quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Tríade da pedra do tempo e da obra




Tríade da pedra do tempo e da obra

 Na madrugada
 acelera-se a pulsação 
no movimento irreversível do tempo 
os fantasmas da responsabilidade cantam
ecoam as lembranças 
é a despedida do repouso


De dia
o suor espalha-se 
pelos poros afora 
na orquestra de quem trabalha 
estradas rasgam-se na curva dos seios 
na nudez do arco-íris 
a vida é infindável caminhada


De noite
o corpo exausto cobra pelo descanso 
os olhos carregados enganam as almas 
que adormecem masturbadas


Ontem foi partida
hoje é caminhada

e o amanhã uma promessa ainda

Gociante Patissa
In «Consulado do Vazio» (KAT-Consultoria e empreendimentos, LDA, Benguela, Maio 2008)
Share:

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Desabafo: Às vezes ladrão é...

Raiva, muita raiva, pelo corrupto e pelo ignorante. O cidadão é assaltado, a vizinhança prende o ladrão, dá-lhe umas bofetadas. Depois se lembra de não fazer justiça por mãos próprias, e informa a polícia. Esta leva o ladrão mais a botija de gás de cozinha como evidência. Na semana seguinte, o assaltado consulta a esquadra, onde há muito o ladrão foi solto - sabe-se lá como. Abandalhos e abandalhos para ter de volta a botija de gás... e já cansado, mesmo porque nestas idas e vindas acabou por levar com duas faltas do serviço, o assaltado decide tudo sozinho... paga 3 mil kwanzas que o polícia exige - porque há muitos processos acumulados e o dele está longe do despacho... Ou seja, uma multa por ter sido vítima de assalto, do qual ficou destruido o televisor. Para piorar, nada registado para formalizar o prcesso. O cidadão é primo meu, que vive no Lobito, órfão de pai e mãe, que trabalha duro para se estabelecer na vida, mais agora que acaba de nascer seu primeiro filho e prepara o necessário para juntar-se à companheira.

Um dia passou-me pela cabeça que "a cidadania é resultado de um exercício permanente de educação e comunicação". Hoje me pergunto: A quantas andamos? Haja contenção...

Gociante Patissa
Share:

sábado, 21 de agosto de 2010

Ponto D'ordem: "os riscos no uso de adjectivos"

Um dos principais desafios para quem exerce o papel de informar, em particular no campo do jornalismo, é conseguir o devido equilíbrio entre “o cidadão e o profissional”, mais concretamente diante de emoções que o assunto noticiado possa suscitar. Daí que, muito inteligentemente, o homem inventasse o “método”, precisamente para mitigar excessos decorrentes da sensibilidade humana.

Toda esta ladainha para uma chamada de atenção a alguns erros básicos, frequentes por exemplo no programa “Ecos e Factos” da Televisão Pública de Angola, que no entanto também ocorrem em outros órgão de informação: o uso de adjectivos.

“Agora vamos passar uma informação triste dizendo que…” “na cidade tal, aconteceu algo triste e curioso”… “Uma notícia não menos agradável”. “Um investimento muito importante”… Claramente, aqui subjaz a opinião do jornalista, viciando à partida o julgamento da audiência.

Se por um lado percebo que a intenção seja exercer o papel pedagógico que o jornalista tem, por outro não é demais lembrar que “os factos falam por si”. Claro, não no sentido radical do termo. Logo, no formato da notícia, o trabalho do jornalista é informar, na base dos factos, e não qualificar/julgar se bom, mau, interessante, desagradável, triste, feliz ou sei lá. É desnecessário, e não é preciso ter formação superior para o perceber.

Os adjectivos devem ser de uso excepcional, lá dizem os manuais de redacção. É que - e não sou eu quem o diz - “Na literatura, como no jornalismo, um adjectivo é a prosa tomando partido”.

