sexta-feira, 22 de abril de 2016

Já disponível no mercado brasileiro | ALMAS DE PORCELANA | Poesia de Gociante Patissa reunida em livro impresso sob iniciativa da editora brasileira Penalux.


NOTA DA EDITORA

"Ao mergulharmos no universo de Almas de Porcelana, temos que nos desamarrar daquilo que guardamos do significado de “fragilidade”. Agarrado à imagem da porcelana, Patissa sabe construir a beleza daquilo que um dia foi apenas mero barro, mas graças ao calor da poesia e ao talento do poeta transfigura-se em algo de inestimável valor. Sua fragilidade reside na apreciação pacífica que emana de seus poemas sensíveis, preciosos; há neles belas filigranas de esperança, como num delicado conjunto de fina porcelana, em cujas peças brilha um arremate de debruns nostálgicos. No vigor destes poemas, evidencia-se a demonstração de como se processa a força nos indivíduos, herdeiros de passados árduos, roubados e massacrados (ou, no mínimo, ignorados). Indivíduos que, através da própria resiliência, transformam sua vida em arte. De alto nível. As terras verde-amarelas, tão fatigadas com histórias estereotipadas sobre nossos irmãos africanos, não poderiam mais esperar para apreciar as importantes – e inevitáveis – palavras de Patissa, poeta com quem comungamos os Cantos da África e a Língua de Camões." (orelha do livro)
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quinta-feira, 21 de abril de 2016

Citação

“Às vezes basta um segundo para arruinar uma vida, às vezes toda uma vida é insuficiente para esquecer um único segundo.”
(Do filme italiano "Que mais quero eu", de Silvio Soldini, 2013)
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Opinião | Ainda os quatro chineses assassinados e a desproporção no tratamento

É louvável o trabalho que a TPA faz em denunciar, chamar especialistas para comentar, no seu papel pedagógico de promoção da cidadania e harmonia social. Tão louvável que deve continuar, mesmo quando a roçar o excesso. Só esta semana, já vi pelo menos mais de cinco vezes a reportagem do "Segurança Pública" sobre o assassinato de quatro cidadãos chineses, ocorrido em Janeiro deste ano em Luanda, perpetrado por um grupo de oito angolanos que se fizeram passar por vendedores de terreno, liderado alegadamente por um cidadão de nome Nataniel. Nesta matéria em particular, ressalta-se a eficiência da polícia que despoletou a investigação depois de reportado o desaparecimento pela esposa de um dos malogrados orientais e culminou com a localização dos corpos dois meses mais tarde. É esta sinergia que o cidadão espera, não apenas no esclarecimento dos crimes, senão também na responsabilização dos autores/culpados, independentemente do status da vítima, partindo do princípio do valor absoluto da vida. E os mais honestos concordarão comigo em como igual visibilidade não tem sido dada aos casos em que são bandidos cidadãos chineses. A história recente de Benguela mantém indelével o infeliz desfecho do caso do kínguila (cambista informal) que foi raptado, roubado em mais de 30 mil dólares e assassinado por uma quadrilha de chineses, cujo cabecilha, muito misteriosamente, para dizê-lo de forma generosa, não chegou a ser julgado porque, à data, simplesmente evaporou da cadeia por ordem de alguma entidade angolana não identificada. Nem se sabe a quantas anda o caso daquele chinês que assassinou em Luanda o seu enteado angolano de oito anos de idade. Bem sei que nesta sociedade das conotações é um risco dizer isto e assumi-lo, mas faço-o por imperativos de consciência, já que o kínguila podia ser um familiar meu, para além de concidadão, assim como o menino que provavelmente tinha muito a dar ao país. O que defendo é uma sociedade onde a justiça funcione independentemente do sobrenome, da ocupação social e da cor do passaporte. É para isto que os nossos pais lutaram. Os meus pêsames às famílias, sejam angolanas, sejam chinesas. E para não se pensar que estou contra a TPA, pois é a ela que geralmente dirijo reparos, esclareço que por opção não tenho instalada parabólica em casa, não havendo por conseguinte acesso a qualquer outra estação televisiva a quem "monitorar".
Gociante Patissa, Benguela, 21 Abril 2016
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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Novidade para amigos no Brasil | Acaba de sair pela editora PENALUX o livro "ALMAS DE PORCELANA", colectânea de poemaa do escritor angolano GOCIANTE PATISSA

Para os meus amigos, conhecidos e leitores em geral no solo brasileiro, finalmente está nas bancas o livro "Almas de Porcelana", que reúne poesia do escritor angolano Gociante Patissa através dos livros Consulado do Vazio (KAT, Benguela 2008), Guardanapo de Papel (NosSomos; Vila Nova de Cerveira, Portugal 2014), alguns inéditos, bem como textos dispersos em Antologias e revistas publicadas em Portugal, Brasil e Moçambique. Para mais informações, queiram contactar directamente a loja virtual da editora Penalux  Grato pela aposta, caros Tonho França e Wilson Gorj
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Diário | Tens pressa?

"Aqui afinal tem quê?"
"Mas está cheio, yeah!..."
"Só estou a gostar do som. Adoro esta música, amiga, adoooooro!"
"Eu também. Uma gaja até imagina numas bandas, umas cenas, numas horas..."
"Vamos ainda entrar, amigona. Tens pressa?"
"Nada! Já lavei loiça. Também a minha mãe não está em casa, que é chata."
"Não acredito! Toda essa gente afinal é para feira do livro?!"
"Isso é brincadeira! Euzinha, perder o meu tempo no livro?! Só se for kamasutra!"
GP, Benguela, 20.04.2016
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Crónica | As ruas da cidade têem uma dimensão de jornal

Precisava de dar uma volta pela cidade, volta mesmo como quem dialoga com as avenidas e os acontecimentos dos últimos dias. Há muito por onde pegar. Dito de outra forma, as ruas cá da cidade, no que já se fez tradição, têem uma dimensão de jornal, não já o mural, mas o ambulante. Na berma, na calçada, na esplanada de bar, à beira-mar, no banco de trás do kupapata. O parlamento é qualquer lugar que respire.

