural. Confesso que a minha impressão do teatro, de forma geral, não é a mais positiva, sendo muito previsível o retrato de violência e
sobretudo recorrência temática. É por isso que a satisfação é muito grande
quando vemos teatro com elevação estética. Parabéns, Oásis. Aliás, para um
grupo que foi, entre outros, a base da radionovela Kamatondo, estranho era
esperar algo inferior.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
Diário: FRUSTRAÇÕES DE UM FOTÓGRAFO DE BRINCADEIRA
Passei ontem pela loja de um vietamita simpático onde encontrei uma lente/objectiva que me deixou com água na boca. É uma 18-200 mm para Nikon, o que me pouparia de andar, como sempre ando, com duas, sendo uma 18-55mm e ou 55-200 mm. O preço é que não era lá muito bom conselheiro, "apenas" 75 mil kwanzas (USD 750). Ainda tentei, por tentar apenas, reduzir para 60 mil. "Eu só baixa 2 mil, amigo". Para quem se dedica à fotografia por mero passatempo, you have to think twice before you open your savings hahaha. Mesmo sabendo que é vocação das lentes custar caro, saí com a decisão de esquecer tal ideia de compra, mesmo até porque - prémio de consolação? - de acordo com as aulas do curso, quanto mais zoom a lente tem, menos qualidade passa a ter, dada a quantidade de vidros no tubo que constitui o objecto. O que preciso mesmo deve ser mais é uma lente fixa, teoricamente mais clara. Duro ser "foteiro" neste deserto em termos de oferta de material fotográfico
Foto de autor desconhecido
EXCERTO
"O homem contemplava do cais do Tamariz, com os profundos olhos de sua alma, o navio que descrevia a última curva do seu destino, a Restinga, o Porto do Lobito. Vinha dos lados de lá. Onde, exactamente, não interessava saber na altura, talvez também não agora. O certo é que Veremos estava quieto, estático mesmo, de pé, só olhando.
Era 4 de Abril de 2002. A televisão e a rádio transmitiam em directo a cerimónia de assinatura do Memorando de Entendimento do Luena entre o exército governamental e as forças militares da UNITA. Estava Angola, finalmente, vestida de sonhos e verdejantes reencontros. Na ponta da caneta nascia o mais afinado cantar das pombas. Mas o dia tinha um motivo ainda mais medular para Veremos: a sua filha, do casamento com a falecida Chiquita, completava o segundo aniversário.
Envolto num silêncio sublimemente engrossado pelo bater das ondas na estrutura de betão, o homem flutuava no auge da abstracção, longe das controvérsias da vida fora do oceano. Que magia se escondia na cena que contemplava? Seria das águas que se rasgavam com a aproximação do navio? Seria da maresia, ou era a sensação de voar, não obstante os pés estarem assentes num solo esquentado pelo sol do meio-dia?
Horas após o navio passar, o homem continuava capturado pelo mar, seguindo as acrobacias do peixe. Plenamente parado no tempo, nem fome nem nada. O sol retirou-se primeiro, antes das dezasseis horas. Depois foram-se os peixes. Mas Veremos sempre ali".
Gociante Patissa, in «Não Tem Pernas o Tempo», pág. 94. União Dos Escritores Angolanos. 2013
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Nota de imprensa: LANÇAMENTO DO LIVRO DE AIRES DE ALMEIDA SANTOS
Por
incumbência da editora NósSomos, com sede em Luanda, dirigida pelos veteranos
escritores Luandino Vieira e Arnaldo Santos, vimos pela presente solicitar a
vossa divulgação e cobertura da sessão de lançamento do livro “MEU AMOR DA RUA
ONZE” DE AIRES DE ALMEIDA SANTOS, que terá lugar no anfiteatro da Mediateca de
Benguela, no domingo, 11de Maio, pelas 15:30 horas.
Propositadamente
enquadrado na jornada de mais um aniversário da cidade de Ombaka, o lançamento
do livro de AIRES DE ALMEIDA SANTOS presta singela homenagem à memória do poeta
benguelense que imortaliza a cidade, principalmente pelo clássico literário
“Meu Amor da Rua Onze”. As entradas serão livres e a apresentação do livro será
feita pelo académico Francisco Soares e pelo Jornalista e escritor Carlos
Ferreira “Cassé”, ambos vindos de Luanda.
Para além do
lado lúdico, que compreende a apresentação formal e recital de poesia e trova,
o livro estará também a ser comercializado ao preço de 500 (quinhentos)
kwanzas. A organização do acto está a cargo dos escritores Gociante Patissa e
MBangula Katúmua, desde já disponíveis para mais informações através dos
telemóveis *******, respectivamente.
Cientes de que
o vosso papel é determinante para a festa, subscrevemo-nos.
Benguela ao 5 de Maio de 2014
O organizadores,
Gociante Patissa
____________________
MBangula Katúmua
domingo, 4 de maio de 2014
Este é o bruto da entrevista conduzida pelo jornalista Crisóstomo Horácio, na reportagem que ouviu Gociante Patissa sobre o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, cujos extractos serviram para a peça sobre o tema no Magazine Diocesano de Benguela, produzido nesta província e emitido pela Rádio Ecclesia Luanda, no dia 04.05.2014
sábado, 3 de maio de 2014
Diário: PEQUENOS "DEUSES DE FUMO"
Os escritores - na lógica de estar a pagar o
justo pelo pecador - são uma "raça" não poucas vezes chata. Imaginam
tanto, inventam tanto que volta e meia se acreditam possuidores de uma dimensão
messiânica. Espero que não a tenha, mas, sendo uma vaidade negar defeitos,
tentem ao menos perdoar-me, caso não me consiga livrar de tal tentação. A mim,
na qualidade de espectador, chega
quase a enojar o narcisismo que se desfila nas entrevistas avulsas ou na
imposição do auto-valor em função de um acumular de prestígio desses
"deuses de fumo". Há quem entre em quase ataque de nervos, não se
poupando de apelar à saúde da sua próstata, pelo simples facto de, em casual
circunstância, encontrar-se na mesma linha do equador em termos de receber
e-mail de agremiação com algum nome de autor recém-revelado, por exemplo. Não
faltam ainda aqueles que se arrogam o direito de qualificar poemas de outrem,
desde que não se encaixem nos seus gostos ou escola, como simples diários ou
letras de kizomba. Há vaidades para todas as despesas, incluindo transformar
menores de idade em críticos de arte, se tal contribuir para publicitar o
núcleo familiar como celeiro de intelectualidade. No outro dia, certo escritor,
que vive as suas ideias e voz no mais veemente e recorrente êxtase, tentava
convencer-nos de que a sua escrita era auxiliada por búzios. Dizia aquele
"deus de fumo" que, em situação de tragédia na trama, ele jogava o
búzio ao chão, cabendo a este artefacto decidir se o personagem morre ou
sobrevive. Quer dizer, como se uma narrativa fosse um amontoado de pequenos
desfasamentos. Tanto show off! A gente escreve, sim; dedica-se mais do que o
cidadão comum, sim; tem imaginação provavelmente mais fértil, sim. Mas, por
favor, isso é um trabalho como qualquer outro. Não é por mal, mas bem que podíamos
poupar a sociedade de carregar para nós tão pesado palco imaginário.
Diário: SÓCIOLINGUÍSTICA DO PASSEIO
Investi metade da tarde de ontem no centro da cidade
do Lobito, deambulando como exercício de "queimar tempo", um pouco
por incompetência de certa agência bancária, onde suportei longa fila até ouvir
que "o colega que atendia Western Union saiu para almoçar, passa mais logo
ou então amanhã". Procurei saber daquela simpática senhora que me atendeu
se o banco fecharia caso o colega estivesse doente, ao
que respondeu, a contra-gosto, que não. Bem, como discutir não me resolveria o
problema, saí ao encontro da celebração da vida que é no fundo o quotidiano, os
diálogos fortuitos e a observação de imprevisíveis fenómenos sociais. Numa rua
da Zona Comercial, passo por duas senhoras, nessa mania muito angolana de
estorvar o passeio. Uma era funcionária (em pé e de passagem), a outra mendiga (sentada, encostada entre a árvore e a parede). Era grande a empatia. A
funcionária elogiava a bebé da mendiga, num registo de diálogo coloquial e
terno, na língua Umbundu, que a seguir reproduzo, ciente embora da poesia que se
perde com a tradução:
“Avoyo, mba wakula!” – Vejam como está grandinha!
“Oco, wakula!” – É, está mesmo grande!
“Omõlã mba ka vala!” – A criança não custa!
“Ocili, omõla ka vala, civala ño imo” – É verdade, o que custa mesmo é a gravidez.
E lá continuei a caminhada com a certeza de que algum troco a funcionária deixaria para a mãe da bebé, sem deixar de especular que o pai da criança, algures na cidade, aguardava pela esposa que faz da mendicidade o posto de ganha-pão.

