Gociante Patissa, Benguela 21 Agosto 2010
Share:

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

PARA (MUITO) BREVE: LANÇAMENTO DO LIVRO DE CONTOS "A ÚLTIMA OUVINTE"


Superados os contratempos que impediram o lançamento em Junho, o book poderá estar nas bancas nos próximos dias. É apenas uma questão de acerto de agendas. 


Como nunca é demais, retomo a nota de justificação da editora, emitida em Junho último.


"A UEA pede desculpas a todos pelas expectativas criadas, mas, ao contrario da promessa que nos foi feita pela Odebrecht/Angola de termos cá no pais o livro do nosso membro Gociante Patissa, A última ouvinte, antes da realização da conferência de Benguela, tendo sido para o efeito programado para ser lançado neste evento, acabamos agora de receber terminantemente a notícia de que o lote de livros no qual o mesmo consta ainda não está, e nem estará nos proximos dez dias, nos armazéns de Luanda da referida empresa. Então, a UEA pede que cancelem o programa do lançamento do referido livro, lamentando qualquer anomalia que possa ter causado na programação geral do evento, mas trata-se de um aspecto que foge completamente da nossa vontade e controle".


Esperem só mais um pouquinho, ya?!... Muito obrigado.
Share:

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Várias semanas para 3 páginas

Possas!!! Há semanas que não conseguia os quatro parágrafos (literalmente) que faltavam p terminar um conto de 3 páginas. Pareço um adolescente!!! Que sensação agradável no fim do ciclo de criação, essa combinaçáo entre a imaginação e o esforço....
Share:

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Uma palavra que se impõe pelas mudanças no Programa "Atracções" da TV Record em Moçambique

Através de "parabólica" que minha irmã tem instalado em casa, é possível acompanhar (parcialmente) a vida do país irmão de expressão portuguesa, Moçambique, por via do sinal da TV Record local. Assim, é com muita satisfação que notamos as mudanças operadas no programa "Atracções", emitido em directo entre 16-18 horas  (horário angolano), que tinha como característica principal a "fervecência" do apresentador, Fred "dos beefs". Mas de uns dias a esta parte, tem um novo apresentador, Stwart, com créditos firmados enquanto músico. Com um ar mais "maduro" e cenário de estúdio, o programa parece ter achado o seu caminho, sobretudo com música ao vivo à base de improviso - logo aí uma vantagem ter um guitarrista como anfitrião. Na edição de hoje, 18/08/10, os convidados foram Hortêncio Langa e Tanya. E uma coisa invejável, os moçambicanos parecem ter bué de orgulho em cantar suas raízes, nas suas línguas. Claro, sem exclusão de estilos musicais mais "recentes". Eis uma inteligente forma de promover a cultura. Força! Gociante Patissa




Share:

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Há quatro anos, nascia o blog Angodebates


Nota: O Blog chamou-se Debates Contados (www.debatescontados.blogspot.com), influenciado na ocasião pelo programa de opinião/debate sobre cidadania e saúde preventiva "Viver para Vencer", que o editor realizava e moderava a título freelance através da Rádio Morena Comercial. Só em Outubro de 2006, dois meses mais tarde, viria a ganhar a denominação Angola, Debates e Ideias (www.angodebates.blogspot.com). De lá para cá, mudou-se de visual umas três vezes. Nas linhas que seguem o "manifesto de fundação", no qual me revejo integralmente volvidos quatro anos, tanto assim que o apresento intacto (incluindo as gralhas).

Homens são vontades!!!

Depois de ter tido a oportunidade de publicar textos em páginas de amigos e não só, nunca mais parei de exigir de mim o dever de contribuir. A ideia de criar esse blog pode ser semelhantes a muitas outras (idiotas, talvez), mas que ajudam a fazer alguma coisa nesse mundo. Mais do que simples ilusão apaixonada, ao longo dos temp0~s os blogs têm sido uma importante ferramente na promoção da mudança sociail. Fico mais contente porque não estarei a dizer novidade para ninguém.

