PONTOS DE VENDA

PONTOS DE VENDA
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Crónica | Homólogo, eu?!

O pai, meu e de mais umas duas dezenas, foi dono de um apurado sentido de precisão. Um dom. Na verdade tinha vários outros. Raramente usava o novelo, ou o prumo, ou a régua das vezes que o vi envolvido em construção civil. Guiava-se pelo olho só. De todas as habilidades, a maior graça nele residia no jeito natural para actor. Poderoso dom da palavra, um narrador, melhor que isso, tecelão. Havia sempre qualquer coisa mais nas palavras, um tempero que as enchia de cor, de vida própria dentro ou fora da frase. Eu vi-me, adolescente mais ou menos precoce, na necessidade de pedir tradução.

As ligações para a comuna da Kalahanga, onde era o velho o primeiro cidadão no aparelho da Administração do Estado, faziam-se a bordo de camiões de lenha e carvão, cujas guias de marcha dactilografavam-se lá em casa. Na véspera de cada viagem, dizia ele assim: «Por estas horas, o almoço hoje é na Kalahanga». Ora, eu então entendia que ele iria almoçar à Kalahanga mas voltaria no mesmo dia, já que nada disse do jantar. Ou seja, que lógica haveria em ressaltar o almoço quando se vai lá passar mais de um mês?

Cada alegoria, cada metáfora, cada mobilização política faziam do homem um tecelão. Os ciclos seguiam-se. Guarda-costas confundiam-se nos direitos com os rapazes mais velhos da casa (um deles, da primeira vinda ao bairro Santa Cruz, receberia a mais insólita das ordens. «Então, passou bem a noite?» E ele: «Não, chefe.» Mas porquê? Inquiria o velho. «Muito mosquito, chefe». Ora, «Tu não és tropa? Faz tiro!» Nós era só rir).

Os camiões deixavam para trás vários dias de saudades e incomunicabilidade. Outra via não havia senão a da carta trazida ao bolso aleatoriamente por carvoeiros, sem data de chegar. Aos 12 anos, mais coisa, menos coisa, só podia ser violência contra a criança ter de ler aquilo dos beijos, e saudades, e te amo muito, e estas e outras intimidades às esposas dos tropas e guarda-costas, cujos maridos se esqueciam da condição delas de iletradas.

Meses depois lá estava o pai de volta ao conforto do lar, embora já soubéssemos que boa parte do tempo seria gasta na solidão do seu pequeno escritório, onde rabiscava madrugadas à mão (a missão de dirigente em localidades vulneráveis aos ataques inimigos de guerrilha destruiu o direito de dormir as oito horas, iminente que se fazia o risco de captura e servir de arma de propaganda). Pessoas assim, confesso-me também eu, possuidoras de um rápido pensar e aprender, costumam andar perto do defeito do perfeccionismo.

Não faltavam momentos hilariantes nos barafustares de Victor Manuel Patissa (1946-2001). Certa vez recebeu carta de cobrança feita por um tarefeiro. «Ao meu omorco», iniciava assim a missiva. «Homólogo, eu?!» Resmungou o velho, face à enunciada igualdade cujo sentido não conseguia achar. «Mas o fulano não é só escavador de fossas de WC? Assim somos colegas?! E ele escreveu ‘Ao meu homólogo’. Como assim?!»

Não respondemos. Nossos sorrisos marotos transformados em gargalhada disfarçada. Imaginávamos o filme da comparação na cabeça do queixoso: um dirigente de excelente aparência, eloquência, alguma escolaridade, prestígio (pelo menos até onde conseguiu resistir a sua estabilidade emocional), equiparado logo a um maltrapilho tarefeiro e dado a bebedices. Estava visto que o tarefeiro só quis caprichar na deferência, talvez não fazendo ideia do sentido de precisão do pai. Pronto. Ainda era só isso. Obrigado. Hahaha

Gociante Patissa, Benguela 17 Abril 2017 www.angodebates.blogspot.com

Sem comentários: