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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Crónica| A paz chega sempre tarde

Esteve há instantes a ser entrevistado no programa Hora Quente (TPA2) o locutor da Rádio Luanda, Octávio Pedro Kapapa, que marcou a história de muitos angolanos no seu papel de voz principal dos espaços de propaganda, contra-informação e motivação patriótica no tempo da guerra civil. Disse ser oriundo de Benguela, onde ainda viveu na missão Católica, durante a adolescência, na formação para padre, tendo a sua família seguido para Luanda na condição de refugiados por causa mesmo da instabilidade.

A mim, particularmente, Octávio Kapapa, que julgo ter surgido na transição entre o «Angola Combatente» e o «Hora Certa», marcou em grande medida. Recordo que na campanha eleitoral de 1992, tinha eu 14 anos, íamos ao comité municipal do MPLA, na Restinga do Lobito, levantar o material de propaganda (bandeiras, bonés, camisolas, etc.) no gabinete do camarada Silva (já falecido), tendo-se transformado a nossa residência em ponto para abastecer o bairro da Santa-Cruz, Zona 4, hoje comuna do São João.

Essa relação teve por base a carta escrita por um irmão mais novo do meu pai (já falecido) que era muito prendado no violão e outras artes e compunha canções patrióticas, infelizmente não gravadas.
 
No meu livro «Não Tem Pernas o Tempo», pode-se ler: «O pico da euforia ocorria às dezanove horas, quando entrava no ar o programa Angola Combatente, o qual acompanhavam, em tom de ralhar, pelo rádio-receptor do Chefe da Casa. O compatriota locutor de serviço, Octávio Kapapa, sabia acalentar seus espíritos. Sentavam-se em forma de arco, no pátio, aonde as esposas iam levar o jantar, e só se separavam após o noticiário e a Página Desportiva. E antes de se irem deitar, o boa noite de despedida: “A luta Continua! A vitória é certa!”. Geralmente, e já com uns copos à mistura, atingia-se o cúmulo do entusiasmo, com brindes de muletas e a mais sórdida linguagem de caserna, felizes da vida mesmo, quando o Angola Combatente anunciasse a estatística das baixas do inimigo em mais uma frente de combate» (UEA, 2013, p. 58).

Se de voz Octávio Kapapa era inconfundível, já não se podia dizer o mesmo de sua aparência. Havia mesmo quem jurasse não se tratar de nome real, já que as suas "bocas" exigiam demasiada coragem. O meu pai, Victor Manuel Patissa (1946-2001), que de militante/guerrilheiro de base, filho de camponeses, "ractificado" em 1978, veio a chegar a Comissário Comunal (Chila, Bocoio e Equimina, Baía Farta) e mais tarde Administrador comunal (Kalahanga, Baía Farta), por conta de quem tão cedo nos vimos expostos à política e noção de pátria, ficaria feliz em finalmente conhecer o rosto do homem. Chegas tarde, ilustre Kapapa, a paz chega sempre tarde.

Gociante Patissa, Benguela, 20.10.14

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