Vou lançando, hoje, agora, a minha primeira pedra. É um blog que se pretende pacífico, participativo, apesar de "íntimo", ou seja, misturar doses moderadas de debate cidadão com contos e provérbios, no fundo sevir como o bloco diário de apontamentos desse vossomeu/ amigo. A ideia á fazer desse canto um espaço sem limites, quanto mais não seja de língua. Que as diferenças nos juntem, mais do que afastar. Se você é mulher, homem, fala que língua for, isso não deve estar em primeiro lugar. Vale sempre a intenção.Volto daqui a pouco.

Aliás, cada hora é certa para lançar a nossa primeira pedra construtiva nessa obra chamada mundo.Há sempre algo a fazer, para quem tem vontade para tal. Comente, critique, escreva, leia. Só não se esqueça que "é má ideia não ter ideias"
Eu
Share:

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Opinião: O Clube de Imprensa e o poder da ideia



Confesso desconhecer os estatutos do Clube de Imprensa de Benguela (CIB), o que, porém, não impede que um ou outro cidadão possa partilhar ilações a seu respeito.

Vêm estas linhas a propósito das iniciativas do CIB, desde que tomou posse o corpo directivo saído da assembleia de 2009, que tem à cabeça o jornalista (da Televisão Pública de Angola) Eugénio Ferreira.

Depois de há poucos meses promover o “café de ideias” com jornalistas em torno do combate à poliomielite, numa parceria com o Ministério da Saúde e a OMS, ontem foi a vez das artes plásticas. No salão da Rádio Benguela, fazedores de arte, jornalistas e estudantes reuniram-se em palestra, outra parceria do CIB, desta vez com o Núcleo de Jovens Pintores – vencedor do Prémio Nacional de Cultura e Artes da categoria, edição 2009.

Se é ou não o que os jornalistas esperam do seu clube de especialidade, ou da “rapaziada” a quem confiaram o seu comando, ninguém ainda veio a público manifestar. Indiscutível mesmo é a relevância de tais eventos, que acabam por reforçar a oferta no que toca a oportunidades de intercâmbio, por uma sociedade mais esclarecida e participativa.

É claro que o CIB não é uma instituição embrionária, mas seria claramente suicídio institucional – permitam-me os termos – dar continuidade ao legado da direcção cessante sem humildade. E é neste aspecto que a actual direcção tem revelado, a meu ver, a fórmula eficaz. A título de exemplo, para além da colaboração dos órgãos de comunicação social na divulgação dos eventos, a direcção reforça com telefonemas e mensagens de convite. E geralmente, seguem-se telefonemas e mensagens de agradecimento pela participação. Parece que preferem investir os parcos recursos na comunicação personalizada a servirem champanhe, café, chá ou bolinhos à plateia. Como, aliás, diz a sabedoria popular, “cada um estende as pernas na medida do lençol”.

Numa das crónicas deste Blog, escrevi há tempos o seguinte:

Na minha condição de mobilizador comunitário e activista cívico (há dez anos ligado à uma pequena ONG nacional), julgo que os movimentos juvenis devem ter, mesmo até pela sustentabilidade e/ou visibilidade, uma preocupação no sentido de criarem factos e acções. E ali, é preciso aguçar a visão para se continuar a ter acções regulares com ou sem (big) fundos. Às vezes, ignoramos o impacto que pequenas acções podem desabrochar até mesmo no âmago de quem já está connosco.

Gociante Patissa, Benguela 13 Agosto 2010
Share:

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Passatempo: resolvendo a prova de admissão para técnicos médios do Ministério da Justiça

