Os ingleses tinham motivos para chorar. Também eu.
Naquele início de Setembro por Londres num roteiro de dez dias em capacitação, a gente ia decidida a não abrir mão de ser a gente: turistas incorrigíveis, mais chapéus e óculos de sol do que guarda-chuvas, com direito a assistir a uma partida de futebol no estádio do Chelsea, acenando com bandeirinhas de Angola e tudo (e não é que para nos bajular os rapazes, que iam abaixo do sexto lugar em 2022, até venceram por dois a um?). Só alegria! Mas então se até a polícia de cavalaria se pôs a jeito para caber na foto, toda rendida à aura mwangolê da vez...
Ainda no aeroporto, concretamente na fronteira, é que se via o exemplar-mor da boa hospitalidade. E não é que aqui o cidadão não tivesse sido fiel à sua faceta de trapalhão, com a proeza de comprometer a sorte de toda uma missão em terras de sua Majestade Isabel II.
Ao agente de migração respondi formação. O visto dizia visita em turismo. Questionado sobre o local da hospedagem, a minha boa memória não me deixava em mãos alheias. Íamos ficar onde mesmo? Bem, senhor agente, os meus colegas é que sabem, é que somos um grupo. Do hotel e seu paradeiro não fazia ideia rigorosamente nenhuma de um dígito que fosse, receita pronta para a recusa da entrada e aquele carimbo no passaporte que é um chamariz da desgraça.
Nessas horas a pessoa quase que aplica uma auto-bofetada, mais a mais em se tratando de um ex-profissional de aviação civil com uma década de indução em acolhimento e segurança aeronáutica e toda a carga repetitiva que são os procedimentos contra as não-conformidades.
E nem é preciso seguir grande espragata mental para bordar conclusões, bastando lembrar o que aprendemos diariamente com o elementar dos documentários via National Geographic. O silogismo fica à mão de semear: se a resposta oral contradiz o que vem escrito no visto ou se é turista mas não dispara na ponta da língua o destino, logo... E lá o agente investia uns instantes, que sabiam a uma eternidade, a conferir a tela do computador. Levantou a cabeça e carimbou o passaporte, como era de esperar. Sorrisos e… Welcome!
Depois dessa, que não foi nada inédita em quesito de surpresas, o mundo que aprenda: entre mim e a Grã Bretanha ninguém meta a colher. Para todos os efeitos, importa salientar (aqui pedindo por empréstimo a muleta verbal do jurista) que estamos afinal a falar do regresso de sua excelência eu, volvidos sete anos. Senão recuemos até 2015, como reza a prova dos nove.
Ia o amigo Neto Muhindo carregar o botão da minha Nikon D3100 quando uma simpática e animada londrina (caucasiana na casa dos trinta, de casaquete cabedal preto a condizer com a cor dos ténis, calças jeans azul, cabelo curto e sorrisos de marfim) largou o parceiro dela com quem vinha de braços dados. Encostou-se a sua excelência eu que posava para a foto de turista, sob o olhar da estação de comboios ao fundo, o que lhe valeu o banho de sorrisos simpáticos do modelo, do fotógrafo e do seu homem, com quem aliás seguiu caminhando.
E não podia ser mais memorável aquela espontaneidade na quebra de protocolos da lady, o que só enriquece o sentido cosmopolita humano, tão marcado por diferenças e estereótipos. Afinal, os ingleses até conseguem não ser tão frios. Assim já vão dizer que é feitiço do Dombe Grande ou então é sangue doce de quem nasceu em terras de abundante abacaxi como só Utwe Wombwa (Monte Belo), a cem quilómetros de Benguela sede.
Voltemos a 2022, frenesim de uma cidade cada vez mais amiga da caminhada, colorida, diversa, repleta de monumentos e manifestações, por isso tão apelativa para quem se dedica à arte de fotografar. A época do ano em que as grandes cidades ocidentais já não estão tão superlotadas de turistas e afins, como no verão, convida-nos a apreciar a transformação subtil que toma conta do meio. A rotação climática sugere a magia do outono, aquela estação que nos leva a reflectir sobre a fugacidade da vida e a apreciar a beleza efémera de cada momento.
Enfim, quando menos se esperava, o céu despencava sobre a nossa carapinha. A Rainha Isabel aparentemente faleceu, contava consternado um citadino geralmente bem informado (aqui para recorrer à muleta do jornalista manhoso), que acabava de receber um furo à hora do almoço.
