domingo, 6 de maio de 2018

Crónica | Redesenhar as arestas do destino

Encontrei-o, bem dizer reencontrei-o, fortuitamente (em prazer dá no mesmo), com os amistosos ares de sempre, nem lhe envelheceu o sorriso terno. Não nos víamos vai por aí coisa de treze anos. Está mais gordinho, barriga saliente, alguém o conotaria com descuido mas... que moral tenho eu neste quesito, não é mesmo?

Fazem-lhe companhia de mesa farta alguns amigos e uns recipientes de espumante tranquilizador em latas, umas amarelas, outras pretas. Cuca. Ah, é bom não esquecer a exclamação no fim da palavra. Levanta-se para o abraço, mal me contenho para não dar com a língua e pedir que se mantenha sentado. De trôpego à queda não é muito grande a distância. Adianto os passos ao menos, disfarçando um voluntariado de quem oferece apoio. Ele sorri, algo reticente, como se as palavras se congestionassem à saída da boca.

Tem tudo o que rareia em um ébrio. A memória linear, a modéstia, a falta de contumácia, o falar por meio de pausas, o saber ouvir. Bate-me no peito, gesto de quem vê na empatia maior eloquência que nas palavras. Você é um batalhador, mereces estar onde estás, diz ele. Completo que ele também batalhador é, que faz parte da caminhada. Vêm-me à memória os tempos de sonhadores jovens, quando ele nos atendia, sempre respeitoso, num Cybercafé que ficava no Mercado Municipal do Lobito, no tempo das disquetes.

Ele logo rebate. Tu batalhaste sempre mais, meu mano, já se via naquele tempo vocês a andarem de um lado para o outro, cheios de ideias. Tenho medo de o desapontar, não lhe digo que estar onde estou não sabe bem a elogio, que o vôo ainda nem levantou. O seu aspecto indica, provavelmente, um grau de barreiras sociais maior que a minha cruz. Continua a escrever muito, mano, recomenda ele. Tenho a certeza que outras realizações estão ainda por vir, agora profetiza. Tudo o que faço resume-se em acenar, com vénias à mistura, ao poder de suas palavras.

Não podiam calhar em altura mais emblemática, justo naquele momento da vida em que ela, a própria vida, entendida como deslindar o futuro, revela uma prioridade nova, nova até nem tanto, embora nunca merecesse lugar privilegiado na lista de prioridades. Deixou o cais o barquinho da conquista, o propósito é promissor mas de alcance remoto. Mais uma vez, sou chamado redesenhar as arestas do destino, com ajuda do próprio destino, é certo, não vá eu ser ingrato às forças da metafísica coincidência.

Para todos os efeitos, a bússola prevalece: ainda não sou a pessoa que nasci para ser nem estou no lugar que nasci para estar. Um dia reforçou outra alma na derme entranhada, "never settle", nunca te acomodes. Navegar já se fez inadiável, inadiável como o tesouro a arrebatar na outra margem dos sonhos. O quando da questão já não é a questão. Ventos e marés desfavoráveis ao itinerário da vela? Ah, se fossem os primeiros...

www.angodebates.blogspot.com | Gociante Patissa | Catumbela, 04 Maio 2018
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