quinta-feira, 26 de maio de 2016

Diário | Assim já queres ofender?

“Oi.”
“Oi.”
“Incomodo? Aqui é o teu amigo virtual “Batejá”. Se calhar não te lembras. Ainda falamos no mês passado. Sempre sigo o teu mural, gosto das tuas publicações, amiga.”
“Podes dizer, “Batejá”. Já nem me lembro. Como não tens foto nenhuma no teu facebook, é um pouco difícil lembrar…”
“Posso-te fazer uma crítica?”
“Podes. É sobre o quê?”
“Não é só contigo, mas acho que as nossas figuras públicas, personalidades assim da intelectualidade, são egoístas…”
“Pode ser. Mas estás a falar de quê?”
“É assim, eu até te acho uma maravilhosa artista plástica.”
“Ah, és apreciador de artes plásticas? Consegues interpretar a representação do mundo e do caos nas minhas expressões artística e semiótica?”
“Não. Nunca vi as tuas obras. Só costumo ouvir que és maravilhosa. Fico muito revoltado quando em situações como o filho da Doutora Felismina, Decana da faculdade Fotografia, que escapou violar a filha da doméstica dela, você não fala nada. Será que não ouviste? Ou a última exposição já te custou a consciência?”
“Ouvi, sim. Mas o que é que tem a mãe a ver com uma violação praticada pelo seu filho já maior de idade? Este ano ainda não emiti uma posição pública sobre violações. Aliás, e no teu mural também, se bem me lembro, não publicaste nada sobre o assunto.”
“Mas é diferente! Você é figura pública, tem mais obrigações de condenar. Falta coragem, isso sim! Na terra dos outros, artista plástica tem que impor a voz.”
“Sinto muito, pois até agora não preciso de autorização e ainda só publico de acordo com a minha consciência. Quando tenho de criticar, faço-o; não espero ordens.”
“Wô! Assim já queres ofender? Onde é que já se viu uma artista que só critica de vez em quando? Tenha mais é coragem, pá!”
“Mas tu é que andas no facebook sem cara nem nome nem morada, tens identidade completamente anónima, e eu é que tenho a falta de coragem?!”
Gociante Patissa. Benguela, 26 Maio 2016
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(arquivo 2011) Nota solta: AMIZADES INUSITADAS

Veio ter connosco alguém a pedir ajuda porque a sua máquina fotográfica avariou, quando bem ansiava umas fotos em plena restinga do Lobito. Entendi usar a minha para o efeito, só que a tal pessoa também não tinha pendrive ou outro dispositivo qualquer de armazenamento de dados. A responsabilidade de levar ao vietnamita para impressão é vossa. "Não tem problema", destacou-se ela do grupo de três amigas, "não custa nada te fazer a obra de caridade de ir a Benguela para nos entregares as fotos." No dia seguinte me procurou e lhe passei fotos num CD, num encontro suficientemente breve.  Entre as várias perguntas "intragáveis" de que me lembre: Daqui ao Bocoio quantos quilómetros? E eu, 70 km. E essa pessoa: e de lá para cá? E eu, desculpa? Assim tu que nasceste em 1978 tens 33 anos, né? E eu, sim terei quando chegar Dezembro, o mês em que nasci. E essa pessoa: então quem nasceu em 1988 assim tem quantos anos? E eu: é questão de fazermos contas. Na manhã seguinte, um telefonema: como passaste a noite? E eu sem muitas palavras, bem e tu? Essa pessoa: passei com disenteria.
Acredite se quiser, caro leitor, cara leitora, mas uma pessoa ao menos não poderá duvidar minimamente, o Salomão, que esteve comigo.
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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Diário | A vítima mais é que tem a culpa?

(I)
“Doutora Felismina! Venha só ver. O que é que eu fiz para merecer isto???!!!”
“O que foi, doutora Ernestina, para tamanho alarido?”
“O seu filho, um matulão destes, que até leite do biberão dei, hã!, hoje vai pegar à força a minha filha?! E quando vou-lhe perguntar me responde com duas bofetadas?!”
“Mas a doutora Ernestina já viu a gravidade da acusação? Qual é o corpo de delito?”
“Repare, doutora Felismina, as escoriações no corpo da menina, a lingerie rebentada…”
“Credo! A doutora agora sente o monstro que pari, né? É isso! Quando eu batia no gajo ou ralhava, a doutora defendia, ‘ah não, não podemos muito apertar com os miúdos’. Que me perdoe Deus, mas não somos mães para passar a vida a limpar as cagadas, quer dizer desvarios, dos filhos. Está aí ele, é maior de idade. Faça o que achar correcto.”

(II)
 “Alô! É do 113? Preciso patrulheiro, é urgente!!! Tenho uma queixa. O senhor polícia está a ver o filho da doutora Felismina?” (…) “Ah, não conhece? Eu explico. É assim um pouco alto, músculo de pedreiro. Então não é que apanhei o gajo a violar a minha filha! Como mãe que sou, lhe chamei um nervo. E a resposta? Duas chapadas da minha cara. Pwá! Pwá! Isto assim é legal?” (…) “Onde fica a minha casa? Na casa da patroa! Moro no anexo atrás da casa.” (…) “O meu nome? Doutora Ernestina.” (…) “Como assim, ‘doutora é o seu nome?!’ Então, mas uma empregada doméstica não pode ter licenciatura, ó senhor agente? Desculpe-me lá, mas há cada pergunta!…
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terça-feira, 24 de maio de 2016

OS ABSURDOS DO PROFESSOR DE EVP (crónica do livro «O Apito Que Não Se Ouviu», edição União dos Escritores Angolanos. 2015, pág. 58), a pedido da mana Reinalda Tchimbali

A folha de prova era o único laboratório funcional que algumas escolas possuíam. Foi assim que a escolaridade de muitos de nós ficou marcada, fosse química, biologia ou física. Cheguei a conhecer permanganato de potássio, só de ver à distância, uma espécie de comprimido escuro. Para que serve? Olha, já nem me lembro. Serve mesmo para quê?!

Conheço pessoas que tiveram de nota final vinte valores, a máxima que o sistema de ensino prevê, em programação de computadores na década de 1990. Obtiveram ricas médias no certificado e na defesa da tese de conclusão de curso no Instituto Médio Industrial de Benguela, sem que tivessem chegado a um metro sequer do aparelho. Como digo, era só teoria, que tinha como campo de ensaio a folha de prova. Agora que penso nisso, noto que o meu fascínio com a palavra não é de agora (tal como não é de agora a minha estrondosa fraqueza em contas).

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Diário | Mas assim no cemitério não vão duvidar?

“Ó sócio, há um sentimento no meu peito que não estou a sentir só assim bem. Viste aquela notícia de mais de 300 poliangues nas ruas? Eh pá, acho que devíamos ainda dar uma pausa…”
“Relaxa, rapaz. Bebe ainda essa birra nova. O fabricante já pensou em nós mesmo, vamos fazer mbora mais como?”
“É, mô mano, galei mesmo bem, a gente ganha muito mal o nosso kumbú, yá?”
“Falaste, mo wí! Até as mboas nunca deviam só nos chular. É lixado o salo dum gajo.”
“Mas se não adiamos, então é deixar carta. Se o mambo der bum, a sociedade vai entender porque é que andamos a tramancar cubicos. É por uma boa causa. Esses poliangues balaziam mesmo a sério, meu. Olha, se poeramos durante a operação, com a carta, é igual a suicídio. E no suicídio, o morto é sempre compreendido.”
“Não fala assim! Suicídio é uma palavra negativa. Não é o nosso caso. Nós então somos mbora heróis, wé! Não é qualquer um que se mete na noite, só com um carregador de sete balas no calmante, faz assalto atrás de assalto e organiza mbora a vida, xé! Até uma vez galei num filme: ‘os piratas são iguais aos políticos, só que uns roubam protegidos pela coragem e os outros roubam protegidos pela lei.’ Gostaste?”
“Mas em cada missioneira, estamos sujeitos a morrer. À pedrada, à faca ou a tiro ou quê… Depois a minha mboa está pwã, tipo vai ser menino…”
“Mas assim esses anos todos que andamos nesta vida, você alguma vez já morreu?”
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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Memórias de 2013 num dia como hoje

Numa entrevista televisiva em directo do Cine Kalunga a propósito do 396º aniversário da cidade de Benguela

Entrevistadora (uma pergunta aproximada a): "O que achas da mulher na sociedade actual?"
Convidada (aparentemente modelo/manequim): "É simpática e acolhedora."
Entrevistadora: O que tens a dizer sobre a mulher de Benguela?"
Convidada: "A mulher de Benguela é tudo."
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Uma boa notícia para o turismo interno

Segundo a Rádio Nacional de Angola, já decorrem os trabalhos de reparação da estrada que liga as províncias de Benguela e Huíla, mais concretamente o troço que vai do Catengue ao Chongoroi. A empreitada está a cargo do Instituto de Estradas de Angola (Inea)
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domingo, 22 de maio de 2016

Visor

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Citação

"Continuo a sobreviver na área onde me sinto mais confortável para usar as palavras com a significação exacta que lhes pretendo atribuir."
(Maria Luísa Rogério, jornalista angolana, in Facebook)
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(arquivo) Recordando ainda as lições com o velhote

O meu pai (que foi também militar, político e dirigente) dizia, na sua condição de patrão em uma parcela agrícola no Dombe-Grande na década de 1990, que se toda a vez que você visita a lavra, o camponês está sempre (literalmente) a trabalhar, é hora de considerar mandá-lo embora. O trabalhador honesto fica cansado e de vez em quando tem de ser encontrado a descansar; de contrário, mais não faz do que controlar os passos do patrão. Melhor do que o empenho está a honestidade.
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sábado, 21 de maio de 2016

Diário | E quem é a fonte?

"Ora, cá está o sindicalista mais famoso da província!..."
"Famosa é a vossa digna casa."
"É, né? Seja bem-vindo. Olha que o nosso diferencial no panorama jornalístico e informativo está mesmo na abertura, isenção e pluralidade. É que aqui, censura não mora. Não é fácil neste nosso país com o passado histórico que temos, como imagina... Pronto, está ligado o microfone..."
"Mas preparam ao menos as entrevistas? Ultimamente as entrevistas são feitas a free style, e é em todos os órgãos de informação..."
"Bem, caro sindicalista, esta parte não posso publicar assim como disse..."
"Mas é a minha opinião!"
"Pode ser mal recebido. Mas entendo o que o senhor quis dizer. Vou escrever que o sindicalista defende maior cobertura das actividades reivindicativas, é isso?"
"Estou a dizer que o habitual é que convidam mas não se faz a mínima pesquisa do que o entrevistado faz, às vezes nem do nome dele sabem. E isso não é nada bom para a tradição de rigor que o jornalismo tinha."
"Mas, sabe? -- E isso falo como amigo, já não é na qualidade de jornalista -- É bom não criar anti-corpos, até mesmo porque a imprensa tem um poder que nem o amigo imagina."
"Isso quer dizer o quê?"
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Citação

“O doutor coiso gosta muito. A pessoa ainda não acabou de explicar o que sente, ele já acabou de assinar a receita. Haka!”
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sexta-feira, 20 de maio de 2016

[Oficina] Crónica | Cabinda e a mística da noite

Foto: JA imagens
Faziam-se dias e as mágoas hibernavam no canto suplicante do sentimento irrepreensível. Sentia-se a dureza dos dentes comendo-se na fricção do esmalte protetor.

A voz do sol avisava que a imprudência que a levou a desnudar em danças no Tchizo (nome de um monte local) faria dela progenitora da luz. Foi numa noite de comemorar a lua nova, onde saiu despregada do grupo que dançava Kintweni (dança típica da região) e se faz aos braços fortes de Franque Bueia, o jovem de olhos verdes cor da clorofila.

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Diário | Com a minha sobrinha de quatro anos

"Vem brincar com o cabelo do tio. Vai vendo se tem caspa, ya?"
"Ó tio, vou trançar bobi e spirro, ouviste?"
"Está bem. Só não puxes com força, porque dói. Mas já sabes mesmo trançar cabelo?"
"Sei."
"Aprendeste com quem?"
"Já me nasceram assim. Ouve, ó tio, há pessoas que lhes nascem mesmo assim... já sabem trançar."
GP. Benguela, 18.05.2016
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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Conto | Uma prenda demasiado profissional

Ó profissional, espera ainda! Gritava a mulher com alguma autoridade (ou ao menos determinação) na voz. Parei de imediato. E lá vinha ela de salientes ancas em natural coreografia. Na primeira vez que me chamaram por esta alcunha, Profissional, reagi com um certo congelamento, não sabendo se aceitava ou se rejeitava. E tive mesmo de ir a correr para o Dicionário, alcunha de um bar lá do bairro, onde professores e jornalistas gostavam de desfilar o peso de seus diplomas, regados com aguardente, vaidades e cerveja nacional, como se conseguissem pagar o que consumiam sem ser a crédito e no fim do mês. Profissional é quem vive do que faz, disse-me o primeiro. Fiquei na dúvida, dado o avançado estado de embriaguez do homem. Ora, meu caro, e disso sabe todo o gajo que um dia sentou diante de um bom professor, profissional é quem tem sofisticação no saber e nos meios para a tarefa que se propõe. E mal disse a última palavra, o segundo orador caiu em coma, pelo que fiquei sem saber se o levava a sério ou não. Aí, abordei o terceiro, dono de uma grande boca, todavia muito mal aproveitada, tão taciturno que era. Se calhar pouco perderia a mãe dele se parisse um mudo. Profissional é aquele que faz das técnicas a sua segunda natureza. Confuso, dei um soco na parede e acendi um cigarro. Porra, pá! Como é possível haver tantos tentáculos teoréticos sobre uma só palavra?
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quarta-feira, 18 de maio de 2016

[Oficina] Crónica | Afinal, João Bernardo é kinhungueiro

Foto: http://www.jornaldoestadoms.com/
Estrutura bastante para uma boa apresentação, o homem era completo, um bom partido para as bonitonas. Coisa rara só vista em passarelas. Ó meu Deus! O peito desenhado à medida dispensava palavras de convite feito aos desejos da mulherada para, no mínimo, um apalpar. Tão fofo, tão gostozinho, era sortudo nesta temática!

Pouco dado a amizades, bom dia ou boa tarde chegava. Quase não se misturava, talvez rejeitado pela insegurança masculina que se sentia ameaçada junto das namoradas e noivas que o abordavam.

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terça-feira, 17 de maio de 2016

Crónica | Quando se aprende mais com um só livro do que em seis meses de aulas

A minha passagem pelo Piaget atrás da licenciatura em sociologia foi mais ou menos uma colecção de traumas. O primeiro choque veio de um certo desrespeito que residia nas normas, principalmente aquela de não haver uma segunda oportunidade para quem perdesse uma prova (por maior que fosse a força do motivo). Se o estudante perdeu a primeira frequência, vai automaticamente ao recurso, na lógica da improbabilidade de conseguir 20 valores na segunda frequência e com isso a média 10.

Ora essa, como ficaria o meu direito à desordem?! Nunca na verdade fui um estudante disciplinado, nem acredito que vá a tempo de mudar. Se em plena sala de aulas apetece ir para a casa, pego em mim e vou-me embora. Pelo que tive mais tarde de desistir, com o receio de não concluir o curso nos cinco anos curriculares e envelhecer tentando.

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Citação

"A inteligência é como a roupa interior; todos deveriam usar mas sem precisar de ostentar."
(De autor desconhecido)
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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Crónica: Café De Suor E Morte (fragmentos)

Naquele ano os cafezais do norte tinham florido fora do comum. Os fazendeiros esfregavam as mãos de contentes, antevendo colheita abundante, com terreiros cheios de café cereja a secar, para meter a descasque.
(…)
Às sete horas da manhã de certo dia apareceu no terreiro de determinada roça uma mulherzinha com o filho às costas e levava na mão uma cabacinha de quissangua [refresco feito de fuba]. Dirigiu-se ao capataz do grupo das mulheres para lhe pedir dispensa do serviço nesse dia por ter o filhinho doente há mais de dois dias. O capataz negou-lhe a dispensa e marcou-lhe a tarefa habitual, de enchimento de uns tantos cestos de café cereja. A dureza com que a ordem foi dada não permitiu recusa da mulher habituada como outras a ver como eram tratadas em caso de desobediência. Com o filho a escaldar em febre, manteve-o nas costas e foi colhendo bagos com maior ligeireza, na tentativa de abreviar o tempo da empreitada. As horas correram. De vez em quando desapertava o pano de pintado para verificar o estado da criança que amolentada, respirava custosamente pela boca. Retomou a tarefa. Seriam cerca de treze horas quando, de novo, desamarrou o pano. Puxou o pequerrucho para o peito. Tinha os bracinhos descaídos, os olhinhos semicerrados, a boca entreaberta, o corpo inerte e frio. Tinha sido levado pela morte. E aquela mãe ao descobrir que fora despojada do ente querido das suas entranhas, entrou em pranto próprio da mulher africana que, quando dorida, não tem as pragmáticas dos chamados civilizados como se para enfrentar a dor humana seja preciso estudar pelos códigos da etiqueta e civilidade. Aquela mãe estrebuchou pelo chão e as companheiras de trabalho, ao ouvi-la chorar, correram em seu socorro. E o pranto contagiante estendeu-se a todas aquelas mulheres, mães também, servindo à força naquelas plantações de café de suor, dor e morte.

Só o capataz preto, industriado para sacrificar seus irmãos de cor em benefício do capitalista, se manteve insensível à desgraça em que tinha quota parte. Boçal com alma de escravo, não passava de pau-mandado naquela triste época em que os paus-mandados tanto podiam ser pretos analfabetos como brancos componentes da rede administrativa a impor trabalho sem horário com salário de fome.

Raul David, 1989, pág. 55. In «Crónicas de Ontem – para ouvir e contar». União Dos Escritores Angolanos. Luanda, Angola.
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Citação

"O exotismo, como culto pelo pitoresco, visando reter tudo o que é curioso e bizarro nos outros, pode transformar-se em ETNOCENTRISMO, quando é acompanhado por uma atitude desvalorizadora a respeito dos outros e em RACISMO quando produz rejeição e hostilidade"
Claude Rivière, in "Introdução À Antropologia", 2011, p. 14. Edições 70, LDA. Lisboa, Portugal
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domingo, 15 de maio de 2016

Just another question

Este gesto do Dr Gildo Matias em levar uns três calhamaços (livros do tamanho de um tijolo) à mesa de dabate na Tv Zimbo para um espaço a quente e com tão pouco ou quase tempo nenhum para ler, assim é para quê só?! Se fosse lá na condição de alfaiate, por exemplo, levaria a máquina de costura? Ou como camponês o saco de adubos? Ainda era só isso. Obrigado 
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Just a question

Quem acompanha a imprensa angolana no que respeita aos fazedores de opinião especializada no ramo da economia acaba inevitavelmente construindo uma imagem positiva das capacidades do presidente da AIA (Associação Industrial de Angola), José Severino. Tem bagagem, sentido apurado de comunicabilidade e diríamos até alguma fotogenia. Talvez por isso tenha uma frequência tão quase diária nos espaços noticiosos. O que não deixa de constituir uma dúvida, tendo em conta que as instituições são entes colectivos, é o seguinte: não haverá na AIA outras vozes/rostos para também se fazerem representar de vez em quando no espaço mediático? Ainda era só isso. Obrigado 
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Nota solta | E se promovêssemos mais o intelecto e o valor interior do que o culto ao corpo?

Há muito que apetecia dizer as palavras que se seguem, vindas do cidadão benguelense Angélico Bonfim sobre os cíclicos casos e descasos em concursos de misses, em jeito de comentário no mural do jornalista Zé Manel:

"Acabem já com esta farsa. Que falta faz isso a sociedade, com problemas mil para resolver, como sendo, saúde, saneamento, educação,  energia, água, para não dizer mais? Benguela jamais morrerá, se não tiver miss. É sempre a mesma coisa."

Independentemente de estarem em causa balbúrdios privados, o certo é que os concursos de miss pouco ou nada acrescentam em termos de valores. Quanto mais não seja, pelas denúncias que volta e meia surgem do terreno movediço que são os seus bastidores, onde as raparigas, depois terem "esfregado as curvas" em passarela aos olhos de endinheirados e poderosos, acabam sendo presas sexuais, quando organização e proxenetismo se vestem da mesma pele. A lista é longa, bastando por agora recordar as mais recentes e aparentemente ingénuas declarações da miss Angola vigente que diria qualquer coisa como "a miss é sempre tentada, mas ela só fica com o patrocinador se quiser."

E se os altruístas patrocinadores pensassem em valorizar outras belezas mais sustentáveis e viradas para o desenvolvimento colectivo, tais como bolsas de estudo ou projectos de educação sanitária? 

Para suavizar eventuais susceptibilidades lesadas, recordo um poema meu, publicado em 2008 no livro Consulado do Vazio:
_________
SONHOS DE RUA

No dia de São Valentim
vou apanhar flores
e guardá-las bem perto de mim
debaixo do meu banco de jardim
e tenho a certeza que logo à noite
a morena miss dos meus sonhos
a sua prenda virá reclamar
sou criança de rua
mas tenho o sonho
na conta do que a sorte me negar.
_____
Gociante Patissa. Benguela, 15 Maio 2016
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Vai um copo?

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sábado, 14 de maio de 2016

Contributos toponímicos

A propósito dos 396 anos que a cidade de Benguela completa no próximo dia 17 de Maio, o Jornal Cultura de 13 a 26 de Maio de 2013 traz um interessante ensaio do historiador, escritor e editor Armindo Jaime Gomes (ArJaGo), do qual partilho o trecho que tem que ver com a origem do nome:

“Do étimo mbenga, Benguela é corruptela do verbo “okuvenga” da língua umbundu; okuvengela (sujar) / okumbengela ovava (sujar-me a água), relativamente às águas estagnadas e em língua portuguesa é entendido como turvar, turvar-se, perturbar, alterar, transtornar, escurecer, embaciar, nublar, enuvear (Pe. Alves, A., 1951). Evoluído de “mbengela”, a toponímia passou asignificar perda de transparência, de limpidez, de clareza, perturbação, fazer perder a razão, cobrir o céu de nuvens, situação confusa, indefinição (op. cit.). Apesar de fazer parte da onomástica planáltica, a exemplo de Katombela, Mbaka, Kakonda, Civangulula, etc., a versão popular admite que o topónimo tenha resultado da distorção linguística nos primeiros contactos entre os portugueses e ambwi. Em vez do nome da região que se pretendia saber, os intrusos receberam a justificação da turvês das águas lacustres e fluviais.”
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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Emoção!!!

Acabo de levantar nos Correios de Benguela os 20 exemplares a que tenho direito como autor de "ALMAS DE PORCELANA", poesia reunida deGociante Patissa, com edição e custos próprios da editora brasileira PENALUX, com sede em São Paulo. Agradecimentos aos ilustres Tonho França e Wilson Gorj por me terem identificado e tratado com o mais elevado profissionalismo e rapidez. Os correios merecem também nota positiva, pois não foram necessários os habituais dois meses que correspondem normalmente ao tempo de espera para encomendas vindas do outro lado do atlântico. Como bem traduz a reacção da balconista ao meu elogio, "Os correios melhoraram muito!"
Da minha parte, prevalece a palavra de ordem do personagem Investigador-comandante, do conto A Morte da Albina, do livro A Última Ouvinte: "nós aqui só temos um lema: O Nosso Trabalho é Trabalhar!"
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Diário | Ainda não ouviste que agora sou tio de alguém?

(I)
“Quem mais que está ligar? É aquele sobrinho da província, chato… Alô!”
“Alô, tio, muito teeeempo!!!
“Ah, sobrinho! É como a vida na província?! Assim já sei. Você quando liga, é apoio na escola… Ó filho, quer ser doutor até quando afinal?! Arranja um ofício, varre as ruas, faz negócio, qualquer coisa, pá. Estudo já chega!”
“Ah, pois, tio. A escola por acaso já concluí. Telefono para saber da tia, ouvi que está doente.”
“Não se preocupe, a tua tia já não melhora nesta encarnação. Mas você ainda continua no meio de papéis como cabrito? Isso você acha que é futuro de um macho?”
“O tio também… Ah, mas não. O tio já sabe que a província tem um município novo?”
“Ai, a nossa província engordou?”
“Eu fui nomeado há um ano. Sou o Administrador adjunto do município novo…”
“Não fala isso! Eu sabia! Sempre falei: este meu sobrinho cheio de salitre, cabelo nunca viu pente até parece é pele de ovelha, magro como a caneta, é só livros e mais livros no sovaco, um dia será doutor. Está aí! Você é ALGUÉM, sobrinho! Pronto, desliga, até estou a tremer.… Ó mulher, dá cá ainda um copo de cisangwa. Aliás, cisangwa mais não. Só vinho. Ainda não ouviste que eu agora sou tio de alguém?…”

(II)
“Alô, doutor!”
“Viva, tio! Mas, por favor, chama-me mesmo pelo nome; isso de doutor eu dispenso.”
“Então, posso ir ali fazer uma visita de molhar o cargo, não é?”
“Sim, tio. Pode vir amanhã, é só apanhar o autocarro executivo inter-provincial, eu pago aqui.”
“Mas, ó marido, vais passear ou vamos?”
“Vamos com quem?! Eu vou em visita protocolar, e não fica bem levar companhia.”

(III)
“Alô, sobrinho! Já chegamos. Estamos aqui mesmo no terminal dos autocarros.”
“Ok, tio, já aí vou.”
“A viagem correu bem?”
“Oh, doutor, quer dizer, sobrinho!, autocarro executivo é grande categoria! Vim a dormir.”
“Então, mas e este outro senhor?”
“Ah, é meu amigo. Jogamos juntos a bola na primária, começamos a namorar juntos. Veio comigo passear. Sabes como é que é…”

(IV)
“Dá licença! Bom dia. Mais-velho, acorda! Comecem a fazer as malas!”
“Mas quem é você para me acordar?! Não sabes que somos visitas protocolares?!”
“Eu sou do protocolo! O chefe deu ordem: fazer as malas e voltar no autocarro das 05h30…”
“Mas nós chegamos ontem à noitinha. Eu sou tio do chefe, ouviu bem?! Vou ligar para ele (...) Alô, doutor! Aqui é o teu tio. Um dos nossos subordinados ficou maluco…”
“Não, tio, não está maluco. Madruguei para visitar comunas distantes. Eu convidei o tio para me visitar. Eu ficaria com a sopa e o tio com o prato principal. Agora, se acha que traz os amigos, espera até eu ter a minha casa. Eu vivo na casa do Estado, não é para festanças.”
“Mas então você é chefe no governo para quê?! Se temos um pouco, não podemos mostrar?!”
Gociante Patissa. Benguela, 11 Maio 2016
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terça-feira, 10 de maio de 2016

Uma amostra do livro de crónicas «O Apito Que Não Se Ouviu» | O PAPEL DO MULTICAIXA NA PREVENÇÃO DE CONFLITOS (*)

Benguela, cidade, anda movimentada, como devia aliás andar, a caminho de trezentos e noventa e seis anos de existência. É evidente que a data oficial está longe de ser consensual, havendo intelectuais que se indignam por entenderem que, em cada dia dezassete de Maio, festejamos a vitória militar do invasor colonial português, representado por Cerveira Pereira, sobre os nossos antepassados, autóctones Bantu.

Janota, conhecido por doutor muito antes até de tirar a licenciatura, procurava preencher o vazio que tem sido a sua cama, desde que a esposa viajou para a China. Por muito que gostasse e bebesse de filosofia, estava difícil o jejum (devo usar uma linguagem mais ou menos sóbria, já que tenho sobrinhos menores seguindo-me no Facebook). Vai daí que Janota deu um salto ali para as bandas da Sé Catedral, onde se diz haver um bordel. Assim como ao lado de cada direito anda o respectivo dever, pureza e fé têm sempre uma tentação à perna.

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segunda-feira, 9 de maio de 2016

NÃO TEM PERNAS O TEMPO | Disponível na livraria Sucam em Benguela, na rede Kero e na União dos Escritores Angolanos, em Luanda. Mil kwanzas o exemplar

Perdido e Veremos lamentavam-se, ignorando que os funcionários públicos coleccionavam meses de salários em atraso. Os camponeses de subsistência arriscavam o pouco tutano, mas lá vinham os ladrões, quantas vezes mais robustos, colhendo com pás o que um dia se cultivou com enxadas. A fome nunca foi boa professora de ética nem de estética.

Veremos e Perdido recorriam à combinação dos instintos da criatividade gastronómica e nutricionismo. Aos domingos de tarde, quando havia pouco movimento nas lavras, carregavam na pasta diplomática uma frigideira e palitos de fósforos. Aleatoriamente escolhiam uma lavra, onde faziam pipoca de sementes de girassol ou de bagos de quiabo, estes últimos rijos como os próprios dentes.
(…)
Depois surgiram as cozinhas humanitárias do PAM, que chegaram a ser o céu de muitas famílias. O problema é que as filas eram muito longas, e mutilado fica cansado de tanto aguardar com uma só perna. Perdido tinha que partilhar o pouco que recebia, sem esquecer que, pela ordem alfabética, até chamarem os da letra P, a papa chegava já fria.
(…)
Como se isso fosse pouco, havia esporadicamente cadáveres à beira da estrada, aguardando pela intervenção dos serviços comunitários e o tractor de recolha. À primeira vista, havia mais vida em cadáver do que no homem da recolha. Certo dia, António Veremos e Grito Perdido decidiram forçar um encontro com o Delegado Provincial da Secretaria de Estado para os Antigos Combatentes e Veteranos de Guerra. 
(…)
Postos lá, e após várias horas pressionando a secretária em como não deixariam para outra altura, o Delegado recebeu-os de pé, a despachar, no corredor. O anfitrião era kambuta, de uma barriga que teimava em esticar a balalaica, vinco de gume nas calças, sapatos quadrados bem reluzentes, risco no penteado, pente no bolso da camisa, enfim. E saltava à vista o brilho oleoso no rosto do mwata, indicador de que a vida lhe corria bem. O Delegado pediu mais paciência, havia coisas mais urgentes do que a preocupação de dois indivíduos, pois atendia os nove municípios da província. Perdido e Veremos exibiram passaportes de disponibilidade, deixando claro que se tratava de ex-combatentes.
— Meus camaradas, tropa nós todos fomos! Já disse para ter paciência, o processo vai correr os trâmites administrativos normais, o tempo que levar.
(…)
— Mas, senhor Delegado, uma vez que estamos aqui, não podíamos falar já do assunto? — Perdido contestou.
— Delegado, nós viemos de comboio do Lobito, tem que pensar nisso… — António Veremos acrescentou.
— Alto aí! Tu não me mandas, eu sou superior hierárquico! Aliás, vê-se bem que nunca foste tropa mazé, senão batias a pala antes de me dirigires a palavra. Não entendes de disciplina militar e me apareces aqui com passe de desmobilizado de gabinete?
Veremos olhava o Delegado e via as infernais troças de Zé do Norte. E ali, — tomas! tomas! tomas! tomas! — quatro valentes muletadas da cabeça. Quando a guarnição entrou, já o chefe estava desmaiado, a sangrar. O agressor era levado à cadeia.

Gociante Patissa, in «Não Tem Pernas o Tempo», União dos Escritores Angolanos. Luanda, 2013
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(arquivo) Diário | MÍNIMO TOQUE

"Quantos meses?"
"Seis."
"E o bebé?"
"Nove."
"Têm que pensar no planeamento..."
"Ela não aceita!"
"Não?!"
"É confusão."
"E outros métodos?"
"Ela é mesmo assim; mínimo toque, já fica grávida."
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Opinião | Mais perguntas que respostas: AINDA O COMUNICADO DA CEAST NA BRIGA ENTRE A RÁDIO ECCLESIA E A UNIÃO EUROPEIA

O comunicado da CEAST (Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe), que surge para acalmar os ânimos no desentendimento entre a sua Rádio Ecclesia (RE) e o patrocinador que é a União Europeia (UE), tem gerado controvérsia, claro para alguns e ambíguo para outros, com realce para os seus pontos dois e três.

Tudo começou quando em entrevista ao Jornal de Angola por ocasião do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, 03/05, o padre Quintino Kandandji (QK) partiu para o contra-ataque. O prelado tem sido alvo de crítica generaliza por “matar” a vertente interventiva na linha editorial da RE (retirando da grelha programas tidos como críticos ao governo, despedindo jornalistas de referência em Luanda, ou liderando uma eventual censura a programas de organizações da sociedade civil com espaço de antena pago).

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domingo, 8 de maio de 2016

[Oficina] Conto | Man Barras, o “grego” alheio

João Aguinaldo de Sousa Nobre, de nobreza só tinha mesmo o nome. Trapaceiro da última estirpe, faltava apenas o ensaio da morte para detê-lo das trafulhices. Se desse para morrer um pouco e depois voltar para poder comparar, talvez seria o remédio. (Vaticínios de mãe cansada).
Texto de Lauriano Tchoia,
Luanda, 06/05/2016

Vi-o crescer franzino, corpo de lombriga. Ainda pequeno já infernizava a casa dos pais com as mais impensáveis malandrices, ora escondendo o rádio (aparelho) do papá no saco de arroz, ora simulava ter introduzido pilha alcalina na panela de feijão ao lume, no matreiro truque de levar a panela tóxica ao lixo e comer tudo sozinho num beco.“Os demais que se virem, comam funje simples antes que morram envenenados”(ria-se).
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sábado, 7 de maio de 2016

Um like e um gosto

"Me aceita só. Não tenho lá muito, mas prometo me esforçar: tudo o que você publicar, vou meter 'gosto'. Mesmo 'like', também posso."

(romantismo de um tempo próximo, tendo em conta a mentalidade cada vez mais supérflua do digital)
www.angodebates.blogspot.com
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Uma dúvida em direito patrimonial | SEGURO AUTOMÓVEL

Se um carro custava cerca de dois milhões de kwanzas por altura da sua aquisição (e imediato seguro contra todos os riscos) e o cidadão, por má sorte, tem um sinistro de perda total deste bem um ano depois, quando já no mercado custa o dobro, que base de compensação será usada neste caso? Repôr o bem ou pagar metade do valor? Era só isso ainda, obrigado.
www.angodebates.blogspot.com todos os riscos) e o cidadão, por má sorte, tem um sinistro de perda total deste bem um ano depois, quando já no mercado custa o dobro, que base de compensação será usada neste caso? Repôr o bem ou pagar metade do valor? Era só isso ainda, obrigado.
www.angodebates.blogspot.com
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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Nota solta | Assim não fazemos país digno

Acabo de regressar com indignação da página da Voz da América cá no facebook, não por algo que ela tenha feito, mas precisamente pelo que não está a fazer na secção dos comentários. Na matéria que retoma o seu espaço "Angola Fala Só", a cantora Eva Rap Diva (com alguma sorte minha, não conheço uma música inteira dela) está a ser alvo de insultos e palavrões mais básicos. Porquê? Porque na entrevista teria tecido elogios que revelam, no entender dos zangados, alguma militância, ou no mínimo simpatia para com o governo e o partido que o suporta. Diz a cantora que se não acreditasse na justiça, não viveria em Angola e que a sua ausência em nada se deveu a um hipotético veto das televisões ou rádios à sua música. Traiu o rap como Eva traiu Adão, diz um. Quer dizer, por ser praticante do Rap não pode ter posição ou leitura da situação que não seja "estar do lado do contra"? Eu particularmente adoro ser apartidário e ao mesmo tempo encorajo quem tem o bicho da política activa, desde que respeite Angola e o espaço de cada um. Enfim, quando chegar à casa, vou ler a entrevista toda, mas antes disso já tenho a certeza de uma coisa: discordar perdendo o respeito não constrói. Pela via do insulto ao pensamento contrário também não fazemos país digno.
Gociante Patissa, Benguela, 06.05.2016
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Entrai pela porta

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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Opinião | Rádio Ecclesia e União Europeia em tensão de "saldo zero"

Faz-me confusão esta confusão envolvendo a União Europeia (UE) e a Rádio Ecclesia (RE), projecto ao qual já estive ligado na iminência do início de emissão em Benguela, há doze anos, apurado entre os quatro redactores-repórteres-noticiaristas ao fim de três meses de estágio intensivo. Não sou católico nem cheguei a efectivar o vínculo com a RE, que entretanto acabou por não arrancar, mas estou afectivamente ligado à marca.

Embora o polémico financiamento da UE tivesse sido directamente alocado para formação, com base numa proposta da RE em resposta ao anúncio público de financiamentos, julgo que o pacote não foge muito do que é comum com as demais rádios privadas espalhadas por Angola. A comercialização de espaços de antena agrega(va) valor às grelhas de programas, considerando o factor diversidade (hoje parece que as igrejas monopolizam). Quanto aos “excessos ao microfone”, são da natureza humana e contornáveis mediante supervisão e avaliação contínuas.

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Partilhando leituras | TRECHO DO CONTO «AS FAÇANHAS DO SOBA MIGUEL»

Cheguei a ver o soba Miguel no papel de juiz, no último quinquénio do século vinte, num diferendo que evoluíra para agressão corporal com pontapés (qual guarda-redes e a bola) em recém-nascido. Tudo começou quando o jovem Welema resolveu assumir os dois meses de gravidez que o Ukuma depositara na barriga da jovem Senje, sem no entanto se apresentar. Welema convenceu a mãe da Senje, contra a vontade de um tio desta, porém não levado a sério, e plantaram morada em Luanda. O nascimento do bebé implicou vários gastos com assistência médica, quase levando à morte a parturiente, ela que caminhava no prumo entre a adolescência e a juventude propriamente dita. Dizia-se que era por causa de olondalu[1]. Quando o casal Welema e Senje regressou à terra de origem, ouviram-se pelas esquinas bocas mil, segundo as quais Ukuma reclamava a paternidade do filho e o direito de arranjar um chará (geralmente nome de um familiar) para ele. Isso nunca!, contestaria Welema, julgando possuir todos os direitos sobre o bebé, já que assumiu desde cedo a gravidez e as despesas do parto. Reunidas as famílias, o soba impôs-se:
Havia três jovens que foram pedir emprego. O primeiro entrou, relatou convincentemente as suas capacidades, mas não apanhou o papel que encontrou no chão. O segundo apanhou o papel da porta, mas ignorou outro que encontrou na sala. O terceiro, que tinha um pouco menos em termos de capacidade, recolheu os papéis que estavam no chão, e ficou com o emprego. O que você fez, ó pai, é falta de respeito. Não se engravida menina de família, sem assumir, e ainda sair por aí a anunciar que alguém está a sustentar nosso filho.

Nesta lógica, além de perder o direito sobre a criança, o jovem Ukuma, órfão de pai, foi obrigado a pagar em dinheiro uma multa que só por milagre conseguiria.

Gociante Patissa, in FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, 2014. GRECIMA, Luanda. Programa LER ANGOLA.
 
PS: Livro disponível a quinhentos kwanzas na livraria Texto Editores em Benguela e rede KERO nas províncias em que estiver implatada.

[1] Acredita-se que seja doença resultante de promiscuidade dos cônjuges durante a gravidez.
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Nota solta | Sociolinguística do passeio

Investi metade da tarde de ontem no centro da cidade do Lobito, deambulando como exercício de "queimar tempo", um pouco por incompetência de certa agência bancária, onde suportei longa fila até ouvir que "o colega que atendia Western Union saiu para almoçar, passa mais logo ou então amanhã". Procurei saber daquela simpática senhora que me atendeu se o banco fecharia caso o colega estivesse doente, ao que respondeu, a contra-gosto, que não. Bem, como discutir não me resolveria o problema, saí ao encontro da celebração da vida que é no fundo o quotidiano, os diálogos fortuitos e a observação de imprevisíveis fenómenos sociais. Numa rua da Zona Comercial, passo por duas senhoras, nessa mania muito angolana de estorvar o passeio. Uma era funcionária (em pé e de passagem), a outra mendiga (sentada, encostada entre a árvore e a parede). Era grande a empatia. A funcionária elogiava a bebé da mendiga, num registo de diálogo coloquial e terno, na língua Umbundu, que a seguir reproduzo, ciente embora da poesia que se perde com a tradução:

“Avoyo, mba wakula!” – Vejam como está grandinha!
“Oco, wakula!” – É, está mesmo grande!
“Omõlã mba ka vala!” – A criança não custa!
“Ocili, omõlã ka vala, civala ño imo” – É verdade, o que custa mesmo é a gravidez.
E lá continuei a caminhada com a certeza de que algum troco a funcionária deixaria para a mãe da bebé, sem deixar de especular que o pai da criança, algures na cidade, aguardava pela esposa que faz da mendicidade o posto de ganha-pão.
Gociante Patissa, Benguela, 3 de Maio de 2014 
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quarta-feira, 4 de maio de 2016

terça-feira, 3 de maio de 2016

Nota solta | Pequenos "Deuses de Fumo"

Os escritores - na lógica de estar a pagar o justo pelo pecador - são uma "raça" não poucas vezes chata. Imaginam tanto, inventam tanto que volta e meia se acreditam possuidores de uma dimensão messiânica. Espero que não a tenha, mas, sendo uma vaidade negar defeitos, tentem ao menos perdoar-me, caso não me consiga livrar de tal tentação. A mim, na qualidade de espectador, chega quase a enojar o narcisismo que se desfila nas entrevistas avulsas ou na imposição do auto-valor em função de um acumular de prestígio desses "deuses de fumo". Há quem entre em quase ataque de nervos, não se poupando de apelar à saúde da sua próstata, pelo simples facto de, em casual circunstância, encontrar-se na mesma linha do equador em termos de receber e-mail de agremiação com algum nome de autor recém-revelado, por exemplo. Não faltam ainda aqueles que se arrogam o direito de qualificar poemas de outrem, desde que não se encaixem nos seus gostos ou escola, como simples diários ou letras de kizomba. Há vaidades para todas as despesas, incluindo transformar menores de idade em críticos de arte, se tal contribuir para publicitar o núcleo familiar como celeiro de intelectualidade. No outro dia, certo escritor, que vive as suas ideias e voz no mais veemente e recorrente êxtase, tentava convencer-nos de que a sua escrita era auxiliada por búzios. Dizia aquele "deus de fumo" que, em situação de tragédia na trama, ele jogava o búzio ao chão, cabendo a este artefacto decidir se o personagem morre ou sobrevive. Quer dizer, como se uma narrativa fosse um amontoado de pequenos desfasamentos. Tanto show off! A gente escreve, sim; dedica-se mais do que o cidadão comum, sim; tem imaginação provavelmente mais fértil, sim. Mas, por favor, isso é um trabalho como qualquer outro. Não é por mal, mas bem que podíamos poupar a sociedade de carregar para nós tão pesado palco imaginário.
Gociante Patissa, Benguela, 3 de Maio de 2014 
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Do arquivo (entrevista 15 minutos áudio sobre o dia mundial da liberdade de imprensa com incidência na realidade angolana/benguelense)

entrevista conduzida pelo jornalista Crisóstomo Horácio, na reportagem que ouviu Gociante Patissa sobre o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, cujos extractos serviram para a peça sobre o tema no Magazine Diocesano de Benguela, produzido nesta província e emitido pela Rádio Ecclesia Luanda, no dia 04.05.2014
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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Just a question

Nesta onda de dizer que este ou aquele vem de "família humilde" para nos referirmos à origem social de pobreza económica, queremos dizer que os abastados são "não humildes" a não ser que caiam em falência/desgraça?
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Citação

O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor. (William Faulkner, 1897 — 1962, escritor americano)
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[Oficina] Crónica | Será que voltarás a viuvar?

Texto de Lauriano Tchoia
Luanda, 02/05/2016
Toda a atenção dispensada, “é viúva deixem passar”, ninguém conhece nem sente a dor por ela.

Já fez parte do quadro mais belo da minha cidade só não sei que desgraça a levou. Inseria-se bem no padrão estrutural de um espaço que se apresentava entre a lua e o sol do trópico num bom dia. Cedia ao contraste do mosaico móvel da urbe e David Zé ousou embelezá-la no seu canto.

Caminhar sereno, olhar cabisbaixo e o lenço na disputa a reaver-se com o véu para o cuidar de tão exigido cumprimento do ritual, que ao ser destituído, o ditar da morte, pragas ou mal maior era quase coisa certa.

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domingo, 1 de maio de 2016

Nota solta | Geração do entulho

Recebo muitos pedidos de amizade virtual, mais do que gostaria, sobretudo por uma espécie de desencanto com experiências relativamente recentes no campo das amizades e a confiança depositada. Uns sem rosto são imediatamente chumbados, também aqueles com nomes intencionalmente impessoais. Decidir é dificil sempre, porque há o cidadão em mim, carregado de marcas da vida, de personalidade, carácter e visões, ao passo que há um outro lado que tem a obrigação de ser mais sociável. Quando, sem se importarem que sejam altas horas da noite, desconhecidos cutucam na inconveniência do chat, eu sei que o mereço, eu é que sou culpado por me meter nessas coisas de ser publicado como escritor. Assim, cada vez que recebo um pedido de amizade, não sendo eu de andar em copos e com isso alargar a rede de amigos, nem sendo um locutor ou gestor público, entendo que é consequência do nome que se vai construindo no campo da arte. Parto da hipótese de a pessoa que pede amizade ter começado antes por um olhar às informações que disponibilizei no perfil. É o mínimo que se espera do sentido de pesquisa, julgava eu erradamente, até perceber que muitos jovens da geração do entulho entram no "feici" sem acesso a fotografias nem nada e mais não fazem do que espalhar à sorte cantadas. Anteontem, instantes depois de aceitar um pedido de amizade,  tive de recorrer ao meu lado pedagógico, chegando à arvore genealógica do rapaz e tudo: "Oi td bm anjinha linda?", escreveu o jovem, provavelmente enganado pelas sílabas todas femininas do meu sobrenome. "Irmão, da próxima vez, preocupa-te em ver o perfil de quem pedes amizade, para não fazer patetices como esta. Anjinha linda deve ser a tua avó". E a resposta dele? "Ok".
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Crónica | É saber não chorar

Toda hora mesmo é hora de morrer, menos só doze horas. Falam que é sagrada, ninguém nasce nem ninguém morre doze em ponto. Deve ser por causa de comer. Mas, meu irmão, minha irmã, eu é que te falo. Há muitas ruas de passar se você quer sair da cidade para os bairros do Cavaco, tipo assim Cihõsi ou Masangalala, mas evita só a rua do IMS. Se você assim encontra carro parado, já sabe, deu entrada família na morgue. A morgue é uma casa da esquina, você até nem dá conta se ninguém te fala, é terra batida e com poeira. Dizem que está cheia. Que corpo já não é corpo, que há fila para caber na gaveta. Eu só vou entrar lá quando chegar a minha vez, também já não falta muito. Essas transfusões de sangue, cada semana só, me matam. É preciso coragem para não ir lá, porque os outros ainda falam morgue é castigo. Que as famílias têem que saber que chorar muito, dar cabo do silêncio da cidade, não resolve, não enterra os mortos. Que assim mesmo a tua criança abriu a boca pela última vez, enfermeiro já chama, tipo não viu nada grave. Quem é a mãe ou família da fulana. Vocês já não respondem estamos aqui? Enfermeiro fala eu preciso alguém com coragem. As famílias até, como mesmo já sabem, indicam já alguém que tem espírito de ovelha. Acho que se não tem, alugam, há sempre alguém a passar caminho. Entra caladinho, amarra vosso defunto nas costas e sai tranquilo, cara sem dor. Se já arranjam kuapapata, se é kaleluya, depende só. O importante é chegar em casa e despachar o resto. Porque mínimo grito, empurram o corpo para a morgue e é aquele monte de voltas, você que já sabe que morgue não é para todos... É saber não chorar! Quer dizer, há chorar e chorar. Umas famílias que choram na garganta, outras já só depende. Ainda anteontem, você tinha que colocar abafador nos ouvidos, porque aquilo já não era gritar. Mas também, é com razão. Como é que uma mãe ainda não enterrou uma criança de dois anos, dia seguinte lhe entregam a outra de quatro que estava grave? A criança alheia que já pensava na escola estão a lhe levar no i10. A mãe só está a perguntar assim mesmo é verdade? Morreu mesmo? Mas quem é que vai responder? Haka! Assim vão fazer dois cortejos, se falam que cadáver fica 24 horas? Cada vez já não respeito mais medicamentos, só respeito a poeira, mesmo de noite ela voa, só Deus sabe o que leva de casa em casa. Falam só é febre. Mas febre afinal que sai aonde? Ainda mba é febre, ya? Hoko!...
Gociante Patissa, Benguela, 1 Maio 2016
www.angodebates.blogspot.com
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Vídeo | Gociante Patissa, escritor na 2ª FLIPELÔ 2018, Bahia. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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