Nota: O Angodebates partilha em jeito de passatempo o essencial do que foi a prova de Língua Portuguesa de admissão para técnicos médios de 3ª classe do Ministério da Justiça, que se realizou-se há meses em Benguela. Quer arriscar? GP
 .............
TEXTO
O cântico suave, dolorido, nascido na lagoa verde ao lado do prédio em construção, subiu um tom na escala. O prédio já tinha inquilinos, vindos não se sabia de onde. Primeiro, foram os andares de baixo a ser ocupados. Como não tinham paredes completas, puseram cartões e contraplacado. Improvisaram escadas, pois a principal não estava acabada. Um dia apareceu um apartamento iluminado. Tinham feito uma puxada do posto eléctrico da rua. Mais gente sem abrigo foi atraída pelo prédio. Mais apartamentos foram ocupados. Ao lado, a lagoa ia crescendo, os peixes também. Diziam os entendidos, os cacussos daquela lagoa eram mais saborosos que os da Funda. Eu juro nunca provei. Uma criança caiu do quinto andar e se afogou. Três dias depois o corpo foi encontrado. Veio notícia no jornal. E de repente a cidade descobriu que o prédio estava ocupado até aos andares de cima, para os quais se conseguia ir, arriscando a vida em escadas improvisadas. Havia tanta falta de residências na cidade que nenhuma autoridade teve coragem de ir desalojar as pessoas. Atirá-las para onde? Mais apartamentos tinham agora luz eléctrica. Ao lado, na lagoa, o cântico soava mas ninguém ouvia, nem mesmo os jornalistas que foram cobrir a descoberta da criança afogada. Mas ele estava lá, desde há muito tempo, quem sabe mesmo desde o princípio dos tempos. Reconheço agora, com a inútil sabedoria da velhice. Inútil, porque é como o cântico, só se ouve tarde demais. (Pepetela em O DESEJO DA KIANDA) 

Parte II (do enunciado, cotado em 10 valores ) 

5- Diga por outras palavras a expressão “Tinham feito uma puxada do posto eléctrico da rua”; “Foram cobrir”. 
 6- Dos substantivos “prédio”; “cidade”; “peixes”, derive uma palavra.
7- Atente ao período: “Reconheço agora, com a inútil sabedoria da velhice.”
a) Escreva o período com o verbo no condicional.
b) Com o verbo na primeira pessoa do plural, escreva o período na voz passiva.
c) Classifique morfologicamente “sabedoria”.
d) Qual é a função sintáctica de “agora” na oração? 

Parte III (do enunciado, cotado em 5 valores )
- Desenvolva um dos seguintes temas, sob o ponto de vista crítico
“Funcionário público e atendimento público” 
“Serviços do Ministério da Justiça

PS: O enunciado a que tivemos acesso não indica o nome da pessoa que elaborou a prova.
Share:

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Foi-se o frei João Domingos, outra voz que fará muita falta à democracia angolana

Morreu esta manhã (09/08/10) em Lisboa, o Frei dominicano, João Domingos, vítima de prolongada doença. João Domingos notabilizou-se em Angola, onde trabalhou longos anos, pela consistência e a frontalidade da sua mensagem social. Calou-se uma voz poderosa em defesa de uma Angola mais justa. Foi-se o Frei dos Pobres!

Texto e foto do Blog Morro da Maianga:
http://morrodamaianga.blogspot.com/2010/08/morreu-o-frei-dos-pobres.html

Nota: de um pupilo do finado chegou-nos por e-mail texto de homenagem, o qual partilhamos. Angodebates.

FICA O LEGADO! (Adeus ao Frei?)
Estava a almoçar, soou o meu telefone, desses que agora vai connosco para todo o lado, o telemóvel: boa tarde irmão Roque, olha, morreu o nosso Padre, o Frei João Domingos, ouvi agora pela Ecclésia!

Por um instante, os meus pulmões prenderam a respiração, meus olhos espremeram umas lágrimas, que desajeitadamente não escorreram, minha voz ganhou coragem e perguntou: mas como???!!! Uma pergunta que nem eu próprio sabia que resposta pretendia. Depois a ambivalência emocional se apoderou de mim, pois queria chorar e não podia, estava a gritar mas não se ouvia... então saí do refeitório, buscando alguém com quem partilhar a dor, já que dor partilhada, dizem ser menos dor. Infelizmente, a dor se foi multiplicando, pois, com cada um com quem partilhava, crescia o sentimento de perda e de orfandade, de que a nossa sociedade foi remetida.

Talvez para atenuar a dor, agora devêssemos nos lembrar da falta que ELE nos vai fazer, mas assumir com responsabilidade o legado que nos deixou. Chegou a hora, a hora de sermos, aqueles "de quem se espera", semente lançada há quase duas décadas por ESSE ARAUTO da justiça social, que doou sua vida em favor da melhoria da qualidade de vida dos seus Manos, como ELE próprio gostava de se identificar.

Frei João Domingos, um nome que se escreve com qualquer letra, qualquer palavra, pois, ELE era assim, tal como o vento, cabia para todos! Talvez eu esteja aqui a escrever algumas incongruências, não sei, mas assim, talvez compense o facto de não estar a conseguir falar com ninguém dos meus irmãos, esses filhos do Frei, como nos tratavam carinhosamente, por nos ter educado com tanto amor, dedicação e carinho inarráveis... não estou a dizer adeus ao Frei, estou apenas a convidar-vos para fazer parte desta minha vontade de gritar, chorar, arranhar os céus, implorar que o mandem de volta!

Frei João Domingos, ou também o Mano mais velho, trilhou connosco estes caminhos não andados, desbravou os corações endurecidos e presos aos desajustes sociais e construiu uma passagem pelo mundo, que ficará indelevelmente marcada em nossos corações, esses pobres corações, ora despedaçados, flagelados pela dor insuportável da perda do caminho à seguir!


Parece que quanto mais escrevo, na esperança de me dar conta de se tratar apenas de um sonho, mais me dou conta de que o HOMEM que me ensinou a usar a epiqueia nas minhas decisões, ESSE HOMEM Grandioso, acabou, com mérito, sua passagem física pela terra, resta apenas saber se seremos dignos de ficar com seu legado!

Frei João Domingos, eu sou uma pessao feliz, pois por Si e consigo, acabei por me tornar um pouco melhor! Obrigado! Viverá sempre que formos capazes de buscar a justiça nas nossas relações com nossos irmãos, filhos do mesmo criador!


Roque D’Oliveira, Luanda, 09 de Agosto de 2010 
Share:

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Subsídios ao debate: "KUDURO. AfroHipHop de periferia", por Spírito Santo

Nota: O artista brasileiro e investigador multifacético, Spírito Santo, nosso parceiro e amigo, dá um interessante  contributo à percepção do fenómeno Kú-duro, cuja amostra publicamos agora. Por dificuldade técnica em manter os anexos, recomendamos à/ao nosso/a leitor/a a conferir o artigo na íntegra, clicando em http://spiritosanto.wordpress.com/2009/12/03/kuduro-afrohiphop-de-periferia/ .  Realçamos, não representa necessariamente a opinião ou a visão do editor do Blog Angodebtes. 



Existe uma polêmica bizantina no âmbito da musicologia acadêmica que divide, de um lado os ‘Tonalistas’ (os que afirmam que existe um sistema musical moderno e avançado, criado por sumidades burguesas européias, entre os séculos 17 e 19, supostamente, superior à uma música ‘primitiva’ praticada pelo resto do mundo) e, de outro lado, os ‘Modalistas’, aqueles que acreditam que a música, surgindo de um fenômeno físico elementar, está subordinada apenas à determinadas leis da natureza, condição a qual estão expostos todos os seres humanos, sem qualquer distinção.


Realmente, se na natureza nada se cria, tudo se transforma, enquadrando a música neste contexto, poderíamos compreendê-la sim, como um fenômeno caracterizado pela relatividade, num âmbito onde, a rigor, não existiria qualquer possibilidade de haver modernidade, primitivismo, ou qualquer outra instância de temporalidade, nenhum certificado de superioridade para quem (ou para o que) quer que seja.


