sexta-feira, 8 de março de 2013

ÁFRICA MÃE ZUNGUEIRA

ÁFRICA MÃE ZUNGUEIRA

Esta que se aproxima
carrega uma criança às costas
e outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade

Conhece bem demais a cidade
não tanto pelos monumentos
mas pela necessidade
viandante como a borboleta
fez-se fiel e histérica amante
da lei da compra e venda de porta à porta
uma lei entretanto não prevista por lei
“depender só do marido? Nunca”
mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes
no estômago só o funji do jantar de ontem
sem tempo sequer para escovar os dentes

Lá vai mais uma dobrando a esquina
de pregão firme como a voz do tambor
humilhada aos poucos pelo sol
nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor

Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo
veja esta nos olhos encarnados grita despercebida
uma mulher mal amada
nunca descoberta
rainha de etapas queimadas
ele que devia ser companheiro
é de se esconder no copo
quando os ventos são ásperos
autêntico chá em taças de champanhe
não estar disposta para mais um suor sagrado
é para ele frontal apelo à violência
habituada a levar da cara
odeia a sinceridade do espelho

Por aqui passou mais uma profissional da zunga
protagonista anónima com mil mestrados da vida
contudo não contada na segurança social
para o turista uma espécie de paisagem
rosto de uma noite que lançou a mulher
às avenidas dialécticas dos centros urbanos
no seu dever de sustentar a sociedade
a mesma que a condenará antes de amanhecer
por não participar da vida política
ou por não saber ler
nem escrever

Gociante Patissa, in «Consulado do Vazio», 2008, pág. 28. KAT-Benguela, Angola
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quinta-feira, 7 de março de 2013

Durante um tempo na vida, chateámo-nos por faltar idade - para autonomia e deixar de sofrer certos limites. E chega o tempo em que é a idade, que tanto queríamos, que se torna o próprio limite. GP
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quarta-feira, 6 de março de 2013

MAPA


MAPA
(fragmento)


Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando sou um fluído,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregaram numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado.

Murilo Mendes (1901-1975), in «Guia conciso de Autores Brasileiros», 2002. Imprensa Oficial. Rio de Janeiro, Brasil.
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UM BOM POEMA


um bom poema
leva anos
   cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
   seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
   sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
   três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
   uma eternidade, eu e você,
caminhando junto.

Paulo Leminski (1944-1989), In «Guia conciso de Autores Brasileiros», 2002. Imprensa Oficial. Rio de Janeiro, Brasil.
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Esse punhado de ossos

Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino, como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.
E ai, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos não choram.

Ivan Junqueira (1934), in «Guia conciso de Autores Brasileiros», 2002, pág. 191. Imprensa Oficial. Rio de Janeiro, Brasil.
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Entre as lembranças da participação de Angola na 26ª edição da Feira Internacional do Livro em Jerusalém, onde partilhamos o espaço com Brasil e Portugal, trouxe este...


MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles (1901- 1964) , in «Guia conciso de Autores Brasileiros», 2002. Imprensa Oficial. Rio de Janeiro, Brasil.
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terça-feira, 5 de março de 2013

Um processo mudo

Primeiro a gente cria, cria, cria, até o barro de verdades e sonhos virar texto. Depois a gente caça erros, caça, caça até submeter à editora. Aí, a gente espera, espera, espera até receber aprovação. Depois relê, relê, relê, relê até ao último dia do miolo ir à tipografia. E sai o livro, quando a gente criou tanto, caçou tanto erro, esperou tanto, releu tanto, conhece tanto o livro que na condição de convidado não iria à sessão de lançamento, pois se perdeu o efeito novidade. Só que tal não parece porque, como me disse certa vez o professor Francisco Soares, "o processo do livro é um processo mudo". Gociante Patissa
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Nelo De Carvalho lança neste fim de semana CD "encontros"

Recebi há pouco duas notificações de parabéns pelo agradecimento feito, através do programa 10-12 da TPA, pelo músico Nelo De Carvalho, por lhe ter cedido um poema em língua Umbundu, "Talama Handi" do meu livro de estreia "Consulado do Vazio", que consta no mais recente álbum a ser lançado no dia 9 de Março. Na verdade, já na semana passada recebi parabéns de um amigo que, de passagem em Luanda, ouviu entrevista de Nelo ao programa de Afonso Quintas, Rádio Luanda, na qual também referiu de bom grado a minha colaboração. Eu é que agradeço pelo interesse do músico, contacto iniciado há por aí dois anos pelo também músico (já falecido), Mindo Monteiro. Que venha o disco e viva a solidariedade artística.
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Admiro sempre altruístas, mesmo aqueles que se colocam no centro da causa, brilhando mais do que ela, ou encham o cofre. É tudo uma questão de coragem e metas.
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segunda-feira, 4 de março de 2013

Paulo Tomás e o seu momento infeliz

Estou a ver o programa "Treinador de Bancada" do canal 2 da Televisão Pública de Angola. Com alguma dificuldade na garganta, tive de engolir uma passagem do meu conterrâneo Paulo Tomás, convidado residente. "Acho repugnante os adeptos irem ao campo e o jogo terminar zero a zero". Repugnante um empate? Que desportivismo é esse, ó Tomás, ó Tomas?!
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domingo, 3 de março de 2013

Analogias de Março

"Uma mulher bonita e fiel é tão rara como a tradução perfeita de um poema. Geralmente, a tradução não é bonita se é fiel e não é fiel se é bonita." - Ladislau Fortunato Ladislau
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A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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