A mortalidade em níveis preocupantes no Hospital de Benguela já vai gasta enquanto tema, sobretudo depois de ter saltado para a mesa do governador e com isso a criação de uma comissão para acompanhar o caso. Se já chegou ao chefe, então o parlamento ambulante aplaca o assunto e logo destaca outro tema. Mas há um tema que parece ultrapassar esta lógica tácita dos ciclos do lamento social.

A boca que não sai de moda é mesmo ainda da malfadada crise, a económica e de ramificações incalculáveis. É ver como cada vez mais desfilam senhoras transportando à cabeça recados afrodisíacos em forma de negócio. Sim, aquela coisa de zungar rodelas de mandioca crua com ginguba (amendoim)… hum! Assim já é para dizer o quê, que os maridos estão a tirar negativas na hora de dar vez à libido? Parece haver ali um toque de subtileza, porque é sintomático ser um comércio só lembrado por mulheres. Ou não?

Também, né?, se a pessoa chega à casa e não sabe se o emprego amanhã deixa de existir, ora, a verticalidade debaixo dos lençóis acaba ficando um pouco chocha, não é verdade? Pronto, mas há sinais de esperança. Um deles pode ser a vinda do Avô Kitoko nos próximos dias, um curandeiro de primeira linha. Sendo do tipo cura tudo, quem sabe… E não sei se por medo já ou quê, mas o locutor anunciou-o “doutor”, um termo que nos écrans pertence aos engravatados comentadores, juristas, licenciados que dão aulas e aos dirigentes.

Até parece que vários estabelecimentos privados resolveram competir de quem encerra primeiro. Cresce o número de vitrinas vestidas de opaco por jornais velhos. A falência agora é lei. Hoje mesmo constatei a falta de bom senso que foi a falência da Bom senso, a clínica de fisioterapia (padrão europeu) do Kali, da selecção. Tive de ir aos chineses para me passarem a mão numa lesão por distensão muscular nas costelas. Já me tinham dito que os orientais confundem pessoas com tapetes, pelo que me deitei já desconfiado. E não é que a meio da sessão senti a gaja pronta a marchar-me sobre o tronco... “Amiga! Pisar, não, caramba!”

Voltando ao principal. O mais profundo sinal de esperança vi esta tarde, talvez o mais profético e poético do que qualquer discurso tecnocrata, demagogo, ou coisa que o valha. Quando eu vi em uma loja um relógio a custar acima de três milhões de kwanzas (USD 10 mil ao câmbio da rua), algo surreal numa cidade em que grandes lojas esgotaram o stock de ovos, a metalinguagem traduziu logo o simbolismo da intenção: não estava à venda o relógio mas sim o sonho. Três milhões eram o preço do sonho de tudo voltar ao normal. Aliás, como escreveu o poeta Abreu Paxe, “o tempo é a medida de precariedade de todas as coisas”.

Gociante Patissa, Benguela, 19 Abril 2016
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terça-feira, 19 de abril de 2016

[Oficina] Crónica | Onde andará o velho Resedá?

Texto de Elisabete Calmon, Brasil

Árvore da minha e da infância do meu pai. Plantada pela minha avó. Naquele tempo as árvores faziam parte das famílias e a gente ia nomeando as casas da lembrança por suas flores e frutos.

Havia na vizinhança a casa da Caramboleira, que generosa oferecia frutas logo ali, no muro do meu quintal. Do lado, a casa da Goiabeira e logo depois a casa das Avencas e do Carnaval. A da Acácia amarela ficava do outro lado da calçada e era nela que as cigarras orquestravam a sonata do entardecer.

Quase no final da rua a majestosa casa das Jaqueiras. Sim, Jaqueiras porque eram três, as fruteiras e os moradores. Velhinhos, de cabelos brancos, sempre nas janelas, um em cada uma, quase imóveis, vendo a vida passar.

Eu imaginava que ali era a Casa do Tempo, um lugar tão distante, inalcançável para o olhar de uma criança. Um tempo que só hoje pude encontrar. Sim, eu agora também fico nas janelas, dezenas delas, tantas quanto eu quiser abrir. São janelas virtuais, telas de um celular, de um laptop, de um computador...

Janelas onde vejo e sou vista, no silêncio da escrita que brota de cada um de nós. Janelas sem flores nem frutos, sem perfumes e sem sabores. Das antigas janelas, só restou o vidro. Onde andará o velho Resedá?
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[Oficina] Crónica | Fui vê-la à cozinha

Texto de Lauriano Tchoia
Luanda, 19.04.2016
Ficha tripla e conexões, cama, beata de cigarro e uma chávena de café fazendo a tralha pelo quarto comum. Estava chamada por dentro uma autêntica reserva natural ao desarrume, era a bagunça em desfile enquanto eu não me desfizesse daí.

Nove horas, manhã de um dia chuvoso e o sol que não quer chamejar assiste desde a órbita o empenho da dona de casa.

Cama quase vazia, apenas eu teimando abraçar o meu direito ao descanso, merecido ou não, ninguém para confirmar! Candeeiro ainda aceso sobre a banca e o laptop no seu corpo distraído sobre a cama, ia fazendo de mim o utilizador emérito na execução gráfica do desfile de contos que me vêm do cérebro.

“Filho vá ao banho que o pequeno almoço já está servido”. Ela interrompe, deixa o perfume, um sorriso no ar e sai, depois de selar em mim, um beijo nos lábios e na testa. Adorei!
Dado o sim a concordar em voz viva, um abanar afirmativo da cabeça, antes, porém, uma revisão à frase do meu texto:

...emprestará o calor para uma viagem calma e sólida para as terras Lundas, passando por Xamuteba, com o pensamento firme ao propósito que nos levava as terras de Muantianvua. Denuncia de tragédias liam-se na estrada, pelo amontoar de malogradas viaturas inertes sobre o solo...  (fiz uma pausa a mando do mouse, tinha de sair dai).

Para desfazer-me da preguiça o banho foi o santo remédio, valeram os copos de ontem no Jango Veleiro para abrir o apetite de hoje e o caldo sobre a mesa ser devorado num ápice, deixando no final o sabor meio amargo do gindungo sobre o céu da boca.

Não resisti, fui vê-la à cozinha. Empenhada sobre o fogão, cheiro gostoso do molho atirado para o ar. No forno desfilavam doces que faziam a delícia da família, enquanto o suor caía-lhe levezinho do rosto.

Parei e olhei firme para ela, um “zum-zum” alhei me dizia que era entre estas mãos de fada que a vida da família se fazia.

Aproximei-me, pedi que fechasse os olhos (via-a mais bela), era uma visita de cortesia que eu fazia ao seu canto, fluí meus dedinhos da testa aos lábios, o meu beijo colou no seu ombro entre a alça da blusa e o pescoço, de seguida a minha voz no seu ouvido disse-lhe:

“És a mulher que Deus me deu”!
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segunda-feira, 18 de abril de 2016

Just a question | O coelho e a raposa?

A chuva cai sobre Benguela agora, depois de não ter feito outra coisa em Luanda na tarde de hoje, a ponto de obrigar aviões a divergirem ou para a Catumbela, ou para o Congo. Estive a pensar, se em Luanda a grande dor de cabeça das cheias no asfalto residem num "coelho" em forma de lagoa - e tendo em conta a vizinhança nas fábulas - o que teremos amanhã, uma "raposa"?
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Citação

“Gosto dele. Ele até é um jogador brioso e lutador, mas isso só não chega; é preciso ter talento.” (António Alegre, comentador desportivo, a propósito de alguém do girabola. Programa Domingo Desportivo, TPA, 17.04.2016)
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Teatro da vida real

ACTO # 1
Alguém sabe que passo tomar quando por duas vezes o aparelho multicaixa/multibanco nos diz que não é possível completar a operação mas ainda assim taxou/descontou o valor na conta bancária? Perdi 18 mil kwanzas esta noite na tentativa de levantar recarga Unitel de 9 mil kwanzas para o meu dispositivo de internet. Quando penso no sacrifício por que passo para conseguir tal valor...

ACTO # 2
Como pela manhã a rede de multicaixas esteve sem sistema, fui ao BCI ali do jardim. Daquele aparelho de ordem de chegada tirei a senha correspondente ao atendimento geral, mas como passados dez minutos nunca mais chamavam, sendo por ironia a minha a senha número um, fui espreitar à porta de uma secção ao lado dos balcões. Atendeu-me um jovem muito talentoso em despachar, também ralhava muito bem, por acaso. Orientou que saísse logo e solicitasse segunda via dos recibos, e eu a julgar que verificaria o extracto. Bom, aí luta mais luta com a maquineta. Resultado: o dinheiro não voltou para a conta mas acabei sacando dois recibos de recarga Unitel de 9 mil kwanzas, de sorte que até já estou a pensar em pedir uma dispensa de uns dias ao patrão para ver se monto uma tenda para revender o saldo. Porque 18 mil também é muito! Haka! Mba ainda é aonde chegamos. Grato pelo apoio de ontem.
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domingo, 17 de abril de 2016

Nota solta | Uma curta lágrima

Quando você decide pousar a caneta para uns meses indeterminados de defeso, talvez para ficar-se só por coisinhas ligeiras, um dia destes você recebe "cartinhas" de "gigantes" como António Fonseca a dizerem que voltaram a narrar um conto popular enviado há uns quatro anos ao Antologia, o mais antigo espaço cultural da Rádio Nacional (quase 40 anos no ar), que esperam por mais... Até a pessoa por acaso deita uma curta lágrima se calhar de gratidão pelo amparo. Você já agradece e promete recolher mais oratura e dar tratamento. Mas por outro lado, não será uma conspiração do destino juntamente com esses kotas contra o direito de um gajo à preguiça criativa?
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Nota solta | No limite da paciência

Com o respeito devido, passo para lembrar aos bem-intencionados que me irrita bastante ser adicionado a grupos sem me consultar, muitos dos quais nada têem a ver comigo, com as minhas convicções ou actividades. Para este tipo de esforço, a forma de retribuir é uma: MERDA, PÁ! Era só isso, obrigado
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sábado, 16 de abril de 2016

[Oficina] Crónica | Entre o “leite moça”, o carro e a dúvida em continuar a jogar à bola!

Texto de Lauriano Tchoia
Luanda, 16.04.2016
Ainda o ano que nos orgulhava por nobre estágio. Estávamos a passos curtos da independência de setenta e cinco em Novembro.

Um estrondo! Era o anunciar de uma trovoada. Mais tarde soube-se que não era nada disso. A lógica trazia novamente tanques de guerra, o ilustre “monacaxito” e canhões de longo alcance auto-propulsionados, seguindo o curso da serpente negra, sentido norte-sul.

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Citação

"Existe a nova geração partidária: estão convosco, militam, podem contar com os seus votos, mas não por ideologia nem por gosto; eles só fazem porque carregam o partido no bolso"

(Kid Mc, rapper angolano. Trecho da música "O apagar da esperança". Mad Tapes, Luanda. 2015)
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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Diário | E não almoça o seu conceito porquê?!

“Ó meu caro amigo, você me desculpe, mas isso está a me fazer um bocado de confusão! É já a terceira vez só essa semana que o senhor vem cá almoçar prato do dia.”
“E daí, com o devido respeito, mas qual é o problema?”
“O problema é mesmo tu vires aqui comer constantemente…”
“Mas isto aqui não é um restaurante? Não é lugar livre para quem consome e paga? Diz-me lá, mas o quê que me proíbe?!”
“Como assim, ‘o quê que me proíbe?’ Ainda perguntas? Vou ser directo. O senhor também não é dono de um restaurante? Lá também não servem almoços?”
“Sim, mas eu gosto dos pratos do dia daqui. Anteontem foi feijoada. Ontem foi carapau grelhado com banana cozida e molho de cebola picada. Hoje é joaquinzinho, o nosso ‘kasombosombo’, fresco frito com molho de tomate, amanhã é pirão…”
“E no teu restaurante servem pedras no prato? Não dá para comer?”
“Lá esta semana é tudo chique: lasanha, sushi, tornedó, bacalhaus e pratos franceses… É um negócio para grandes famílias, um segmento de clientes que se prezem…”
“Viva! Muito bom. É um nível altamente! Só uma curiosidade: quem elabora o conceito gastronómico do teu negócio?”
“O amigo deve saber que sou muito viajado, modéstia à parte. O conceito é meu.”
“E não almoça o seu conceito porquê?!”
“Mas esta pergunta não faz sentido. Eu mereço ser tratado como cliente normal, só isso. Não peço mais nada, por amor de Deus…”
“Você não sabe que estamos em crise económica, que as importações encravaram, que os armazéns andam caquéticos? Quer dizer, vens cá comer todos os dias para dar cabo da minha despensa a ver se o meu negócio vai à falência e passo a comer as gordurosidades do teu restaurante, não é isso?
GP, Benguela, 16.04.2016
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Excertos | A crítica das literaturas africanas

A recepção das literaturas africanas na Europa recua ao século XIX, altura em que cientistas e exploradores europeus começaram a ibteressar-se pelas respectivas literaturas orais com o intuito de, através delas, desvendarem o pensamento (tradicional) africano (...) 

Não obstante o seu esforço para dignificarem a cultura africana, apresentada por vezes de forma idealizada, como acontece com Frobenius, o certo é que pouca atenção prestaram aos aspectos meramente estéticos, lado pelo qual essas literaturas, em ambientes ocidentais, poderão abandonar o estigma etnográfico e, num plano de maior igualdade, granjear públicos mais alargados (...) 

Só que o que torna, na verdade, um texto africano mais dramático pode não interessar propriamente ao leitor europeu ou ocidental. Várias são as razões deste possível desinteresse. Para além do "mistério" e/ou do "exotismo' que África possa suscitar junto dos ocidentais, a má consciência, experimentada sobretudo nas antigas metrópoles, em relação aos efeitos nefastos do colonialismo e do neo-colonialismo é, certamente, outra razão importante. São fenómenos que respondem, em última instância, quer pela miséria que grassa por esses quotidianos, quer pela inépcia ou falta de vontade dos líderes africanos em combatê-la.

(José Carlos Venâncio, in "Maka- revista de literatura e artes", vol 1, n.°1, págs. 67-68. União dos Escritores Angolanos, Luanda, 2010.)
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Diário | E o senhor é jurista?

"Bem, caros convidados, daqui ao pouco o nosso debate vai ao ar. Poderemos ter intervenção de ouvintes via telefone."
"Estamos prontos, caro senhor jornalista."
"Ora, a si já conheço e... a si também. Desculpe-me senhor que vem pela instituição X: no seu caso, como quer lhe apresente?"
"Vou falar na qualidade de jurista... sem problema nenhum!!!"
"E o senhor é jurista?"
"Bem, eu trabalho na Associação como relações públicas, às vezes estafeta, e auxilio na secretaria com arquivos documentais..."
"E qual é a sua formação?"
"Estou a concluir o Médio, mas ainda dei uma pausa."
"Então o senhor não é jurista mas pode falar na qualidade de jurista?"
"A minha esposa é bacharel em Direito..."
"Pronto, não tem problema, vou-lhe tratar pelo nome."
"Você é que sabe."
GP, Benguela, 15.04.2016 (Adaptação)
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[Oficina] Crónica | Se sorriam ou não, que nos deixassem apenas jogar à bola

Texto de Lauriano Tchoia
Luanda, 14.04.2016
Eram nervosos e vinham para ajudar, ...dizia-se.

Decorria o ano que nos orgulhava por nobre estágio, pois estávamos a passos curtos da independência de setenta e cinco em Novembro.

A caravana passava por nós, numa Kahála qualquer do meu mapa de miúdo. Homens brancos de tom vermelha na pele camuflada em farda sobre tanques, sinais de guerra. Era o filme que se despregara da tela e vinha até mim.

Entre o medo e a curiosidade, eu queria ver o que era uma guerra de verdade. Expectativas mais de mil!

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quinta-feira, 14 de abril de 2016

[Oficina] Crónica | O Largo d’África

Texto de
Júlio Novadi Dimas Teixeira
Benguela, 17.02.2016
O Largo d’África é um recinto maravilhoso, o estômago da cidade de Benguela alimentando a vida cultural da cidade. Localiza-se num organismo bastante agitado e faz fronteira com algumas regiões importantes.

É um velho que tem na memória a geração passada e os romances dos apaixonados que frequentavam o Cine Monumental. Ao mesmo tempo, é um moço cada vez mais novo e actualizado, pois frequentemente tem a sua casa visitada por actividades empreendedoras, festivais e culturais quer de entidades nacionais quer internacionais: shows, feiras, carnaval, etc…

Os seus pêlos são verdes, os seus pés esticados, um no Restaurante Fininho, o outro na Boutique Masmorra onde se avista o semáforo. As suas mãos tocam o tribunal e a administração; os seus olhos vêem a agitação do BPC e da Identificação.

O Largo d’África em Benguela é famoso como o Pepetela e alberga jovens namorados e grupos de pares que o visitam em qualquer período. Está bem situado e sempre bem vestido com as lindas donzelas, que percorrem a sua pele, deixando o seu perfume no ar.
____________________
Nota do Blog Angodebates: No ano em que completa o 10.º aniversário, o nosso Blog lançou um desafio de crescer junto com os seus leitores, abrindo para o efeito uma oficina para a divulgação de contos, crónicas e poesia de autores com ou sem livros. Como é natural, teremos colaboradores principiantes, pelo que lá onde for necessário, a gestão editorial do Blog fará ou sugerirá arranjo. O que esperamos é no futuro olhar para o primeiro texto de cada colaborador e festejarmos o progresso que for alcançando.
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quarta-feira, 13 de abril de 2016

Crónica | DIA DO BEIJO?

Milhares de publicações pelo facebook lembram-nos que hoje é o dia do beijo. Nas fotos que aparecem, vemos casais "comendo" lábios uns dos outros. Chama a atenção uma foto em particular que tem como cenário um estádio desportivo engalanado a vermelho, repleto de pares aos beijos, não se sabendo para já se foi algo do tipo beijar compulsivamente, não importa quem, ou se foi somente mais uma daquelas operações de multiplicar figurantes pelo poder digital do photoshop. Seja como for, a mensagem passou. Não custa daí inferir-se mais uma estratégia de vender produtos, uma mensagem claramente dirigida aos bolsos dos namorados. Aos irmãos, aos amigos, aos conhecidos, nada. Tanto mais que nem o beijo mais conhecido, o de judas, é referenciado no pacote festivo. Assim sendo, se o objectivo é vender, podiam bem simbolizar este dia do beijo, o tão celebrado linguado, com os seus assessórios inseparaveis, no caso a escova, a pasta de dentes, o elixir, o fio dentífrico (porque o dental passa por outro tipo de "gengivas" mais proximas da cintura). Sim, porque não se pode fazer apologia de beijos sem falar da higiene bucal, pelas razões mais fedorentas que a biologia permite. Então, vai um beijo?

Gociante Patissa, Benguela, 13 Abril 2016
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Trecho | Literaturas africanas, instâncias de legitimação e crítica literária

(...) A esta capacidade para perpecionar e muitas vezes vivenciar as dinâmicas a que as sociedades ocidentais estão sujeitas corresponde ou pode corresponder um desapego em relação às sociedades a que pertencem, o que, ao acontecer, acaba por contribuir para a desestruturação e para o enfraquecimento dos correspondentes "mundos da arte" ou da "literatura". Uma das consequências mais usuais de tal fragilidade tem sido a dependência, material e estético-simbólica, em relação aos " mundos da arte e da literatura" dos países mais desenvolvidos. Estes são, em muitas das circunstâncias -- até porque de permeio se coloca um factor que é paradoxalmente de aproximação, a da língua da colonização -- as antigas metrópoles. Assiste-se, desta forma, à transferência das instâncias de legitimação estética do que é localmente produzido para as antigas metrópoles coloniais. Em consequência, prolonga-se a relação colonial com uma agravante: a própria criatividade, na expectativa deste reconhecimento, acaba, também ela, por se submeter aos requisitos das instâncias de legitimação com óbvias perdas em termos de autenticidade cultural e estética, para o que é produzido. Os referentes dessa produção são outros que não as fronteiras dos respectivos países, relevadas como o principal enquadramento estético durante a vigência do paradigma nacionalista, isto é, entre os 1930 e os anos 1990 do século passado.
(José Carlos Venâncio, in "Maka- revista de literatura e artes", vol 1, n.°1, págs. 65-66. União dos Escritores Angolanos, Luanda, 2010.)
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(arquivo) Nota solta | Os mandatos e o descrédito

A polémica recente sobre a expiração do mandato da direcção do Conselho Nacional de Comunicação Social (CNCS), que já soma para aí seis anos, vem engrossar apenas a tendência (que parece inata em nós,  angolanos) de aversão às sucessões. Como é previsível, não faltam justificações para se manter a situação, recaindo quase sempre "a culpa" a factores externos (ausência de leis, ausência de quadros capazes, etc.). O CNCS, que pela sua natureza não se encaixa bem no pacote da sociedade civil, pois inclui representantes de partidos políticos também, não tem um quadro tão longe, entretanto, do que ocorre em grupos organizacionais mais cooperativistas. Nada tendo contra pessoas, faz-me um pouco de confusão que determinadas individualidades se queiram confundir com as instituições e que, ainda assim, se julguem incólumes em criticar a falta de transparência, de rotatividade e de democracia... de suas portas para fora. A lista de exemplos é ilimitada, as motivações são difíceis de perceber. Conheço um respeitável pedagogo desde 2001 e até hoje continua líder da sua ONG. Conheço outro super sindicalista que é praticamente especialista em "listas únicas" eleitorais e manutenção de mandatos. Muitas ONG's faliram precisamente por esta visão "empresarial privada" que degenera do espírito de voluntariado, pelo que se tem de elogiar aquelas que conseguem sobreviver nesta fórmula "estanque". Mas todo o descrédito só pode ficar à vista, principalmente quando o altruísmo atinge o efeito "placebo", tendo em conta as vantagens materiais a que se tem acesso, onde os estatutos e os ideais de partida repousam quais múmias.
Gociante Patissa, Benguela 13.04.15
www.angodebates.blogspot.com
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terça-feira, 12 de abril de 2016

Diário | Qual futuro, homem, futuro de quê?

“Mas, ó mano Vano, eu já não te falei para você não andar vir me procurar mais?!”
“Isso mais que estás a falar é como é que é?”
“Será que na vossa casa não tem televisão? Eu não posso todos os dias deixar de fazer jantar, não lavar a louça, para vir te atender, ouviste? Não vamos só se complicar, ya?”
“Ehh…, vejamos…”
“A essa hora, os outros estão a ver telejornal, depois é novela, depois é sessão da meia-noite; você se põe no caminho para vir conquistar uma mulher com quatro meses e metade?”
“Você não entende quase nada da vida, e é isso que gosto em ti, cada vez adoro mais…”
“Apaga ainda esse cigarro, faz favor.”
“Te incomoda?”
“Assim vou falar quê, hã?! Ainda me fala só… Esse dinheiro que gastas no tabaco ainda podias só comprar um par de chinelos em condições. Olha só o calcanhar como está empoeirado, ó mano Vano.”
“Ouve o fundo da questão, ó minha benquista, e isso é difícil porque você mesmo sabe que os homens… ora… não são lá bons sentimentais, né? Mas é assim, esse ponto que reclamas, para mim não influi… O filho que vai nascer ou o titular da gravidez que fugiu, para mim é pacífico.”
“Ainda não dá só muitas voltas, homem, me ouve. Haka!, ó coiso, você acha mesmo juízo conquistar uma mulher com cinco meses de uma gravidez que não te pertence?”
“Mas você não é a gravidez, ó amável. Você é uma constante, uma constelação de sorrisos, afectos, enfim, um paiol de aconchegos que o futuro me reserva…”
“Qual futuro, homem, futuro de quê?”
“Mas eu te amo!”
“Mas você não tem o direito de me amar!”
GP. 12.04.2016, Aeroporto Internacional da Catumbela
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segunda-feira, 11 de abril de 2016

Aúdio mesa redonda | O PAPEL DA JUVENTUDE NA PRESERVAÇÃO DA PAZ (54 min.)

No dia 31.03.2016, o programa Canal Jovem, conduzido por Ananias Bento, na Rádio Lobito, província de Benguela, acolheu a mesa-redonda com a duração de 54 minutos sobre "o papel da juventude na preservação da paz", tendo convidado o professor universitário David Calivala, o secretário da JMPLA para a informação, Rufino Cambu, e o escritor e activista social Gociante Patissa. A sessão teve como contexto a véspera do 4 de Abril, dia da assinatura dos acordos de Paz entre as Forças do Governo de Angola e a Unita (até então exército rebelde de guerrilha)
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domingo, 10 de abril de 2016

Dormente substituto do mar (2.ª da série "Um sábado diferente no Cubal")

A piscina do Ferrovia (do Caminho do Ferro de Benguela), herdada do período colonial, é um importante ponto multi-usos de animação da vida da vila do Cubal, desprovida de mar, pelo que juntamos a nossa voz às que defendem a sua reabilitação e consequente rentabilização no quadro dos investimentos públicos. Durante a nossa passagem por ali, observámos a dedicação de alguns jovens na preparação de futuros modelos/manequins, levando crianças e adolescentes a praticarem desfile em passerelle ao som de um improvisado rádio-receptor.
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Turismo interno | Um sábado diferente no Cubal

Depois do município da Ganda, onde divulgamos a piscina de águas naturais no topo da íngreme montanha do Atuki, desta vez a incursão foi no município do Cubal. A intenção é a mesma de sempre: dar um outro olhar fotográfico (não jornalístico, mas autoral) sobre potencialidades turísticas do interior do país, onde gente, paisagem e frutos da acção humana saltem à vista. Visitamos a Barragem do Lomaum, a mini-hídrica em construção no Alto Cubal, entre outras coisas, o que não seria possível sem o apoio da Administração Municipal, na pessoa do seu vice, Fernando Belo, que disponibilizou uma carrinha 4x4 e o motorista/guia (o jovem Valdemar Albino). Mais fotografias vêm a caminho. Ombembwa yivyale, ou seja, viva a paz!
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sábado, 9 de abril de 2016

Citação

"A literatura angolana começa por ser reconhecida como tal pelos leitores angolanos, aqueles que nela se revêm. Não posso sentir-me satisfeito só pelo facto de um chinês ou um búlgaro achar que neste ou naquele texto se conta uma história tipicamente angolana, mesmo quando eles trabalham com critérios da sua cultura de origem. Será sempre necessário ter conhecimento da tradição literária angolana e da sua especificidade."
(Luis Kandjimbo, ensaísta e escritor angolano. In "Pessoas Com Quem Falar", 2006, p. 340. União dos Escritores Angolanos)
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Citação

"O futuro da literatura, de uma forma geral, no mundo, e em Angola, em particular, não é nada risonho. Lê-se cada vez menos. A cultura consumista derrete as emoções. Não se pensa, mostra-se o pensamento. Não se trabalha, mostra-se o trabalho. Temos de nos mostrar. É a aparência no seu pior a predominar."
(Cristóvão Neto, escritor angolano. In "Pessoas Com Quem Falar", 2006, p. 103. União dos Escritores Angolanos)
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sexta-feira, 8 de abril de 2016

Divulgando | Mercado brasileiro recebe «O Domador de Burros e Outros Contos», do moçambicano Aldino Muianga

Editada pela Kapulana, é a primeira edição brasileira de um livro de Aldino Muianga, autor moçambicano renomado com contos publicados em Portugal, Suíça e França, coletânea de contos vencedora do Prêmio Literário Da Vinci (Editorial Ndjira, Moçambique).
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Divulgando | Moçambicano Clemente Bata lança livro de contos no Brasil

«Outras Coisas» é o título da obra composta de 10 contos que Clemente Bata traz à luz no Brasil pela editora Kapulana. Explora a realidade do seu país ao retratar conflitos típicos das relações humanas nos espaços rural, urbano e suburbano, com temas que vão desde o amor, os crimes, os linchamentos populares, o alcoolismo até à violência doméstica.

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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Opinião | O jornalismo, o poder tradicional e a lógica da não contradição

Políticas e politiquices à parte, e com o devido respeito aos concidadãos que exercem a profissão de jornalista (a qual muitos de nós relegamos para mais tarde), cada vez me questiono mais sobre a capacidade de análise dos narradores/redactores, no que respeita a questões elementares da história do país e idiossincrasias nossas. Tive a sorte de aprender um pouco de lógica duas vezes na vida, tendo sido a primeira num curso básico de jornalismo e a segunda nas aulas de filosofia no curso de licenciatura. E parto do princípio que aos profissionais de Luanda se deve exigir um pouco mais, até porque têem mais recursos e oportunidades de aprendizagem, com acesso ao ensino superior e tudo. Vem isto a propósito de uma contradição (quanto a mim grave) que acaba de desfilar numa peça de reportagem do programa dedicado à província de Luanda, emitido pelo canal principal da TPA. Depois de anunciar como facto raro a existência de uma mulher no poder tradicional em Catete, o narrador disse, e cito: "Em Calomboloca, o poder tradicional é exercido com base nos critérios estabelecidos pela população, de geração em geração". Feita a chamada, o que o tele espetador espera é a confirmação disso mesmo no relato que vem a seguir sobre os termos da sucessão, até porque o texto foi produzido, pelo menos é o óbvio, com base no discurso directo da interlocutora. Para o espanto geral (e atropelo à lógica da não contradição), eis que surge a soba Maria nestes termos (cito de memória): "O mais velho [pai] quando morreu, ficamos mesmo assim, tristes. Choramos, choramos, e depois como há um irmão, decidimos que ele é que ia ficar no lugar. Mas o camarada administrador - já sabe essa nossa vida - disse que não, que é melhor ficar uma mulher no lugar. E assim fiquei". Ora, de onde foi o repórter tirar a ideia de ter sido uma sucessão com base nos critérios estabelecidos pela população, se a interlocutora, a soba Maria (poder real/tradicional/dinastia), diz precisamente que foi co-optada pelo administrador (poder político/administrativo)? Bem sei que a autonomia/paridade do poder tradicional é um debate que se adia desde a era colonial. Mas é inquestionável que o país um dia terá de o agendar (com o Ministério da Cultura a falar ao mesmo tom que o da Administração do Território), mesmo até para se respeitar a essência étnica dos povos que fazem o mosaico desta nação em construção, sob pena de nunca mais nos reencontrarmos neste sentido.
Gociante Patissa, Benguela, 07 Abril 2016
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Trecho | Cara Podre

Acordava sempre mal disposto. Nunca havia uma única razão. Dizem que foi sempre assim, mas eu cá não sei se acredito. Que sonhos eram aqueles que o procuravam durante a noite, que não sabiam sorrir? Umas vezes, cumprimentava; outras vezes, nem por isso. A mulher até já estava acostumada, ou ao menos parecia estar. Até há quem lhe vaticinasse morte breve. "Quem não vive para servir não serve para viver", diziam com base no ditado. Eu já não sei o que dizer. Sou mais inclinado para o lado daqueles que pensam que o homem levava ao extremo o espírito da sua profissão de guarda, talvez por erro do seu instrutor. Dele aprendera que um guarda deve ter sempre “cara podre" 
(Gociante Patissa, improvisos de correspondência oficinal, Benguela 07.04.2016)
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[Oficina] Crónica | Lito Katwia e as Chuvas da Capital

Nuvens cor de cinza tapando o sol. INAMET a produzir prognósticos (coisas de kimbanda). Segue pelo bairro Palanca, Golfes Um e Dois. Destino: conhecer a cidade do Kilamba depois de ter visto o mar na véspera. Mbaias na destreza do piloto em terra, azul e branco kandongueiro rumo à Meca.
Texto de Lauriano Tchoia
Luanda, 06/04/2016

Viaturas em pilhas como monte de lenha fresca a fumegar, admiração no rosto a ouvir o zumbir nos tubos de escapes. Não se lembrava, desde que se conhece a si próprio como pessoa, de ter visto tanto carro parado assim. Chega a ser arrepiante… para a sua cabeça de provinciano!

“Acaba-de-me-matar”, fumaça pelos furos a penetrar. Lata velha de ocasião. O som alto da música “mama-dji”, de Nagrelha, não deixara perceber que a viatura tinha dado o piripaque, morreu! Motor desligado, combustível no vermelho, justamente naquele pântano artificial. Na rotunda do Camana, chuvas de Abril e sacos de plástico enrolando aos pés para o desembarque. Agarrou-se à porta e, como azar não vem só, pé na lama. Recuar é que não pode. Descuido de aldeão destreinado nas habilidades de Luanda.
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terça-feira, 5 de abril de 2016

Esclarecimento | Ausência de Gociante Patissa na Feira "Ler Paz" do Huambo

Por razões de ordem profissional e de gestão de agendas, não poderei estar na Feira do Livro e da Leitura "Ler Paz", marcada para o fim-de-semana de 8 a 10 de Abril, na cidade do Huambo, que está a ser organizada pelo meu mano amigo e antigo vizinho no Lobito, Chico Pobre, e pelo Movimento Lev'arte naquela província, onde estávamos a projectar o lançamento dos meus livros "O Apito Que Não Se Ouviu" e "Fátussengóla, o Homem do Rádio Que Espalhava Dúvidas". Para que os amigos e leitores que tenho na província do Huambo não venham a crucificar a organização em função da minha ausência, uma vez que figurava no cartaz do evento, torno desde já públicas as minhas sinceras desculpas por eventuais transtornos e, na promessa de estar presente em futuras iniciativas, aqui fica o meu abraço sincero. Obrigado. Gociante Patissa. Benguela, 05 Abril 2016
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segunda-feira, 4 de abril de 2016

Crónica | E assim construímos reencontros

(C) foto: Sérgio Guerra
 Ia eu dar umas palmadinhas de empatia nas costas do estratega, major cubano de 28 anos, barba a Ché. “CORAGEM, UNA MERDA, HOMBRE!”, reagiu, intempestivo. O camuflado da farda coreana era irreconhecível, de tão ensopado, mais de lágrimas, ranho e baba do que de chuva de granizo no interior de Benguela em 1984. “CINCO HERMANOS CAÍDOS SÓLO HOY”. Estatística de um primeiro dia para esquecer. Não se via o sol. Devia andar distraído a namorar as nuvens de bruta chuva. Mas o relógio biológico não podia mentir. Em dias de glória, devia poisar a mochila e abrir uma latinha da sua conserva preferida na ração, a de porco, mas não havia fome nem peito. Cinco dos seus camaradas de armas aguardavam por um enterro, improvisado mas condigno, ali mesmo, logo que o tiroteio baixasse. Tinham partes dos membros por recolher entre o capinzal e a copa de pequenitas árvores, um cenário escusado de qualificar como chocante. Que mais minas afinavam vozes para a hora da explosão, já se sabia; só não se sabia era onde exactamente, pelo que a hipótese de um helicóptero para a recolha dos corpos nem se punha. Sorte a dele de ainda estar vivo, não se sabendo ao certo para quanto tempo mais. Conseguiria por caso comer carnes? E a missão sequer ia a meio. O único diferente aqui somos nós, continuava colérico o major, bala na câmara, feito perigo a nu para a manutenção do moral das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), tanto do lado angolano, como do contingente internacionalista cubano. Vai-se lá saber porquê, as baixas neste dia só falavam espanhol. O inimigo é como vocês, fala como vocês; como sei que não são vocês? Na recta-guarda a continuação da luta nas ondas da rádio. Num extremo, o “Angola Combatente”. No outro, o “Alvorada”. As estações da guerra, melhor dizer da guerrilha fratricida, podem muito bem ser contadas em quatro actos: quando sofremos com a chuva, quando nos gela as veias o cacimbo, quando matamos e/ou quando morremos. Ao fim de uma semana de bombardeamentos, os resultados na contra-informação. "Na tentativa de ocupar a localidade X, o inimigo foi rechaçado e saiu em debandada", anunciava um lado, o que traduzido queria na verdade dizer que se reocupara determinada localidade, até então em mãos rebeldes. "Os caudilhos, auxiliados pelos mercenários cubanos, deixaram sangue”, anunciava o outro lado, que chegava a recorrer às mais inverosímeis das imaginações, sendo disso exemplo apresentar trilhos de pneus pela manhã sob alegação de ter chegado (silencioso?) de noite avião com medicamentos. Por fim, o batalhão seguia para outra missão, para mais um ciclo de incertezas. Implantada a bandeira, restava aguardar pela próxima emboscada. Nada podia ser duradoiro. No meio-termo, o povo, que adopta rapidamente o que cada lado esperava. Lei da sobrevivência. Nas alternâncias bélicas, as inevitáveis cicatrizes sociais e familiares. “Chegou a meio da noite, bateu à porta. Abri. Assim que abri, apontou-me a arma na cara, ‘vais morrer hoje, seu traidor!’ Meu próprio sobrinho, agora dirigente. Então porquê? ‘Aceitaste ser soba no tempo do inimigo’. Eu lhe disse: filho, tem toda a razão. Até vou tirar a camisa, assim a bala entra directamente. Mas a tua bala é comprida o suficiente para me trespassar o corpo e atingir os dois partidos? Se não, vais ter de viajar para a Jamba e para Luanda, assim matas a Unita e o Mpla pelo prejuízo que te vão causar. Mesmo morto, eu pago a passagem e a comida da viagem. Se me matas, eles não perdem, eu também não, que já estou velho. Já tu perdes um tio e a inocência. E ele saiu a chorar, eu tremi do medo que andei a conter”. Depois veio 2002, os angolanos ouviram o mais nobre dentro de si… e assim construímos reencontros.
Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela, 04 Abril 2016
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"O que mata, na ditadura, é que não há espaço para a verdade, porque não há espaço para a vida. Porque algumas verdades, até as mais banais, podem conduzir à morte."
(Dilma Rousseff, presidente brasileira, falando ao congresso sobre a sua experiência nos anos 70. Vídeo disponível no Youtube)
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domingo, 3 de abril de 2016

[Oficina] Crónica | Oito Anos de Juras

Texto de Lauriano Tchoia
Luanda, 02.04.2016
“Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro, o pensamento lá em você eu sem você não vivo”. Com a devida permissão de Djavan, exubero-me no trecho-lenda de sua canção.

Abriam-se e encerram-se anos aritméticos, o desespero em auto-reverso, sonho adiado e a infindável tortura. Tardava o surgimento do rebento pretendido. Meia-volta o suspiro, é Chissola expondo-se à permanente melancolia, mão em arco sobrepondo-se o queixo e o plácido rosto segredando com o silêncio.

Esforços familiares conjugados, prestativo marido sujeitando-se à vigília continua, até de beber deixara, por se lhes ter sido dito que o álcool e o cigarro reduziam o sêmem reprodutor.

“Então, até agora, nada?! Nem um exemplar? O problema é teu ou dele?” Bocas de veneno, víboras à solta, queriam saber de tudo e mais algo, como que a ajudar. Porém no lugar de dó, trespassavam flechas sobre o cândido e já dolorido coração da aspirante a progenitora.
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sábado, 2 de abril de 2016

[Oficina] Crónica | Kissungos

Texto de Catarina Fortunato Linda

Lobito 1997. Fazia sol numa manhã fria, onde a alegria nos aquecia. Bellamie acabava de me contar do convite do tio Simonal para irmos a Benguela de comboio. Obaaaaaa!, gritei eufórica, hoje é hoje!!!... Bella sorria como só ela sabia. Para ela, eu era uma “maluca”.

Em poucos segundos, lá íamos nós de mãos dadas, abraçadas ao tio Simonal, contando humoristicamente as nossas experiências do dia -dia. E ele sorria olhando para nós com orgulho e muito agradecimento. Nem desconfiava do nosso plano de o desfalcarmos durante a viagem…

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Euclides Sabino (Junho 1993 - Abril 2016)

Chegou-me esta noite a informação do falecimento, por doença (não descrita), do jovem rastafari na foto, uma alma conhecida pelo génio cordato e engajamento no activistmo cultural, com destaque para a poesia e o teatro. Cruzei-me com ele em Benguela, no mês de Março de 2014, por ocasião do recital "Para Ti Mulher", realizado na Mediateca pelo Movimento Lev'arte (versão pré dissidência), tendo-me brindado com a declamação de poemas do meu livro de estreia, "Consulado do Vazio". Residia em Luanda e frequentava o curso de comunicação social. Uma partida prematura, indiscutivelmente!
Gociante Patissa, 02.01.2016
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sexta-feira, 1 de abril de 2016

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"Ela até aqui mesmo não tem argumentos de razão do motivo que lhe faz ficar com aquele senhor."
(Anónimo da mesa ao lado)
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Vídeo | Gociante Patissa, escritor na 2ª FLIPELÔ 2018, Bahia. Entrevista pelo poeta Salgado Maranhão

Vídeo | Sexto Sentido TV Zimbo com o escritor Gociante Patissa, 2015

Vídeo | Gociante Patissa fala Umbundu no final da entrevista à TV Zimbo programa Fair Play 2014

Vídeo | Entrevista no programa Hora Quente, TPA2, com o escritor Gociante Patissa

Vídeo | Lançamento do livro A ÚLTIMA OUVINTE,2010

Vídeo | Gociante Patissa entrevistado pela TPA sobre Consulado do Vazio, 2009

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