Como música é também sinônimo de ritmo, movimento (tudo que ouvimos se move e nos move), obviamente, o mesmo raciocínio poderia ser utilizado para se definir Dança. Música e Dança, seriam assim, fenômenos circulares, como galáxias, nas quais tudo circularia em torno de um eixo (elemento que os tonalistas odeiam de paixão) no caso, uma freqüência, uma nota (ou um gesto) agregadora de outras, como um sol agregando planetas, numa lógica sistêmica, quântica, harmônica enfim.

Toda esta conversa fiada – e, aparentemente, maniqueísta – é apenas para introduzir o tema que o blogueiro e Dj Lucio K, chamou de Ritmos de Periferia, Kuduro, Kwaito, Grime, e outras elétricas bossas afro-pops, hoje muito recorrentes e prestes a se tornar fenômenos universais.
Estamos propondo também, neste mesmo sentido, que o tema Kuduro e afins, seja discutido aqui, despido de todas as suas máscaras modernistas ou do esperto – com o perdão do trocadilho – bunda-molismo fashion daqueles argutos formadores de opinião, que ficam esperando de plantão, alguma nova onda surgir, para dela se tornarem os pais descobridores.
Em terra de cego…
——————–
O vírus na maçã.

A chamada Cultura Pop sempre foi gerada no caldeirão fervente das periferias. Obvio ululante. Mesmo a cultura HipHop, este emaranhado de atitudes sócio culturais atribuído à juventude desvalida das grandes metrópoles norte americanas, pode ser descrita, coerentemente, como o ovo do futuro, gerado no mais remoto e desprezado dos passados. Pura relatividade, portanto  (...).
—————-
O Kuduro e nós. Teria mesmo algo a ver?

Ku, palavra e não palavrão, parece vir do mais puro vernáculo do Kimbundo (MataKu=nádegas, assento plural de ritaku), principal língua falada em Luanda, Angola (da qual falamos centenas de vocábulos, sem saber – inclusive Ku, certo?) O sentido figurado da palavra é, exatamente, o mesmo que usamos no Brasil: Bunda (palavra aliás, oriunda também do mesmo Kimbundo), literalmente traduzida para o portugês também como nádegas (...)
———————–
Kuduro Checkup

No Kuduro angolano – e vejam vocês mesmos que coisa curiosa! – os passos do mix, da fusão com o break, são o mais puro e carioca dos Sambas. Incrível! Acreditem, mas, os Pupilos do Kuduro, e outros kuduristas , quando em conjunto, dançam, quase exatamente, o que a nossa Ala dos Malandrinhos dançava lá naqueles bem passados anos 60. Os braços e as mãos dançam break, mas, da cintura para baixo, bundas e pernas dançam o mais desbragado dos Sambas. Pode? (...)
———————-
Inside the Kuduro (em português não ficaria melhor não)

Senão vejamos: Em todos os gêneros citados (entre outros), a alma do negócio é um som de caixa e contratempo. É esta a célula rítmica base, a matriz, o DNA, sobre o qual se criará os sons que bem entendermos. Poderia ser um humano baterista lá no fundo, marcando a batida, mas, fica bem mais econômico usar um som gravado.

No caso do Kuduro clássico (como ocorre com toda coqueluche pop, as distorções e deformações aparecem rapidamente), a batida copiada (sampleada) parece ser o que se chamava nos anos 70, 80 de Kabetula, um ritmo muito popular em Luanda, semelhante ao Semba, do qual talvez seja uma variação (uma outra corrente afirma, contudo, que o Kuduro é uma variação do Kuzukuta, ritmo popular do carnaval angolano).


Como, facilmente, se pode notar, o mundo roda enquanto a cultura das periferias gira, circula, como um bambolê. Somos do Overmundo, o pá! O Bicho, o vírus da maçã. Y love you Angola!


(Em tempo: Em terra de cego, quem tem um olho, infelizmente é… caolho.)