Ouvia-se a imprensa na sua globalidade a preparar a nação para uma comunicação a ser feita logo mais no noticiário das oito da noite, com a admirável observância do princípio ético do embargo da notícia. Constou que neste ínterim, certa proeminente figura da sociedade chegara a confirmar nas redes sociais a morte da Rainha, mas pouco depois recuaria e apagou o post. E dali em diante, Londres já não voltou a ser a mesma, luto e luta no Palácio de Buckingham.
Fechado o capítulo Reino Unido, era chegada a minha vez de chorar o óbito chamado crise do mercado imobiliário português. Vinha para dois anos sem naquele momento ter o essencial garantido, um lugar para morar. O alojamento temporário na hospedaria mais próxima da Universidade, para além de ferir o bolso, sucumbia face a tanta reserva a médio prazo.
E o telefone local? Olha, sem NIF (número de identificação fiscal) não vai dar. Se talvez o senhor tiver uma factura de água ou luz para comprovar a morada, aí sim. Resolvido, com recurso a morada sem nela morar propriamente. Então e o cartão escolar? Este é acoplado à conta bancária, que não se abre sem o NIF. Em caso de emergência? Bem, o atendimento no serviço de saúde público é mediante o número de utente, que não se consegue tratar com menos de noventa dias de permanência no país e sem NIF. Como tratar o NIF então? Ah, é simples. Precisas de um cidadão português ou residente. A pessoa faz o agendamento via telefone e no dia marcado, que pode levar um mês a julgar pela alta procura, dão entrada da papelada. E onde encontrar essa pessoa, uma vez que o visto é de estudante, sou adulto e pelo visto sem babá?
Na teimosia saiu um call center das Finanças e a pessoa que atende admite a possibilidade de vigorar uma lei que permite a estudantes, sem interesses económicos, obterem o NIF. Mas aqui na grande Lisboa, disponibilidade só mesmo na primeira semana de Dezembro. Nunca é demais lembrar que vamos na primeira quinzena de Setembro. Mas a senhora poderia verificar se a nível dos municípios do interior haveria disponibilidade? Um momento. Alguns minuto depois, olhe, daqui a quinze dias vejo vaga na Batalha, às onze e meia.
No dia marcado levanto-me muito cedo e conhecendo o país como conheço a estratosfera, resta à pessoa chamar os serviços de transporte por aplicativo, que por vocação cumprem o duplo papel incluindo o de guia. A conta é alta, passa dos cem euros. Eles até comparecem, mas cancelam mal lhes é anunciado o destino. Para a Batalha são para aí cento e cinquenta quilómetros. O último negacionista do meu louco desejo burocrático é piedoso, oferece-se a me deixar na estação de autocarros onde pegaria um para Leiria. O NIF era o meu zénite.
Em Leiria, outro táxi por quase dez Euros para Batalha onde me apresento confiante na Loja do Cidadão à hora agendada pelo call center, pouco antes do meio-dia. Redondamente enganado. Não constava da lista. Mas vá lá, fale com a senhora do balcão a ver o que se passou. Fome, sono, frustração passam a ser o meu sobrenome. Explico à senhora, digo que vou de Odivelas (mal imagina que é casa de um colega).
Depois de tanta demora, a senhora volta e pede mais documentos. Entrego a resma toda, carta de admissão da universidade, extracto bancário, certificado estampilhado pelo Mirex e autenticado pelo Consulado deles em Luanda, enfim. Lá vem a chefe da senhora com mais uma bateria de perguntas e no final me dizem que afinal eu já tinha um NIF, só que provisório, a partir do momento em que, ainda à distância, abri conta bancária numa agência com ligação a a Angola. Mas fosse como fosse, aquele também era um NIF já descontinuado.
O senhor vai sair daqui com o NIF hoje, antigamente levava mais tempo, agora a lei já está mais facilitada. Só que a residência que fica registada é a do seu país de origem, enquanto não sair o seu cartão de residente. Para ser franco, já naquele ponto não sabia decifrar o que sentia a não ser um profundo estado de vulnerabilidade. Meia hora depois me era entregue o papel.
Poderia dar-me o vosso livro de sugestões? Tomei a liberdade, para a perplexidade dela. A senhora foi tão humana no atendimento que a minha consciência exige deixar isso escrito, tendo em conta que se me tivesse atendido mal, faria reclamação. A profissional, ainda apanhada de surpresa, voltou a ir ter com a chefe para comunicar o insólito. A seguir localizou no fundo do baú o formulário de louvor, o qual preenchi com gosto. E assim começava a vida... com NIF.
Gociante Patissa | 15 Julho 2023
https://www.jornaldeangola.ao/ao/noticias/a-vida-comeca-depois-do-nif/
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