Share:

Parábola: "À espera de outra chuva, que fecunde os frutos desejados"

O sentido da palavra: contaram-me há já umas décadas o imbróglio de uma jovem rapariga com a família do marido. Acabava de nascer o terceiro rebento do casal, o que em número representava êxito na função pró-criativa, um dever cultural muito relevante para os africanos, pelo menos os de origem Bantu. A tristeza porém residia no capítulo "sexo". Ou seja, três partos, três meninas. E cada parente do marido que fosse saudar o recém-nascido não disfarçava o "azar": «Outra vez menina, ó cunhada?». E a noiva, que como várias outras "casou numa família" conservadora nestes aspectos, foi respondendo apenas com um «yá...». É provável que tenha surgido alguém com «parabéns!» sinceros, mas a maioria transparecia frustração, o que a dado momento se tornou insuportável  E não tardou a resposta: «o esperma do tal pai só chegou mesmo para fabricar menina!!!»... E foi tomada por grande ofensa.

Ou como diria o poeta...

As margens
Do rio que tudo arrasta 

se diz que é violento
Mas ninguém diz violentas 

as margens que o comprimem.
BRECHTii (In http://www.uea-angola.org/artigo.cfm?ID=880)

Gociante Patissa, 5 Agosto 2010
Share:

terça-feira, 3 de agosto de 2010

(Arquivo 2007): Obrigado, senhor agente, é essa a polícia que queremos

Trânsito ajuda vendedora ambulante (zungueira)

Cidade de Benguela, 14/09/07: Um agente regulador de trânsito da polícia nacional destacado no cruzamento da Naipe, como é vulgarmente conhecido, tomou a liberdade de revolucionar um pouco a sua forma de actuar, no início da tarde desta quarta-feira: perante um trânsito incomodado pela lama da chuva da noite anterior, o agente abandonou a pinhanha e, num gesto ímpar, via-se, de vez em quando, o agente suspender a marcha das viaturas para permitir a travessia de vendedoras ambulantes, as quais acompanhava com a mão no ombro, num gesto típico de “irmão mais velho”.

Esse gesto pode, aparentemente, ser irrelevante para muito boa gente, menos para aqueles que acompanham com preocupação a dificuldade que os nossos vendedores ambulantes enfrentam no seu dia a dia, quanto mais não fosse pelo risco de atropelamento, sobretudo em áreas sem passadeira de peões como tal.

Numa sociedade como a angolana em que a relação entre vendedores ambulantes e agentes da ordem é conhecida principalmente por alguma violência e usurpação de haveres, é de todo justo merecedor de um grande elogio esse gesto. Portanto, muito obrigado, senhor agente, é essa a polícia que queremos!

PS: na ressaca das festividades da mulher africana. GP
Share:

A Voz do Olho Podcast, EP1, Temp 2

Gociante Patissa recita poema "Alugam-se velhos" na RTP África

A Voz do Olho Podcast

[áudio]: Académicos Gociante Patissa e Lubuatu discutem Literatura Oral na Rádio Cultura Angola 2022

Puxa Palavra com João Carrascoza e Gociante Patissa (escritores) Brasil e Angola

MAAN - Textualidades com o escritor angolano Gociante Patissa

Gociante Patissa improvisando "Tchiungue", de Joaquim Viola, clássico da língua umbundu

Escritor angolano GOCIANTE PATISSA entrevistado em língua UMBUNDU na TV estatal 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre AUTARQUIAS em língua Umbundu, TPA 2019

Escritor angolano Gociante Patissa sobre O VALOR DO PROVÉRBIO em língua Umbundu, TPA 2019

Lançamento Luanda O HOMEM QUE PLANTAVA AVES, livro contos Gociante Patissa, Embaixada Portugal2019

Voz da América: Angola do oportunismo’’ e riqueza do campo retratadas em livro de contos

Lançamento em Benguela livro O HOMEM QUE PLANTAVA AVES de Gociante Patissa TPA 2018

Vídeo | escritor Gociante Patissa na 2ª FLIPELÓ 2018, Brasil. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

Com tecnologia do Blogger.

TV-ANGODEBATES (novidades 2022)

Categories

Tags

Publicações arquivadas